REsp 1377327 - DECISAO
O acórdão recorrido contrariou entendimento dominante desta Corte (Tema 1010/STJ), segundo o qual, na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas APPs de qualquer curso d'água em trechos caracterizados como área urbana consolidada deve observar o art. 4º, caput, I, da Lei n....
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- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Recorrido: FUNDAÇÃO AMBIENTAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 09 October 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Provido Monocraticamente (art. 932, V, Cpc)
- Outcome
- Recurso Especial provido
- Legal Topics
- Áreas De Preservação Permanente, Código Florestal (lei N. 12.651/2012), Lei De Parcelamento Do Solo Urbano (lei N. 6.766/1979), Tema 1010/stj, Faixa Não Edificável, Súmula 613/stj
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Recorrente
FUNDAÇÃO AMBIENTAL
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Provido Monocraticamente (art. 932, V, Cpc)
Legal Issues
- 1 Qual norma aplicar à extensão da faixa não edificável em APPs de cursos d'água em área urbana consolidada: art. 4º, I, da Lei n. 12.651/2012 (Código Florestal) ou art. 4º, III, da Lei n. 6.766/1979 (Lei de Parcelamento do Solo)
- 2 Efeito da antropização/canalização do curso d'água sobre a obrigatoriedade de observância da largura de APP
- 3 Aplicabilidade da tese vinculante do Tema 1010/STJ ao caso concreto
Ratio Decidendi
O acórdão recorrido contrariou entendimento dominante desta Corte (Tema 1010/STJ), segundo o qual, na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas APPs de qualquer curso d'água em trechos caracterizados como área urbana consolidada deve observar o art. 4º, caput, I, da Lei n. 12.651/2012; por isso, deu-se provimento ao Recurso Especial para aplicar os parâmetros do art. 4º da Lei n. 12.651/2012 e a tese do Tema 1010/STJ.
Court Disposition
Recurso Especial provido
Orders
- Dar provimento ao Recurso Especial e determinar a aplicação dos parâmetros do art. 4º da Lei n. 12.651/2012 e da tese firmada no Tema n. 1.010/STJ
- Prejudicado o exame do Agravo (fls. 622/624)
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1 paragraphs
DECISÃO Vistos. Trata-se de Recurso Especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA contra acórdão prolatado, por unanimidade, pela 4ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina no julgamento de Apelação e Reexame Necessário, assim ementado (fl. 302e): CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO - APELAÇÃO CÍVEL E REEXAME NECESSÁRIO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PRECEITO DEMOLITÓRIO PROMOVIDA POR FUNDAÇÃO AMBIENTAL - AUTO DE INFRAÇÃO AMBIENTAL - EDIFICAÇÃO A 16 METROS DE CÓRREGO DE PEQUENA LARGURA (CERCA DE 2 METROS) - ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO CÓDIGO FLORESTAL QUE PREVÊ RECUO DE 30 METROS - LOCAL POVOADO - ANTROPIA ANTERIORMENTE REALIZADA - AUSÊNCIA DE POTENCIALIZAÇÃO DE DANO AMBIENTAL EM RAZÃO DA OBRA - RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE - DEMOLIÇÃO QUE SE REVELOU INCONVENIENTE. Com amparo no art. 105, III, a, da Constituição da República, aponta-se ofensa aos arts. 4º, III, da Lei n. 6.799/1979, e 2º, a, item 1, parágrafo único, da Lei n. 4.771/1965, alegando-se, em síntese, ser aplicável a previsão constante do Código Florestal, quanto à faixa não edificável de 30 (trinta) metros às margens de curso d"água, e não o espaço de 15 (quinze) metros, estabelecido na Lei de Parcelamento do Solo Urbano. Com contrarrazões (fl. 371e), o recurso foi admitido (fls. 373/375e; fls. 627/633e). O Ministério Público Federal manifestou-se, na qualidade de custos iuris, às fls. 346/350e. Às fls. 402/407e, neguei provimento ao recurso, em decisão reconsiderada quando da interposição do Agravo Interno de fls. 412/423e, determinando-se, na mesma oportunidade, o retorno dos autos à origem, em razão da afetação do Tema n. 1.010 dos recursos especiais repetitivos, nesta Corte (fls. 429/430e). Em juízo de adequação, o tribunal de origem manteve o acórdão recorrido, consoante os fundamentos estampados na ementa a seguir (fls. 500/501e): JUÍZO DE ADEQUAÇÃO. APELAÇÃO CÍVEL. AMBIENTAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PRECEITO DEMOLITÓRIO. EDIFICAÇÃO CONSTRUÍDA PRÓXIMA A CURSO D "ÁGUA. IMPROCEDÊNCIA NA ORIGEM. INSURGÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. PROVA DOCUMENTAL QUE EVIDENCIA QUE O IMÓVEL É SITUADO EM ÁREA URBANA CONSOLIDADA, CERCADO DE EDIFICAÇÕES COMERCIAIS E RESIDENCIAIS, DISPOSTA EM LOTEAMENTO PROVIDO DE SISTEMA DE ILUMINAÇÃO E DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA. DEMONSTRAÇÃO DE QUE A FUNÇÃO AMBIENTAL DA ÁREA NÃO EDIFICÁVEL NÃO SE ESTENDE, NA PRÁTICA, A 30 METROS DO BORDO MÉDIO DO CORPO HÍDRICO. ÁREA TOTALMENTE IMPACTADA E QUE PERDEU SUA FUNÇÃO AMBIENTAL. DISTINGUISHING QUE NÃO PERMITE APLICAR PRECEDENTE VINCULANTE, POR SE RECONHECER QUE A SITUAÇÃO SUB JUDICE NÃO SE ENCARTA NOS PARÂMETROS DE SUA INCIDÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO TEMA 1010/STJ. INEXISTÊNCIA DE PERTINÊNCIA TEMÁTICA ENTRE O CASO CONCRETO E O CASO PARADIGMA FIRMADO. DECISÃO MANTIDA POR SUA CONCLUSÃO. "O exame de eventual perda absoluta e tecnicamente irreversível in natura da função ecológica decorrente de suposta antropização em Área de Preservação Permanente de qualquer curso d"água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como área urbana consolidada, está contido no campo das situações pontuais. São hipóteses que devem ser tratadas, caso a caso, pelas instâncias ordinárias, à luz da Súmula 613/STJ (vedação do fato consumado) e nos estritos limites e disciplina do Código Florestal, da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6.938/1981) e dos princípios reitores do Direito Ambiental" (STJ, EDcl no REsp 1.770.760, j. 28/06/2023). No caso em testilha, as especificidades do caso concreto, evidencia tratar-se de área urbana consolidada, com ocupação intensa, inclusive por empreendimento empresarial (pedreira), inexistindo função ambiental do curso d"agua em questão capaz de ensejar a obrigatoriedade da observância de 30 metros por se tratar de área de preservação permanente. Elementos fáticos probatórios existentes nos autos que caracterizam o distinguishing em relação aos casos que conduziram ao estabelecimento do Tema 1010. JUÍZO DE ADEQUAÇÃO NEGATIVO. APELO E REEXAME NECESSÁRIO DESPROVIDOS. Opostos embargos de declaração, foram rejeitados (fls. 550/561e). Em face do juízo de adequação negativo, o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, com fulcro na alínea a do permissivo constitucional, interpôs Recurso Especial (fls. 583/609e), o qual não foi conhecido (fls. 327/633e). Interposto Agravo pelo Parquet (fls. 622/624e), os autos vieram a mim conclusos. Feito breve relatório, decido. Nos termos do art. 932, V, do Código de Processo Civil, combinado com os arts. 34, XVIII, c, e 255, III, do Regimento Interno desta Corte, o Relator está autorizado, por meio de decisão monocrática, a dar provimento a recurso se o acórdão recorrido for contrário à tese fixada em julgamento de recurso repetitivo ou de repercussão geral (arts. 1.036 a 1.041), a entendimento firmado em incidente de assunção de competência (art. 947), à súmula do Supremo Tribunal Federal ou desta Corte ou, ainda, à jurisprudência dominante acerca do tema, consoante Enunciado da Súmula n. 568/STJ: O Relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema. De pronto, verifico que o acórdão recorrido está em confronto com orientação desta Corte. Isso porque, diante do aparente conflito entre normas definidoras da extensão da faixa não edificável à margem de cursos d"água em áreas urbanas, este Tribunal Superior firmou, sob o rito dos recursos especiais repetitivos, a tese vinculante segundo a qual, visando a máxima proteção do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a extensão não edificável nas Áreas de Preservação Permanente (APP) de qualquer curso d"água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como área urbana consolidada, deve observar o disposto no art. 4º, caput, inciso I, alíneas a a e, da Lei n. 12.651/2012. O paradigma foi assim ementado: RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. AMBIENTAL. CONTROVÉRSIA A ESPEITO DA INCIDÊNCIA DO ART. 4º, I, DA LEI N. 12.651/2012 (NOVO CÓDIGO FLORESTAL) OU DO ART. 4º, CAPUT, III, DA LEI N. 6.766/1979 (LEI DE PARCELAMENTO DO SOLO URBANO). DELIMITAÇÃO DA EXTENSÃO DA FAIXA NÃO EDIFICÁVEL A PARTIR DAS MARGENS DE CURSOS D"ÁGUA NATURAIS EM TRECHOS CARACTERIZADOS COMO ÁREA URBANA CONSOLIDADA. 1. Nos termos em que decidido pelo Plenário do STJ na sessão de 9/3/2016, aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma nele prevista (Enunciado Administrativo n. 3). 2. Discussão dos autos: Trata-se de mandado de segurança impetrado contra ato de Secretário Municipal questionando o indeferimento de pedido de reforma de imóvel derrubada de casa para construção de outra) que dista menos de 30 (trinta) metros do Rio Itajaí-Açu, encontrando-se em Área de Preservação Permanente urbana. O acórdão recorrido negou provimento ao reexame necessário e manteve a concessão da ordem a fim de que seja observado no pedido administrativo a Lei de Parcelamento do Solo Urbano (Lei n..6.766/1979), que prevê o recuo de 15 (quinze) metros da margem do curso d"água. 3. Delimitação da controvérsia: Extensão da faixa não edificável a partir das margens de cursos d"água naturais em trechos caracterizados como área urbana consolidada: se corresponde à área de preservação permanente prevista no art. 4º, I, da Lei n..12.651/2012 (equivalente ao art. 2º, alínea "a", da revogada Lei n.4.771/1965), cuja largura varia de 30 (trinta) a 500 (quinhentos) metros, ou ao recuo de 15 (quinze) metros determinado no art. 4º, caput, III, da Lei n. 6.766/1979. 4. A definição da norma a incidir sobre o caso deve garantir a melhor e mais eficaz proteção ao meio ambiente natural e ao meio ambiente artificial, em cumprimento ao disposto no art. 225 da CF/1988, sempre com os olhos também voltados ao princípio do desenvolvimento sustentável (art. 170, VI,) e às funções social e ecológica da propriedade. 5. O art. 4º, caput, inciso I, da Lei n. 12.651/2012 mantém-se hígido no sistema normativo federal, após os julgamentos da ADC n..42 e das ADIs ns. 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937. 6. A disciplina da extensão das faixas marginais a cursos d"água no meio urbano foi apreciada inicialmente nesta Corte Superior no julgamento do REsp 1.518.490/SC, Relator Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de 15/10/2019, precedente esse que solucionou, especificamente, a antinomia entre a norma do antigo Código Florestal (art. 2º da Lei n. 4.771/1965) e a norma da Lei de Parcelamento do Solo Urbano (art. 4º, III, da Lei n. 6.766/1976), com a afirmação de que o normativo do antigo Código Florestal é o que deve disciplinar a largura mínima das faixas marginais ao longo dos cursos d"água no meio urbano. Nesse sentido: Resp 1.505.083/SC, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, Dje 10/12/2018;.AgInt no REsp 1.484.153/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 19/12/2018; REsp 1.546.415/SC, Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 28/2/2019; e AgInt no REsp 1.542.756/SC, Rel..Min. Mauro Campbell Marques, DJe 2/4/2019. 7. Exsurge inarredável que a norma inserta no novo Código Florestal (art. 4º, caput, inciso I), ao prever medidas mínimas superiores para as faixas marginais de qualquer curso dágua natural perene e intermitente, sendo especial e específica para o caso em face do previsto no art. 4º, III, da Lei n. 6.766/1976, é a que deve reger a proteção das APPs ciliares ou ripárias em áreas urbanas consolidadas, espaços territoriais especialmente protegidos (art..225, III, da CF/1988), que não se condicionam a fronteiras entre o meio rural e o urbano. .. 9. Tese fixada - Tema 1010/STJ: Na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas Áreas de Preservação Permanente de qualquer curso d"água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como área urbana consolidada, deve respeitar o que disciplinado pelo seu art. 4º, caput, inciso I, alíneas a, b, c, d e e, a fim de assegurar a mais ampla garantia ambiental a esses espaços territoriais especialmente protegidos e, por conseguinte, à coletividade. 10. Recurso especial conhecido e provido. 11. Acórdão sujeito ao regime previsto no art. 1.036 e seguintes do CPC/2015. (REsp 1.770.760/SC, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 28.04.2021, DJe 10.05.2021 - destaque meu). Com efeito, a tese qualificada faz referência, expressamente, a "qualquer curso d"água", de modo que não cabe ao tribunal de origem deixar de observá-la ao fundamento de que " .. a canalização do rio altera substancialmente o cenário de fundo da causa", mormente à vista do princípio do in dubio pro natura. Ademais, dos aclaratórios interpostos em face desse julgado vinculante, decidiu-se que, nas excepcionais situações de absoluta e irreversível perda das funções ecológicas decorrentes da antropização, a solução será casuística, observando-se, porém, o Código Florestal, a Lei n. 6.938/1981 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente), os princípios afetos ao Direito Ambiental, e, notadamente, a Súmula n. 613 desta Corte, segundo a qual "não se admite a aplicação da teoria do fato consumado em tema de Direito Ambiental" (EDcl no REsp n. 1.770.760/SC, Relator Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, j. 23.11.2022, DJe de 28.06.2023). No mesmo sentido, julgados desta Corte em casos análogos ao ora examinado: ADMINISTRATIVO. EDIFICAÇÃO NA MARGEM DE RIO. ÁREA URBANA CONSOLIDADA. INCIDÊNCIA DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL. TEMA 1.010/STJ. 1. Segundo consolidado entendimento desta Corte, o Código Florestal é norma específica a ser observada nos casos de proteção marginal dos cursos de água, mostrando-se descabido falar em incidência da Lei de Parcelamento do Solo Urbano. Precedente: REsp 1518490/SC, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEGUNDA TURMA, julgado em 9/10/2018, DJe 15/10/2018. 2. Incide, na espécie, a tese firmada no Tema 1.010/STJ: "Na vigência do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), a extensão não edificável nas Áreas de Preservação Permanente de qualquer curso d"água, perene ou intermitente, em trechos caracterizados como área urbana consolidada, deve respeitar o que disciplinado pelo seu art. 4º, caput, inciso I, alíneas a, b, c, d e e, a fim de assegurar a mais ampla garantia ambiental a esses espaços territoriais especialmente protegidos e, por conseguinte, à coletividade". 3. Agravo interno não provido. (AgInt no REsp n. 1.377.266/SC, Relator Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 21.03.2022, DJe de 24.03.2022). DIREITO AMBIENTAL. IMÓVEL URBANO. RECURSOS HÍDRICOS. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. MARGEM DE RIO. VEGETAÇÃO CILIAR. APLICAÇÃO DO CÓDIGO FLORESTAL. 1. O acórdão recorrido está em confronto com orientação do STJ, segundo a qual a proteção jurídica do meio ambiente não difere entre áreas urbana e rural. Dentro ou fora da cidade, o meio ambiente é um só, inexistindo diferença em ratio, grau de prestígio, ou modo de aplicação da legislação de garantia da saúde, biodiversidade e paisagem. Na urbe, nascentes, rios, córregos, riachos, veios d"água, lagos, lagoas, várzeas e alagados demandam máxima atenção do Administrador, tanto no licenciamento como na fiscalização, sobretudo em áreas de adensamento populacional, especulação imobiliária, parcelamento desenfreado e ocupações ilícitas. O Direito Ambiental assegura quer o meio ambiente bem conservado - a afluência ambiental -, quer, com maior razão até, o pouco ou quase nada, o restinho mesmo - a indigência ambiental - que teimosamente sobreviveu à implacável degradação. 2. Recurso Especial provido. (REsp n. 1.667.404/SC, Relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 13.03.2018, DJe de 09.09.2020). PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. RESGUARDO EM TERRENO LOCALIZADO ÀS MARGENS DO RIO DO BRAÇO. ÁREA NÃO EDIFICÁVEL. ORDENAÇÃO DA CIDADE. NÃO HÁ VIOLAÇÃO AO ART. 1.022 DO CPC/2015. TEMA N. 1010. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. NOVO CÓDIGO FLORESTAL. ENUNCIADO 613 DE SÚMULA DO STJ. DESPROVIMENTO DO AGRAVO INTERNO. MANUTENÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. I - Na origem, trata-se de mandado de segurança contra ato do Secretário do Meio Ambiente do Município de Joinville, que implicou a exigência do resguardo, como área não edificável, em terreno localizado às margens do rio do Braço, de faixa de 30 metros em relação ao bordo desse corpo hídrico. Na sentença, a segurança foi concedida. No Tribunal a quo, a sentença foi reformada parcialmente, para reconhecer a aplicação do art. 4º, caput, I, a, do Código Florestal, no caso concreto, devendo ser respeitado o limite de 30 (trinta) metros do curso d"água, ainda que canalizado, como área non aedificandi. .. IV - Há muito se discute acerca da antropização de áreas urbanas (fato consumado) e o afastamento da proteção em áreas de proteção permanente. No caso em tela, refulge o claro interesse do município na preservação da área non aedificandi, o que, por si só, aponta para o rumo da política pública municipal, em garantir a preservação da faixa não edificável, cujos fins, em prol do bem-estar da cidade e de seus habitantes, não exigem grandes esforços imaginativos, inclusive da possível reversão futura da canalização, certamente realizada em idos quando a preocupação com o meio ambiente não gozava do entendimento que hoje se tem. Veja-se a clara argumentação do recorrente (fls. 503-504): "No caso em apreço, a Corte originária deixou de observar os limites previstos no Código Florestal, por entender que " .. se tratam de imóveis situados às margens de curso d"água canalizado no Município de Joinville, área amplamente urbanizada e densamente povoada, consubstanciando, na prática, a perda da função ambiental do trecho hídrico" (evento 101, RELVOTO1, p.11), concluindo que " .. deve-se levar em conta a legislação municipal hodierna correspondente, qual seja: Lei Complementar Municipal n. 601/2022 .. " (evento101, RELVOTO1, p. 11). Ao assim proceder, os acórdãos recorridos negaram vigência ao art. 4º, I, "a", da Lei n. 12.651/12, que assim disciplina: .. . Ocorre, porém, que o entendimento deste Órgão de Execução é de que, no caso concreto, é inarredável a aplicação do limite previsto no Código Florestal Brasileiro, desde que ele cuida de assegurar maior proteção ao bem juridicamente tutelado, qual seja ele, o direito fundamental ao meio ambiente. Nesse caso, não se pode afastar a incidência da norma federal mais protetiva, apoiando-se no frágil argumento de que a canalização do corpo hídrico descaracteriza o seu entorno como área de proteção especial. Importa destacar que o arcabouço jurídico formado pelas diversas leis ambientais constitui-se em legado do legislador, cujo propósito veio assentado na vontade de garantir o bem da vida que serve de objeto à proteção ambiental; assim, eventual divergência entre seus dispositivos encontra solução naquele que melhor atenda a esse desiderato. É que o bem jurídico ambiental legalmente protegido não diz respeito apenas a um grupo de pessoas residentes em um lugar determinado, mas, à coletividade como um todo, titular de um direito que não pode ser apropriado individualmente. Em suma: "no conflito entre dois bens jurídicos, deve-se outorgar a tutela para evitar que o bem maior seja sacrificado ao menor, segundo uma escala de valores pela qual se pauta o homo medius, na valoração dos bens da vida"" Do atual Código Florestal Brasileiro é possível inferir, de antemão, que a norma reguladora não faz qualquer distinção entre cursos d"água completamente preservados e rios que já sofreram alterações por intervenção humana, sendo claro que a área de preservação permanente não deixa de existir por conta da canalização do corpo hídrico - atividade bastante comum nos grandes centros urbanos, onde parte das formações aquíferas já foram alvo de antropização. A conclusão de que a Lei n. 12.651/12 é aplicável às faixas marginais de qualquer curso d"água se dá em razão do seu art. 4º, o qual confere especial regime de proteção à universalidade dos recursos hídricos, sem excluir do seu âmbito de incidência aqueles já domesticados pela interferência do homem, destacando, propositadamente, que nas zonas rurais e nas zonas urbanas devem ser consideradas área de preservação permanente as distâncias previstas nos seus incisos." V - Vale destacar que são notórios os inúmeros casos de reversão de tubulação e canalização de cursos d"água, em vários municípios brasileiros, ante enchentes recorrentes, excessiva impermeabilização do solo e outros motivos, inclusive paisagísticos, ao bem-estar da população. Ademais, nem a lei, nem o referido julgado supra, em recurso repetitivo (Tema n. 1.010), fazem qualquer distinção em relação a cursos d"água não canalizados ou eventualmente canalizados, não havendo distinguir onde o legislador não o fez. Nesse sentido: REsp n. 1.676.443/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 19/10/2017, DJe de 19/12/2017. .. VIII - Correta a decisão que deu provimento ao recurso especial para, reiterando o entendimento consolidado do Tema n. 1.010/STJ, em recurso repetitivo, reconhecer a aplicação do art. 4º, caput, I, a, do Código Florestal, no caso concreto, devendo ser respeitado o limite de 30 (trinta) metros do curso d"água, ainda que canalizado, como área non aedificandi. VIII - Agravo interno improvido. (AgInt no REsp n. 2.113.900/SC, Relator Ministro FRANCISCO FALCÃO, SEGUNDA TURMA, j. 24.06.2024, DJe de 26.06.2024 - destaques meus). Posto isso, com fundamento nos arts. 932, V, do Código de Processo Civil de 2015 e 34, XVIII, c, e 255, III, ambos do RISTJ, DOU PROVIMENTO ao Recurso Especial para determinar a aplicação dos parâmetros estampados no art. 4º da Lei n. 12.651/2012, bem como a tese firmada no julgamento do Tema n. 1.010/STJ, nos termos expostos. Prejudicado, por conseguinte, o exame do Agravo de fls. 622/624e. Publique-se e intimem-se. EMENTA