EREsp 1932549 - ACORDAO
A Terceira Turma manteve a orientação de que o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS tem natureza meramente exemplificativa, de modo que é abusiva a imposição de limite ao número de sessões das terapias especializadas prescritas para tratamento de doença coberta pelo plano, sendo indevida a recusa de...
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- Parties
- Agravante: UNIMED CAMPINAS COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO; Autor: A L M S
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 August 2021
- Procedural Posture
- Agravo Interno No Recurso Especial / Acórdão Julgamento Pela Terceira Turma (negou Provimento)
- Outcome
- Agravo interno no recurso especial não provido
- Legal Topics
- Ação De Obrigação De Fazer, Plano De Saúde, Rol De Procedimentos Da ANS, Cobertura De Tratamento Multidisciplinar, Limitação De Sessões, Recusa De Cobertura Indevida, Natureza Exemplificativa Do Rol Da ANS
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Parties
UNIMED CAMPINAS COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO
Agravante
A L M S
Autor
Procedural Posture
Agravo Interno No Recurso Especial / Acórdão Julgamento Pela Terceira Turma (negou Provimento)
Legal Issues
- 1 Natureza do rol de procedimentos da ANS: taxativo ou exemplificativo
- 2 Abusividade da limitação do número de sessões de terapias prescritas
- 3 Aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde
Ratio Decidendi
A Terceira Turma manteve a orientação de que o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS tem natureza meramente exemplificativa, de modo que é abusiva a imposição de limite ao número de sessões das terapias especializadas prescritas para tratamento de doença coberta pelo plano, sendo indevida a recusa de cobertura nestes casos, nos termos do entendimento consolidado que aplica o CDC aos contratos de plano de saúde.
Court Disposition
Agravo interno no recurso especial não provido
Orders
- Negou-se provimento ao agravo interno.
- Mantida a decisão que determinou a cobertura integral do tratamento multidisciplinar prescrito, sem limitação do número de sessões.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. CONTRATO DE PLANO DE SAÚDE. TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR DE DOENÇA COBERTA. LIMITAÇÃO DE SESSÕES DE TERAPIAS ESPECIALIZADAS.ROL DE PROCEDIMENTOS E EVENTOS EM SAÚDE DA ANS. NATUREZA EXEMPLIFICATIVA. RECUSA DE COBERTURA INDEVIDA. 1. Ação de obrigação de fazer, em decorrência da recusa indevida de cobertura do tratamento médico prescrito. 2. A despeito do entendimento da Quarta Turma em sentido contrário, a Terceira Turma mantém a orientação firmada há muito nesta Corte de que a natureza do referido rol é meramente exemplificativa, reputando, no particular, abusiva a imposição de limite ao número de sessões das terapias especializadas prescritas para o tratamento de doença coberta pelo plano de saúde. 3. Agravo interno no recurso especial não provido.
RELATÓRIO A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relatora): Cuida-se de agravo interno interposto por UNIMED CAMPINAS COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO, contra decisão que conheceu do recurso especial, para negar-lhe provimento. Ação: de obrigação de fazer, ajuizada por A L M S, em desfavor da recorrente, em decorrência da negativa de cobertura de procedimentos para tratamento multidisciplinar de doença coberta. Sentença: julgou procedente o pedido. Acórdão: negou provimento à apelação interposta pela agravante, nos termos da seguinte ementa: PLANO DE SAÚDE Obrigação de fazer Cobertura de procedimentos para tratamento multidisciplinar de reabilitação de criança acometida de "distrofia muscular de cintura tipo 2", sem limite de sessões É abusiva a recusa de cobertura a procedimento, medicamento ou material necessário para assegurar o tratamento de doenças previstas no contrato, sob pretexto de não constar no rol de procedimentos da ANS Súmulas 96 e 102, TJSP Custeio integral de profissionais fora da rede credenciada na eventualidade de o tratamento não ser fornecido diretamente pelo plano de saúde, conforme art. 4º, da RN ANS n. 259/11- Sentença mantida Recurso desprovido. Recurso especial: alegou violação dos arts. 10, § 4º, 35-F da Lei 9.656/98, 51, IV, § 1º, II, e 54, § 4º, do CDC. Afirmouque a limitação do número de sessões segue as normas de cobertura mínima obrigatória fixada pela ANS, não sendo abusiva a cláusula limitativa em conformidade com o rol de procedimento da ANS. Decisão unipessoal:conheceu do recurso especial e negou-lhe provimento, por estar o acórdão recorrido em consonância com a jurisprudência do STJ. Agravo interno: a agravante alega que nos termos da jurisprudência atual do STJ, o rol da ANS tem natureza taxativa, podendo o plano de saúde se recusar a cobrir procedimento nele não previsto, não havendo que se falar em harmonia na jurisprudência do STJ. É o relatório. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. CONTRATO DE PLANO DE SAÚDE. TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR DE DOENÇA COBERTA. LIMITAÇÃO DE SESSÕES DE TERAPIAS ESPECIALIZADAS.ROL DE PROCEDIMENTOS E EVENTOS EM SAÚDE DA ANS. NATUREZA EXEMPLIFICATIVA. RECUSA DE COBERTURA INDEVIDA. 1. Ação de obrigação de fazer, em decorrência da recusa indevida de cobertura do tratamento médico prescrito. 2. A despeito do entendimento da Quarta Turma em sentido contrário, a Terceira Turma mantém a orientação firmada há muito nesta Corte de que a natureza do referido rol é meramente exemplificativa, reputando, no particular, abusiva a imposição de limite ao número de sessões das terapias especializadas prescritas para o tratamento de doença coberta pelo plano de saúde. 3. Agravo interno no recurso especial não provido. VOTO A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relatora): A despeito das alegações aduzidas neste recurso, percebe-se que a parte agravante não trouxe qualquer argumento novo capaz de ilidir o entendimento firmado na decisão ora agravada. - Da obrigação de a operadora custear procedimentos prescritos para o tratamento de doença coberta pelo contrato de plano de saúde Com efeito, a Corte de origem determinou a cobertura de todo o tratamento médico prescrito, sem limitação do número de sessões, ainda que as técnicas utilizadas não estejam previstas expressamente no Rol de cobertura obrigatória editado pela ANS, entendendo que sua natureza era meramente exemplificativa e a recusa de cobertura de procedimento com expressa indicação médica é abusiva. Até o julgamento do REsp 1.733.013/PR pela Quarta Turma (julgado em 10/12/2019, DJe de 20/02/2020), havia, no âmbito da Segunda Seção, o entendimento consolidado sobre a natureza meramente exemplificativa desse rol, fundado nas regras e princípios do CDC, em especial no da interpretação mais favorável ao consumidor e no da boa-fé objetiva. Firmou-se, então, a tese de que "é abusiva a recusa da operadora do plano de saúde de arcar com a cobertura do medicamento prescrito pelo médico para o tratamento do beneficiário, sendo ele off label, de uso domiciliar, ou ainda, não previsto em rol da ANS, e, portanto, experimental, quando necessário ao tratamento de enfermidade objeto de cobertura pelo contrato"(AgInt no REsp 1.849.149/SP, Terceira Turma, julgado em 30/03/2020, DJe de 01/04/2020; AgInt no AREsp 1.573.008/SP, Terceira Turma, julgado em 10/02/2020, DJe de 12/02/2020; AgInt no AREsp 1.490.311/SP, Quarta Turma, julgado em 17/09/2019, DJe de 03/10/2019; AgInt no REsp 1.712.056/SP, Quarta Turma, julgado em 13/12/2018, DJe de 18/12/2018). Sucede, entretanto, que, ao julgar o REsp 1.733.013/PR, a Quarta Turma promoveu mudança do seu entendimento para decidir que o rol de procedimentos e eventos em saúde da ANS tem natureza taxativa. Por outro lado, a competência legal atribuída à ANS pelas Leis 9.656/98 e 9.961/2000 pelos os atos normativos por ela exarados, além de compatíveis com as referidas Leis, devem ter conformidade com a CF/1988 e as normas insertas no CDC, inclusive os seus princípios, não lhe cabendo inovar a ordem jurídica. Impende ressaltar, por oportuno, que, embora a Lei 9.656/1998 seja a lei especial que regula os planos privados de assistência à saúde, há expressa menção em seu art. 35-G de aplicação do CDC aos contratos celebrados entre usuários e operadoras Essa orientação se justifica ainda mais diante da natureza de adesão do contrato de plano de saúde e se confirma, no âmbito jurisdicional, com a edição da súmula 608 pelo STJ: "Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde, salvo os administrados por entidades de autogestão". Por isso, o poder atribuído à ANS de normatizar a Lei 9.656/1998 deve ser exercido dentro dos limites estabelecidos pelo legislador e em conformidade com os dispositivos constitucionais e consumeristas, ressalvando-se, apenas, os atos relativos aos contratos celebrados com as entidades de autogestão, os quais não se submetem ao CDC. Logo, não cabe a ANS estabelecer outras hipóteses de exceção da cobertura obrigatória pelo plano-referência, além daquelas expressamente previstas nos incisos do art. 10 da Lei 9.656/1998, assim como não lhe cabe reduzir a amplitude da cobertura, excluindo procedimentos ou eventos necessários ao tratamento das doenças listadas na CID, ressalvadas, nos termos da lei, as limitações impostas pela segmentação contratada. É forçoso concluir, portanto, no sentido da manutenção da orientação da Terceira Turma, há muito firmada nesta Corte no sentido de que a natureza do referido rol é meramente exemplificativa e, por isso, reputa abusiva a recusa de custeio do tratamento de doença coberta pelo contrato. Citam-se, por oportuno: AgInt no AREsp 1683820/SP, 3ª Turma, DJe 10/03/2021; AgInt no REsp 1882735/SP, 3ª Turma, DJe 12/02/2021; AgInt nos EDcl no AgInt no AREsp 1691550/SP, 3ª Turma, DJe 08/02/2021; e AgInt no REsp 1890825/SP, 3ª Turma, DJe 18/12/2020. Por sinal, na sessão de 03/02/2021, esse entendimento foi reafirmado, à unanimidade, pela Terceira Turma no julgado citado na decisão agravada (REsp 1846108/SP, 3ª Turma, DJe 05/02/2021). Por fim, conforme asseverado na decisão agravada, nem mesmo na Quarta Turma, o entendimento divergente é unânime, haja vista julgados recentes daquele órgão fracionário no sentido de que o plano de saúde pode estabelecer as doenças a que dará cobertura, mas não o melhor tratamento indicado. Nesse sentido: AgInt no REsp 1888232/SP, 4ª Turma, DJe 18/12/2020; AgInt nos EDcl no AREsp 1629946/ES, 4ª Turma, DJe 01/10/2020; e AgInt no AREsp 1661348/MT, 4ª Turma, DJe 15/09/2020. Dessa forma, não merece reforma a decisão agravada. Forte nessas razões, NEGO PROVIMENTO ao presente agravo interno no recurso especial.