AREsp 2849713 - ACORDAO
Conheceu-se do agravo e o recurso especial foi parcialmente conhecido; porém, diante da impossibilidade de reexame do acervo fático-probatório na via do recurso especial (Súmula 7/STJ) e da suficiência da fundamentação do Tribunal de origem quanto ao preenchimento dos requisitos da usucapião extraordinária, negou-se...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante/recorrente: JOSÉ IVAN CALOU - SUCESSÃO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 10 April 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual Da Terceira Turma (01/04/2025 a 07/04/2025)
- Outcome
- Agravo conhecido. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, não provido.
- Legal Topics
- Ação De Usucapião Extraordinária, Negativa De Prestação Jurisdicional, Súmula N.º 7/stj, Embargos De Declaração (aclaratórios), Honorários Advocatícios
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Parties
JOSÉ IVAN CALOU - SUCESSÃO
Agravante/recorrente
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual Da Terceira Turma (01/04/2025 a 07/04/2025)
Legal Issues
- 1 Presença dos requisitos da usucapião extraordinária (art. 1.238 CC)
- 2 Alegada negativa de prestação jurisdicional/omissão (arts. 489 e 1.022 do CPC)
- 3 Aplicação da Súmula n.º 7 do STJ e vedação ao reexame de provas em recurso especial
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e o recurso especial foi parcialmente conhecido; porém, diante da impossibilidade de reexame do acervo fático-probatório na via do recurso especial (Súmula 7/STJ) e da suficiência da fundamentação do Tribunal de origem quanto ao preenchimento dos requisitos da usucapião extraordinária, negou-se provimento ao recurso. Majoraram-se os honorários em 5%, observando-se o limite de 20% previsto no art. 85, §11, do CPC.
Court Disposition
Agravo conhecido. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, não provido.
Orders
- Conhecer do agravo
- Conhecer em parte do recurso especial
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 01/04/2025 a 07/04/2025, por unanimidade, conhecer parcialmente do recurso, mas lhe negar provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Moura Ribeiro. Os Srs. Ministros Nancy Andrighi, Humberto Martins, Ricardo Villas Bôas Cueva e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins. EMENTA CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA. NEGATIVA DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS PARA A PRESCRIÇÃO AQUISITIVA. QUESTÃO SOLUCIONADA A PARTIR DA ANÁLISE DAS PROVAS DOS AUTOS. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N.º 7 DO STJ. AGRAVO CONHECIDO. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, NÃO PROVIDO. 1.Trata-se de ação de usucapião extraordinária de imóvel urbano, cujo pedido foi julgado procedente nas instâncias ordinárias. 2. Os aclaratórios são espécie de recurso de fundamentação vinculada, exigindo para seu conhecimento a indicação de erro material, obscuridade, contradição ou omissão em que teria incorrido o julgador (arts. 489 e 1.022 do CPC), não se prestando a novo julgamento da causa. 3. Rever o entendimento do acórdão recorrido quanto à presença, ou não, dos requisitos da ação de usucapião intentada na origem demandaria, necessariamente, nova incursão nas circunstâncias fáticas da causa, o que não se admite nesta fase excepcional, em observância à Súmula n.º 7 desta Corte. 4. Agravo conhecido. Recurso especial parcialmente conhecido e não provido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo em recurso especial interposto por JOSÉ IVAN CALOU - SUCESSÃO (JOSÉ IVAN - SUCESSÃO) contra decisão que não admitiu seu apelo nobre manejado com fundamento no art. 105, III, alíneas a e c, da CF contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, assim ementado: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA -REQUISITOS LEGAIS - PREENCHIMENTO - SENTENÇA MANTIDA. A usucapião constitui-se como um modo de adquirir o domínio da coisa ou de certos direitos reais pela posse continuada durante certo lapso de tempo, com o concurso dos requisitos que a lei estabelece para a modalidade específica, neste caso, aquela descrita no art. 1.238 do CC que dita que "aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis" (e-STJ, fl. 509). Não foi apresentada contraminuta. É o relatório. EMENTA CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA. NEGATIVA DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS PARA A PRESCRIÇÃO AQUISITIVA. QUESTÃO SOLUCIONADA A PARTIR DA ANÁLISE DAS PROVAS DOS AUTOS. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N.º 7 DO STJ. AGRAVO CONHECIDO. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, NÃO PROVIDO. 1.Trata-se de ação de usucapião extraordinária de imóvel urbano, cujo pedido foi julgado procedente nas instâncias ordinárias. 2. Os aclaratórios são espécie de recurso de fundamentação vinculada, exigindo para seu conhecimento a indicação de erro material, obscuridade, contradição ou omissão em que teria incorrido o julgador (arts. 489 e 1.022 do CPC), não se prestando a novo julgamento da causa. 3. Rever o entendimento do acórdão recorrido quanto à presença, ou não, dos requisitos da ação de usucapião intentada na origem demandaria, necessariamente, nova incursão nas circunstâncias fáticas da causa, o que não se admite nesta fase excepcional, em observância à Súmula n.º 7 desta Corte. 4. Agravo conhecido. Recurso especial parcialmente conhecido e não provido. VOTO O agravo é espécie recursal cabível, foi interposto tempestivamente e com impugnação adequada aos fundamentos da decisão recorrida. CONHEÇO, portanto, do agravo e passo ao exame do recurso especial, que não merece prosperar. Nas razões do apelo nobre, interposto com base no art. 105, III, alíneas a e c, da CF, JOSÉ IVAN - SUCESSÃO alegou, a par de divergência jurisprudencial, a violação dos arts. 373, II, 489, III,. e 1.022, II, do CPC, e 1.238 do CC, ao sustentar (1) omissão do acórdão recorrido acerca do fato de que o réu, ora recorrente, exerceu a posse do imóvel até o ano de 2008; e (2) que não foram preenchidos os requisitos necessários ao reconhecimento da usucapião extraordinária de área urbana, notadamente, em relação ao implemento do perídodo aquisitivo de 15 (quinze) anos. (1) Da violação dos arts. 489, III, e 1.022, II, do CPC Sobre o tema controvertido, alusivo ao cumprimento do perído aquisitivo da propriedade do imóvel em questão, o TJMG assim se pronunciou: Das provas produzidas nos autos, pode se afirmar de modo contundente o preenchimento dos requisitos necessários ao reconhecimento da aquisição da posse pela usucapião à Autora/Apelada. Analisando os depoimentos prestados, quando da Audiência de Instrução e Julgamento, constante do P Je Mídias, possível abstrair que: Testemunhas pela autora: .. Testemunha pelo réu: .. De uma leitura conjunta dos depoimentos, afere-se que a Autora/Apelada exerceu a posse sobre o imóvel pelo tempo necessário ao reconhecimento da usucapião não havendo provas contundentes sobre efetivos atos pelo Réu/Apelante para que a Autora/Apelada cessasse atos de esbulho, configurando-se, pois, um a posse pacífica. As provas testemunhais dão conta do lapso temporal de forma contundente e uníssonas no sentido de que a Autora/Apelada lá exerce a posse há mais de 20 anos. Em que pese alegar que indemonstrada a posse pela Autora/Apelada, certo é que pelos depoimentos e demais provas colacionadas aos autos, é ela quem, há mais de 15 anos, é reconhecida por praticar os atos materiais que externam o poder sobre a coisa, não havendo razão ao Réu/Apelante. Da mesma forma, não há como acolher a alegação de esbulho possessório por várias pessoas à derruir o tempo de posse da Autora/Apelada. Pelo contrário, o que se observa do que constam dos autos é que a Autora/Apelada, mesmo com a utilização temporária da frente do lote para "guardar" materiais de construções vizinhas, não parou de exercer a posse sobre o bem, lá plantando e mantendo animais. Não houve interrupção da posse. Igualmente há que se afastar a hipótese de posse precária eis que, mesmo ocorrendo o esbulho em sua propriedade, o Réu/Apelante jamais praticou atos contundentes à inibir o esbulho, descuidando-se de seu direito de propriedade. Logo, no caso dos autos, diante da comprovação de capacidade de usucapir, capacidade do bem ser usucapido, do lapso temporal, há como vislumbrar o preenchimento dos requisitos da usucapião (e-STJ, fls. 514/517). Não há falar, portanto, em negativa de prestação jurisdicional, pois, a pretexto da alegação de ofensa aos arts. 489 e 1.022 do CPC, o que busca JOSÉ IVAN - SUCESSÃO é apenas manifestar o seu inconformismo com o resultado do julgamento que lhe foi desfavorável, não se prestando a estreita via dos embargos de declaração a promover o rejulgamento da causa, já que inexistentes quaisquer dos vícios elencados nos referidos dispositivos da lei adjetiva civil. A jurisprudência desta Corte é pacífica ao proclamar que, se os fundamentos adotados bastam para justificar o concluído na decisão, o julgador não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos utilizados pela parte. A propósito: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CIVIL. PROCESSO CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE VEÍCULO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO DOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC/2015. DANOS MORAIS. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULAS 283 E 284 DO STF. LIMITAÇÃO DE COBERTURA. REEXAME. SÚMULAS 5 E 7 DO STJ. AGRAVO IMPROVIDO. 1. Não há ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015, porquanto o Tribunal de origem decidiu a matéria de forma fundamentada. O julgador não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos invocados pelas partes, quando tiver encontrado motivação satisfatória para dirimir o litígio. 2. Verifica-se que o Tribunal estadual analisou todas as questões relevantes para a solução da lide, de forma fundamentada, não havendo que se falar em negativa de prestação jurisdicional. 3. A falta de impugnação de argumento suficiente para manter, por si só, o acórdão impugna do, a argumentação dissociada bem como a ausência de demonstração da suposta violação à legislação federal impedem o conhecimento do recurso, na esteira dos enunciados n.283 e 284 da Súmula do Supremo Tribunal Federal. 4. A revisão das conclusões estaduais demandaria, necessariamente, o revolvimento das cláusulas contratuais e do acervo fático-probatório dos autos, providência vedada na via estreita do recurso especial, ante o óbice disposto nas Súmulas 5 e 7 do STJ. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n.º 1.500.162/SP, relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Terceira Turma, julgado aos 25/11/2019, DJe de 29/11/2019 - sem destaque no original) Não se verifica, assim, a apontada negativa da prestação jurisdicional. (2) Do reconhecimento da usucapião extraordinária Por sua vez, na esteira do que dispõe o art. 1.238 do CC, aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; pode ndo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis. No caso concreto, do que se depreende da leitura dos fundamentos transcritos no tópico anterior, para ultrapassar a conclusão assentada pelo Tribunal de origem seria necessário, inevitavelmente, o reexame das provas carreadas aos autos, procedimento vedado em âmbito de recurso especial, ante o óbice da Súmula n.º 7 do STJ. Nesse sentido, a título ilustrativo, confira-se o seguinte julgado: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA. CONDOMÍNIO. CONCLUSÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO PELA AUSÊNCIA DE ANIMUS DOMINI. MERA PERMISSÃO DOS COPROPRIETÁRIOS. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULAS 7 E 83/STJ. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL PREJUDICADO. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Com efeito, segundo a jurisprudência desta Corte Superior, "o condômino tem legitimidade para usucapir em nome próprio, desde que exerça a posse por si mesmo, ou seja, desde que comprovados os requisitos legais atinentes à usucapião, bem como tenha sido exercida posse exclusiva com efetivo animus domini pelo prazo determinado em lei, sem qualquer oposição dos demais proprietários" (REsp n. 668.131/PR, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 19/8/2010, DJe 14/9/2010). 2. Na hipótese, o Tribunal estadual, ao dirimir a controvérsia, concluiu não ser possível o reconhecimento da usucapião extraordinária, uma vez que não houve comprovação do animus domini, na medida em que a posse exercida pelos recorrentes resultou de atos de mera permissão dos demais herdeiros e coproprietários do bem, sendo assim, não haveria necessidade de reabrir a instrução para a colheita de novas provas como pleiteado. Reverter a essa conclusão para acolher a pretensão recursal, demandaria o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos, o que é vedado em virtude da natureza excepcional da via eleita, consoante enunciado da Súmula n. 7 do Superior Tribunal de Justiça. 3. A análise do dissídio jurisprudencial fica prejudicada em razão da aplicação do enunciado da Súmula n. 7/STJ, porquanto não é possível encontrar similitude fática entre o acórdão combatido e os arestos paradigmas, uma vez que as suas conclusões díspares ocorreram não em virtude de entendimentos diversos sobre uma mesma questão legal, mas, sim, de fundamentações baseadas em fatos, provas e circunstâncias específicas de cada processo. 4. Agravo interno desprovido. (AgInt no REsp n.º 2.021.731/SP, relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Terceira Turma, julgado aos 29/5/2023, DJe de 1º/6/2023 - sem destaques no original) Nessas condições, CONHEÇO do agravo para CONHECER EM PARTE do recurso especial e, nessa extensão, NEGAR-LHE PROVIMENTO. MAJORO em 5% o valor dos honorários advocatícios anteriormente fixados em favor da parte recorrida, limitados a 20%, nos termos do art. 85, § 11, do CPC. É o voto. Por oportuno, previno que a interposição de recurso contra esta decisão, se declarado manifestamente inadmissível, protelatório ou improcedente, poderá acarretar condenação nos termos do art. 1.026, § 2º, do CPC.