HC 981420 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus por configurar substitutivo de recurso próprio, mas, em atenção ao entendimento do Supremo Tribunal Federal e à omissão do órgão ministerial acerca do ANPP, concedo de ofício a ordem para que o MPGO se manifeste motivadamente, na primeira oportunidade em que falar nos autos, sobre o...
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- Parties
- Paciente: WELINGTON ALVES MENDONÇA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para que o MPGO se manifeste sobre o cabimento do ANPP nos autos de origem.
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal, Revisão Criminal, Recursos, Trânsito Em Julgado, Retroatividade Da Norma Penal Benéfica, Constrangimento Ilegal
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Parties
WELINGTON ALVES MENDONÇA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Cabimento de habeas corpus como substitutivo de recurso próprio ou de revisão criminal
- 2 Obrigatoriedade de manifestação do Ministério Público sobre o cabimento do ANPP após o entendimento do STF
- 3 Aplicação da retroatividade da norma penal benéfica ao ANPP em processos em andamento
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus por configurar substitutivo de recurso próprio, mas, em atenção ao entendimento do Supremo Tribunal Federal e à omissão do órgão ministerial acerca do ANPP, concedo de ofício a ordem para que o MPGO se manifeste motivadamente, na primeira oportunidade em que falar nos autos, sobre o cabimento do ANPP nos autos de origem.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para que o MPGO se manifeste sobre o cabimento do ANPP nos autos de origem.
Orders
- Concedo a ordem para que seja oportunizado ao MPGO a manifestação motivada sobre o cabimento do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) nos autos de origem.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de Habeas Corpus impetrado em favor de WELINGTON ALVES MENDONÇA, no qual se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 01 (um) ano e 08 (oito) meses de reclusão e 166 (cento e sessenta e seis) dias-multa pela prática do delito capitulado no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006. A defesa do paciente sustenta a existência de constrangimento ilegal, pois não houve análise da possibilidade de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) pelo Ministério Público. Despacho determinando a remessa dos autos ao Ministério Público Federal, oficiante junto ao STJ, para que se manifeste sobre a possibilidade de oferecimento do ANPP (e-STJ fls. 82/83). Parecer do MPF pela "denegação da ordem e, subsidiariamente, que a ordem seja concedida para que o MPGO se manifeste sobre o cabimento do ANPP, nos autos originários" (e-STJ fls. 89/96). É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. No caso, seria cabível, em tese, a interposição de recurso especial, razão pela qual não há possibilidade de impetração de habeas corpus. Por outro lado, a concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Sustenta a defesa do paciente que há constrangimento ilegal diante da ausência de oferecimento de ANPP, ou de justificativa para a impossibilidade. No entanto, da simples leitura dos autos, observa-se que a matéria não foi submetida ao Tribunal de origem, razão pela qual não houve pronunciamento sobre o mérito, o que implica a indevida supressão de instância. Contudo, em atenção ao parecer ministerial, entendo que seja o caso de sanear a omissão do órgão ministerial sobre o cabimento da ANPP, notadamente diante do recente entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o tema, por ocasião do julgamento do HC 185.913, ocasião em que se firmou a seguinte tese sobre o acordo de não persecução penal: "1. Compete ao membro do Ministério Público oficiante, motivadamente e no exercício do seu poder-dever, avaliar o preenchimento dos requisitos para negociação e celebração do ANPP, sem prejuízo do regular exercício dos controles jurisdicional e interno; 2. É cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigência da Lei nº 13.964, de 2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado; 3. Nos processos penais em andamento na data da proclamação do resultado deste julgamento, nos quais, em tese, seja cabível a negociação de ANPP, se este ainda não foi oferecido ou não houve motivação para o seu não oferecimento, o Ministério Público, agindo de ofício, a pedido da defesa ou mediante provocação do magistrado da causa, deverá, na primeira oportunidade em que falar nos autos, após a publicação da ata deste julgamento, manifestar-se motivadamente acerca do cabimento ou não do acordo; 4. Nas investigações ou ações penais iniciadas a partir da proclamação do resultado deste julgamento, a proposição de ANPP pelo Ministério Público, ou a motivação para o seu não oferecimento, devem ser apresentadas antes do recebimento da denúncia, ressalvada a possibilidade de propositura, pelo órgão ministerial, no curso da ação penal, se for o caso". Diante de tal orientação, a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça firmou a seguinte tese no julgamento do Recurso Especial nº 1890343 - SC: "3.1 - O Acordo de Não Persecução Penal constitui um negócio jurídico processual penal instituído por norma que possui natureza processual, no que diz respeito à possibilidade de composição entre as partes com o fim de evitar a instauração da ação penal, e, de outro lado, natureza material em razão da previsão de extinção da punibilidade de quem cumpre os deveres estabelecidos no acordo (art. 28-A, § 13, do Código de Processo Penal - CPP). 3.2 - Diante da natureza híbrida da norma, a ela deve se aplicar o princípio da retroatividade da norma penal benéfica (art. 5º, XL, da CF), pelo que é cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado da condenação. 3.3 - Nos processos penais em andamento em 18/09/2024 (data do julgamento do HC n. 185.913/DF pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal), nos quais seria cabível em tese o ANPP, mas ele não chegou a ser oferecido pelo Ministério Público ou não houve justificativa idônea para o seu não oferecimento, o Ministério Público, agindo de ofício, a pedido da defesa ou mediante provocação do magistrado da causa, deverá, na primeira oportunidade em que falar nos autos, manifestar-se motivadamente acerca do cabimento ou não do acordo no caso concreto. 3.4 - Nas investigações ou ações penais iniciadas a partir de 18/09/2024, será admissível a celebração de ANPP antes do recebimento da denúncia, ressalvada a possibilidade de propositura do acordo, no curso da ação penal, se for o caso." Por esses fundamentos, não conheço do habeas corpus substitutivo e, na análise de ofício, concedo a ordem para que seja oportunizado ao MPGO a manifestação sobre o cabimento do ANPP nos autos de origem. P. R. I. EMENTA