HC 988620 - DECISAO
Concedeu-se a ordem de ofício para determinar o retorno dos autos ao juízo de origem, a fim de que o Ministério Público se manifeste sobre a propositura do Acordo de Não Persecução Penal, em atenção à tese consolidada pelo STF e pelo STJ de que o ANPP pode ser celebrado retroativamente em processos em curso na...
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- Parties
- Paciente: EDERSON JOSÉ DE MORAIS; Órgão Julgador / Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro; Ministério Público: Ministério Público do Município de Vassouras
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão De Ordem De Ofício) No Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Ordem concedida de ofício para determinar retorno dos autos ao Juízo de origem para que o Ministério Público se manifeste sobre o Acordo de Não Persecução Penal.
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal, Art. 28 a Do CPP, Retroatividade De Norma Penal Benéfica, Recebimento Da Denúncia, Confissão
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Parties
EDERSON JOSÉ DE MORAIS
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
Órgão Julgador / Autoridade Coatora
Ministério Público do Município de Vassouras
Ministério Público
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão De Ordem De Ofício) No Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 cabimento do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) em processos em curso na data de vigência da Lei n.13.964/2019
- 2 possibilidade de aplicação retroativa do art. 28-A do CPP mesmo após o recebimento da denúncia, desde que pedido antes do trânsito em julgado
- 3 se a ausência de confissão formal impede a proposta do ANPP
Ratio Decidendi
Concedeu-se a ordem de ofício para determinar o retorno dos autos ao juízo de origem, a fim de que o Ministério Público se manifeste sobre a propositura do Acordo de Não Persecução Penal, em atenção à tese consolidada pelo STF e pelo STJ de que o ANPP pode ser celebrado retroativamente em processos em curso na vigência da Lei n.13.964/2019, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado da condenação.
Court Disposition
Ordem concedida de ofício para determinar retorno dos autos ao Juízo de origem para que o Ministério Público se manifeste sobre o Acordo de Não Persecução Penal.
Orders
- Determinar o retorno dos autos ao Juízo de origem para que o Ministério Público se manifeste sobre o Acordo de Não Persecução Penal.
- Comunicar, com urgência, ao Tribunal impetrado e ao Juízo de primeiro grau.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de EDERSON JOSÉ DE MORAIS contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, no julgamento da Apelação Criminal n. 0000691-42.2022.8.19.0065. Consta dos autos que o paciente foi condenado, pela prática dos crimes tipificados nos artigos 302 e 303, caput, ambos da Lei n. 9.503/1997, à pena de 2 (dois) anos e 4 (quatro) meses de detenção, no regime inicial aberto, cumulada com a suspensão da habilitação para dirigir veículo automotor, pelo período de 2 (dois) meses e 10 (dez) dias, substituída a privativa de liberdade por duas restritivas de direitos (e-STJ fls. 44/51). Irresignada, a defesa interpôs recurso de apelação, contudo o Tribunal de origem negou-lhe provimento, nos termos da seguinte ementa (e-STJ fl. 8): RECURSO DE APELAÇÃO CRIMINAL. DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. IMPUTAÇÃO DAS CONDUTAS MOLDADAS NOS ARTIGOS 302 E 303, CAPUT, AMBOS DA LEI Nº 9.503/97. HOMICÍDIO E LESÃO CORPORAL CULPOSOS NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. PROCEDÊNCIA DA PRETENSÃO PUNITIVA. PENA DE 02 (DOIS) ANOS E 04 (QUATRO) MESES DE DETENÇÃO, NO REGIME ABERTO, CUMULADA COM A SUSPENSÃO DA HABILITAÇÃO, PARA DIRIGIR VEÍCULO AUTOMOTOR, PELO PERÍODO DE 02 (DOIS) MESES E 10 (DEZ) DIAS. SUBSTITUÍDA A PRIVATIVA DE LIBERDADE POR DUAS RESTRITIVAS DE DIREITOS. IRRESIGNAÇÃO DO RÉU. PRELIMINAR DE INVALIDADE DO PROCESSO, PELO NÃO OFERECIMENTO DO ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. MÉRITO. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO, SOB O ARGUMENTO DE TER AGIDO AMPARADO PELA EXCLUDENTE DE CULPABILIDADE DE INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA OU PELA EXCLUSÃO DA ILICITUDE, EM RAZÃO DE CULPA EXCLUSIVA DE TERCEIRO. PROCURADORIA DE JUSTIÇA OFICIOU PELO DESPROVIMENTO DO RECURSO. PRELIMINAR DE INVALIDADE DO FEITO. OFERECIMENTO DE ANPP. IMPOSSIBILIDADE. NÃO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. MÉRITO. MATERIALIDADE E AUTORIA COMPROVADAS. OBRAR CULPOSO EVIDENTE. APELANTE TENTOU REALIZAR ULTRAPASSAGEM SEM OBSERVAR O DEVER OBJETIVO DE CUIDADO NA CONDUÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR, INVADINDO A FAIXA CONTRÁRIA. ELEMENTOS DE CONVICÇÃO CARREADOS AOS AUTOS DEMONSTRAM O NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE O OBRAR IMPRUDENTE DO APELANTE E O SINISTRO QUE LEVOU A VÍTIMA A ÓBITO E PROVOCOU LESÃO CORPORAL NA OFENDIDA QUE ESTAVAM NO VEÍCULO ATINGIDO. CONDENAÇÃO MANTIDA. DESPROVIMENTO DO RECURSO. No presente habeas corpus, a defesa aduz que o paciente foi condenado sem que lhe fosse oferecido o acordo de não persecução penal (ANPP), previsto no art. 28-A do Código de Processo Penal, apesar de preencher os requisitos legais para sua concessão. Relata que "o Ministério Público do Município de Vassouras, na fase de investigação ou persecução penal, deixou de ofertar ao paciente o benefício do acordo de não persecução penal (ANPP), sem qualquer justificativa plausível para tal omissão" (e-STJ fl. 3). Segundo a inicial, "todas as condições objetivas, salvo a confissão, exigidas para a propositura do ANPP, estavam presentes; que o Ministério Público local reconheceu que o ANPP não foi apresentado no momento oportuno em razão da ausência da confissão; que a confissão, no inquérito, não é condicionante para o ANPP; e que o acordo veio a ser apresentado, após o recebimento da denúncia, mesmo tendo o réu, por meio de sua defesa, afirmado que só confessaria se e quando formalizado o ANPP" (e-STJ fl. 4). Inclusive, aponta que o Ministério Público, em fls. 157 do processo, afirmou que estava diligenciando sobre a proposta do ANPP, porém não mais falou sobre o tema. Ao final, pugna pela (e-STJ fl. 6): 1) A concessão da medida liminar para suspender o cumprimento do acórdão impugnado, até o julgamento definitivo do presente Habeas Corpus; 2) A intimação da autoridade coatora para prestar informações no prazo legal; 3) A oitiva do Ministério Público; 4) A concessão definitiva da ordem, reconhecendo a ilegalidade da omissão do Ministério Público de Vassouras e determinando que seja ofertado ao paciente o Acordo de Não Persecução Penal ou, alternativamente, que seja fundamentada a impossibilidade de sua concessão. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Na espécie, embora o impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa do paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Acerca do rito a ser adotado para o julgamento desta impetração, as disposições previstas nos arts. 64, III, e 202 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforme com súmula ou com a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC 513.993/RJ, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC 475.293/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC 499.838/SP, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC 426.703/SP, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018 e AgRg no RHC 37.622/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). Possível, assim, a análise do mérito da impetração, já nesta oportunidade. Em relação ao pedido de ANPP formulado em segundo grau, assim decidiu a Corte local na apelação criminal (e-STJ fls. 10/11): .. Preambularmente, impende destacar que não merece prosperar o pleito de declaração de invalidade do processo, a partir do recebimento da denúncia, pela não aplicação da norma no novel artigo 28-A, do CPP. O acordo de não persecução penal deve ser caracterizado como negócio jurídico processual entabulado entre o Ministério Público e o investigado, assistido por defensor, público, dativo ou constituído. Entretanto, desde que se fundamente em elementos concretos, o Parquet pode se recusar a fazê-lo, porquanto não se trata de direito subjetivo do investigado. O oferecimento do acordo de não persecução penal é conferido exclusivamente ao Ministério Público, a partir da ponderação de discricionariedade da sua propositura, mitigada pela observância dos requisitos legais. Na hipótese em apreciação, como bem observado pela douta Procuradoria de Justiça, descabe a propositura de acordo de não persecução penal, em razão da inexistência de confissão formal e circunstanciada da prática da infração penal, de modo que não resulta preenchido o requisito disposto no artigo 28-A, do Código de Processo Penal. Ademais, o mencionado instituto não se aplica após o recebimento da denúncia, daí não ser hipótese de invalidade do feito com abertura de vista ao Ministério Público, consoante pretende a defesa. Aliado a isso, como bem pontuado pelo Ministério Público em contrarrazões (i. e. 569): .. Todavia, não se admite retroação do acordo de não persecução penal, considerando que a denúncia foi recebida em 27/01/2023, nos termos na R. Decisão de index 183. Consoante atual jurisprudência, há possibilidade de aplicação retroativa do acordo de não persecução penal, desde que a denúncia não tenha sido recebida. Entretanto, uma vez iniciada a persecução penal em juízo, não há como retroceder no andamento processual. Assim, conforme disposto no HC 628.647, "há de se considerar o momento processual adequado para perquirir sua incidência, sob pena de se desvirtuar o instituto despenalizador". Portanto, não há que se falar em oferecimento do acordo diante da ocorrência do instituto da preclusão. Além disso, a Defesa teve, durante toda a persecução penal, a possibilidade de postular, ainda que intempestivamente, o oferecimento de ANPP. Não o fez. Nem mesmo nas duas audiências de instrução e julgamento designadas ou nas alegações finais. Aguardou a sentença, certamente acreditando que a tese absolutória prevaleceria, o que não aconteceu. Agora, em fase de apelação postula a aplicação da medida despenalizadora. Tudo isso, além de configurar oportunismo processual, também é a estratégia conhecida e refutada pelo STJ como nulidade de algibeira.. - negritei. Do trecho acima transcrito, constata-se que o Tribunal de origem entendeu não ser cabível o acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do CPP, aos processos em que já houve recebimento da denúncia, bem como naqueles em que não houve confissão formal e circunstanciada da prática da infração penal. Nesse aspecto, não há falar em ilegalidade na manifestação das instâncias ordinárias a respeito do não cabimento, à época, do acordo de não persecução penal, uma vez que a fundamentação se encontra em consonância com a jurisprudência prevalente no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal sobre a matéria. Dessa forma, não se verifica a nulidade apontada. Nada obstante, com a superveniência do julgamento do Habeas Corpus n. 185.913/DF pelo Supremo Tribunal Federal e dos Recursos Especiais n. 1.890.343/SC e 1.890.344/RS por esta Corte Superior, fixou-se a tese no sentido de que "é cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado da condenação". A propósito: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. ART. 28-A DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. NORMA DE CONTEÚDO HÍBRIDO (PROCESSUAL E PENAL). POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO RETROATIVA A PROCESSOS EM CURSO NA DATA DA ENTRADA EM VIGOR DA LEI 13.964/2019, DESDE QUE AINDA NÃO TRANSITADA EM JULGADO A CONDENAÇÃO. MODIFICAÇÃO DE ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL DESTA CORTE. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL DESPROVIDO. 1. Recurso representativo de controvérsia, para atender ao disposto no art. 1.036 e seguintes do CPC/2015 e na Resolução STJ n. 8/2008. 2. Delimitação da controvérsia: "(im)possibilidade de acordo de não persecução penal posteriormente ao recebimento da denúncia". 3. TESE: 3.1 - O Acordo de Não Persecução Penal constitui um negócio jurídico processual penal instituído por norma que possui natureza processual, no que diz respeito à possibilidade de composição entre as partes com o fim de evitar a instauração da ação penal, e, de outro lado, natureza material em razão da previsão de extinção da punibilidade de quem cumpre os deveres estabelecidos no acordo (art. 28-A, § 13, do Código de Processo Penal - CPP). 3.2 - Diante da natureza híbrida da norma, a ela deve se aplicar o princípio da retroatividade da norma penal benéfica (art. 5º, XL, da CF), pelo que é cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado da condenação. 3.3 - Nos processos penais em andamento em 18/09/2024 (data do julgamento do HC n. 185.913/DF pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal), nos quais seria cabível em tese o ANPP, mas ele não chegou a ser oferecido pelo Ministério Público ou não houve justificativa idônea para o seu não oferecimento, o Ministério Público, agindo de ofício, a pedido da defesa ou mediante provocação do magistrado da causa, deverá, na primeira oportunidade em que falar nos autos, manifestar-se motivadamente acerca do cabimento ou não do acordo no caso concreto. 3.4 - Nas investigações ou ações penais iniciadas a partir de 18/09/2024, será admissível a celebração de ANPP antes do recebimento da denúncia, ressalvada a possibilidade de propositura do acordo, no curso da ação penal, se for o caso. 4. CASO CONCRETO: Situação em que, ao examinar apelação criminal interposta por dois réus, ambos condenados, no primeiro grau de jurisdição, por infração aos arts. 171, § 3º, c/c art. 14, II, do Código Penal, art. 297 e 298 do Código Penal, o TRF da 4ª Região decidiu, em preliminar, determinar a remessa do feito ao juízo de origem para verificação de eventual possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal, julgando prejudicado o recurso defensivo. Entendeu o TRF que o art. 28-A do CPP possui natureza híbrida e deveria retroagir para alcançar os processos em fase recursal. Constatou, também que os delitos imputados aos recorrentes não haviam sido cometidos com violência ou grave ameaça e que as penas mínimas em abstrato dos delitos imputados a ambos os réus, mesmo somadas, não ultrapassavam o limite de 4 (quatro) anos previsto no art. 28-A do CPP. Inconformado, o órgão do Ministério Público Federal que atua perante a 4ª Região interpôs recurso especial sustentando, em síntese, que a possibilidade de realização de acordo de não persecução penal trazida pela novel legislação deve-se restringir ao momento anterior ao recebimento da denúncia. 5. Recurso especial do Ministério Público Federal a que se nega provimento. (REsp n. 1.890.343/SC, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 23/10/2024, DJe de 28/10/2024.) - negritei. A situação do paciente se insere, portanto, na tese acima transcrita, pois a defesa expressamente requereu a aplicação do acordo de não persecução penal antes do trânsito em julgado da condenação. Dessa forma, "É cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigência da Lei n. 13.964, de 2019, .. , desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado". No mesmo sentido, destaco os recentes julgados do STJ: DIREITO PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. INTEMPESTIVIDADE. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. ORDEM DE HABEAS CORPUS CONCEDIDA DE OFÍCIO. I. Caso em exame1. Embargos de declaração opostos contra acórdão da Quinta Turma que não conheceu do agravo regimental e negou pedido de concessão da ordem de habeas corpus para a conversão do feito em diligência, visando à realização de acordo de não persecução penal. 2. O acórdão embargado foi publicado em 17.9.2024, com prazo recursal findando em 19.9.2024. Os embargos de declaração foram opostos em 23.9.2024, sendo considerados extemporâneos. II. Questão em discussão3. A questão em discussão consiste em saber se os embargos de declaração, opostos fora do prazo legal, podem ser conhecidos e se há possibilidade de concessão de habeas corpus de ofício para análise de acordo de não persecução penal. III. Razões de decidir4. Os embargos de declaração são considerados intempestivos, pois foram opostos após o prazo de dois dias contínuos estabelecido pelo art. 619 do Código de Processo Penal. 5. A concessão de habeas corpus de ofício é justificada pela recente decisão do Supremo Tribunal Federal no HC 185.913/DF, que reconheceu a retroatividade do acordo de não persecução penal para processos em curso, desde que não transitados em julgado. 6. O embargante atende aos requisitos do art. 28-A do Código de Processo Penal, pois o crime não envolveu violência ou grave ameaça, a pena mínima é inferior a quatro anos, não há reincidência em crime doloso, e é possível a confissão formal. IV. Dispositivo e tese7. Embargos de declaração não conhecidos, com concessão de ordem de habeas corpus de ofício para determinar a suspensão do feito e solicitação ao juízo de origem para análise do acordo de não persecução penal. Tese de julgamento: "1. Embargos de declaração intempestivos não são conhecidos. 2. Acordo de não persecução penal pode ser aplicado retroativamente a processos em curso, desde que não transitados em julgado, conforme decisão do STF no HC 185.913/DF". Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 619; CPP, art. 28-A. Jurisprudência relevante citada: STF, HC 185.913, Rel. Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 18-09-2024; STJ, REsp 1.890.343/SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 23/10/2024. (EDcl no AgRg no AREsp n. 2.522.995/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 3/12/2024, DJEN de 11/12/2024.) - negritei. DIREITO PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. FATO COMETIDO ANTES DO ADVENTO DA LEI N. 13.964/2019. RETROATIVIDADE NEGADA PELO TRIBUNAL. RECEBIMENTO DA DENÚNCIA ANTES DO ADVENTO DO INSTITUTO. ENTENDIMENTO CONTRÁRIO À TESE FIXADA PELO STF. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DO ANPP AOS PROCESSOS EM CURSO, DESDE QUE O PEDIDO TENHA SIDO FORMULADO ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO (HC 185.913/DF). CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. I. Caso em exame 1. Habeas corpus impetrado para anular acórdão de apelação criminal, visando converter o julgamento em diligência para que o Ministério Público proponha acordo de não persecução penal, conforme art. 28-A do CPP. 2. O Tribunal de Justiça rejeitou a alegação defensiva, afirmando que o acordo só seria cabível para fatos anteriores à Lei n. 13.964/2019, desde que a denúncia não tivesse sido recebida. 3. A condenação transitou em julgado em 14/9/2023, mas o pedido foi formulado antes do trânsito em julgado, em embargos de declaração e na apelação. II. Questão em discussão 4. A questão em debate consiste em saber se é possível aplicar retroativamente o acordo de não persecução penal em processos em andamento na data de vigência da Lei n. 13.964/2019, mesmo após o recebimento da denúncia. 5. Outra ponto relevante é se a ausência de confissão do réu até a vigência da lei impede a proposta do acordo. III. Razões de decidir 6. O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento de que o acordo de não persecução penal pode ser aplicado retroativamente em processos em andamento, desde que o pedido seja feito antes do trânsito em julgado (Habeas Corpus n. 185.913/DF, Ministro Gilmar Mendes, Pleno, julgado em 18/9/2024). 7. A ausência de confissão do réu até a vigência da Lei n. 13.964/2019 não impede a proposta do acordo, conforme decisão do STF. 8. Verificada a possibilidade de aplicação do instituto, a ordem deve ser concedida para desarquivar a ação penal e permitir que o Ministério Público local avalie a proposta do acordo. IV. Dispositivo e tese 9. Ordem concedida para desarquivar a ação penal e determinar que o Ministério Público local se manifeste sobre o acordo de não persecução penal. Tese de julgamento: De acordo com o entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal "é cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigência da Lei n. 13.964, de 2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado". Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 28-A. Jurisprudência relevante citada: STF, HC n. 185.913/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 18/9/2024. (HC n. 845.533/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 8/10/2024, DJe de 14/10/2024.) - negritei. Nesse contexto, em atenção ao recente entendimento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, é cabível a remessa dos autos ao Ministério Público para que avalie acerca da propositura do acordo de não persecução penal. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, contudo concedo a ordem, de ofício, a fim de d eterminar o retorno dos autos ao Juízo de origem para que o Ministério Público se manifeste sobre o acordo de não persecução penal. Comunique-se, com urgência, ao Tribunal impetrado e ao Juízo de primeiro grau. Publique-se. EMENTA