REsp 2120694 - DECISAO
O Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial, decidindo que o art. 28-A do CPP (ANPP) não pode ser oferecido na hipótese em que a denúncia foi recebida antes da vigência da Lei 13.964/2019; o acordo de não persecução penal só se aplica retroativamente aos fatos anteriores à lei desde que ainda...
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- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 13 March 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento Provimento Concedido
- Outcome
- Recurso especial provido
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal, Retroatividade, Tempus Regit Actum, Aplicabilidade Temporal Da Lei 13.964/2019, Art. 28 a Do CPP
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento Provimento Concedido
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do art. 28-A do CPP (ANPP) a fatos ocorridos antes da vigência da Lei 13.964/2019 quando a denúncia já havia sido recebida
- 2 Possibilidade de celebração do ANPP após o recebimento da denúncia e após sentença/acórdão confirmatório
Ratio Decidendi
O Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial, decidindo que o art. 28-A do CPP (ANPP) não pode ser oferecido na hipótese em que a denúncia foi recebida antes da vigência da Lei 13.964/2019; o acordo de não persecução penal só se aplica retroativamente aos fatos anteriores à lei desde que ainda não tenha ocorrido o recebimento da denúncia, em observância ao princípio tempus regit actum e à jurisprudência consolidada.
Court Disposition
Recurso especial provido
Orders
- Dar provimento ao recurso especial para afastar a possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal na hipótese dos autos.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, com fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, no qual se insurge contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3ª REGIÃO, assim ementado (e-STJ, fls. 468-486): "PENAL. PROCESSO PENAL. EMBARGOS INFRINGENTES. DELITO TIPIFICADO NO ART. 304 c/c ART. 297 DO CP. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. APLICABILIDADE AOS FEITOS CRIMINAIS EM CURSO QUANDO DA INSTITUIÇÃO DA INOVAÇÃO LEGISLATIVA. INEXISTÊNCIA DE APAZIGUAMENTO JURISPRUDENCIAL QUANTO À LIMITAÇÃO TEMPORAL DA RETROATIVIDADE. CASO EM QUE JÁ SUCEDERA O SENTENCIAMENTO DA AÇÃO PENAL QUANDO DO ADVENTO DO MECANISMO NEGOCIAL. ADOÇÃO DE ENTENDIMENTO AFINADO À FEIÇÃO DE DIREITO MATERIAL DO INSTITUTO. RECURSO PROVIDO. Em suas razões recursais, a parte recorrente aponta violação do art. 28-A, do Código de Processo Penal. Aduz para tanto, em síntese, que a hipótese dos autos não atende as condições para o acordo de não persecução penal, eis que recebida a denúncia antes da entrada em vigor da Lei 13.964/2019, e já existem sentença e acórdão confirmatório da condenação. Com contrarrazões (e-STJ, fls. 537-545), o recurso especial foi admitido na origem (e-STJ, fls. 547-552). Remetidos os autos a esta Corte Superior, o MPF manifestou-se pelo provimento do recurso (e-STJ, fls. 568-573). É o relatório. Decido. A respeito do ANPP, as duas Turmas que compõem a Terceira Seção deste STJ chegaram à conclusão de que o art. 28-A do CPP tem eficácia retroativa, para abranger as infrações penais cometidas antes de sua entrada em vigor, mas desde que ainda não tenha ocorrido o recebimento da denúncia. A hipótese dos autos não atende a essas condições, uma vez que a denúncia foi recebida antes da vigência da Lei 13.96/2019 (e-STJ, fls. 108-109). A propósito, convém a transcrição dos seguintes precedentes: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ESTELIONATO PREVIDENCIÁRIO. PROPOSTA DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL (ANPP). DENÚNCIA QUE JÁ HAVIA SIDO RECEBIDA. IMPOSSIBILIDADE. JURISPRUDÊNCIA DE AMBAS AS TURMAS DA TERCEIRA SEÇÃO. TESE DE OMISSÃO. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA NORMA. NÃO OCORRÊNCIA. NATUREZA JURÍDICA COMPATÍVEL COM O POSTULADO TEMPUS REGIT ACTUM. ALINHAMENTO COM A POSIÇÃO ADOTADA PELA PRIMEIRA TURMA DO STF. 1. Levando em consideração a natureza jurídica da norma em debate, não há falar em direito à retroatividade da lei processual, notadamente ante a observância do postulado tempus regit actum. 2. A Lei n. 13.964/19 (com vigência superveniente a partir de 23/01/2020), na sua parte processual, é dotada de aplicação imediata. Diante disso, aliás, como ocorre com a legislação processual penal em geral, vigora o princípio do tempus regit actum - nos termos do próprio art. 2º do CPP: "A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior". .. No presente caso, não estão preenchidos os requisitos legais para a formulação do ANPP (art. 28-A do CPP), uma vez que a denúncia foi recebida no dia 06/10/2017, antes, portanto, da entrada em vigor da referida lei, que ocorreu em 23/01/2020, motivo pelo qual não se mostra cabível a propositura de tal acordo. .. A conclusão adotada na origem se coaduna com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, firmada no sentido de que a referida benesse legal é cabível durante a fase inquisitiva da persecução penal, sendo limitada até o recebimento da denúncia, o que inviabiliza a retroação pretendida pela agravante, porquanto a denúncia foi recebida antes da vigência da Lei n. 13.964/2019 (AgRg no REsp n. 1.977.203/SP, Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe 12/6/2023). 3. Quanto à aplicação do ANPP, a jurisprudência desta Corte firmou compreensão de que, considerada a natureza híbrida da norma e diante do princípio tempus regit actum em conformação com a retroatividade penal benéfica, o acordo de não persecução penal incide aos fatos ocorridos antes da entrada em vigor da Lei 13.964/2019 desde que ainda não tenha ocorrido o recebimento da denúncia (EDcl nos EDcl no AgRg no AREsp 1.319.986/PA, Rel. Ministro OLINDO MENEZES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 1ª REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 18/5/2021, DJe 24/5/2021) - (AgRg no HC n. 642.819/SC, Ministro Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, DJe 17/11/2022). 4. O entendimento de ambas as Turmas da Terceira Seção desta Corte Superior está em sintonia com a jurisprudência da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. 5. O acórdão impugnado está alinhado com o entendimento da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal no sentido de que "o acordo de não persecução penal (ANPP) aplica-se a fatos ocorridos antes da Lei nº 13.964/2019, desde que não recebida a denúncia" (HC 191464 AgR, de minha relatoria) - (HC 227284 AgR/SP, Ministro Roberto Barroso, Primeira Turma, DJe 2/6/2023). 6. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no AgRg no REsp n. 1.912.425/PR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 15/8/2023, DJe de 21/8/2023.) "PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MOEDA FALSA. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL (ANPP). ART. 28-A DO CPP. DIANTE DO RECEBIMENTO DA DENÚNCIA EM MOMENTO ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI N. 13.964/2019, MOSTRA-SE INCABÍVEL O ANPP. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. MANUTENÇÃO DA DECISÃO AGRAVADA. I - A Lei n. 13.964/19 (com vigência superveniente a partir de 23/01/2020), na sua parte processual, é dotada de aplicação imediata. Diante disso, aliás, como ocorre com a legislação processual penal em geral, vigora o princípio do tempus regit actum - nos termos do próprio art. 2º do CPP: "A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior". II - No presente caso, não estão preenchidos os requisitos legais para a formulação do ANPP (art. 28-A do CPP), uma vez que a denúncia foi recebida no dia 06/10/2017, antes, portanto, da entrada em vigor da referida lei, que ocorreu em 23/01/2020, motivo pelo qual não se mostra cabível a propositura de tal acordo. III - A conclusão adotada na origem se coaduna com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, firmada no sentido de que a referida benesse legal é cabível durante a fase inquisitiva da persecução penal, sendo limitada até o recebimento da denúncia, o que inviabiliza a retroação pretendida pela agravante, porquanto a denúncia foi recebida antes da vigência da Lei n. 13.964/2019. Agravo regimental desprovido". (AgRg no REsp n. 1.977.203/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 6/6/2023, DJe de 12/6/2023.) Ante o exposto, com fundamento no art. 255, § 4º, III, do Regimento Interno do STJ, dou provimento ao recurso especial, para afastar a possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal na hipótese dos autos. Publique-se. Intimem-se. EMENTA