HC 933242 - DECISAO
Embora o habeas corpus substitutivo de recurso especial, em princípio, seja inadmissível, verificou-se alteração do enquadramento jurídico para tráfico privilegiado, o que reduz os patamares de pena e torna viável o ANPP; por isso, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar ao juízo...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: ARTHUR RENAN DE JESUS; Órgão Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina; Ministério Público: Ministério Público do Estado
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 August 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Especial / Decisão Monocrática Ordem Concedida De Ofício; Habeas Corpus Não Conhecido
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Entretanto, concedo a ordem de ofício para determinar ao juízo de origem que intime o Ministério Público do Estado para avaliar a possibilidade de oferecimento de Acordo de Não Persecução Penal ao paciente.
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal (anpp), Tráfico Privilegiado, Desclassificação Do Crime, Uso Do Habeas Corpus Como Sucedâneo De Recurso, Jurisprudência Pacífica E Julgamento Monocrático
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
ARTHUR RENAN DE JESUS
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina
Órgão Recorrido
Ministério Público do Estado
Ministério Público
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Especial / Decisão Monocrática Ordem Concedida De Ofício; Habeas Corpus Não Conhecido
Legal Issues
- 1 Cabimento do ANPP após alteração do enquadramento jurídico/desclassificação
- 2 Possibilidade de julgamento monocrático antes da oitiva do Ministério Público em casos de jurisprudência pacífica
- 3 Inadmissibilidade do habeas corpus como sucedâneo de recurso e exceções
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus substitutivo de recurso especial, em princípio, seja inadmissível, verificou-se alteração do enquadramento jurídico para tráfico privilegiado, o que reduz os patamares de pena e torna viável o ANPP; por isso, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar ao juízo de origem que intime o Ministério Público do Estado para avaliar a possibilidade de oferecimento do ANPP ao paciente.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Entretanto, concedo a ordem de ofício para determinar ao juízo de origem que intime o Ministério Público do Estado para avaliar a possibilidade de oferecimento de Acordo de Não Persecução Penal ao paciente.
Orders
- Determinar ao Juízo de origem que intime o Ministério Público do Estado para avaliar a possibilidade de oferecimento de Acordo de Não Persecução Penal ao paciente.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo de recurso especial, com pedido liminar, impetrado em favor de ARTHUR RENAN DE JESUS contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, proferido no julgamento da Apelação Criminal n. 5022894-79.2023.8.24.0018. O paciente foi inicialmente condenado a 4 (quatro) anos e 2 (dois) meses de reclusão, em regime inicial aberto, além do pagamento de 417 (quatrocentos e dezessete) dias-multa, pelo crime previsto no art. 33 da Lei de Drogas. O Tribunal de Justiça reformou a sentença e reduziu a sanção, fixando-a em 1 (um) ano e 8 (oito) meses de reclusão, mais 166 (cento e sessenta e seis) dias-multa. Neste habeas corpus, a defesa argumenta que, diante da reclassificação do delito imputado ao paciente, passou a ser viável o oferecimento de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP). Diante disso, requer, liminarmente, a suspensão dos efeitos da condenação e, no mérito, a concessão da ordem para converter o julgamento em diligência, a fim de determinar a intimação do Ministério Público na origem para oferecer acordo de não persecução penal ao Paciente. É o relatório. Decido. Diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, o Superior Tribunal de Justiça passou a acompanhar a orientação do Supremo Tribunal Federal, no sentido de ser inadmissível o emprego do writ como sucedâneo de recurso ou revisão criminal, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Assim, em princípio, incabível o presente habeas corpus substitutivo do recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, tem se admitido o exame da insurgência, para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela concessão da ordem, de ofício. Registro, no mais, que as disposições previstas no art. 64, inciso III, e no art. 202, ambos do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, bem como no art. 1º do Decreto-Lei n. 552/1969, não impedem o relator de decidir liminarmente o mérito do habeas corpus e do recurso em habeas corpus, nas hipóteses em que a pretensão se conformar com súmula ou com jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contrariar. De fato, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Assim, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). No caso, no julgamento do AgRg no REsp 2.016.905/SP, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, sob a relatoria do Ministro Messod Azulay Neto, estabeleceu uma distinção importante relacionada à aplicação do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP). Conforme o entendimento firmado pela Turma, nos casos em que ocorre a alteração do enquadramento jurídico ou da desclassificação do delito, é possível aplicar o ANPP, desde que preenchidos os requisitos legais exigidos para esse instituto negocial. Colaciono a ementa do acórdão paradigma: PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL (ANPP). ART. 28-A DO CPP. PROCEDÊNCIA PARCIAL DA PRETENSÃO PUNITIVA. ALTERAÇÃO DO QUADRO FÁTICO JURÍDICO. NOVO PATAMAR DE APENAMENTO. CABIMENTO DO ANPP. RECONSIDERAÇÃO DA DECISÃO AGRAVADA. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO. I - É cabível o acordo de não persecução penal na procedência parcial da pretensão punitiva. II - No caso em tela, o e. Tribunal a quo, ao julgar o recurso de apelação interposto pela Defesa, deu-lhe parcial provimento, a fim de reconhecer a continuidade delitiva entre os crimes de falsidade ideológica (CP, art. 299), tornando, assim, objetivamente viável a realização do acordo de não persecução penal, em razão do novo patamar de apenamento - pena mínima cominada inferior a 4 (quatro) anos. Houve, portanto, uma relevante alteração do quadro fático jurídico, tornando-se potencialmente cabível o ANPP. III - Assim, nos casos em que houver a modificação do quadro fático jurídico, como no caso em questão, e ainda em situações em que houver a desclassificação do delito - seja por emendatio ou mutatio libelli -, uma vez preenchidos os requisitos legais exigidos para o ANPP, torna-se cabível o instituto negocial. Agravo regimental provido." (AgRg no REsp n. 2.016.905/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 7/3/2023, DJe de 14/4/2023.) No precedente estabelecido pela Quinta Turma, aplicou-se, com as devidas adaptações e modificações aplicáveis ao caso, a similitude para a aplicação da Súmula 337/STJ, in verbis: "É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e procedência parcial da pretensão punitiva". O raciocínio jurídico segue a mesma linha indicada nesse precedente com base na referida súmula, em que, caso ocorra a desclassificação da imputação para outra infração que admite benefícios despenalizadores do art. 89, caput, da Lei 9.099/1995, o procedimento correto é que os autos do processo retornem à instância de origem para que tais institutos sejam aplicados. Na espécie, nota-se uma alteração no enquadramento jurídico em decorrência do reconhecimento do tráfico privilegiado. Desse modo, reconhecida a aplicação da minorante do tráfico privilegiado, os patamares abstratos de pena estabelecidos na lei situam-se dentro do limite de 4 anos para a pena mínima, previsto no art. 28-A do CPP, o que possibilita o oferecimento do ANPP. Nesse sentido: PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. TRÁFICO DE DROGAS. ART. 33, § 4º, DA LEI 11.343/2006. POSSIBILIDADE DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL (ANPP). DESCRIÇÃO DOS FATOS NA DENÚNCIA. DESNECESSIDADE. EXCESSO DE ACUSAÇÃO (OVERCHARGING) NÃO DEVE PREJUDICAR O ACUSADO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. No precedente do AgRg no REsp 2.016.905/SP, a Quinta Turma do STJ estabeleceu que, em casos de alteração do enquadramento jurídico ou desclassificação do delito, é possível aplicar o ANPP, desde que preenchidos os requisitos legais. Esse precedente reconheceu a aplicação adaptada da Súmula 337/STJ, que prevê ser cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e procedência parcial da pretensão punitiva. 2. Foi constatado um equívoco na descrição dos fatos narrados para a imputação do art. 33, caput, da Lei 11.343/2006 (tráfico de drogas) ao acusado. Isto posto, é necessário que o processo retorne à sua origem para avaliar a possibilidade de propositura do ANPP, independentemente das consequências jurídicas da aplicação da minorante do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006 (tráfico privilegiado) na dosimetria da pena, ou seja, para reduzir a pena. 3. Uma vez reconhecida a aplicação da minorante do tráfico privilegiado, os patamares abstratos de pena estabelecidos na lei situam-se dentro do limite de 4 anos para a pena mínima, previsto no art. 28-A do CPP. Além disso, com a aplicação da minorante neste STJ, o acusado tem direito ao ANPP, mesmo se o Parquet tiver descrito os fatos na denúncia de maneira imperfeita, pois o excesso de acusação (overcharging) não deve prejudicar o acusado. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp n. 2.098.985/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 26/2/2024, DJe de 28/2/2024.) Assim, constatada a mudança do tipo penal estabelecido na denúncia com a desclassificação da conduta, necessário que o processo retorne à sua origem a fim de que se avalie a propositura do ANPP. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. Entretanto, concedo a ordem de ofício para determinar ao Juízo de origem, diante da desclassificação da conduta imputada ao paciente (tráfico privilegiado), intime o Ministério Público do Estado, a fim de que avalie a possibilidade de oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal. Intimem-se. EMENTA