HC 911236 - DECISAO
Concedeu-se parcialmente o habeas corpus para reconhecer a atenuante da confissão espontânea, compensá-la com a agravante do motivo fútil e redimensionar a pena, fixando-a em 4 anos de reclusão e 13 dias-multa e regime inicial aberto; manteve-se o entendimento de que não há direito automático ao ANPP, por se tratar...
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- Parties
- Paciente: Célio Pereira; Órgão Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 July 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Concessão Parcial Da Ordem
- Outcome
- concedido parcialmente
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal (anpp), Agravante Motivo Fútil, Atenuante Da Confissão Espontânea, Dosimetria Da Pena, Regime Inicial De Cumprimento De Pena, Cabimento Do Habeas Corpus Como Sucedâneo De Recurso
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Parties
Célio Pereira
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina
Órgão Recorrido
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Concessão Parcial Da Ordem
Legal Issues
- 1 direito do investigado ao oferecimento de ANPP
- 2 fundamentação da aplicação da agravante do motivo fútil
- 3 reconhecimento e compensação da atenuante da confissão espontânea
Ratio Decidendi
Concedeu-se parcialmente o habeas corpus para reconhecer a atenuante da confissão espontânea, compensá-la com a agravante do motivo fútil e redimensionar a pena, fixando-a em 4 anos de reclusão e 13 dias-multa e regime inicial aberto; manteve-se o entendimento de que não há direito automático ao ANPP, por se tratar de faculdade do Ministério Público que, no caso, mostrou fundamentação para não oferecê-lo por razões temporais (denúncia já recebida antes da vigência da Lei n.13.964/2019) e por ausência de requisitos subjetivos.
Court Disposition
concedido parcialmente
Orders
- reduzida a pena definitiva para 04 (quatro) anos de reclusão e 13 (treze) dias-multa
- fixado o regime inicial de cumprimento de pena em regime aberto
Full Case Text
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2 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA, na Apelação Criminal n. 0001813-47.2019.8.24.0036. Extrai-se dos autos que o paciente foi condenado, em primeiro grau, às penas de 04 (quatro) anos e 08 (oito) meses de reclusão, em regime semiaberto, e ao pagamento de 14 (catorze) dias-multa por infração do art. 250, § 1º, II, "a", c/c o art. 61, II, "a", ambos do Código Penal. Em segunda instância, o Tribunal de origem negou provimento ao recurso de apelação interposto pela Defesa (fls. 43-49). No presente writ, o impetrante sustenta a existência de direito ao oferecimento de acordo de não persecução penal (ANPP), porquanto preenchidos todos os requisitos. Alega ausência de fundamentação idônea para justificar a incidência da agravante do motivo fútil. Defende o reconhecimento da atenuante da confissão espontânea, aduzindo ser necessária sua compensação integral com a agravante já reconhecida. Requer, liminarmente, a concessão da ordem para que sejam suspensos os efeitos da condenação até o julgamento final do writ. No mérito, pugna para que seja oferecido o acordo de não persecução penal e a pena redimensionada nos termos delineados na impetração. O pedido liminar foi indeferido às fls. 329-330. Informações prestadas às fls. 339-340. Parecer do MPF às fls. 345-354, pelo não conhecimento do writ. É o relatório. DECIDO. Inicialmente, pontuo que esta Corte Superior, seguindo o entendimento da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (AgRg no HC n. 180.365, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/3/2020, e AgR no HC n. 147.210, Segunda Turma, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 30/10/2018), pacificou orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado (HC n. 535.063/SP, Terceira Seção, Rel. Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/06/2020). Na espécie, embora o impetrante não tenha adotado a via processual adequada, cumpre analisar a existência de eventual ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, a fim de evitar prejuízo à sua defesa. Passo, assim, ao exame das razões deste writ. O Tribunal de origem, ao negar provimento à apelação criminal, consignou o seguinte (fls. 43-49): Ab initio, busca a defesa o oferecimento de acordo de não persecução criminal. Contudo, razão não lhe assiste. Com efeito, o art. 28-A, § 2º, do Código de Processo Penal dispõe que: Art. 28-A. Não sendo caso de arquivamento e tendo o investigado confessado formal e circunstancialmente a prática de infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições ajustadas cumulativa e alternativamente: .. § 2º O disposto no caput deste artigo não se aplica nas seguintes hipóteses: I - se for cabível transação penal de competência dos Juizados Especiais Criminais, nos termos da lei; II - se o investigado for reincidente ou se houver elementos probatórios que indiquem conduta criminal habitual, reiterada ou profissional, exceto se insignificantes as infrações penais pretéritas; In casu, o recorrente refuta a prática da atividade criminosa que lhe é atribuída, de modo que, sem delongas, não há viabilidade na tese. Não fosse isso bastante, este Órgão Fracionário possui entendimento firmado no sentido de que "a proposição do acordo de não persecução penal se dá na fase investigativa, em que o representante do Ministério Público, após apreciar as provas constantes do caderno indiciário e a realização de diligências que por ventura entender necessárias, poderá propor o referido acordo, evitando-se, assim, a instauração da persecutio criminis injudicio" (TJSC, Habeas Corpus Criminal n. 5040260-93.2020.8.24.0000, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, rel. Alexandre d"Ivanenko, Quarta Câmara Criminal, j. 17-12-2020). (..) A propósito, assim o representante do Ministério Público rebateu a benesse postulada: Preliminarmente, a Defesa postula pelo oferecimento de Acordo de Não Persecução Penal ao apelante, pois preenchidos os requisitos para tanto. Primeiro, saliento que o Ministério Público não ofereceu o Acordo de Não Persecução Penal ao apelante, uma vez a denúncia já havia sido oferecida (29.04.2019) e recebida (03.05.2019) quando da promulgação e vigência da Lei n. 13.964, de 24.12.2019, a qual inseriu o instituto do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) no Código de Processo Penal. Assim, o pedido não se justifica pois o objetivo do ANPP é justamente impedir o início da Ação Penal. No mais, verifica-se que o apelante alterou a versão dada na fase indiciária, negando que tivesse intenção de incendiar a casa da vítima, de forma que não preenchido o requisito da confissão formal e circunstancial da prática do crime, previsto no caput do art. 28-A do CPP, demonstrando-se, assim, que o referido acordo não seria suficiente para reprovação e prevenção do crime. Aliás, a Defesa, nas presentes razões de apelação, postula a absolvição do apelante alegando que não há provas suficientes de que ele cometeu o crime ou que tenha agido com dolo. Sendo assim, inviável o pedido da Defesa, porquanto o apelante, além de não preencher os requisitos legais, não confessou, tendo a denúncia já sido recebida quando da análise do oferecimento da benesse. (..) Pertinente a agravante do art. 61, II, "a", do Código Penal, cujo afastamento é requerido pela defesa, as provas produzidas nos autos evidencia, estreme de dúvidas, o motivo fútil ou torpe, "por ter o réu ateado fogo na residência da vítima por causa de uma dívida envolvendo um empréstimo de uma maquita" ( evento 101, SENT1). O acordo de não persecução penal não constitui direito subjetivo do investigado, podendo ser proposto pelo Ministério Público conforme as peculiaridades do caso concreto e quando considerado necessário e suficiente para a reprovação e a prevenção da infração penal (AgRg nos EDcl no RHC n. 169.649/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 26/02/2024, DJe de 29/02/2024). Ademais, conforme consignado no acórdão recorrido, o representante do Ministério Público não ofereceu o acordo de não persecução penal porque a denúncia já havia sido oferecida e recebida quando da promulgação da Lei n. 13.964/2019 (fl. 44): Primeiro, saliento que o Ministério Público não ofereceu o Acordo de Não Persecução Penal ao apelante, uma vez a denúncia já havia sido oferecida (29.04.2019) e recebida (03.05.2019) quando da promulgação e vigência da Lei n. 13.964, de 24.12.2019, a qual inseriu o instituto do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) no Código de Processo Penal. Assim, o pedido não se justifica pois o objetivo do ANPP é justamente impedir o início da Ação Penal. No mais, verifica-se que o apelante alterou a versão dada na fase indiciária, negando que tivesse intenção de incendiar a casa da vítima, de forma que não preenchido o requisito da confissão formal e circunstancial da prática do crime, previsto no caput do art. 28-A do CPP, demonstrando-se, assim, que o referido acordo não seria suficiente para reprovação e prevenção do crime. Assim, estando bem fundamentado o critério subjetivo, o Poder Judiciário, que não detém atribuição para participar de negociações na seara investigatória, não pode impor ao Ministério Público a obrigação de ofertar acordo de não persecução penal. Nesse sentido: HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS. ALEGADA NULIDADE EM RAZÃO DA AUSÊNCIA DE OFERTA DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENA E RECUSA DE ENVIO À PGJ. RECUSA DEVIDAMENTE JUSTIFICADA PELO PARQUET. ANUÊNCIA DO MAGISTRADO. PROPOSTA DE REVISÃO REQUERIDA A DESTEMPO PELA DEFESA. DOSIMETRIA DA PENA. MODIFICAÇÃO DO REGIME PRISIONAL PARA O ABERTO. IMPOSSIBILIDADE. QUANTIDADE E VARIEDADE DOS ENTORPECENTES APREENDIDOS. PRECEDENTES. WRIT NÃO CONHECIDO. 1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício. Precedentes: STF, HC 147.210-AgR, Rel. Ministro EDSON FACHIN, DJe de 20/2/2020; HC 180.365AgR, Relatora Ministra ROSA WEBER, DJe de 27/3/2020; HC 170.180-AgR, Relatora Ministra CARMEM LÚCIA, DJe de 3/6/2020; HC 169174-AgR, Relatora Ministra ROSA WEBER, DJe de 11/11/2019; HC 172.308-AgR, Rel. Ministro LUIZ FUX, DJe de 17/9/2019 e HC 174184-AgRg, Rel. Ministro LUIZ FUX, DJe de 25/10/2019. STJ: HC 563.063-SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Terceira Seção, julgado em 10/6/2020; HC 323.409/RJ, Rel. p/ acórdão Ministro FÉLIX FISCHER, Terceira Seção, julgado em 28/2/2018, DJe de 8/3/2018; HC 381.248/MG, Rel. p/ acórdão Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Terceira Seção , julgado em 22/02/2018, DJe de 3/4/2018. 2. O acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do Código de Processo Penal, consiste em um negócio jurídico pré-processual entre o Ministério Público e o investigado, juntamente com seu defensor, como alternativa à propositura de ação penal para certos tipos de crimes, principalmente no momento presente, em que se faz necessária a otimização dos recursos públicos. Com efeito, o membro do Ministério Público, ao se deparar com os autos de um inquérito policial, a par de verificar a existência de indícios de autoria e materialidade, deverá ainda analisar o preenchimento dos requisitos autorizadores da celebração do ANPP, os quais estão expressamente previstos no Código de Processo Penal: 1) confissão formal e circunstancial; 2) infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos; e 3) que a medida seja necessária e suficiente para reprovação e prevenção do crime. 3. Inexiste nulidade na recusa do oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal quando o representante do Ministério Público, de forma fundamentada, constata a ausência dos requisitos subjetivos legais necessários à elaboração do acordo, de modo que este não atenderia aos critérios de necessidade e suficiência em face do caso concreto. 4. Conforme o acórdão ora impugnado, o requerimento de revisão do não oferecimento de proposta do ANPP, para fins de análise do órgão superior do Ministério Público local, ocorreu a destempo pela defesa, deixando que a instrução criminal fluísse regularmente. 5. Esta Corte Superior possui jurisprudência no sentido de que a quantidade e a qualidade da droga apreendida podem ser utilizadas como fundamento para a determinação da fração de redução da pena com base no art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/2006, a fixação do regime mais gravoso e a vedação à substituição da sanção privativa de liberdade por restritiva de direitos. 6. No caso, embora estabelecida a pena definitiva em 2 anos e 6 meses de reclusão, a quantidade e a diversidade de entorpecentes apreendidos (62 porções de cocaína, contendo 55,63g; 04 pedras de crack, contendo 0,41g; e 63 porções de "maconha", contendo 132,64g) , utilizadas na escolha do patamar de diminuição do benefício do art. 33, §4º, da Lei n. 11.343/2006, justificam a imposição de regime prisional mais gravoso, o semiaberto, em razão da quantidade, variedade e natureza dos entorpecentes apreendidos. 7. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 612.449/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 22/9/2020, DJe de 28/9/2020.) (destacamos) (..) Não cabe ao Poder Judiciário imiscuir-se nos motivos elencados pelo Parquet para negar o benefício em razão da ausência do pressuposto subjetivo e determinar a sua realização (AgRg no RHC n. 181.130/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 14/08/2023, DJe de 21/08/2023). Desse modo, inexiste nulidade evidente na recusa do oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal quando o representante do Ministério Público, de forma fundamentada, constata a ausência dos requisitos legais necessários para a elaboração do acordo, de modo que este não atenderia aos critérios de necessidade e suficiência em face do caso concreto. Quanto ao reconhecimento da agravante do motivo fútil, de acordo com o entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça, A dosimetria da pena insere-se dentro de um juízo de discricionariedade do julgador, atrelado às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas do agente, somente passível de revisão por esta Corte no caso de inobservância dos parâmetros legais ou de flagrante desproporcionalidade (AgRg no HC 710.060/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe de 17/12/2021). No caso dos autos, como bem assentou o Tribunal de origem, a agravante foi reconhecida assente nas características do caso concreto, haja vista as instâncias ordinárias terem considerado motivo fútil o fato de o fogo ter sido ateado na residência da vítima por causa de uma dívida envolvendo um empréstimo de uma maquita. Desse modo, observa-se que foi apresentada fundamentação idônea e suficiente para justificar a aplicação da agravante do motivo fútil, não havendo falar em constrangimento ilegal apto a justificar a revisão da dosimetria. Ademais, afastar a conclusão adotada pelas instâncias pretéritas demandaria o amplo revolvimento do conjunto fático-probatório dos autos, providência vedada no âmbito do habeas corpus. Nesse sentido: HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. NÃO CABIMENTO. CRIME DE EXTORSÃO. FEITO DE ORIGEM TRANSITADO EM JULGADO. REQUISITOS DA REVISÃO CRIMINAL NÃO PREENCHIDOS. ABSOLVIÇÃO. PROVAS JUDICIALIZADAS DE AUTORIA E MATERIALIDADE. TESE DE NULIDADE. DEFICIÊNCIA DE DEFESA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. NO MAIS, AMPLO REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE DE NOVA REVISÃO CRIMINAL POR MEIO DE WRIT. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. I - A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do col. Pretório Excelso, firmou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição ao recurso adequado, situação que implica o não conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que, configurada flagrante ilegalidade, seja possível a concessão da ordem de ofício. II - Primeiramente, tem-se que o feito principal já transitou em julgado. Contudo, conforme se apreende, o que se verifica é que sequer os pleitos defensivos se enquadravam nos requisitos da revisão criminal. Acerca da suposta prova nova, o v. acórdão foi expresso ao indicar que a sua produção não havia se encerrado quando da propositura da revisão criminal, além de também não ter sido juntada apropriadamente aos autos na origem. III - Assentado pela eg. Corte de origem que existiu sim um efetivo caderno probatório apto a confirmar a autoria e materialidade do delito pelo qual o paciente foi condenado com trânsito em julgado ainda em 2020. Foram especialmente os depoimentos uníssonos da vítima, dos policiais e do réu colaborador, tanto em sede inquisitiva, quanto em sede judicial, que embasaram a condenação imposta. Vale ressaltar que o paciente foi preso em flagrante no momento em que recebia o pagamento da segunda extorsão praticada. Tudo do que não se extrai qualquer flagrante ilegalidade. IV - De qualquer forma, nesse contexto, tendo ainda em vista que a condenação transitou em julgado alguns anos antes, esta Corte Superior também entende pela preclusão da matéria, levando em conta o princípio da lealdade processual e do respeito à coisa julgada (segurança jurídica), mesmo em se tratando de alegada nulidade absoluta. Veja-se: "a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça - STJ, em respeito à segurança jurídica e a lealdade processual, tem se orientado no sentido de que mesmo as nulidades denominadas absolutas, ou qualquer outra falha ocorrida no acórdão impugnado, também devem ser arguidas em momento oportuno, sujeitando-se à preclusão temporal" (AgRg nos EDcl no HC n. 705.154/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, DJe de 10/12/2021). V - Sobre a nulidade invocada, o entendimento consagrado na Súmula n. 523 do STF ("No processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu") se aplica in casu, pois não demonstrada a ausência de defesa anterior, apresentando aqui a d. Defesa apenas teses novas, porém, a destempo. Com efeito, tem-se ainda que não houve manifestação colegiada prévia do eg. Tribunal de origem, mesmo em sede de revisão criminal, acerca do suposto cerceamento de defesa pela alegada deficiência do patrono anterior. VI - Ao fim, importante esclarecer a impossibilidade de se percorrer todo o acervo fático-probatório nesta via estreita do writ, como forma de desconstituir as conclusões das instâncias ordinárias, soberanas na análise dos fatos e provas, providência inviável de ser realizada dentro dos estreitos limites do habeas corpus, que não admite dilação probatória e o aprofundado exame do acervo da ação penal. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 719.831/MS, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Quinta Turma, julgado em 29/3/2022, DJe de 4/4/2022; grifamos). AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ROUBO QUALIFICADO (LESÃO CORPORAL DE NATUREZA GRAVE) E ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA ARMADA. WRIT SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL NÃO CONHECIDO. NULIDADES. CERCEAMENTO DE DEFESA. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. PLEITO ABSOLUTÓRIO. CONDENAÇÃO BASEADA NA CHAMADA DE CORRÉUS. DESACOLHIMENTO. INDICAÇÃO DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA. INEVIDÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. 1. Acerca da impossibilidade de impetração de writ como sucedâneo de meio próprio, quando já transitada em julgado a condenação do réu, este Superior Tribunal, em diversas ocasiões, já se pronunciou no sentido de que não deve ser conhecido o writ que se volta contra acórdão condenatório já transitado, manejado com substitutivo de revisão criminal, em hipótese na qual não houve inauguração da competência desta Corte (HC n. 730.555/SC, Ministro Olindo Menezes, Desembargador Convocado do TRF 1ª Região, Sexta Turma, DJe 15/8/2022). 2. Não há como acolher as alegações de nulidade do processo crime, por violação ao princípio da ampla defesa, quando o réu é devidamente assistido em todas as fases processuais. 3. Inviável a análise do pleito absolutório na via estreita do habeas corpus, em especial na hipótese em que as instâncias anteriores apoiaram o juízo condenatório no depoimento judicial de policiais e delegado, ratificando a delação dos corréus, elementos esses que levaram à conclusão de que não há qualquer dúvida de que o bando, quando arquitetou o assalto ao carro-forte, também planejou e executou outros crimes periféricos, tudo com o fim de obter êxito no assalto, como, por exemplo, a aquisição, transporte, quiçá contrabando de arma de fogo de grosso calibre e de uso restrito das forças armadas, etc. (fl.3.405) 4. Agravo regimental improvido (AgRg no HC n. 702.157/MG, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 24/04/2023, DJe de 02/05/2023). Quanto ao reconhecimento da atenuante da confissão espontânea, assiste razão ao impetrante. De fato, consta dos autos que o paciente confessou perante a autoridade policial, conforme se extrai do seguinte trecho do acórdão (fl. 46): o réu Célio Pereira refutou a acusação delitiva que lhe é irrogada, embora na sede policial tenha confirmado a autoria delitiva: Na sede policial: .. colocou fogo na residência da vítima porque ela estava lhe devendo o pagamento por uma maquita que ele teria vendido para ela. Afirmou que "tomou um gole" e colocou fogo no imóvel utilizando álcool, tendo entrado na residência pela janela (mídia do evento 3 dos autos de IP n. 0001813-47.2019.8.24.0036, conforme evento evento 101, SENT1).
De acordo com o entendimento consolidado no Superior Tribunal de Justiça, deve ser reconhecida a atenuante prevista no art. 65, inciso III, alínea "d", do Código Penal, mesmo nas hipóteses de confissão informal, extrajudicial, parcial ou qualificada. Ademais, segundo a atual orientação desta Corte, firmada a partir do julgamento do REsp n. 1.972.098/SC, uma vez confessada a prática delitiva, impõe-se a redução da pena, independentemente de a confissão ter sido utilizada pelo Juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória . Eis a ementa do referido julgado: PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. ROUBO. INTERPRETAÇÃO DA SÚMULA 545/STJ. PRETENDIDO AFASTAMENTO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO, QUANDO NÃO UTILIZADA PARA FUNDAMENTAR A SENTENÇA CONDENATÓRIA. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE, ISONOMIA E INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. INTERPRETAÇÃO DO ART. 65, III, "D", DO CP. PROTEÇÃO DA CONFIANÇA (VERTRAUENSSCHUTZ) QUE O RÉU, DE BOA-FÉ, DEPOSITA NO SISTEMA JURÍDICO AO OPTAR PELA CONFISSÃO. PROPOSTA DE ALTERAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. O Ministério Público, neste recurso especial, sugere uma interpretação a contrario sensu da Súmula 545/STJ para concluir que, quando a confissão não for utilizada como um dos fundamentos da sentença condenatória, o réu, mesmo tendo confessado, não fará jus à atenuante respectiva. 2. Tal compreensão, embora esteja presente em alguns julgados recentes desta Corte Superior, não encontra amparo em nenhum dos precedentes geradores da Súmula 545/STJ. Estes precedentes instituíram para o réu a garantia de que a atenuante incide mesmo nos casos de confissão qualificada, parcial, extrajudicial, retratada, etc. Nenhum deles, porém, ordenou a exclusão da atenuante quando a confissão não for empregada na motivação da sentença, até porque esse tema não foi apreciado quando da formação do enunciado sumular. 3. O art. 65, III, "d", do CP não exige, para sua incidência, que a confissão do réu tenha sido empregada na sentença como uma das razões da condenação. Com efeito, o direito subjetivo à atenuação da pena surge quando o réu confessa (momento constitutivo), e não quando o juiz cita sua confissão na fundamentação da sentença condenatória (momento meramente declaratório). 4. Viola o princípio da legalidade condicionar a atenuação da pena à citação expressa da confissão na sentença como razão decisória, mormente porque o direito subjetivo e preexistente do réu não pode ficar disponível ao arbítrio do julgador. 5. Essa restrição ofende também os princípios da isonomia e da individualização da pena, por permitir que réus em situações processuais idênticas recebam respostas divergentes do Judiciário, caso a sentença condenatória de um deles elenque a confissão como um dos pilares da condenação e a outra não o faça. 6. Ao contrário da colaboração e da delação premiadas, a atenuante da confissão não se fundamenta nos efeitos ou facilidades que a admissão dos fatos pelo réu eventualmente traga para a apuração do crime (dimensão prática), mas sim no senso de responsabilidade pessoal do acusado, que é característica de sua personalidade, na forma do art. 67 do CP (dimensão psíquico-moral). 7. Consequentemente, a existência de outras provas da culpabilidade do acusado, e mesmo eventual prisão em flagrante, não autorizam o julgador a recusar a atenuação da pena, em especial porque a confissão, enquanto espécie sui generis de prova, corrobora objetivamente as demais. 8. O sistema jurídico precisa proteger a confiança depositada de boa-fé pelo acusado na legislação penal, tutelando sua expectativa legítima e induzida pela própria lei quanto à atenuação da pena. A decisão pela confissão, afinal, é ponderada pelo réu considerando o trade-off entre a diminuição de suas chances de absolvição e a expectativa de redução da reprimenda. 9. É contraditória e viola a boa-fé objetiva a postura do Estado em garantir a atenuação da pena pela confissão, na via legislativa, a fim de estimular que acusados confessem; para depois desconsiderá-la no processo judicial, valendo-se de requisitos não previstos em lei. 10. Por tudo isso, o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver confessado a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória. 11. Recurso especial desprovido, com a adoção da seguinte tese: "o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver admitido a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada" (REsp n. 1.972.098/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/06/2022, DJe de 20/06/2022; grifamos). Fixadas essas premissas, passo a redimensionar as penas do paciente: Na primeira fase, mantenho a pena-base no mínimo legal, totalizando 03 (três) anos de reclusão e 10 (dez) dias-multa. Na segunda etapa, compenso a agravante prevista no art. 61, inc. II, "a", do Código Penal (motivo fútil) com atenuante da confissão espontânea, restando a pena intermediária fixada em 03 (três) anos de reclusão e 10 (dez) dias-multa. Na terceira fase, presente a causa de aumento insculpida no art. 250, § 1º, II, "a", do Código Penal, considerando tratar-se de residência destinada a habitação e ausentes causas de diminuição de pena. Assim, aumento a pena em 1/3 (um terço) e fixo-a definitivamente em 04 (quatro) anos de reclusão e 13 (treze) dias-multa, no mínimo legal. A respeito do regime inicial de cumprimento de pena, fixo o regime carcerário inicial aberto, tendo em vista o preenchimento dos requisitos constantes do art. 33, §2º, "c", e §3º, c/c o art. 59 do CP, quais sejam, a ausência de reincidência, a condenação por um período igual a 04 (quatro) anos e a inexistência de circunstâncias judiciais desfavoráveis. Cabível a substituição por penas restritivas de direitos, cujos termos e destinatários deverão ser definidos pelo Juízo da Execução. Oficie-se, com urgência, ao Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina e ao Juízo de primeira instância, comunicando-lhes o inteiro teor da presente decisão. Ante o exposto, concedo parcialmente a habeas corpus. Publique-se e intimem-se. EMENTA