REsp 2141358 - DECISAO
O recurso especial foi provido porque, à luz da evolução jurisprudencial do STF sobre a aplicabilidade do art. 28-A do CPP em casos transientes, impõe-se remeter os autos à origem para que o Ministério Público Federal se manifeste, de forma fundamentada, sobre o interesse em celebrar o acordo de não persecução...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: Cleonildo; Recorrido: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 July 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial (penal) / Decisão Colegiada Provimento Do Recurso Especial E Determinação De Remessa À Origem
- Outcome
- Recurso especial provido
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal (anpp), Art. 28 a Do CPP, Retroatividade Penal Benéfica, Recebimento Da Denúncia, Prequestionamento
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
Cleonildo
Recorrente
Ministério Público Federal
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial (penal) / Decisão Colegiada Provimento Do Recurso Especial E Determinação De Remessa À Origem
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do art. 28-A do Código de Processo Penal (ANPP) a fatos anteriores à Lei nº 13.964/2019
- 2 Efeito do recebimento da denúncia sobre a viabilidade do ANPP
- 3 Obrigação ou possibilidade de o Ministério Público propor ANPP após decisão de instância superior
Ratio Decidendi
O recurso especial foi provido porque, à luz da evolução jurisprudencial do STF sobre a aplicabilidade do art. 28-A do CPP em casos transientes, impõe-se remeter os autos à origem para que o Ministério Público Federal se manifeste, de forma fundamentada, sobre o interesse em celebrar o acordo de não persecução penal, possibilitando a adoção de solução menos gravosa e mais célere quando não há óbice processual definitivo à sua proposição.
Court Disposition
Recurso especial provido
Orders
- Determinar a remessa dos autos à origem para que o Ministério Público Federal se manifeste, de forma fundamentada, sobre o interesse em celebrar acordo de não persecução penal (art. 28-A do CPP)
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Considerando o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples (CNJ/Recomendação nº 144/2023 e CNJ/Resolução nº 376/2021), adoto o relatório de fl. 415 (e-STJ): "Trata-se de apelação interposta por Cleonildo, por intermédio da Defensoria Pública da União (DPU), em face da sentença proferida pela 2ª Vara Federal de Dourados/M Sque o condenou a 2 anos de reclusão, em regime inicial aberto, e 10 (dez) dias-multa, no valor unitário mínimo legal, pela prática do crime previsto no art. 15 da Lei 7.802/98. A 11ª Turma desse Tribunal Regional Federal da 3ª Região, conforme acórdão ID278383587, deu parcial provimento ao apelo, apenas para reduzir a prestação pecuniária ao valor mínimo legal. A Defensoria opôs embargos de declaração, que restaram rejeitados pelo acórdão ID282218212. Ocorre que o acórdão negou vigência ao disposto no artigo 28-A do Código de Processo Penal, o que autoriza a interposição do presente recurso especial, como se passa a demonstrar. É o relatório necessário." . Decido. O recurso especial é tempestivo e cabível, pois interposto em face de decisão que deu provimento ao recurso de apelação interposto na origem (art. 105, III, "a", da Constituição Federal). Saliente-se também que houve indicação expressa das alíneas com base na qual foi interposto, uma vez que sua ausência importaria o seu não conhecimento e a petição está devidamente assinada. Foram também preenchidas as condições da ação, consistentes na legitimidade recursal, possibilidade jurídica do pedido e interesse em recorrer. O recurso interposto rebateu o fundamento apresentado na decisão recorrida, motivo pelo qual deve ser conhecido. No mérito, o recurso merece ser provido. Sobre a concessão do ANPP o Tribunal local decidiu: "O embargante pretende seja proposto ANPP, com base no art. 28-A doCódigo de Processo Penal, introduzido pela Lei nº 13.964/2019. Para tanto, afirma queas condições objetivas para o acordo estariam presentes. Sem razão, contudo. O ANPP não é cabível para fatos anteriores ao início da vigência da Lei nº13.964, de 24 de dezembro de 2019, depois que houve o recebimento da denúncia e,no caso, a denúncia foi recebida em 23.01.2019 (ID 175157623, pp. 17/19). É nessesentido o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF):Direito penal e processual penal. Agravo regimental em habeas corpus. Acordo denão persecução penal (art. 28-A do CPP). Retroatividade até o recebimento dadenúncia.1. A Lei nº 13.964/2019, no ponto em que institui o acordo de não persecução penal(ANPP), é considerada lei penal de natureza híbrida, admitindo conformação entre aretroatividade penal benéfica e o tempus regit actum.2. O ANPP se esgota na etapa pré-processual, sobretudo porque a consequênciada sua recusa, sua não homologação ou seu descumprimento é inaugurar a fase deoferecimento e de recebimento da denúncia.3. O recebimento da denúncia encerra a etapa pré-processual, devendo serconsiderados válidos os atos praticados em conformidade com a lei então vigente. Dessa forma, a retroatividade penal benéfica incide para permitir que o ANPP sejaviabilizado a fatos anteriores à Lei nº 13.964/2019, desde que não recebida adenúncia.4. Na hipótese concreta, ao tempo da entrada em vigor da Lei nº 13.964/2019, haviasentença penal condenatória e sua confirmação em sede recursal, o que inviabilizarestaurar fase da persecução penal já encerrada para admitir-se o ANPP.5. Agravo regimental a que se nega provimento com a fixação da seguinte tese: "oacordo de não persecução penal (ANPP) aplica-se a fatos ocorridos antes da Lei nº13.964/2019, desde que não recebida a denúncia".(HC 191.464/SC, Primeira Turma, Rel. Min. Roberto Barroso, j. 11.11.2020,DJe-280, Publicação 26.11.2020) (..) Portanto, não há omissão no acórdão, pois, no caso examinado, já houvecondenação, que foi confirmada em segundo grau de jurisdição, o que torna impossívela aplicação do benefício. Verifica-se que o embargante, a pretexto de suprir omissão e preencher orequisito de prequestionamento da matéria, pretende a rediscussão das provas queembasaram sua condenação, o que não se coaduna com as finalidades desse recurso,valendo ressaltar que é desnecessária a oposição de embargos de declaração para finsde prequestionamento, pois todas as questões submetidas ao crivo do Poder Judiciárioforam examinadas. O Superior Tribunal de Justiça orienta que " o s embargos de declaraçãosão cabíveis somente nas hipóteses de obscuridade, contradição ou omissão ocorridasno acórdão embargado, sendo inadmissíveis quando, a pretexto da necessidade deesclarecimento, aprimoramento ou complemento da decisão embargada, objetivemnovo julgamento do caso" (EDcl no AgRg no HC 313105/MG, Sexta Turma, Rel. Min.Rogerio Schietti Cruz, j. 22.09.2015, DJe 13.10.2015). Posto isso, os embargos de declaração. REJEITO É o voto." A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que o acordo de não persecução penal incide aos fatos ocorridos antes da entrada em vigor da Lei nº 13.964/2019, desde que não tenha havido o recebimento da denúncia (AgRg no REsp n. 2.002.447/AL e AgRg no HC 688.022/MS) Contudo, em recente precedente o Supremo Tribunal Federal entendeu em sentido diverso: "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. CONTRABANDO. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. INVIABILIDADE. 1. As condições descritas em lei são requisitos necessários para o oferecimento do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), importante instrumento de política criminal dentro da nova realidade do sistema acusatório brasileiro. Entretanto, não obriga o Ministério Público, nem tampouco garante ao acusado verdadeiro direito subjetivo em realizá-lo. Simplesmente, permite ao Parquet a opção, devidamente fundamentada, entre denunciar ou realizar o acordo, a partir da estratégia de política criminal adotada pela Instituição. 2. O art. 28-A do Código de Processo Penal, alterado pela Lei 13.964/2019, foi muito claro nesse aspecto, estabelecendo que o Ministério Público "poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições". 3. A finalidade do ANPP é evitar que se inicie o processo, não havendo lógica em se discutir a composição depois da condenação, como pretende a defesa (cf. HC 199950, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, DJe de 18/6/2021; HC 191124 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, DJe de 13/4/2021; HC 191.464-AgR/SC, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, DJe de 26/11/2020; ARE 1294303 AgR-segundo-ED, Relator(a): ROSA WEBER, Primeira Turma, DJe de 26/4/2021; RHC 200311 AgR, Relator(a): DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, DJe de 4/8/2021). 4. Agravo Regimental a que se nega provimento, com o seguinte entendimento: Nas ações penais iniciadas antes da entrada em vigor da Lei 13.964/2019, é viável o acordo de não persecução penal, desde que não exista sentença condenatória e o pedido tenha sido formulado na primeira oportunidade de manifestação nos autos após a data de vigência do art. 28-A do CPP."(HC 233147 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 07-11-2023, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-s/n DIVULG 21-02-2024 PUBLIC 22-02-2024) Cabe citar, ainda, trechos do precedente referido: "Na presente hipótese, é inviável a aplicação do acordo de não persecução penal (art. 28-A do Código de Processo Penal), pois, conforme destacado pelo Ministério Público Federal, a denúncia foi recebida em 19/05/2017, antes da entrada em vigor da Lei que incluiu o artigo em questão no CPP (em 23/01/2020). Ademais, a possibilidade de aplicação do ANPP foi levantada apenas após o acórdão em apelação março de 2022, em Embargos de Declaração , que confirmou, em segundo grau, a condenação do embargante, de forma a levar o Ministério Público à impossibilidade de ofertar à defesa, no ANPP. Ora, a finalidade do ANPP é evitar que se inicie o processo, não havendo lógica em se discutir a composição depois da condenação, como pretende a defesa. Precedentes: HC 232334 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, DJe de 17/10/2023; RE 1448728 AgR, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Primeira Turma, DJe de 14/9/2023; HC 199950, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, DJe de 18/6/2021; HC 191124 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, DJe de 13/4/2021; HC 191.464-AgR/SC, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, DJe de 26/11/2020; ARE 1294303 AgRsegundo-ED, Relator(a): ROSA WEBER, Primeira Turma, DJe de 26/4/2021; RHC 222072 AgR, Relator(a): DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, DJe de 16/3/2023; HC 229525 AgR, Relator(a): ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, DJe de 25/8/2023; HC 228760 AgR, Relator(a): LUIZ FUX, Primeira Turma, DJe de 7/8/2023; RHC 226525 AgR, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Primeira Turma, DJe de 7/6/2023. Em relação aos casos transitórios (ações penais iniciadas antes da entrada em vigor da Lei 13.964/2019), revela-se viável o acordo de não persecução penal, desde que não exista sentença condenatória e o pedido tenha sido formulado na primeira oportunidade de manifestação nos autos após a data de vigência do art. 28-A do CPP; o que, como visto, não ocorreu no presente caso. Em conclusão, o acordo é de não persecução penal, não é de substituição da pena aplicada; sem mencionar eventual quadro de incoerência na hipótese em que o magistrado, para retribuição e prevenção do crime, tenha fixado determinada pena e, depois, é submetida ao seu juízo homologação de acordo mediante condições mais brandas." (HC 233147 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 07-11-2023, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-s/n DIVULG 21-02-2024 PUBLIC 22-02-2024) Desse modo, entendo que a decisão da Corte Suprema privilegia a possibilidade de resolução do conflito de forma menos onerosa ao Poder Judiciário. Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial para determinar a remessa dos autos à origem, para que o Ministério Público Federal se manifeste acerca do interesse ou não em celebrar acordo de não persecução penal, de forma fundamentada e de acorco com a presente decisão. EMENTA