AREsp 2260292 - DECISAO
Ante o entendimento pacificado pelo STF no HC 185.913/DF de que o ANPP pode ser aplicado retroativamente a processos em curso quando o pedido for formulado antes do trânsito em julgado e de que compete ao Ministério Público apreciar motivadamente o cabimento do ANPP, e sendo o pedido formulado antes do trânsito em...
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- Parties
- Agravante: ANTÔNIO NOEL NAVARRO MONTEIRO; Ministério Público: Ministério Público
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 December 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Em Recurso Especial / Decisão Que Não Conheceu Do Recurso Especial Por Aplicação Da Súmula N. 284 Do Stf; Agravo Regimental Interposto Para Reconsideração
- Outcome
- Agravo regimental provido em juízo de reconsideração para determinar o retorno dos autos ao juízo de origem para que o Ministério Público estadual se manifeste sobre a possibilidade de oferecimento do Acordo de Não Persecução Penal, com comunicação às instâncias ordinárias; publicar e intimar.
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal (anpp), Retroatividade Do ANPP, Continuidade Delitiva, Preclusão, Súmula N. 284 Do STF
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Parties
ANTÔNIO NOEL NAVARRO MONTEIRO
Agravante
Ministério Público
Ministério Público
Procedural Posture
Agravo Regimental Em Recurso Especial / Decisão Que Não Conheceu Do Recurso Especial Por Aplicação Da Súmula N. 284 Do Stf; Agravo Regimental Interposto Para Reconsideração
Legal Issues
- 1 Cabimento do ANPP em processos penais em curso na data de vigência da Lei n. 13.964/2019
- 2 Se a continuidade delitiva impede a celebração do ANPP
- 3 Obrigação do Ministério Público de manifestar-se sobre o oferecimento do ANPP quando provocado
Ratio Decidendi
Ante o entendimento pacificado pelo STF no HC 185.913/DF de que o ANPP pode ser aplicado retroativamente a processos em curso quando o pedido for formulado antes do trânsito em julgado e de que compete ao Ministério Público apreciar motivadamente o cabimento do ANPP, e sendo o pedido formulado antes do trânsito em julgado neste caso, decidiu-se que cabe remeter os autos ao juízo de origem para que o Ministério Público estadual se manifeste sobre a possibilidade de oferecimento do ANPP, devendo eventual recusa ser fundamentada.
Court Disposition
Agravo regimental provido em juízo de reconsideração para determinar o retorno dos autos ao juízo de origem para que o Ministério Público estadual se manifeste sobre a possibilidade de oferecimento do Acordo de Não Persecução Penal, com comunicação às instâncias ordinárias; publicar e intimar.
Orders
- Determinar o retorno dos autos ao juízo de origem para que provoque o Ministério Público estadual sobre a possibilidade de oferecimento do ANPP
- Determinar que eventual recusa do Ministério Público seja devidamente fundamentada
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO ANTÔNIO NOEL NAVARRO MONTEIRO interpõe agravo regimental contra a decisão de fls., que conheceu do agravo em recurso especial para não conhecer do recurso especial, ante a incidência da Súmula n. 284 do STF. Neste agravo regimental, a defesa requer sejam os autos remetidos ao Ministério Público para se manifestar sobre o pedido de proposta de acordo de não persecução penal nos seguintes termos: a) seja decretada a nulidade do processo, já que não analisada a tese processual de que cabível o ANPP, para que seja determinado o retorno dos autos ao juízo de primeiro grau, a fim de que seja dado vista dos autos ao Ministério Público para manifestação fundamentada acerca da possibilidade ou não da proposta de não persecução penal, antes da prolação da sentença, que se constitui em direito subjetivo se preenchidos os pressupostos legais (CPP, art. 28-A), não havendo que se falar na aplicação do enunciado da Súmula 284 do STF; b) seja decretada a absolvição da prática do tipo penal do art. 312, §1º, do Código Penal, por se tratar de fato atípico, já que não há adequação típica do comportamento praticado pelo agente, além de que possível a aplicação da figura do erro de tipo (CP, art. 20) e da aplicação do princípio da insignificância, não havendo que se falar na aplicação do enunciado da Súmula 284 do STF. É certo que o Supremo Tribunal Federal, ao julgar o HC n. 185.913/DF, da relatoria do Ministro Gilmar Mendes, pacificou a controvérsia a respeito da retroatividade do acordo de não persecução penal, ocasião em que foram firmadas as seguintes teses: 1. Compete ao membro do Ministério Público oficiante, motivadamente e no exercício do seu poder-dever, avaliar o preenchimento dos requisitos para negociação e celebração do ANPP, sem prejuízo do regular exercício dos controles jurisdicional e interno; 2. É cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigência da Lei nº 13.964, de 2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado; 3. Nos processos penais em andamento na data da proclamação do resultado deste julgamento, nos quais, em tese, seja cabível a negociação de ANPP, se este ainda não foi oferecido ou não houve motivação para o seu não oferecimento, o Ministério Público, agindo de ofício, a pedido da defesa ou mediante provocação do magistrado da causa, deverá, na primeira oportunidade em que falar nos autos, após a publicação da ata deste julgamento, manifestar-se motivadamente acerca do cabimento ou não do acordo; 4. Nas investigações ou ações penais iniciadas a partir da proclamação do resultado deste julgamento, a proposição de ANPP pelo Ministério Público, ou a motivação para o seu não oferecimento, devem ser apresentadas antes do recebimento da denúncia, ressalvada a possibilidade de propositura, pelo órgão ministerial, no curso da ação penal, se for o caso. No âmbito desta Corte Superior prevalecia a compreensão de que cabe acordo de não persecução penal para fatos ocorridos antes da vigência da Lei n. 13.964/2019, desde que não recebida a denúncia. Contudo, as duas Turmas Criminais já se pronunciaram a favor do entendimento atual da Corte Suprema, conforme se depreende dos recentíssimos julgados a seguir: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. CONTINUIDADE DELITIVA. RECURSO PROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo contra decisão que inadmitiu recurso especial interposto contra acórdão do TRF da 3ª Região, que afastou a aplicação do acordo de não persecução penal (ANPP) em caso de peculato em continuidade delitiva. 2. O recorrente foi condenado por peculato por dezesseis vezes, na forma continuada, e teve a pena substituída por restritivas de direitos, com concessão de justiça gratuita. 3. O tribunal de origem entendeu que a continuidade delitiva impede a aplicação do ANPP, considerando-a como indício de dedicação à atividade criminosa. II. Questão em discussão 4. A questão em discussão consiste em saber se a continuidade delitiva impede a celebração do acordo de não persecução penal, conforme o art. 28-A, §2º, II, do CPP. 5. Outra questão é se o ANPP pode ser aplicado retroativamente em processos penais em andamento, mesmo após o recebimento da denúncia. III. Razões de decidir 6. A continuidade delitiva não está prevista como impedimento para o ANPP no art. 28-A, §2º, II, do CPP, que menciona apenas condutas habituais, reiteradas ou profissionais. 7. A inclusão da continuidade delitiva como óbice ao ANPP extrapola os limites da norma, violando o princípio da legalidade. 8. O Supremo Tribunal Federal admite a celebração do ANPP em processos já em andamento, desde que presentes os requisitos legais e antes do trânsito em julgado. IV. Dispositivo e tese 9. Recurso provido para determinar a remessa dos autos ao Ministério Público para manifestação sobre a possibilidade de oferecimento do ANPP. Tese de julgamento: "1. A continuidade delitiva não impede a celebração do acordo de não persecução penal, conforme o art. 28-A, §2º, II, do CPP. 2. O ANPP pode ser aplicado retroativamente em processos penais em andamento, desde que presentes os requisitos legais e antes do trânsito em julgado." Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 28-A, §2º, II; CP, art. 71. Jurisprudência relevante citada: STF, HC 185.913/DF; STJ, EDcl no AgRg no AgRg no AREsp 1.635.787/SP; STJ, AgRg no REsp 1.886.717/PR. (AREsp n. 2.406.856/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 8/10/2024, DJe de 16/10/2024, grifei.) DIREITO PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. FATO COMETIDO ANTES DO ADVENTO DA LEI N. 13.964/2019. RETROATIVIDADE NEGADA PELO TRIBUNAL. RECEBIMENTO DA DENÚNCIA ANTES DO ADVENTO DO INSTITUTO. ENTENDIMENTO CONTRÁRIO À TESE FIXADA PELO STF. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DO ANPP AOS PROCESSOS EM CURSO, DESDE QUE O PEDIDO TENHA SIDO FORMULADO ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO (HC 185.913/DF). CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. I. Caso em exame 1. Habeas corpus impetrado para anular acórdão de apelação criminal, visando converter o julgamento em diligência para que o Ministério Público proponha acordo de não persecução penal, conforme art. 28-A do CPP. 2. O Tribunal de Justiça rejeitou a alegação defensiva, afirmando que o acordo só seria cabível para fatos anteriores à Lei n. 13.964/2019, desde que a denúncia não tivesse sido recebida. 3. A condenação transitou em julgado em 14/9/2023, mas o pedido foi formulado antes do trânsito em julgado, em embargos de declaração e na apelação. II. Questão em discussão 4. A questão em debate consiste em saber se é possível aplicar retroativamente o acordo de não persecução penal em processos em andamento na data de vigência da Lei n. 13.964/2019, mesmo após o recebimento da denúncia. 5. Outra ponto relevante é se a ausência de confissão do réu até a vigência da lei impede a proposta do acordo. III. Razões de decidir 6. O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento de que o acordo de não persecução penal pode ser aplicado retroativamente em processos em andamento, desde que o pedido seja feito antes do trânsito em julgado (Habeas Corpus n. 185.913/DF, Ministro Gilmar Mendes, Pleno, julgado em 18/9/2024). 7. A ausência de confissão do réu até a vigência da Lei n. 13.964/2019 não impede a proposta do acordo, conforme decisão do STF. 8. Verificada a possibilidade de aplicação do instituto, a ordem deve ser concedida para desarquivar a ação penal e permitir que o Ministério Público local avalie a proposta do acordo. IV. Dispositivo e tese 9. Ordem concedida para desarquivar a ação penal e determinar que o Ministério Público local se manifeste sobre o acordo de não persecução penal. Tese de julgamento: De acordo com o entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal "é cabível a celebração de Acordo de Não Persecução Penal em casos de processos em andamento quando da entrada em vigência da Lei n. 13.964, de 2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele momento, desde que o pedido tenha sido feito antes do trânsito em julgado". Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 28-A. Jurisprudência relevante citada: STF, HC n. 185.913/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 18/9/2024. (HC n. 845.533/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 8/10/2024, DJe de 14/10/2024, grifei.) No presente caso, observa-se que o pleito de oferecimento de ANPP foi formulado ainda nas alegações finais, antes de prolatada a sentença, a qual condenou o agravante "pela prática do crime de peculato (CP, art. 312, §1º), com a fixação da pena privativa de liberdade de 02 (dois) anos de reclusão, e pela prática do crime de corrupção passiva (CP, art. 317, §1º), restando fixada pena privativa de liberdade de 02 (dois) anos e 08 (oito) meses de reclusão", de modo que a condenação não havia transitado em julgado e ocorreu na primeira oportunidade que a defesa teve de se manifestar nos autos, razão por que não há falar em preclusão. Assim, verificada a possibilidade de aplicação do instituto, em conformidade com o que foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal, cabível o acolhimento do pleito defensivo. À vista do exposto, em juízo de reconsideração, determino o retorno dos autos ao juízo de origem a fim de que provoque o Ministério Público estadual, com o objetivo de verificar a possibilidade de oferecimento do ANPP, devendo eventual recusa ser devidamente fundamentada. Comunique-se, com urgência, o inteiro teor desta decisão às instâncias ordinárias para as providências cabíveis. Publique-se e intimem-se. EMENTA