REsp 2225734 - DECISAO
Havendo reclassificação da conduta para tráfico privilegiado realizada de ofício e antes do recebimento da denúncia com a finalidade de viabilizar discussão sobre ANPP, sem prévia instrução probatória suficiente e sem provocação do Ministério Público, houve indevida ingerência na atribuição do Parquet e violação aos...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 October 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento Do Recurso Especial (decisão De Provimento)
- Outcome
- provedor do recurso especial e reforma do acórdão
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal (anpp), Emendatio Libelli, Tráfico Privilegiado (art. 33, §4º, Lei 11.343/06), Reclassificação De Ofício Pelo Juiz, Independência Funcional Do Ministério Público, Recebimento Da Denúncia
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento Do Recurso Especial (decisão De Provimento)
Legal Issues
- 1 Se a reclassificação judicial, de ofício e antes do recebimento da denúncia, para a modalidade de tráfico privilegiado com o objetivo de viabilizar o ANPP viola os arts. 28-A e 383 do CPP e o sistema acusatório
- 2 Se o Judiciário pode criar artificialmente condições ou compelir o Ministério Público a propor o ANPP
- 3 Em que medida a emendatio libelli pode ser aplicada previamente à instrução e ao recebimento da denúncia sem prejuízo ao contraditório e à competência ministerial
Ratio Decidendi
Havendo reclassificação da conduta para tráfico privilegiado realizada de ofício e antes do recebimento da denúncia com a finalidade de viabilizar discussão sobre ANPP, sem prévia instrução probatória suficiente e sem provocação do Ministério Público, houve indevida ingerência na atribuição do Parquet e violação aos arts. 28-A e 383 do CPP e ao sistema acusatório; por isso o recurso especial foi provido para anular a decisão de primeira instância e determinar o retorno dos autos para análise do recebimento da denúncia nos termos oferecidos pelo Ministério Público, sem reclassificação prematura nem imposição de exame sobre o ANPP.
Court Disposition
provedor do recurso especial e reforma do acórdão
Orders
- Dar provimento ao recurso especial
- Anular a decisão proferida pelo juízo da 3ª Vara Criminal da Comarca de Várzea Grande/MT e os atos processuais subsequentes
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial (e-STJ, fls. 150-161) interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO, com fundamento no artigo 105, inciso III, alíneas "a" e "c", da Constituição da República, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso (e-STJ, fls. 128-148). Em suas razões recursais, a parte recorrente aponta violação aos artigos 28-A e 383 do Código de Processo Penal. Argumenta que o acórdão recorrido, ao manter o entendimento do juízo de primeiro grau que reconheceu, de ofício, antes mesmo do recebimento da denúncia, a incidência da causa especial de diminuição de pena prevista para o tráfico privilegiado com o objetivo de viabilizar eventual proposta de acordo de não persecução penal (ANPP), sem provocação ministerial e sem respaldo probatório consolidado em contraditório judicial, contrariou a legislação processual penal e o regime constitucional acusatório. Sustenta que a reclassificação precoce do tipo penal para o § 4º do art. 33 da Lei 11.343/06, baseada apenas nos elementos do inquérito policial e sem prévia instrução judicial, contraria a exigência de formação mínima de convencimento sob contraditório para o reconhecimento da referida causa de diminuição, que exige prova de primariedade, bons antecedentes, ausência de dedicação à atividade criminosa e não vinculação a organização criminosa. Alega, ainda, que o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) configura um negócio jurídico pré-processual cuja iniciativa é de titularidade exclusiva do Ministério Público, representando uma faculdade (poder-dever), e não um direito subjetivo do investigado. Aduz que a decisão de primeiro grau, mantida pelo acórdão recorrido, ao determinar a manifestação do Ministério Público sobre o ANPP após ter, de ofício, reclassificado a conduta para adequá-la aos requisitos do acordo (pena mínima inferior a 4 anos), representou uma indevida ingerência na esfera de atribuições do Parquet, pois o Judiciário não pode compelir o Ministério Público a propor o ANPP, nem criar artificialmente as condições para sua propositura. O recorrente pede a reforma do acórdão recorrido, com o reconhecimento da violação aos artigos 28-A e 383 do Código de Processo Penal e ao sistema acusatório, visando anular a decisão proferida pelo juízo da 3ª Vara Criminal da Comarca de Várzea Grande/MT (ID 178397409) e os atos processuais subsequentes, e, consequentemente, que seja determinado o retorno dos autos ao juízo de origem para que proceda à análise do recebimento da denúncia nos termos em que foi oferecida pelo Ministério Público, sem reclassificação prematura da conduta e sem imposição de análise sobre o Acordo de Não Persecução Penal. Com contrarrazões (e-STJ, fls. 163-172), o recurso especial foi admitido na origem (e-STJ, fls. 173-175). Remetidos os autos a esta Corte Superior, o Ministério Público Federal manifestou-se pelo provimento do recurso especial (e-STJ, fls. 185-189). É o relatório. Decido. A questão jurídica central a ser dirimida neste recurso especial é determinar se a atuação judicial de reclassificar, de ofício e antes do recebimento da denúncia, a imputação de tráfico de drogas para a sua modalidade privilegiada, com o objetivo de oportunizar a discussão sobre a propositura de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), viola os artigos 28-A e 383 do Código de Processo Penal e o sistema acusatório, caracterizando indevida ingerência na atribuição exclusiva do Ministério Público. O acórdão recorrido, ao desprover o recurso de apelação ministerial, assentou que (e-STJ, fls. 128-148): "A atuação do juízo singular ao readequar a capitulação descrita na denúncia não visou obrigar o Ministério Público a ofertar a benesse, mas tão somente oportunizou as partes a possibilidade de celebração do acordo, diante do preenchimento dos requisitos autorizadores previstos no art. 28-A do Código de Processo Penal. Assim, é apropriado o envio dos autos ao Ministério Público, o qual, no uso de sua discricionariedade, poderá propor o ANPP se entender suficiente e necessário para a reprovação e prevenção do delito. .. Embora exista entendimento consolidado nas Cortes Superiores quanto à possibilidade de se conferir capitulação jurídica diversa (art. 383 e 384 do CPP) aos fatos narrados na denúncia no momento da prolação da sentença, essa regra já vem sendo excepcionada: "(..)quando a inadequada subsunção típica causar prejuízos ao réu, trazendo reflexos no campo da competência absoluta, do adequado procedimento ou, ainda, quando houver restrição a benefícios penais em razão de eventual excesso da acusação" (..). .. Nesta linha intelectiva, importa esclarecer que, nessa hipótese, não se está usurpando a atribuição do Ministério Público, mas apenas realizando uma análise perfunctória dos requisitos objetivos. Tanto é assim que a apreciação da necessidade e suficiência da medida para prevenção e repressão do ilícito é de discricionariedade do Ministério Público. .. Assim, uma vez que o §1.º do art. 28-A do CPP preconiza que "Para aferição da pena mínima cominada ao delito a que se refere o caput deste artigo, serão consideradas as causas de aumento e diminuição aplicáveis ao caso concreto", na hipótese, de "tráfico privilegiado" é objetivamente viável a celebração do acordo de não persecução penal, pois, considerando o mínimo de 05 (cinco) anos previsto no "caput" e a maior fração 2/3 de redução do §4.º, ambos do art. 33 da Lei n.º 11.343/06, a pena mínima em abstrato alcançada é de 01 (um) ano e 08 (oito) meses de reclusão." A controvérsia central do presente recurso especial reside na delimitação das fronteiras entre a atuação jurisdicional e as atribuições do Ministério Público, no contexto da aplicação do instituto da emendatio libelli e do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP). Embora se reconheça a possibilidade de o magistrado realizar a emendatio libelli em momentos processuais anteriores à sentença em situações excepcionais, visando evitar prejuízos evidentes ao réu ou restrições indevidas a benefícios penais decorrentes de um excesso de acusação, tal prerrogativa judicial deve ser exercida com cautela e observância rigorosa das fases processuais e da suficiência dos elementos probatórios para a reclassificação. No caso em apreço, o juízo de primeiro grau, referendado pelo Tribunal de Justiça, procedeu à reclassificação da conduta de tráfico para a modalidade privilegiada antes mesmo do recebimento da denúncia. Essa alteração teve como objetivo principal a viabilização de um eventual ANPP. Contudo, para o reconhecimento do tráfico privilegiado, o art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/06 exige a análise de condições subjetivas como a não dedicação do agente a atividades criminosas e a não integração a organização criminosa. A avaliação dessas condições demandaria uma instrução probatória mais aprofundada, não se revelando compatível com uma análise sumária e anterior à denúncia. A antecipação de um juízo de mérito sobre o tráfico privilegiado, que impacta diretamente a dosimetria da pena e, por conseguinte, a elegibilidade para o ANPP, mostra-se prematura. As variáveis que influenciam a pena mínima para fins do art. 28-A do CPP, incluindo as frações de redução do § 4º do art. 33 da Lei de Drogas, dependem de um exame cuidadoso das circunstâncias do caso, que geralmente se consolidam ao longo da instrução processual. Ademais, o ANPP, apesar de ser um importante instrumento de política criminal e despenalizador, não se configura como um direito subjetivo do investigado. A iniciativa de sua propositura, bem como a avaliação da sua conveniência e suficiência para a reprovação e prevenção do crime, é atribuição do Ministério Público, conforme expressamente previsto no art. 28-A do CPP, que utiliza o termo "poderá". A intervenção judicial que "cria artificialmente as condições" para a oferta do acordo, ainda que sob a justificativa de oportunizar a benesse, representa uma indevida ingerência na esfera de discricionariedade regrada do órgão acusatório e compromete o equilíbrio do sistema acusatório. O papel do Judiciário é homologar o acordo, fiscalizando sua legalidade e voluntariedade, ou remeter os autos à instância de revisão ministerial em caso de recusa fundamentada, e não impor ou pré-condicionar a atuação do Parquet. Portanto, a forma como a decisão de primeira instância e o acórdão recorrido procederam à reclassificação da conduta e à imposição de análise do ANPP antes do recebimento da denúncia, em um contexto que demandaria maior apuração dos requisitos fáticos e jurídicos para o tráfico privilegiado, configurou violação aos dispositivos do Código de Processo Penal que regem a matéria e ao princípio da independência funcional do Ministério Público. Ante o exposto, com fundamento no art. 255, §4º, III, do RISTJ, dou provimento ao recurso especial para reformar o acórdão, de modo a anular a decisão proferida pelo juízo da 3ª Vara Criminal da Comarca de Várzea Grande/MT e os atos processuais subsequentes, determinando o retorno dos autos ao juízo de origem para que proceda à análise do recebimento da denúncia nos termos em que foi oferecida pelo Ministério Público, sem reclassificação prematura da conduta e sem imposição de análise sobre o Acordo de Não Persecução Penal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA