MS 30495 - DECISAO
Comprovada a existência de procedimento administrativo há mais de uma década, a habilitação da impetrante para receber os valores retroativos e a apresentação dos documentos solicitados, restou demonstrada a demora injustificada da Administração; diante da jurisprudência consolidada do STJ e do STF, impõe-se...
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- Parties
- Impetrante: Antonia Lino de Souza Aldana; Autoridade Impetrada: Ministro de Estado do Planejamento e Orçamento
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 08 October 2024
- Procedural Posture
- Mandado De Segurança / Decisão Segurança Concedida
- Outcome
- Segurança concedida
- Legal Topics
- Anistia Política, Pagamento De Valores Retroativos, Ilegitimidade Passiva, Mandado De Segurança, Precatório, Decadência, Juros Moratórios E Correção Monetária
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Parties
Antonia Lino de Souza Aldana
Impetrante
Ministro de Estado do Planejamento e Orçamento
Autoridade Impetrada
Procedural Posture
Mandado De Segurança / Decisão Segurança Concedida
Legal Issues
- 1 Omissão da administração no pagamento de valores retroativos de reparação econômica decorrente de anistia política
- 2 Legitimidade passiva do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão para figurar no polo passivo do mandado de segurança
- 3 Possibilidade de manejo do mandado de segurança para obter pagamento com recursos orçamentários ou por precatório
Ratio Decidendi
Comprovada a existência de procedimento administrativo há mais de uma década, a habilitação da impetrante para receber os valores retroativos e a apresentação dos documentos solicitados, restou demonstrada a demora injustificada da Administração; diante da jurisprudência consolidada do STJ e do STF, impõe-se conceder a segurança para determinar que a autoridade impetrada promova o pagamento dos valores retroativos com recursos orçamentários disponíveis ou, não havendo, por meio de precatório, ressalvada a hipótese de eventual revisão administrativa do ato de anistia.
Court Disposition
Segurança concedida
Orders
- Determinar à autoridade impetrada que promova o pagamento dos valores retroativos devidos à impetrante em razão da anistia política de seu falecido companheiro utilizando-se dos recursos orçamentários disponíveis ou, na ausência destes, mediante expedição do competente precatório.
- Ressalvar a hipótese de eventual revisão administrativa do ato de reconhecimento da anistia política, nos termos da QO no MS 15.706/DF.
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de mandado de segurança impetrado por Antonia Lino de Souza Aldana, na condição de pensionista do anistiado político da Petrobras Raimundo dos Reis Filho, contra conduta omissiva atribuída ao Ministro de Estado do Planejamento e Orçamento, em razão da ausência de pagamento dos valores pretéritos alegadamente devidos em razão da anistia política de seu falecido côn juge. Alega, para tanto, receber pensão por morte há mais de dez anos, mas que o montante devido a título de valores retroativos ainda se encontra pendente de pagamento. Noticia, nesse viés, que em 19/9/2014 encaminhou ao Coordenador de Produção da Folha de Pagamento de Benefícios Indenizatórios do MPO declaração a ela solicitada, "para possibilitar o pagamento retroativo, a título de exercícios anteriores de sua pensão" (fl. 5), sem êxito. Segundo a vestibular, trata-se de omissão ilícita, em relação à qual não se opera a decadência da impetração, e que inexiste razão jurídica apta a justificar o não pagamento até a presente data, pelo que presente o direito líquido e certo invocado no writ. Sem pedido de liminar, a autoridade impetrada prestou informações (fls. 61/67), nas quais sustenta não deter atribuição para atender ao pleito da parte autora, sugerindo o encaminhamento de novo pedido de informações ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviço Público - MGI. Não houve manifestação, por parte da impetrada, quanto ao mérito da demanda. O Ministério Público Federal, por sua vez, pugnou por nova vista dos autos após as informações acerca do mérito da impetração. É O RELATÓRIO. PASSO À FUNDAMENTAÇÃO. De partida, deve ser rejeitada a alegação de ilegitimidade passiva da autoridade impetrada, porque, nos termos da jurisprudência desta Corte, o "Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão é parte legítima para figurar no polo passivo de mandado de segurança impetrado com o objetivo de obter reparação econômica retroativa concedida ao civil anistiado, em decorrência da expressa previsão legal contida no art. 18 da Lei 10.559/2002" (MS 22.410/DF, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 14/9/2016, DJe de 21/9/2016). Essa compreensão permanece sendo aplicada pela Primeira Seção do STJ, mesmo após a edição da Lei 14.600/2023, conforme evidenciam os seguintes julgados: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO EM MANDADO DE SEGURANÇA. ANISTIA POLÍTICA. PAGAMENTO DE VALORES PRETÉRITOS DA REPARAÇÃO ECONÔMICA. ORDEM CONCEDIDA. 1. Nos termos da firme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, "o Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão é parte legítima para figurar no polo passivo de mandado de segurança impetrado com o objetivo de obter reparação econômica retroativa concedida ao civil anistiado, em decorrência da expressa previsão legal contida no art. 18 da Lei 10.559/2002." (MS 22.410/DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, DJe de 21/9/2016). 2. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 553.710/DF, em regime de Repercussão Geral (Tema 394), firmou o entendimento de que é constitucional a determinação de pagamento imediato de reparação econômica aos anistiados políticos, nos termos do que prevê o § 4º do art. 12 da Lei da Anistia (Lei 10.559/2002), que regulamentou o art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). 3. Registre-se que "a questão orçamentária não é obstáculo para a concessão da ordem, ante as sucessivas leis anuais que reservaram verbas para o pagamento de indenizações retroativas em favor de anistiados políticos. Ademais, se eventualmente provada a falta de dotação orçamentária, cabe a execução contra a Fazenda Pública, por meio de precatórios" (MS n. 26.588/DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Seção, DJe de 18/2/2021). 4. Quanto à possibilidade de anulação da portaria de anistia, a União não apresentou documento que comprove, ao menos, a abertura de processo administrativo para sua revisão. Suas alegações são genéricas, de forma que a mera possibilidade de revisão do ato de anistia não pode servir de óbice para o cumprimento de ato administrativo, até agora, reputado legal e eficaz. 5. No entanto, se anistia vier a ser invalidada ou revogada, cessarão os efeitos desta ordem. Com efeito, a 1ª Seção desta Corte, em Questão de Ordem no julgamento do Mandado de Segurança n. 15.706/DF, de relatoria do Min. Castro Meira, DJe de 11.05.2011, ressalvou que "nas hipóteses de concessão da ordem, situação dos autos, ficará prejudicado o seu cumprimento se, antes do pagamento do correspondente precatório, sobrevier decisão administrativa anulando ou revogando o ato de concessão da anistia". 6. Agravo Interno não provido. (AgInt no MS n. 29.822/DF, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 24/4/2024, DJe de 7/5/2024.) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO MANDADO DE SEGURANÇA. ANISTIA POLÍTICA. LEI 10.559/2002. ATO COATOR: OMISSÃO DA AUTORIDADE APONTADA COMO COATOR EM ADIMPLIR O PAGAMENTO DAS PARCELAS REMUNERATÓRIAS PREVISTAS NA PORTARIA ANISTIADORA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO RECEBIMENTO PELA AUTORIDADE COATORA DE AVISO COMUNICANDO O TEOR DA PORTARIA ANISTIADORA. EXIGÊNCIA PREVISTA NOS ARTS. 10 E 18 DA LEI 10.559/2002. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM RECONHECIDA. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO. I. Trata-se de Agravo interno aviado contra decisão que julgara Mandado de Segurança impetrado na vigência do CPC/2015. II. Trata-se de Mandado de Segurança Individual, com pedido de liminar, impetrado pela parte agravante, contra suposto ato omissivo ilegal atribuído ao Exmo. Senhor Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão, consubstanciado na inércia em efetivar o pagamento das parcelas previstas na Portaria MJ 525, de 14/05/2023, que declarou a impetrante anistiada política, com base na Lei 10.559/2002. III. A autoridade coatora, para fins de impetração de Mandado de Segurança, é aquela que pratica ou ordena, de forma concreta e específica, o ato ilegal, ou, ainda, aquela que detém competência para corrigir a suposta ilegalidade, nos termos do que dispõe o art. 6º, § 3º, da Lei 12.016/2009. IV. Nos termos dos arts. 10 e 18 da Lei 10.559/2002, "caberá ao Ministro de Estado da Justiça decidir a respeito dos requerimentos fundados nesta Lei" e "caberá ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão efetuar, com referência às anistias concedidas a civis, mediante comunicação do Ministério da Justiça, no prazo de sessenta dias a contar dessa comunicação, o pagamento das reparações econômicas, desde que atendida a ressalva do § 4º do art. 12 desta Lei. Parágrafo único. Tratando-se de anistias concedidas aos militares, as reintegrações e promoções, bem como as reparações econômicas, reconhecidas pela Comissão, serão efetuadas pelo Ministério da Defesa, no prazo de sessenta dias após a comunicação do Ministério da Justiça, à exceção dos casos especificados no art. 2o, inciso V, desta Lei". V. A competência do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão, de efetuar, no prazo de 60 (sessenta) dias, o pagamento das reparações econômicas, inicia-se apenas após o recebimento da comunicação expedida pelo Ministro de Estado da Justiça. VI. No caso dos autos, não é possível confirmar que a autoridade coatora recebeu, efetivamente, o Aviso 593 - MJ, de 09/05/2003, visto que inexiste nos autos qualquer documento ou informação apta a demonstrar o efetivo recebimento do referido Aviso, sequer constando da sua qualquer anotação ou carimbo apto a revelar o seu recebimento no âmbito do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, o que impede o reconhecimento da legitimidade passiva ad causam da autoridade apontada como coatora. VII. A mera publicação da Portaria Anistiadora no Diário Oficial não supre a necessidade de comunicação ao Ministro de Estado do Planejamento, na forma que determinam os arts. 10 e 18 da Lei 10.559/2002, tratando-se de ato indispensável a deflagrar o início da contagem do prazo para o pagamento da obrigação contida na portaria anistiadora. VIII. Assim, não logrando a parte agravante de comprovar, através das provas pré-constituídas acostadas à inicial do mandamus, o recebimento do Aviso 593/MJ pela autoridade apontada como coatora, patente a sua ilegitimidade passiva ad causam. IX. Agravo interno improvido. (AgInt no MS n. 24.306/DF, relatora Ministra Assusete Magalhães, Primeira Seção, julgado em 19/12/2023, DJe de 21/12/2023.) Assentada essa premissa acerca da legitimidade passiva, deve ser aplicada ao presente caso, quanto ao mérito, a pacífica jurisprudência deste Sodalício, no sentido de reconhecer possível o manejo do mandado de segurança com o objetivo de combater a omissão administrativa relativa ao pagamento dos valores retroativos devidos à parte impetrante, a título de reparação civil decorrente de anistia política. Nesse sentido: ADMINISTRATIVO E MILITAR. MANDADO DE SEGURANÇA. ANISTIA POLÍTICA. PAGAMENTO DE RETROATIVO. INEXISTÊNCIA DE DECADÊNCIA. PAGAMENTO DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA. MANDAMUS CONCEDIDO. 1. Trata-se de Mandado de Segurança impetrado pelo espólio de Francisco Oliveira dos Santos representado por seu inventariante, Francisco Oliveira dos Santos Filho, contra ato omissivo do Senhor Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão, objetivando a imediata implantação do valor deferido a título de prestação mensal, permanente e continuada e o pagamento de valores retroativos, previstos no ato administrativo que declarou o Sr. Francisco Oliveira dos Santos (falecido) anistiado político, com base na Lei 10.559/2002 . 2. Consoante a jurisprudência do STJ: a) o Mandado de Segurança é instrumento adequado para controle do cumprimento das portarias referentes à concessão de anistia política: b) não se caracterizou a decadência, porque a omissão no cumprimento do disposto na Portaria de Anistia 2.392/2005, publicada no Diário Oficial da União em 15.12.2005, protraiu-se no tempo e persiste até o presente momento (MS 18.617/DF, Rel. Min. Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe 14.10.2013; MS 14.292/DF, Rel. Min. Campos Marques (Desembargador convocado do TJ/PR), Terceira Seção, julgado em 8.5.2013, DJe 14.5.2013). 3. A jurisprudência do STJ é na direção de que o Mandado de Segurança não se presta à pretensão referente a juros e correção monetária. Caso assim se admitisse, o feito assemelhar-se-ia à Ação de Cobrança, escopo divorciado do writ, conforme o teor da Súmula 269/STF (EDcl no MS 15.074/DF, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Terceira Seção, DJe 19.12.2018; AgInt no MS 24.302/DF, Rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Seção, DJe 14.12.2018). 4. Recentemente, entretanto, o STF, em Recursos Ordinários em Mandado de Segurança, tem entendido que os valores retroativos previstos nas Portarias de Anistia devem ser acrescidos de juros moratórios e correção monetária, por serem consectários legais da condenação e, assim, incidem independentemente de pronunciamento judicial expresso. Essa questão, aliás, ficou esclarecida e ratificada pelo Plenário da Corte no julgamento dos Embargos de Declaração opostos nos autos do RE 553.710/DF (Rel. Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, DJe 24.8.2018). Precedentes: AgInt no MS 23.087/DF, Rel. Min. Francisco Falcão, Primeira Seção, DJe 1º. 4.2019; AgInt no MS 23.284/DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Seção, DJe 4.4.2019; MS 22.221/DF, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Seção, DJe 16.4.2019. 5. É devido o pagamento do montante concernente aos retroativos apontados na portaria, com os Recursos orçamentários disponíveis, ou, em caso de manifesta impossibilidade, a expedição do competente precatório. Ressalva-se a hipótese de decisão administrativa superveniente, revogando ou anulando o ato de concessão da anistia, nos moldes do que ficou decidido no julgamento da QO no MS 15.706/DF. 6. Mandado de Segurança concedido. (MS n. 25.260/DF, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 12/6/2024, DJe de 1/7/2024.) No caso ora sub judice, a parte autora comprova a existência de procedimento administrativo em curso, há mais de uma década (fl. 35), bem como sua habilitação, na condição de companheira do falecido anistiado político, para fins de recebimento dos valores retroativos (fls. 36/37). Demonstra documentalmente, ainda, que lhe foram solicitadas providências e documentos destinados a viabilizar o pagamento, o que foi por ela atendido ainda em 2014 (fls. 39/41). Evidenciada, nesse cenário, a demora injustificada por parte da administração pública, deve ser concedida a segurança, para determinar o pagamento do valor reconhecidamente devido à ora impetrante, com os recursos orçamentários disponíveis ou, na hipótese de manifesta impossibilidade, pela via do precatório, conforme decidido, entre outros, no recente MS 25.260/DF, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe de 1º/7/2024. A concessão da ordem, importa registar, não interfere no eventual procedimento de anulação do ato de concessão da anistia, nos termos do entendimento consolidado por esta Corte na Questão de Ordem no MS 15 .706/DF. ANTE O EXPOSTO, com fundamento no parágrafo único do art. 214 do RISTJ, concedo a segurança, para determinar à autoridade impetrada que promova o pagamento dos valores retroativos devidos à parte impetrante, em razão da anistia política de seu falecido companheiro, utilizando-se dos recursos orçamentários disponíveis ou, na incontornável ausência deles, a expedição do competente precatório, ressalvada a hipótese de eventual revisão administrativa do ato de reconhecimento da anistia política, nos moldes do que ficou decidido no julgamento da QO no MS 15.706/DF. Sem honorários advocatícios, nos termos do art. 25 da Lei 12.016/2009 e da Súmula 105/STJ. Intimem-se. EMENTA