HC 863722 - ACORDAO
Aumentos e dosagens da pena-base promovidos pelo Tribunal de origem foram fundamentados de maneira concreta e idônea (maus antecedentes, liderança na organização criminosa, reincidência, causas especiais), não havendo flagrante ilegalidade que autorize o reexame da dosimetria nesta instância extraordinária; a...
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- Parties
- Agravante: MARCIO SILVA DE SOUZA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 September 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Em Habeas Corpus / Julgamento Em Sessão Virtual
- Outcome
- Agravo regimental improvido
- Legal Topics
- Associação Para O Tráfico De Drogas, Dosimetria Da Pena, Reprimenda Básica Acima Do Mínimo Legal, Desfavorecimento Da Culpabilidade, Maus Antecedentes, Fundamentação Concreta E Idônea, Critério De Aumento, Discricionariedade Do Julgador
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Parties
MARCIO SILVA DE SOUZA
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental Em Habeas Corpus / Julgamento Em Sessão Virtual
Legal Issues
- 1 Possibilidade de revisão da dosimetria da pena em sede de habeas corpus
- 2 Obrigatoriedade de adoção de fração específica (ex.: 1/6) para valoração negativa dos vetores do art. 59 do CP
- 3 Legitimidade de aumento superior a 1/6 quando fundamentado
Ratio Decidendi
Aumentos e dosagens da pena-base promovidos pelo Tribunal de origem foram fundamentados de maneira concreta e idônea (maus antecedentes, liderança na organização criminosa, reincidência, causas especiais), não havendo flagrante ilegalidade que autorize o reexame da dosimetria nesta instância extraordinária; a jurisprudência do STJ não impõe fração matemática fixa para cada vetor do art. 59 do CP, preservando-se a discricionariedade do julgador.
Court Disposition
Agravo regimental improvido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Manter integralmente a decisão agravada
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 03/09/2024 a 09/09/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz e Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP) votaram com o Sr. Ministro Relator. Não participou do julgamento o Sr. Ministro Og Fernandes. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL. ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS. DOSIMETRIA DA PENA. REPRIMENDA BÁSICA ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. DESFAVORECIMENTO DA CULPABILIDADE E DOS MAUS ANTECEDENTES DO AGENTE. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA E IDÔNEA. CRITÉRIO DE AUMENTO. DISCRICIONARIEDADE DO JULGADOR. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Na esteira da orientação jurisprudencial desta Corte, por se tratar de questão afeta a certa discricionariedade do magistrado, a dosimetria da pena é passível de revisão nesta instância extraordinária apenas em hipóteses excepcionais, quando ficar evidenciada flagrante ilegalidade, constatada de plano, sem a necessidade de reexame do acervo fático- probatório dos autos. 2. Com efeito, é garantida a discricionariedade do julgador para a fixação da pena-base, dentro do seu livre convencimento motivado e de acordo com as peculiaridades do caso concreto, o que se verifica na espécie, já que apresentadas pelo Tribunal de origem situações que desbordam do tipo e revelam maior desvalor na conduta perpetrada. 3. Outrossim, "a jurisprudência do STJ não impõe ao magistrado a adoção de uma fração específica, aplicável a todos os casos, a ser utilizada na valoração negativa das vetoriais previstas no art. 59 do CP" (AgRg no AREsp n. 2.045.906/MS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 23/3/2023, DJe de 30/3/2023). 4. Agravo regimental improvido.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Trata-se de agravo regimental interposto por MARCIO SILVA DE SOUZA contra decisão na qual concedi parcialmente a ordem de habeas corpus. Neste recurso, a defesa reprisa os fundamentos do writ. Alega, em síntese, que "é assente que esse Egrégio Tribunal Superior adota para cada vetor negativo a fração de 1/6. Ocorre, que no presente caso, não foi isso que ocorreu" (e-STJ fl. 96). Requer "seja dado provimento ao presente Agravo Regimental, reformando-se a decisão agravada, a submissão do presente feito a julgamento pela Turma deste Egrégio Colendo Tribunal, para que seja concedida a ordem, ou seja, de ofício, diante da existência de manifesta ilegalidade" (e-STJ fl. 102). É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL. ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS. DOSIMETRIA DA PENA. REPRIMENDA BÁSICA ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. DESFAVORECIMENTO DA CULPABILIDADE E DOS MAUS ANTECEDENTES DO AGENTE. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA E IDÔNEA. CRITÉRIO DE AUMENTO. DISCRICIONARIEDADE DO JULGADOR. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Na esteira da orientação jurisprudencial desta Corte, por se tratar de questão afeta a certa discricionariedade do magistrado, a dosimetria da pena é passível de revisão nesta instância extraordinária apenas em hipóteses excepcionais, quando ficar evidenciada flagrante ilegalidade, constatada de plano, sem a necessidade de reexame do acervo fático- probatório dos autos. 2. Com efeito, é garantida a discricionariedade do julgador para a fixação da pena-base, dentro do seu livre convencimento motivado e de acordo com as peculiaridades do caso concreto, o que se verifica na espécie, já que apresentadas pelo Tribunal de origem situações que desbordam do tipo e revelam maior desvalor na conduta perpetrada. 3. Outrossim, "a jurisprudência do STJ não impõe ao magistrado a adoção de uma fração específica, aplicável a todos os casos, a ser utilizada na valoração negativa das vetoriais previstas no art. 59 do CP" (AgRg no AREsp n. 2.045.906/MS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 23/3/2023, DJe de 30/3/2023). 4. Agravo regimental improvido. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): O recurso não apresenta argumento capaz de desconstituir os fundamentos que embasaram a decisão ora impugnada, que deve ser integralmente mantida, in verbis (e-STJ fls. 82/84): Na espécie, a elevação da pena-base foi justificada pelo Tribunal a quo com a seguinte fundamentação (e-STJ fls. 18/19): No tocante à dosimetria, tem-se que a Colenda 2ª Câmara Criminal assim fixou as penas, após dar provimento ao recurso ministerial e condenar o revisionando pela prática do delito previsto no art. 35 c/c 40, III e IV, da Lei de Drogas: Passo à dosimetria. Atento ao teor do art. 59 do CP, constata-se que as circunstâncias judiciais são desfavoráveis, eis que Márcio ostenta maus antecedentes e conduta voltada para a prática de crimes (FAC- pasta 1234), conforme se verifica nos Processos nº 0015422-47.1999.8.19.0001 (trânsito em 06/2007) e 0365483-13.2011.8.19.0001 (trânsito em 03/2020). Além disso, o acusado desempenhava elevada função na hierarquia da facção criminosa Comando Vermelho, o que demonstra exacerbada culpabilidade. Em decorrência, fixo a pena-base em 05 anos de reclusão e pagamento de 1166 dias- multa. Na segunda fase, não há atenuantes, mas está presente a agravante da reincidência, que é específica (Processo nº 0022962- 73.2004.8.19.0001 - trânsito em 12/2008), motivo pelo qual aumento a pena em 1/4. Na terceira fase, incidem duas causas especiais de aumento, tendo em conta que o Réu liderava e financiava quadrilha armada, bem como controlava a narcotraficância de dentro de unidade carcerária (art. 40, III e IV). Dessa forma, elevo a pena em 1/3 e consolido a reprimenda definitiva em 08 (oito) anos e 04 (quatro) meses reclusão, além do pagamento de 1942 (hum mil novecentos e quarenta e dois) dias-multa, à razão unitária mínima legal. Estabeleço o regime inicial fechado em virtude do quantum definitivo da pena, da reincidência e das circunstâncias desfavoráveis (art. 33, §§ 2º, "a", "b" e 3º, do CP)." Assim, importa destacar que todos os aumentos e dosagens foram devidamente fundamentados. Inicialmente, quanto ao patamar de aumento da pena-base, rememoro que não há um critério matemático para a escolha das frações de aumento em função da negativação dos vetores contidos no art. 59 do Código Penal. Ao contrário, é garantida a discricionariedade do julgador para a fixação da pena-base, dentro do seu livre convencimento motivado e de acordo com as peculiaridades do caso concreto. A respeito, colaciono os seguintes julgados desta Corte: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO DUPLAMENTE QUALIFICADO. DOSIMETRIA. PENA-BASE. AUMENTO SUPERIOR A 1/6. MAUS ANTECEDENTES. DUAS CONDENAÇÕES ANTERIORES DEFINITIVAS. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. CRITÉRIO MATEMÁTICO. PRETENSÃO. IMPOSSIBILIDADE. INEXISTÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. PRECEDENTES. 1. A legislação penal não estabeleceu nenhum critério matemático (fração) para a fixação da pena na primeira fase da dosimetria. Nessa linha, a jurisprudência desta Corte tem admitido desde a aplicação de frações de aumento para cada vetorial negativa: 1/8, a incidir sobre o intervalo de apenamento previsto no preceito secundário do tipo penal incriminador (HC n. 463.936/SP, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 14/9/2018); ou 1/6 (HC n. 475.360/SP, Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 3/12/2018); como também a fixação da pena-base sem a adoção de nenhum critério matemático. .. Não há falar em um critério matemático impositivo estabelecido pela jurisprudência desta Corte, mas, sim, em um controle de legalidade do critério eleito pela instância ordinária, de modo a averiguar se a pena-base foi estabelecida mediante o uso de fundamentação idônea e concreta (discricionariedade vinculada) - (AgRg no HC n. 603.620/MS, Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 6/10/2020, DJe 9/10/2020) - (AgRg no HC n. 558.538/DF, Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe 13/4/2021). .. 5. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 699.488/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe de 17/12/2021, grifei.) No caso dos autos, não vislumbro nenhuma ofensa à legislação federal, no procedimento dosimétrico adotado pelo Tribunal de origem, apta a ensejar o redimensionamento da pena por esta instância extraordinária. .. Em concordância com o apontado no parecer ministerial, cujas razões passo a adotar (e-STJ fls. 75/76): Observa-se que o incremento da pena-base decorreu, especialmente, dos maus antecedentes e da elevada culpabilidade, uma vez que o paciente desempenhava papel de destaque na organização criminosa "Comando Vermelho, o que não se mostra desproporcional. A propósito do tema, a título exemplificativo, veja-se o seguinte precedente dessa Corte Superior: .. 8. É legítima a exasperação da pena-base pela culpabilidade do crime de associação para o tráfico, diante da posição de liderança na organização criminosa, denotando maior reprovabilidade da conduta. 9. Em habeas corpus, é incabível reanalisar a pena na segunda fase da dosimetria, se as instâncias ordinárias, com base na análise das provas e de modo fundamentado, reconheceram não ter ocorrido a confissão espontânea. 10. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 740.762/SP, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quinta Turma, julgado em 21/6/2022, DJe de 24/6/2022.) HABEAS CORPUS. PENAL. ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS. DOSIMETRIA. ART. 59 DO CÓDIGO PENAL. CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. GRUPO DE GRANDE INFLUÊNCIA NA REGIÃO E QUE UTILIZAVA ARMAMENTO DE ALTA LESIVIDADE. CONSEQUÊNCIAS. EXPOSIÇÃO DOS MORADORES A CONSTANTE RISCO DE MORTE. CULPABILIDADE. POSIÇÃO DE DESTAQUE NO GRUPO CRIMINOSO. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. PENA PROPORCIONAL. REEXAME PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. A valoração negativa das circunstâncias e das consequências do crime encontra-se concretamente fundamentada no caso, pois, conforme consignaram as instâncias ordinárias, trata-se de grupo criminoso com atuação expressiva na região, que movimentava grande quantidade de drogas e armamentos de grosso calibre, bem como confrontava a ação policial constantemente, colocando em risco a população local. 2. É adequada a valoração negativa da culpabilidade dos réus que ocupavam posições de relevância dentro da associação para o tráfico, uma vez que sua conduta se torna mais reprovável na medida em que estes ascendem voluntariamente na hierarquia criminosa. 3. A revisão das premissas fáticas consideradas na dosimetria da pena é inviável nos estreitos limites do habeas corpus. 4. O legislador não estabeleceu parâmetros fixos para a fração de majoração da pena em razão da valoração negativa das circunstâncias judiciais. Esta tarefa está adstrita à prudente análise do Magistrado sentenciante que, no caso em apreço, adotou parâmetro que não se mostra flagrantemente desproporcional ou desarrazoado, não havendo razão para que o cálculo penal seja revisto nos limites restritos desta ação constitucional. 5. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 432.170/RJ, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 18/9/2018, DJe de 3/10/2018.) Além disso, não há direito subjetivo à utilização de uma fração determinada de aumento de pena, sendo possível o incremento em patamar superior a um sexto, desde que de maneira fundamentada, como se deu no caso. Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. É como voto. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Relator