REsp 2094383 - ACORDAO
A Terceira Turma decidiu que, em observância ao art. 43, § 2º, do CDC e ao dever de proteção do consumidor vulnerável, a notificação prévia para inscrição em cadastro de restrição de crédito exige envio de correspondência ao endereço do consumidor, não sendo suficiente a notificação exclusivamente por e-mail, razão...
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- Parties
- Agravante: CÂMARA DE DIRIGENTES LOJISTAS DE PORTO ALEGRE (CÂMARA)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 28 February 2024
- Procedural Posture
- Agravo Interno Em Recurso Especial / Decisão Colegiada (terceira Turma) Agravo Interno Não Provido
- Outcome
- Agravo interno não provido
- Legal Topics
- Cadastro De Proteção Ao Crédito, Notificação Extrajudicial, Notificação Por E Mail, Dano Moral
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Parties
CÂMARA DE DIRIGENTES LOJISTAS DE PORTO ALEGRE (CÂMARA)
Agravante
Procedural Posture
Agravo Interno Em Recurso Especial / Decisão Colegiada (terceira Turma) Agravo Interno Não Provido
Legal Issues
- 1 Se a prévia notificação prevista no art. 43, § 2º, do CDC pode ser realizada exclusivamente por meio eletrônico (e-mail)
- 2 Requisitos para comprovação de mora em inscrição em cadastros de proteção ao crédito
Ratio Decidendi
A Terceira Turma decidiu que, em observância ao art. 43, § 2º, do CDC e ao dever de proteção do consumidor vulnerável, a notificação prévia para inscrição em cadastro de restrição de crédito exige envio de correspondência ao endereço do consumidor, não sendo suficiente a notificação exclusivamente por e-mail, razão pela qual o agravo interno não constitui fundamento para alterar a decisão agravada.
Court Disposition
Agravo interno não provido
Orders
- Negar provimento ao agravo interno
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 20/02/2024 a 26/02/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Nancy Andrighi, Humberto Martins, Ricardo Villas Bôas Cueva e Marco Aurélio Bellizze votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. EMENTA CONSUMIDOR. AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. NECESSIDADE. NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL POR MEIO DE CORREIO ELETRÔNICO. AUSÊNCIA DE GARANTIA DE RECEBIMENTO E DE LEITURA. MORA NÃO COMPROVADA. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A prévia notificação acerca da inscrição do nome do consumidor nos órgãos de proteção ao crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusivamente por meio eletrônico. Precedente. 3. Agravo interno não provido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo interno interposto por CÂMARA DE DIRIGENTES LOJISTAS DE PORTO ALEGRE (CÂMARA) contra decisão monocrática de minha relatoria, assim ementada: CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. NECESSIDADE. NOTIFICAÇÃO POR MEIO ELETRÔNICO. IMPOSSIBILIDADE. ENVIO DE CORRESPONDÊNCIA AO ENDEREÇO DO CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL PROVIDO (e-STJ, fl. 239). Nas razões do presente inconformismo, defendeu que esta Corte não tem posição firmada acerca da notificação eletrônica para inscrição em cadastros de inadimplência. Asseverou que esse Tribunal Superior, em outras hipóteses, já reconheceu a validade da comunicação eletrônica. Alegou que o Supremo Tribunal Federal também reconheceu a validade das comunicações eletrônicas, inclusive para fins da notificação prevista no art. 43, § 2º, do CDC. Sustentou, por fim, que o art. 43, § 2º, do CDC prevê tão somente a comunicação escrita, não havendo nenhuma vedação à comunicação eletrônica. Não foi apresentada contraminuta. É o relatório. EMENTA CONSUMIDOR. AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. NECESSIDADE. NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL POR MEIO DE CORREIO ELETRÔNICO. AUSÊNCIA DE GARANTIA DE RECEBIMENTO E DE LEITURA. MORA NÃO COMPROVADA. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A prévia notificação acerca da inscrição do nome do consumidor nos órgãos de proteção ao crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusivamente por meio eletrônico. Precedente. 3. Agravo interno não provido. VOTO O inconformismo agora manejado não merece provimento por não ter trazido nenhum elemento apto a infirmar as suas conclusões. Nas razões da insurgência, CÂMARA defendeu que esta Corte não tem posição firmada acerca da notificação eletrônica para inscrição em cadastros de inadimplência. Asseverou que este Tribunal Superior, em outras hipóteses, já reconheceu a validade da comunicação eletrônica. Alegou que o Supremo Tribunal Federal também reconheceu a validade das comunicações eletrônicas, inclusive para fins da notificação prevista no art. 43, § 2º, do CDC. Sustentou, por fim, que o art. 43, § 2º, do CDC prevê tão somente a comunicação escrita, não havendo nenhuma vedação à comunicação eletrônica. Conforme consignado na decisão agravada, a Terceira Turma desta Corte firmou posicionamento no sentido de que a prévia notificação acerca da inscrição do nome do consumidor nos órgãos de proteção ao crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusivamente por meio eletrônico. Confira-se o seguinte julgado: RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. NECESSIDADE. NOTIFICAÇÃO POR E-MAIL. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE CORRESPONDÊNCIA AO ENDEREÇO DO CONSUMIDOR. DANO MORAL. CONFIGURAÇÃO. ARBITRAMENTO. MÉTODO BIFÁSICO. 1. Ação de cancelamento de registro e indenizatória da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 14/2/2023 e concluso ao gabinete em 12/5/2023. 2. O propósito recursal consiste em dizer se a notificação prévia à inscrição do consumidor em cadastro de inadimplentes, prevista no §2º, do art. 43, do CDC, pode ser realizada, exclusivamente, por e-mail. 3. O Direito do Consumidor, como ramo especial do Direito, possui autonomia e lógica de funcionamento próprias, notadamente por regular relações jurídicas especiais compostas por um sujeito em situação de vulnerabilidade. Toda legislação dedicada à tutela do consumidor tem a mesma finalidade: reequilibrar a relação entre consumidores e fornecedores, reforçando a posição da parte vulnerável e, quando necessário, impondo restrições a certas práticas comerciais. 4. É dever do órgão mantenedor do cadastro notificar o consumidor previamente à inscrição - e não apenas de que a inscrição foi realizada -, conferindo prazo para que este tenha a chance (I) de pagar a dívida, impedindo a negativação ou (II) de adotar medidas extrajudiciais ou judiciais para se opor à negativação quando ilegal. 5. Na sociedade brasileira contemporânea, fruto de um desenvolvimento permeado, historicamente, por profundas desigualdades econômicas e sociais, não se pode ignorar que o consumidor, parte vulnerável da relação, em muitas hipóteses, não possui endereço eletrônico (e-mail) ou, quando o possui, não tem acesso facilitado a computadores, celulares ou outros dispositivos que permitam acessá-lo constantemente e sem maiores dificuldades, ressaltando-se a sua vulnerabilidade técnica, informacional e socioeconômica. 6. A partir de uma interpretação teleológica do §2º, do art. 43, do CDC, e tendo em vista o imperativo de proteção do consumidor como parte vulnerável, conclui-se que a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva através de e-mail. 7. Na hipótese dos autos, merece reforma o acórdão recorrido, com o cancelamento da inscrição mencionada na inicial, pois, à luz das disposições do CDC, não se admite a notificação do consumidor, exclusivamente, através de e-mail. 8. No que diz respeito à compensação por danos morais, extrai-se dos fatos delineados pela instância ordinária, que não existiam outras inscrições preexistentes e legítimas quando foi realizado o registro negativo que ora se examina, motivo pelo qual encontra-se caracterizado o dano extrapatrimonial em razão da ausência de prévia notificação válida do consumidor. 9. Quanto à fixação do montante a ser pago a título de compensação pelo dano moral experimentado, as Turmas integrantes da Segunda Seção valem-se do método bifásico para o seu arbitramento. 10. Na espécie, para fixação do quantum compensatório, tendo em vista os interesses jurídicos lesados - honra e dignidade do consumidor - e os precedentes análogos desta Corte, considera-se razoável que a condenação deve ter como valor R$ 10.000,00 (dez mil reais). 11. Recurso especial conhecido e provido para julgar procedentes os pedidos formulados na presente ação, determinando o cancelamento da inscrição mencionada na exordial e condenando a ré ao pagamento de compensação por danos morais no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), com juros de mora desde o evento danoso e correção monetária a partir da data do arbitramento. (REsp n. 2.069.520/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 13/6/2023, DJe de 16/6/2023) No corpo do referido acórdão ficou expressamente consignado que, embora a utilização de e-mail e mensagens de texto via celular (SMS) representa importante avanço tecnológico, não seria lícita a sua utilização como mecanismo único de notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome nos órgãos de proteção ao crédito, uma vez que, além de ser parte vulnerável da relação, em muitas hipóteses não tem acesso facilitado a computadores, celulares ou outros dispositivos que permitam acessá-lo constantemente e sem maiores dificuldades. Dessa forma, o presente agravo não se revela apto a alterar o conteúdo do julgado impugnado, que não conheceu do apelo nobre, devendo ser ele mantido. Nessas condições, NEGO PROVIMENTO ao agravo interno. É o meu voto.