REsp 2176645 - DECISAO
O Tribunal concedeu provimento ao recurso especial do INSS e determinou a aplicação dos juros de mora e da correção monetária nos termos definidos nos Temas 810/STF, 905/STJ e 1.170/STF, entendendo ser possível aplicar legislação superveniente aos parâmetros de juros e atualização sem ofensa à coisa julgada quando...
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- Parties
- Recorrente: Instituto Nacional do Seguro Social
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 November 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Provimento Ao Recurso Especial
- Outcome
- Recurso especial provido
- Legal Topics
- Coisa Julgada, Juros Moratórios, Atualização Monetária, Aplicação De Lei Superveniente, Consectários Legais, Cumprimento De Sentença
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Parties
Instituto Nacional do Seguro Social
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Provimento Ao Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade da Lei 11.960/2009 aos consectários legais de condenações da Fazenda Pública
- 2 Possibilidade de modificação de parâmetros de atualização/juros por legislação superveniente sem ofensa à coisa julgada
- 3 Natureza processual dos juros moratórios e aplicação imediata da lei superveniente
Ratio Decidendi
O Tribunal concedeu provimento ao recurso especial do INSS e determinou a aplicação dos juros de mora e da correção monetária nos termos definidos nos Temas 810/STF, 905/STJ e 1.170/STF, entendendo ser possível aplicar legislação superveniente aos parâmetros de juros e atualização sem ofensa à coisa julgada quando adotada a interpretação consolidada nos precedentes vinculantes e nos princípios que regem a matéria.
Court Disposition
Recurso especial provido
Orders
- Determinar sejam aplicados juros de mora e correção monetária nos termos definidos nos Temas 810/STF, 905/STJ e 1.170/STF.
- Publique-se.
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DECISÃO Trata-se de recurso especial manejado pelo Instituto Nacional do Seguro Social com fundamento no art. 105, III, a, da CF, contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim ementado (fl. 23): AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONSECTÁRIOS LEGAIS. COISA JULGADA. Definidos expressamente os critérios de atualização do montante devido em título formado quando já estavam em vigor as inovações da Lei 11.960, não é possível a sua modificação em cumprimento de sentença, sob pena de ofensa à coisa julgada. Opostos embargos declaratórios, foram rejeitados (fl. 49). A parte recorrente aponta violação aos arts. 1.022, II, do CPC; 6º da LINDB; e 1º-F, da Lei n. 9.494/1997, com a redação dada pelo art. 5º da Lei n. 11.960/2009 . Sustenta que teria havido negativa de prestação jurisdicional e que (fls. 59/60): .. muito embora o Acórdão tenha sido proferido após a publicação da Lei 11.960/09 (30.06.2009), que alterou o percentual de juros de mora aplicáveis nas condenações contra a Fazenda Pública, o que se observa no caso dos autos é que a matéria somente foi debatida em primeiro grau de jurisdição sob a égide da legislação até então vigente. O acórdão que julgou a Apelação não exerceu cognição sobre incidência da Lei 11.960/09: cingiu-se ao exame da legalidade da sentença em relação à legislação vigente na data em que ela foi proferida (anterior a 2009). Ou seja, em nenhum momento as instâncias superiores, analisando os recursos interpostos, enfrentaram a Lei 11.960/09, razão pela qual a alteração normativa sobre o tema deve ser observada em sede de cumprimento de sentença, com especial atendimento ao art. 6º da LINDB: Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. (Redação dada pela Lei nº 3.238, de 1957) Note-se que o E. STJ entende que não há violação a coisa julgada a adoção de critérios de correção monetária fixados por legislação superveniente à formação do título executivo: .. Explica-se o entendimento pelo fato da matéria pertinente aos juros moratórios possuir natureza processual e, portanto, com aplicação imediata nos processos em curso, conforme já decidiu o E. STF no julgamento do RE 559.445, de 26.05.2009, em caso análogo: "RECURSO EXTRAORDINÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. JUROS DE MORA. EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. ART. 1º-F DA LEI 9.494/97 COM REDAÇÃO DA MP 2.180-35. CONSTITUCIONALIDADE. EFICÁCIA IMEDIATA. 1. É constitucional a limitação de 6% (seis por cento) ao ano dos juros de mora devidos em decorrência de condenação judicial da Fazenda Pública para pagamento de verbas remuneratórias devidas a servidores e empregados públicos. Precedentes. 2. Aplicação imediata da lei processual aos processos em curso. 3. Agravo regimental improvido."(grifamos) Sem contrarrazões (fl. 82). Em juízo de retratação relativo ao Tema 1.170/STF, aquela Corte manteve sua decisão. Eis a ementa do julgado (fl. 99): AGRAVO DE INSTRUMENTO. PREVIDENCIÁRIO. JUÍZO DE RETRATAÇÃO. CONSECTÁRIOS LEGAIS. COISA JULGADA. TEMA N.º 1.170 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. PRESSUPOSTO FÁTICO DIVERSO. 1. Se há distinção entre o caso concreto e os fatos principais que embasaram as razões de decidir do precedente paradigma, não deve haver modificação do resultado do julgamento em juízo de retratação. 2. A tese fixada no Tema n.º 1.170 do Supremo Tribunal Federal é no sentido de esclarecer que o trânsito em julgado de sentença que tenha fixado percentual de juros moratórios não impede a observância de alteração legislativa futura. 3. Se os critérios de atualização monetária foram definidos expressamente em título que foi formado quando já estavam em vigor as inovações da Lei 11.960, não é possível a sua modificação em cumprimento de sentença, sob pena de ofensa à coisa julgada. É O RELATÓRIO. SEGUE A FUNDAMENTAÇÃO. No caso em questão, inexistem omissão, contradição, obscuridade ou erro material, uma vez que, pela leitura do inteiro teor do acórdão embargado, depreende-se que este apreciou devidamente a matéria em debate e analisou de forma exaustiva, clara e objetiva as questões relevantes para o deslinde da controvérsia. Quanto ao mais, o recurso merece prosperar. Observe-se o que consta no voto condutor do acórdão recorrido (fl. 27): A mudança da sistemática de atualização do débito para adequação à alteração legislativa superveniente à formação do título não implica eventual reformativo in pejus, tampouco violação da coisa julgada material. Ao contrário, a incidência imediata dos juros moratórios, na forma prevista na Lei 11.960, e dos índices de correção monetária conformes à definição explicitada pelo Supremo Tribunal Federal destaca atenção aos efeitos vinculante e expansivo da decisão, assim como confere máxima eficácia aos princípios da segurança jurídica e da isonomia. No entanto, se o título que transitou em julgado foi proferido quando já estavam em vigor as inovações da Lei 11.960, deve haver observância à coisa julgada, ainda que se esteja diante de incorreta aplicação da lei. Com efeito, se o título deixou de observar, neste caso, o que já determinava a disciplina estabelecida pela Lei 11.960, na data de sua formação já em vigor, a parte prejudicada deveria ter se insurgido oportunamente pelos meios recursais adequados, em respeito à segurança jurídica e à imutabilidade das decisões judiciais. No presente caso, discute-se acerca dos consectários legais da condenação estabelecidos na Ação Civil Pública (ACP) n.º 2003.71.00.065522-8, cujo acórdão que transitou em julgado foi proferido em 05/08/2009, data em que já estava vigente a Lei n.º 11.960, que foi publicada em 30/06/2009. Atente-se para o seguinte trecho do voto condutor da ACP, que bem esclarece que os consectários legais, embora inicialmente definidos pela sentença, foram expressamente ratificados pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região: .. Ao proferir juízo de retratação sobre o Tema 1.170/STF, aquela Corte manteve seu julgado afirmando haver distinção entre "os fatos p rincipais que embasaram as razões de decidir do precedente paradigma" e o presente caso, consistente no fato de o título judicial ter sido formado após a vigência da Lei n.º 11.960/2009. Nada obstante a manifestação da Corte de origem, verifica-se que a tese fixada no Tema 1.170/STF reconheceu a inexistência de violação à coisa julgada, em razão de se estar aplicando legislação posterior à formação do título judicial. Eis a ementa daquele julgado: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL. TEMA N. 1.170. CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL. CONDENAÇÕES JUDICIAIS DA FAZENDA PÚBLICA. RELAÇÃO JURÍDICA NÃO TRIBUTÁRIA. TÍTULO EXECUTIVO. TRÂNSITO EM JULGADO. JUROS DE MORA. PARÂMETROS. ALTERAÇÃO. POSSIBILIDADE. ART. 1º-F DA LEI N. 9.494/1997, COM A REDAÇÃO DADA PELA DE N. 11.960/2009. OBSERVÂNCIA IMEDIATA. CONSTITUCIONALIDADE. RE 870.947. TEMA N. 810 DA REPERCUSSÃO GERAL. AUSÊNCIA DE OFENSA À COISA JULGADA. 1. A Lei n. 11.960, de 29 de junho de 2009, alterou a de n. 9.494, de 10 de setembro de 1997, e deu nova redação ao art. 1º-F, o qual passou a prever que, nas condenações impostas à Fazenda Pública, para fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, incidirão, de uma só vez, até o efetivo pagamento, os índices oficiais de remuneração básica e de juros aplicados à caderneta de poupança. 2. A respeito das condenações oriundas de relação jurídica não tributária, o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o RE 870.947 (Tema n. 810/RG), ministro Luiz Fux, declarou a constitucionalidade do art. 1º-F da Lei n. 9.494/1997, na redação dada pela de n. 11.960/2009, concernente à fixação de juros mora tórios segundo o índice de remuneração da caderneta de poupança. 3. O trânsito em julgado de sentença que tenha fixado percentual de juros moratórios não impede a observância de alteração legislativa futura, como no caso, em que se requer a aplicação da Lei n. 11.960/2009. 4. Inexiste ofensa à coisa julgada, uma vez não desconstituído o título judicial exequendo, mas apenas aplicada legislação superveniente cujos efeitos imediatos alcançam situações jurídicas pendentes, em consonância com o princípio tempus regit actum. 5. Recurso extraordinário provido, para reformar o acórdão recorrido, a fim de que seja aplicado o índice de juros moratórios estabelecido pelo art. 1º-F da Lei n. 9.494/1997, na redação dada pela de n. 11.960/2009. 6. Proposta de tese: "É aplicável às condenações da Fazenda Pública envolvendo relações jurídicas não tributárias o índice de juros moratórios estabelecido no art. 1º-F da Lei n. 9.494/1997, na redação dada pela Lei n. 11.960/2009, a partir da vigência da referida legislação, mesmo havendo previsão diversa em título executivo judicial transitado em julgado." (RE 1317982, Relator(a): NUNES MARQUES, Tribunal Pleno, julgado em 12-12-2023, PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-s/n DIVULG 19-12-2023 PUBLIC 08-01-2024) E a razão disso foi o entendimento de que "A força vinculativa das sentenças sobre relações jurídicas de trato continuado atua rebus sic stantibus: sua eficácia permanece enquanto se mantiverem inalterados os pressupostos fáticos e jurídicos adotados para o juízo de certeza estabelecido pelo provimento sentencial", como demonstra o seguinte excerto do voto condutor daquele julgado: Já no exame da ACO 683 AgR-ED, Relator o ministro Edson Fachin, o Plenário decidiu que, em sede de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, deve ser efetuada a atualização monetária nos termos da interpretação dada pelo Tema n. 810/RG ao art. 1º-F, desde a data de edição da Lei n. 11.960/2009. Ainda a esse respeito, cito trecho da decisão da Segunda Turma formalizada no MS 32.435, Relator o ministro Celso de Mello, Redator do acórdão o ministro Teori Zavascki: A força vinculativa das sentenças sobre relações jurídicas de trato continuado atua rebus sic stantibus: sua eficácia permanece enquanto se mantiverem inalterados os pressupostos fáticos e jurídicos adotados para o juízo de certeza estabelecido pelo provimento sentencial. A superveniente alteração de qualquer desses pressupostos determina a imediata cessação da eficácia executiva do julgado, independentemente de ação rescisória ou, salvo em estritas hipóteses previstas em lei, de ação revisional. Por fim, colho da jurisprudência recente do Supremo várias decisões a determinarem a aplicação da tese firmada no Tema n. 810/RG, mesmo nos feitos em que já se tenha operado a coisa julgada, em relação aos juros ou à atualização monetária (RE 1.331.940, ministro Dias Toffoli, DJe de 5 de agosto de 2021; ARE 1.317.431, ministra Cármen Lúcia, DJe de 29 de junho de 2021; RE 1.314.414, ministro Alexandre de Moraes, DJe de 26 de março de 2021; ARE 1.318.458, ministro Edson Fachin, DJe de 1º de julho de 2021; RE 1.219.741, ministro Luís Roberto Barroso, DJe de 2 de julho de 2020; ARE 1.315.257, ministro Ricardo Lewandowski, DJe de 28 de abril de 2021; e ARE 1.311.556 AgR, da minha relatoria, DJe de 10 de agosto de 2021). Dessa forma, o trânsito em julgado de sentença que tenha fixado determinado percentual de juros moratórios não impede posterior modificação, como no presente caso, em que se requer a aplicação da Lei n. 11.960/2009, objeto da tese firmada no âmbito do RE 870.947 - Tema n. 810 da repercussão geral. No caso, a coisa julgada foi form ada com base na legislação anterior à data de vigência da Lei n. 11.960/2009, ou seja, seus pressupostos fáticos e jurídicos foram alterados, razão pela qual cabe aplicar o entendimento firmado no Tema 1.170/STF. ANTE O EXPOSTO, dou provimento ao recurso especial para determinar sejam aplicados juros de mora e correção monetária nos termos definidos nos Temas 810/STF, 905/STJ e 1.170/STF . Publique-se. EMENTA