REsp 2186901 - ACORDAO
Negou-se provimento ao agravo interno por duas razões principais: (i) o STJ não pode reexaminar fatos e provas, incidindo a Súmula 7; e (ii) o acórdão recorrido contém fundamentação constitucional autônoma além da infraconstitucional, não tendo a agravante interposto recurso extraordinário ao STF, aplicando-se a...
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- Parties
- Agravante: MARIA DE FATIMA MATIAS MACIEL e OUTRAS; Agravada: FUNASA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 September 2025
- Procedural Posture
- Agravo Interno Em Recurso Especial / Julgamento Colegiado Em Sessão Virtual; Decisão De Negar Provimento Ao Agravo Interno
- Outcome
- Negado provimento ao agravo interno
- Legal Topics
- Cumprimento De Sentença, Reexame De Fatos E Provas, Coisa Julgada, Súmula 7 Do STJ, Súmula 126 Do STJ, Eficácia De Decisões Cautelares Em ADI, Efeito Vinculante Erga Omnes
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Parties
MARIA DE FATIMA MATIAS MACIEL e OUTRAS
Agravante
FUNASA
Agravada
Procedural Posture
Agravo Interno Em Recurso Especial / Julgamento Colegiado Em Sessão Virtual; Decisão De Negar Provimento Ao Agravo Interno
Legal Issues
- 1 Vedação ao reexame de fatos e provas pelo STJ (Súmula 7)
- 2 Incidência da Súmula 126 quando o acórdão recorrido contém fundamentação constitucional autônoma e infraconstitucional e não há recurso extraordinário
- 3 Questão sobre eficácia vinculante de decisões cautelares do STF em ADI e sua aplicação na inexigibilidade do título executivo
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo interno por duas razões principais: (i) o STJ não pode reexaminar fatos e provas, incidindo a Súmula 7; e (ii) o acórdão recorrido contém fundamentação constitucional autônoma além da infraconstitucional, não tendo a agravante interposto recurso extraordinário ao STF, aplicando-se a Súmula 126 do STJ, o que impede o conhecimento do recurso especial.
Court Disposition
Negado provimento ao agravo interno
Orders
- Negado provimento ao agravo interno
- Mantida a decisão agravada que não conheceu do recurso especial
Full Case Text
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da PRIMEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 02/09/2025 a 08/09/2025, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Benedito Gonçalves, Sérgio Kukina, Regina Helena Costa e Gurgel de Faria votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sérgio Kukina. EMENTA PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. SERVIDOR PÚBLICO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. REEXAME DE FATOS E PROVAS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7 DO STJ. ACÓRDÃO RECORRIDO COM DUPLA FUNDAMENTAÇÃO. CONSTITUCIONAL E INFRACONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO INTERPOSTO. SÚMULA 126/STJ. APLICA ÇÃO. PROVIMENTO NEGADO. 1. Extrai-se do art. 105, inciso III, da Constituição Federal que a missão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) é a de uniformizar a interpretação da legislação federal. No cumprimento de seu papel, não lhe é permitida a formação de novo juízo sobre fatos e provas dos autos. Incidência da Súmula 7 deste Tribunal. 2. Não se conhece do recurso especial quando o acórdão recorrido possui fundamentação constitucional, autônoma, e infraconstitucional e o recurso extraordinário para o Supremo Tribunal Federal não é interposto. Incidência da Súmula 126 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). 3. Agravo interno a que se nega provimento.
RELATÓRIO Trata-se de agravo interno interposto por MARIA DE FATIMA MATIAS MACIEL e OUTRAS da decisão em que não conheci do recurso especial (fls. 1.075/1.080). A parte agravante afirma que: (1) a reforma do acórdão recorrido, proferido pelo TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO, não depende da revisão de fatos e de provas presentes nos autos e "a alegação de coisa julgada não foi rejeitada porque os elementos das ações fossem diferentes entre si (matéria de fato), mas com a partir de suposta exceção de caráter jurídico: ao julgar o REsp 1.244.681-AL, não ter o STJ se pronunciado específica e expressamente quanto à alegação da FUNASA de que, tendo o trânsito em julgado na ação ordinária sido posterior à concessão pelo STF de medidas cautelares nas ADIs 1602, 1603, 1612 e 1614, incidiria o art. 741, parágrafo único, do CPC/1973" (fl. 1.097); e (2) " .. a aplicação da Súmula 126/STJ é indevida, pois o acórdão recorrido fundamenta-se predominantemente em normas processuais infraconstitucionais (arts. 741, parágrafo único, do CPC/1973, e 525, §12, do CPC/2015), e a referência à eficácia das decisões do STF em ADIs não configura um fundamento constitucional autônomo" (fl. 1.096). Requer a reconsideração da decisão agravada ou o julgamento deste recurso pelo órgão colegiado competente. A parte adversa não apresentou impugnação (fl. 1.130). É o relatório. EMENTA PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. SERVIDOR PÚBLICO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. REEXAME DE FATOS E PROVAS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7 DO STJ. ACÓRDÃO RECORRIDO COM DUPLA FUNDAMENTAÇÃO. CONSTITUCIONAL E INFRACONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO INTERPOSTO. SÚMULA 126/STJ. APLICA ÇÃO. PROVIMENTO NEGADO. 1. Extrai-se do art. 105, inciso III, da Constituição Federal que a missão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) é a de uniformizar a interpretação da legislação federal. No cumprimento de seu papel, não lhe é permitida a formação de novo juízo sobre fatos e provas dos autos. Incidência da Súmula 7 deste Tribunal. 2. Não se conhece do recurso especial quando o acórdão recorrido possui fundamentação constitucional, autônoma, e infraconstitucional e o recurso extraordinário para o Supremo Tribunal Federal não é interposto. Incidência da Súmula 126 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). 3. Agravo interno a que se nega provimento. VOTO Na origem, trata-se de cumprimento de sentença pelo qual se pleiteou o cumprimento do título judicial formado em ação "proposta com o objetivo de que se assegurasse aos Servidores Públicos Federais ativos, inativos e pensionistas, o direito à percepção do reajuste salarial no importe de 47,94%, decorrente da aplicação da Lei nº. 8.676 de 1993 (apurado nos meses de janeiro e fevereiro de 1994, a incidir a partir de março daquele ano)" (fl. 246). A decisão de fls. 246/249 reconheceu a inexequibilidade do título executivo. Ao examinar a controvérsia, o Tribunal de origem acolheu a pretensão recursal e deu provimento ao agravo de instrumento nestes termos (fls. 709/710): AGRAVO DE INSTRUMENTO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. FUNASA (47,94%). LIMITAÇÃO SUBJETIVA DA SENTENÇA COLETIVA AOS SERVIDORES CONSTANTES DA LISTA INICIAL. INEXIGIBILIDADE DO TÍTULO. MATÉRIA DE DEFESA QUE SE RENOVA A CADA CUMPRIMENTO DE SENTENÇA PROPOSTO. CAUTELAR DEFERIDA PELO STF EM AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO DO TÍTULO JUDICIAL EXEQUENDO. EFEITO ERGA OMNES. RECONHECIMENTO DA INEXIGIBILIDADE DO TÍTULO JUDICIAL. AGRAVO PROVIDO. 1. Insurge-se a FUNASA em face de decisão que rejeitou impugnação ao cumprimento de sentença em que se controverte, dentre outros pontos, a inexigibilidade do título que reconheceu aos servidores o direito ao reajuste de 47,94%, tendo em vista a incidência, no caso, do art. 741, parágrafo único, do CPC, nos termos da redação instituída pela MP nº 2.180-41/2001. 2. O Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado de Alagoas - SINTSEP/AL, embora pudesse atuar em defesa de toda a categoria, ajuizou a ação apenas em nome de 19 filiados relacionados em lista acostada à petição inicial do processo de conhecimento. Assim sendo, segue a conclusão de que o próprio sindicato delimitou os efeitos subjetivos da coisa julgada que se formou, eis que colacionou aos autos relação nominal dos servidores, sendo absolutamente descabida a pretensão de extensão do julgado a outros servidores. 3. O Supremo Tribunal Federal ao apreciar o RE 883.642 (tema 823), firmou a tese de que: "os sindicatos possuem ampla legitimidade extraordinária para defender em juízo os direitos e interesses coletivos ou individuais dos integrantes da categoria que representam, inclusive nas liquidações e execuções de sentença, independentemente de autorização dos substituídos". Todavia, ao apreciar o recurso paradigma, a Corte Suprema não se pronunciou sobre a possibilidade de extensão dos efeitos da coisa julgada de título coletivo aos substituídos que não integram a relação nominal anexa à inicial do processo de conhecimento. Distinguishing. 4. Indo-se além do alcance subjetivo da coisa julgada, tem-se que a cada novo pedido de cumprimento de sentença, surge para a parte adversa o direito a formular uma impugnação, a qual poderá ter por objeto qualquer das matérias do art. 525, do CPC, dentre as quais se encontra a inexigibilidade do título. De conseguinte, não há que se falar em preclusão para a arguição de inexigibilidade ora desenvolvida pela FUNASA. Neste sentido, a coisa julgada formada na Ação Rescisória nº 6.016, não possui o condão de obstar a alegação de inexigibilidade do título exequendo ora veiculada, eis que interposta em face de acórdão que acolheu os embargos à execução proposta pelos 19 servidores que promoveram a execução do título judicial no ano de 2003. 5. O título exequendo transitou em julgado em 27-10-98. O STF, na ADI 1612 e ADI 1614, envidou julgamento de mérito em desconformidade com o acórdão exequendo em 06-05-99 e 18-12-98, respectivamente, ou seja, em instante posterior ao seu trânsito em julgado. No entanto, não se pode deixar de considerar que, antes, isto é, em 21-05-97 (publicação em 29-08-97), 28-05-97 (publicação em 03-04-98) e 19-06-97 (publicação em 27-03-98), o STF, em fiscalização abstrata de constitucionalidade, entendeu que a concessão do reajuste em discussão se mostrava em descompasso com a Constituição de 1988 (CRFB). 6. A força obrigatória geral e o efeito vinculante das decisões proferidas em ações diretas de inconstitucionalidade não se limitam ao julgamento de mérito, envolvendo também as decisões que deferem medidas cautelares, como sucedeu aqui reiteradamente. Neste sentido: STF (Pleno, unânime, ADC 4 (MC), rel. Min. Sydney Sanches, julgamento em 11-02-98). 7. No julgamento da liminar na ADI 1602-4 PB, que serviu de paradigma para as demais, o Ministro Néri da Silveira bem traçou a diferença entre a concessão de liminar em ação direta de inconstitucionalidade com efeitos ex nunc e ex tunc, destacando que: "quando é manifesta a inconstitucionalidade da norma, como no caso concreto, a eficácia desse ato cassasório, para que realmente seja efetiva, deve operar ex tunc" 8. A decisão do Plenário do STF, em sede de medida cautelar em ADI com efeito ex tunc não se limita à verificação da plausibilidade jurídica e possui eficácia vinculante erga omnes, satisfazendo a hipótese de incidência do art. 741, parágrafo único, do CPC de 1973 e, de conseguinte, do art. 535, §5º, da codificação vigente. No mais, o §12º, do art. 525 dispõe que é inexigível a obrigação reconhecida em título judicial fundado em "interpretação da lei ou do ato normativo tido pelo Supremo Tribunal Federal como incompatível com a Constituição Federal". Neste contexto, a interpretação conferida pelo STF nas cautelares de ações diretas de inconstitucionalidade de n.º 1.603, 1.612, 1.613 e 1.614, independente do normativo impugnado, possui eficácia vinculante erga omnes devendo ser aplicado o entendimento vertido, no sentido de que o reajuste concedido afronta a Constituição da República. Tais compreensão deriva da missão institucional deferida ao STF de intérprete-mor e institucional da Lei Fundamental (art. 102, caput, CRFB). 9. Agravo de instrumento provido para acolher a impugnação ao cumprimento de sentença e reconhecer a inexigibilidade do título judicial exequendo, fixando os honorários advocatícios em , nos R$ 2.000,00 termos do art. 85, §8º, do CPC. A respeito da alegação de ofensa à coisa julgada, o Tribunal de origem resolveu o seguinte (fl. 713): Para além dos fundamentos proferidos na decisão monocrática, acrescento que a coisa julgada, formada na Ação Rescisória nº 6.016 (processo nº 0055400-42.2008.4.05.0000), não possui o condão de obstar a alegação de inexigibilidade do título executivo ora veiculada. A uma, porque a leitura do REsp 1.344.681 (id. 4050000.40643815) nos revela que ao prover o recurso especial, a Corte Superior não analisou a particularidade da tese de que as liminares concedidas em ações diretas de inconstitucionalidade possuem efeito vinculante para todo o Judiciário. Em absoluto. O recurso foi provido por fundamento autônomo, qual seja o de que "não estão abrangidas pelo parágrafo único do art. 741 do CPC as sentenças cujo trânsito em julgado tenha ocorrido em data anterior à vigência do dispositivo". A duas, porque tampouco haveria que se cogitar de coisa julgada dadas as circunstâncias fáticas que norteiam o caso em análise. O Tribunal de origem concluiu que a alegação de inexigibilidade do título executivo judicial formado na Ação Coletiva 0003006-03.1997.4.05.8000, o qual havia reconhecido, em favor dos substituídos pela entidade sindical, ora recorrentes, o direito ao reajuste de 47,94%, não havia ofendido a coisa julgada formada no REsp 1.344.681/AL (Ação Rescisória 6.016/AL). Da análise do art. 105, inciso III, da Constituição Federal, conclui-se que a missão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) é a de uniformizar a interpretação da legislação federal. No cumprimento de seu papel, não é devido a este Tribunal o reexame do contexto fático-probatório dos autos porque tal providência daria ensejo à formação de novo juízo acerca de fatos e de provas, atribuição exclusiva das autoridades judiciais de primeira e segunda instâncias. Está correta a decisão que não conheceu do recurso com fundamento na Súmula 7 do STJ. A decisão agravada não conheceu do recurso especial porque, a despeito de o Tribunal de origem ter resolvido a questão controvertida com fundamento constitucional, não foi interposto recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal. Em nova análise do presente caso, vê-se que, quanto ao ponto controvertido - não aplicação do parágrafo único do art. 741 do Código de Processo Civil de 1973 a processos transitados em julgado antes da edição da Medida Provisória 2.180/1935 -, objeto do recurso especial, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região decidiu nestes termos (fls. 715/716): Em se tratando de medida cautelar em ADI com efeito ex tunc, a inconstitucionalidade do normativo é proclamada antes do trânsito em julgado, não se limitando à verificação da plausibilidade jurídica, de forma que a impugnação à execução do julgado satisfaz a hipótese de incidência do art. 741, parágrafo único, do CPC de 1973 e, de conseguinte, do art. 535, §5º, da codificação vigente, em especial porque o §12º, do art. 525 dispõe que é inexigível a obrigação reconhecida em título judicial fundado em "interpretação da lei ou do ato normativo tido pelo Supremo Tribunal Federal como incompatível com a Constituição Federal". Neste contexto, a interpretação conferida pelo STF nas cautelares das multicitadas ações diretas de inconstitucionalidade possui eficácia vinculante erga omnes devendo ser aplicado o entendimento ali vertido, no sentido de que o reajuste concedido afronta a Constituição da República. A parte ora agravante, MARIA DE FATIMA MATIAS MACIEL e OUTRAS, não interpôs recurso extraordinário com o propósito de afastar o fundamento constitucional do acórdão recorrido. A disposição contida no art. 1.032 do Código de Processo Civil não se aplica a este caso porque a incidência da regra pertinente ao princípio da fungibilidade é devida quando erroneamente interposto o recurso especial de questão de natureza exclusivamente constitucional. Como visto, o acórdão recorrido tem dupla fundamentação - constitucional e infraconstitucional -, o que enseja a interposição de dois recursos distintos de natureza extraordinária (recurso especial e recurso extraordinário). Está correta a decisão que não conheceu do recurso especial devido à incidência da Súmula 126 do Superior Tribunal de Justiça. Ante o exposto, nego provimento ao agravo interno. É o voto.