HC 679706 - ACORDAO
O Tribunal decidiu que o art. 68 do Código Penal admite a cumulação sucessiva das causas de aumento previstas na parte especial quando as instâncias ordinárias fundamentam concretamente a escolha do acúmulo; no caso, o Tribunal de origem demonstrou concretamente a maior reprovabilidade pela presença de três agentes...
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- Parties
- Agravante: LUIS CARLOS JARDEL SERRA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 November 2021
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Habeas Corpus / Decisão Colegiada Da Sexta Turma (negado Provimento)
- Outcome
- Agravo regimental a que se nega provimento
- Legal Topics
- Dosimetria Da Pena, Causas De Aumento De Pena, Roubo Circunstanciado, Art. 68 Do Código Penal
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Parties
LUIS CARLOS JARDEL SERRA
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental No Habeas Corpus / Decisão Colegiada Da Sexta Turma (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de cumulação cumulativa das causas de aumento previstas na parte especial do Código Penal
- 2 Aplicação do art. 68 do Código Penal
- 3 Método de cálculo das majorantes (cálculo isolado vs. em cascata)
Ratio Decidendi
O Tribunal decidiu que o art. 68 do Código Penal admite a cumulação sucessiva das causas de aumento previstas na parte especial quando as instâncias ordinárias fundamentam concretamente a escolha do acúmulo; no caso, o Tribunal de origem demonstrou concretamente a maior reprovabilidade pela presença de três agentes e emprego de arma branca e de fogo, legitimando a incidência separada e sucessiva das majorantes, motivo pelo qual negou provimento ao agravo regimental.
Court Disposition
Agravo regimental a que se nega provimento
Orders
- Negado provimento ao agravo regimental
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. CONCURSO DE AGENTES, EMPREGO DE ARMA BRANCA E DE ARMA DE FOGO. APLICAÇÃO CUMULATIVA DAS CAUSAS DE AUMENTO DE PENA. CÁLCULO SUCESSIVO. EMPREGO DEVIDAMENTE FUNDAMENTO. POSSIBILIDADE. ART. 68 DO CÓDIGO PENAL. I - Entende este Tribunal Superior que o art. 68 do Código Penal permite a aplicação cumulativa de causas de aumento de pena previstas na parte especial, desde que mediante concreta fundamentação das instâncias ordinárias. Precedentes. II - Na hipótese em apreço, observa-se que o Tribunal de origem fundamentou de forma concreta o emprego cumulativo das majorantes previstas no § 2º, incisos II e VII, e no § 2º-A, inciso I, ambos do art. 157 do Código Penal, uma vez que o crime de roubo foi praticado por 3 agentes número superior ao necessário para majorar o delito pelo concurso de pessoas , com emprego de arma branca e de fogo, afigurando-se correta a incidência separada e o incremento sucessivo das causas de aumento. III - Agravo regimental a que se nega provimento. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), Laurita Vaz e Rogerio Schietti Cruz votaram com o Sr. Ministro Relator. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Trata-se de agravo regimental no habeas corpus interposto por LUIS CARLOS JARDEL SERRA contra decisão monocrática de minha relatoria em que concedi em parte o habeas corpus para reduzir a sanção do paciente a 14 anos, 11 meses e 7 dias de reclusão, além do pagamento de 33 dias-multa. Neste recurso, o agravante questiona se "deve utilizar o método isolado ou em cascata para o cálculo do concurso de causas de aumento previstas nos §§ 2º e 2º-A do art. 157 do Código Penal" (e-STJ fls. 699/700). Alega que "a cumulação em cascata é possível nos casos em que uma das causas de aumento está prevista no Código Penal e a outra, em legislação especial. No caso do precedente (HC n. 27.253/MG), a cumulação foi possível, pois uma das causas de aumento estava prevista no inciso III do art. 12 da Lei 8.137/90 e a outra no art. 71 do Código Penal. No presente caso, a situação é distinta, tendo em vista que ambas as causas de aumento estão previstas no Código Penal, uma no § 2º e a outra no § 2º-A do art. 157" (e-STJ fl. 700). Assim, requer a reconsideração da decisão agravada ou a submissão do presente recurso à apreciação da Turma competente. É o relatório. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Conforme relatado, busca o agravante o redimensionamento da pena, ante a aplicação do cúmulo material de causas de aumento, em vez do cálculo em cascata operado na terceira fase do cálculo dosimétrico. A decisão agravada foi proferida nos seguintes termos (e-STJ fl. 693): Por fim, alega a defesa violação ao art. 68 do CP e ao modelo trifásico da pena, por terem as instâncias a quo aplicado para a elevação das penas, na terceira fase, o critério cumulativo, sucessivo ou de efeito cascata, em que as causas de aumento e de diminuição incidem, igualmente, uma após a outra sobre o resultado obtido na operação anterior. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e desta Corte é no sentido de que, "Se concorrem duas causas de aumento, uma prevista em lei especial e outra no Código Penal, o juiz, ao individualizar a reprimenda, deve proceder ao segundo aumento não sobre a pena-base, como defende o Impetrante, mas sobre o quantum já acrescido na primeira operação" (HC n. 27.253/MG, Quinta Turma, Relª. Minª. Laurita Vaz, julgado em 22/2/2005, DJ 11/4/2005). Assim, o cálculo dosimétrico realizado na terceira etapa não se mostra descabido. Nesse sentido: .. Como é consabido, a dosimetria da pena insere-se dentro do juízo de discricionariedade do julgador, atrelada às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas do agente. Relativamente à terceira etapa dosimétrica, registre-se que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça tem exigido apenas que, na fixação da fração de exasperação punitiva pelas causas de aumento previstas na parte especial do Código Penal, seja observado o dever de fundamentação específica do órgão julgador (art. 93, IX, da Constituição da República), com remissão às particularidades do caso concreto que refletem a especial gravidade do delito. Assim, a depender do caso sub judice, a presença de mais de uma causa de aumento, associada a outros elementos indicativos da gravidade em concreto do delito perpetrado, todos devidamente explicitados na motivação empregada, poderá ensejar o incremento cumulativo da reprimenda. Confiram-se: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. DOSIMETRIA. CÚMULO DE CAUSAS DE AUMENTO DE PENA. INTERPRETAÇÃO DO ART. 68, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CP. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO CONCORRENTE DAS CAUSAS DE AUMENTO. CORRUPÇÃO DE MENORES. MENORIDADE COMPROVADA POR OUTROS DOCUMENTOS IDÔNEOS. 1. A teor do art. 68, parágrafo único, do Código Penal, é possível, de forma concretamente fundamentada, aplicar cumulativamente as causas de aumento de pena previstas na parte especial. 2. Tendo sido o crime de roubo praticado em concurso de agentes com um adolescente e com emprego de arma de fogo, correta se afigura a incidência separada e cumulativa das duas causas de aumento, não havendo manifesta ilegalidade. 3. A jurisprudência desta Corte Superior consolidou-se na compreensão de que "para efeitos penais, o reconhecimento da menoridade do réu requer prova por documento hábil" (Súmula 74/STJ), que não se restringe à certidão de nascimento, sendo outros documentos dotados de fé pública igualmente hábeis para a comprovação da idade. Precedentes. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC 646.116/MG, Rel. Ministro OLINDO MENEZES (Desembargador convocado do TRF 1ª REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 17/08/2021, DJe 20/08/2021 - grifei) A contrario sensu: HABEAS CORPUS. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. DOSIMETRIA DA PENA. TERCEIRA ETAPA. MAJORANTES DO CONCURSO DE PESSOAS E EMPREGO DE ARMA DE FOGO. ART. 68, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CÓDIGO PENAL. CÁLCULO CUMULATIVO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. ILEGALIDADE. INCIDÊNCIA APENAS DA MAJORANTE QUE MAIS AUMENTA A PENA. AUMENTO DE 2/3. NOVO CÁLCULO DA REPRIMENDA. 1. Deve ser mantida, por seus próprios e jurídicos fundamentos, a decisão monocrática que concedeu a ordem. 2. Segundo a jurisprudência desta Corte, optando o magistrado sentenciante pela incidência cumulativa de causas de aumento da parte especial, a escolha deverá ser devidamente fundamentada, lastreada em elementos concretos dos autos, a evidenciar o maior grau de reprovação da conduta e, portanto, a necessidade de sanção mais rigorosa (HC n. 501.063/RJ, Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe 4/9/2020). 3. Na hipótese, o Magistrado de primeiro grau, corroborado pelo Tribunal a quo, não fundamentou idoneamente a aplicação cumulada das duas majorantes, pois não foram apresentados elementos concretos extraídos dos autos que evidenciassem a maior reprovabilidade da conduta, havendo apenas menção genérica de que a presença da cada uma das majorantes implica necessariamente em situação mais gravosa, o que caracteriza ilegalidade flagrante. 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC 652.610/SC, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 01/06/2021, DJe 07/06/2021 - grifei) PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. ROUBO TRIPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO. DOSIMETRIA. CONCURSO DE AGENTES, RESTRIÇÃO DE LIBERDADE DA VÍTIMA E EMPREGO DE ARMA DE FOGO. ART. 68, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CP. CARÊNCIA DE MOTIVAÇÃO CONCRETA PARA A APLICAÇÃO SUCESSIVA DAS CAUSAS DE AUMENTO. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. .. 3. A jurisprudência da Suprema Corte é no sentido de que o art. 68, parágrafo único, do Código Penal, não exige que o juiz aplique uma única causa de aumento referente à parte especial do Código Penal, quando estiver diante de concurso de majorantes, mas que sempre justifique a escolha da fração imposta. 4. No caso, a Corte de origem olvidou-se de motivar a adoção das frações de aumento de forma sucessiva, tendo se limitado a ressaltar a incidência das três majorantes, o que não serve como justificativa para o incremento cumulativo. Nesse contexto, resta evidenciada flagrante ilegalidade na aplicação cumulativa das causas de aumento previstas no art. 157, § 2º e § 2º-A, ambos do Código Penal. 5. Writ não conhecido. Ordem concedida, de ofício, a fim de limitar o incremento da pena na terceira fase a 2/3, determinando ao Juízo das Execuções que proceda à nova dosagem da pena, com extensão dos efeitos da ordem ao corréu David Almeida Moraes, com fundamento no art. 580 do CPP. (HC 583.908/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 16/06/2020, DJe 23/06/2020 - grifei) No caso dos autos, consoante consta da decisão agravada, "a instância ordinária justificou a aplicação cumulativa das majorantes, assinalando que a empreitada criminosa foi praticada por 3 agentes número superior ao necessário para majorar o delito pelo concurso de pessoas , evidenciando, assim, a maior reprovabilidade da conduta, com esteio em circunstâncias concretas atinentes às próprias causas de aumento" (e-STJ fl. 693). Conforme visto, a Corte de origem fundamentou, concretamente, a adoção das frações de aumento de forma cumulada, o que justifica o incremento sucessivo. Como se vê, o agravante limita-se a repisar os termos da impetração em sua peça recursal, razão pela qual concluo que inexistem elementos suficientes para infirmar a decisão impugnada, que, de fato, apresentou a solução que melhor espelha a orientação jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça. Assim, no ponto, nenhuma censura merece o decisório agravado, que deve ser mantido pelos seus próprios e jurídicos fundamentos. Ante exposto, nego provimento ao agravo regimental. É como voto. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Relator