REsp 1937252 - ACORDAO
O Tribunal manteve que, conforme a ADI n. 3.150/DF e a jurisprudência do STJ, a legitimidade do Ministério Público para execução da multa é prioritária porém não exclusiva; assim, a Fazenda Pública permanece com legitimidade subsidiária para promover a cobrança caso o Ministério Público não atue no prazo de 90 dias,...
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- Parties
- Agravante: JOSE NELSON MOURA DA SILVA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 September 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual Da Quinta Turma Acórdão Denegando Provimento
- Outcome
- Agravo regimental desprovido
- Legal Topics
- Execução Da Pena De Multa, Legitimidade Do Ministério Público, Legitimidade Subsidiária Da Fazenda Pública, Lei N. 13.964/2019, Repercussão Geral Tema 1219
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Parties
JOSE NELSON MOURA DA SILVA
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual Da Quinta Turma Acórdão Denegando Provimento
Legal Issues
- 1 Se a legitimidade para a execução da pena de multa, após a Lei n. 13.964/2019, é exclusiva do Ministério Público ou apenas prioritária
- 2 Se a Fazenda Pública mantém legitimidade subsidiária para propor execução fiscal da multa penal caso o Ministério Público deixe de agir no prazo de 90 dias
Ratio Decidendi
O Tribunal manteve que, conforme a ADI n. 3.150/DF e a jurisprudência do STJ, a legitimidade do Ministério Público para execução da multa é prioritária porém não exclusiva; assim, a Fazenda Pública permanece com legitimidade subsidiária para promover a cobrança caso o Ministério Público não atue no prazo de 90 dias, razão pela qual o agravo regimental foi desprovido.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Manter o acórdão do Tribunal de origem
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 03/09/2024 a 09/09/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA. LEGITIMIDADE PRIORITÁRIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE SUBSIDIÁRIA DA FAZENDA PÚBLICA. ADVENTO DO PACOTE ANTICRIME (LEI N. 13.964/2019). AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. O acórdão do Tribunal de origem está em consonância com a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça no sentido de que, mesmo após a vigência da Lei n. 13.964/2019, perdura a legitimidade subsidiária da Fazenda Pública para a execução da pena de multa, uma vez que a legitimidade do Ministério Público para a cobrança da sanção pecuniária é prioritária e não exclusiva. Precedentes. 2. Desse modo, é permitido à Fazenda Pública propor a execução da pena de multa subsidiariamente, dependendo da hesitação do órgão ministerial em promover a cobrança dentro do prazo de 90 dias, contados a partir da intimação para a execução da reprimenda. 3. Agravo regimental desprovido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto por JOSE NELSON MOURA DA SILVA contra decisão desta relatoria proferida às fls. 151/158, que negou provimento ao recurso especial com fundamento na Súmula n. 568 do Superior Tribunal de Justiça - STJ. Em suas razões recursais (fls. 15/21), a Defensoria Pública da União - DPU sustenta que o único juízo competente para processar e julgar a multa penal é o da execução penal e, portanto, a Fazenda Pública não tem legitimidade, nem principal, nem subsidiária, para executá-la. Afirma que cabe exclusivamente ao Ministério Público a competência para executar a pena de multa, excluindo-se a competência subsidiária da Fazenda Nacional. Alega que "a questão voltou à Suprema Corte no RE 1.377.843-RS (tema 1.219 da repercussão geral), no âmbito do qual já consta o voto do ministro relator no sentido de que, "à luz do artigo 51 do Código Penal, na redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019, o Ministério Público é o legitimado exclusivo para a cobrança da multa criminal, a ser realizada na vara de execuções criminais, não cabendo indicar legitimidade subsidiária da Fazenda Pública"" (fl. 19). Assim, aduz que, "ainda que pendente de novo julgamento perante o STF, a pena de multa, podendo ser executada somente perante o juízo das execuções penais, deve ser proposta exclusivamente pelo MP, de modo que a decisão demanda reforma para restaurar o determinado pelo juízo das execuções" (fl. 19). Requer a reconsideração da decisão agravada ou o provimento do presente agravo regimental pela Turma competente para conhecer e dar provimento ao recurso especial. É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA. LEGITIMIDADE PRIORITÁRIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE SUBSIDIÁRIA DA FAZENDA PÚBLICA. ADVENTO DO PACOTE ANTICRIME (LEI N. 13.964/2019). AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. O acórdão do Tribunal de origem está em consonância com a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça no sentido de que, mesmo após a vigência da Lei n. 13.964/2019, perdura a legitimidade subsidiária da Fazenda Pública para a execução da pena de multa, uma vez que a legitimidade do Ministério Público para a cobrança da sanção pecuniária é prioritária e não exclusiva. Precedentes. 2. Desse modo, é permitido à Fazenda Pública propor a execução da pena de multa subsidiariamente, dependendo da hesitação do órgão ministerial em promover a cobrança dentro do prazo de 90 dias, contados a partir da intimação para a execução da reprimenda. 3. Agravo regimental desprovido. VOTO O agravo regimental não merece provimento. O Tribunal de origem entendeu que após o advento da nova redação do art. 51 do Código Penal - CP, a legitimidade do Ministério Público Federal - MPF para execução da pena de multa é prioritária, não exclusiva. O voto condutor assim se posicionou quanto à controvérsia, no que importa, in verbis (grifos nossos): "Como se viu, o fato gerador da irresignação da acusação diz com a determinação da intimação do órgão ministerial federal para requerer em autos apartados a execução da pena de multa, tendo em vista que, segundo entende, caberia ao órgão ministerial federal exclusivamente a proceder a tal iniciativa. Rigorosamente, se insurge o MPF quanto à determinação de dar cumprimento a ato de competência do Ministério Público Federal, previsto em lei, sobre o qual não há controvérsia ou dúvida. De acordo com a lei, o Ministério Público deve requerer a execução da pena de multa no juízo criminal da execução. A questão subjacente, pano de fundo deste agravo, e que vem a ser, compreendo, a pretensão do recurso, diz com a emissão de juízo acerca d a exclusividade, ou não, da competência do Ministério Público Federal para promover a execução da pena de multa, no cenário da nova redação do art. 51 do Código Penal, originada da Lei 13.964/2019. O artigo 51 do Código Penal passou a dispor, após a edição da Lei nº 13.964/2019: Art. 51. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será executada perante o juiz da execução penal e será considerada dívida de valor, aplicáveis as normas relativas à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição. Entendo que a nova redação do dispositivo legal demarcou a legitimidade prioritária, não afirmando a exclusividade do MPF por razões de conveniência, em face do tratamento que a questão recebeu ao longo do tempo (dívida de valor para oportunizar a cobrança via executivo fiscal), assim como para preservar as situações concretas decorrentes das cobranças por executivo fiscal. Para além disso, penso que remanesce a legitimidade da Fazenda Nacional para aqueles casos em que se verifica a inércia do Ministério Público Federal, lapso de tempo esse, fixado como 90 (noventa) dias, a partir do qual nada obsta que a cobrança da pena de multa seja encaminhada para a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional - PGFN, seja por impulso oficial, leia-se, decisão do juízo da execução penal, seja a pedido do legitimado prioritário para a execução, o Ministério Público Federal" (fls. 59/60). Sobre o tema, o col. Supremo Tribunal Federal - STF, ao julgar a ADI n. 3.150/DF, declarou que a Lei n. 9.268/1996, ao considerar a multa penal como dívida de valor, não retirou dela o caráter de sanção penal, que lhe é inerente por força do art. 5º, XLVI, c, da Constituição Federal - CF. Consignou, ainda, que a legitimidade da Fazenda Pública para propor execução fiscal é subsidiária, ou seja, tão somente se o Ministério Público não houver atuado em prazo razoável (90 dias) contados a partir da intimação para a execução da reprimenda. O acórdão relativo ao julgamento da ADI n. 3150/DF ficou assim ementado: Execução penal. Constitucional. Ação direta de inconstitucionalidade. Pena de multa. Legitimidade prioritária do Ministério Público. Necessidade de interpretação conforme. Procedência parcial do pedido. 1. A Lei nº 9.268/1996, ao considerar a multa penal como dívida de valor, não retirou dela o caráter de sanção criminal, que lhe é inerente por força do art. 5º, XLVI, c, da Constituição Federal. 2. Como consequência, a legitimação prioritária para a execução da multa penal é do Ministério Público perante a Vara de Execuções Penais. 3. Por ser também dívida de valor em face do Poder Público, a multa pode ser subsidiariamente cobrada pela Fazenda Pública, na Vara de Execução Fiscal, se o Ministério Público não houver atuado em prazo razoável (90 dias). 4. Ação direta de inconstitucionalidade cujo pedido se julga parcialmente procedente para, conferindo interpretação conforme à Constituição ao art. 51 do Código Penal, explicitar que a expressão "aplicando-se-lhes as normas da legislação relativa à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição", não exclui a legitimação prioritária do Ministério Público para a cobrança da multa na Vara de Execução Penal. Fixação das seguintes teses: (i) O Ministério Público é o órgão legitimado para promover a execução da pena de multa, perante a Vara de Execução Criminal, observado o procedimento descrito pelos artigos 164 e seguintes da Lei de Execução Penal; (ii) Caso o titular da ação penal, devidamente intimado, não proponha a execução da multa no prazo de 90 (noventa) dias, o Juiz da execução criminal dará ciência do feito ao órgão competente da Fazenda Pública (Federal ou Estadual, conforme o caso) para a respectiva cobrança na própria Vara de Execução Fiscal, com a observância do rito da Lei 6.830/198 0. (ADI 3150, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado em 13/12/2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-170 DIVULG 05-08-2019 PUBLIC 06-08-2019) Este Superior Tribunal de Justiça também possui entendimento no sentido de que o Ministério Público tem legitimidade prioritária e não exclusiva, para cobrar a multa decorrente de condenação criminal transitada em julgado. A legitimidade da Fazenda Pública para propor execução fiscal é subsidiária, dependendo da hesitação do órgão ministerial dentro do prazo de 90 dias contados a partir da intimação para a execução da reprimenda. Nesse sentido (grifos nossos): PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA DE OFÍCIO PELO MAGISTRADO. IMPOSSIBILIDADE. INTELIGÊNCIA DOS ARTS. 164 E SEGUINTES DA LEP. JURISPRUDÊNCIA DO STJ E STF. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADI n. 3.150/DF, declarou que, à luz do preceito estabelecido pelo art. 5º, inciso XLVI, da Constituição Federal, a multa, ao lado da privação de liberdade e de outras restrições - perda de bens, prestação social alternativa e suspensão ou interdição de direitos -, é espécie de pena aplicável em retribuição e em prevenção à prática de crimes. 2. Diante de tal premissa, foi disposto que a legitimidade para a execução da referida multa decorrente de condenação criminal transitada em julgado, em razão de sua natureza penal, seria do Ministério Público, ainda que não exclusiva, mas prioritária, sendo a legitimidade da Fazenda Pública, para propor execução fiscal, subsidiária, dependendo da omissão do órgão ministerial dentro de prazo, que foi fixado em 90 dias contados a partir da intimação para a execução da reprimenda. 3. Assim, conforme entendimento do STF, (i) o Ministério Público é o órgão legitimado para promover a execução da pena de multa, perante a Vara de Execução Criminal, observado o procedimento descrito pelos artigos 164 e seguintes da Lei de Execução Penal; e ii) caso o titular da ação penal, devidamente intimado, não proponha a execução da multa no prazo de 90 (noventa) dias, o Juiz da execução criminal dará ciência do feito ao órgão competente da Fazenda Pública (Federal ou Estadual, conforme o caso) para a respectiva cobrança na própria Vara de Execução Fiscal, com a observância do rito da Lei n. 6.830/1980. Dessa forma, a determinação do pagamento da pena de multa não cabe, de ofício, ao juízo da execução. 4. Nesse linha, " i ncumbe ao Ministério Público a execução da pena de multa, o qual, atento às disposições contidas nos arts. 164 e seguintes da Lei de Execução Penal, deverá promovê-la, não cabendo ao juízo da execução a determinação, de ofício, do respectivo pagamento" (AgRg no AREsp n. 2.092.616/GO, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 2/8/2022, DJe de 10/8/2022). 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AREsp n. 2.222.146/GO, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 9/5/2023, DJe de 15/5/2023.) AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. EXECUÇÃO DE PENA DE MULTA. LEGITIMIDADE PRIORITÁRIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE SUBSIDIÁRIA DA FAZENDA PÚBLICA. ADVENTO DO PACOTE ANTICRIME (LEI N. 13.964/2019). REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - STF. TEMA 1219. PENDÊNCIA DE DECISÃO DEFINITIVA NA SUPREMA CORTE. DESNECESSIDADE DE SOBRESTAMENTO DOS FEITOS QUE TRATAM DA MATÉRIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Agravo regimental interposto pela Fazenda Nacional contra decisão monocrática que reconheceu sua legitimidade subsidiária para execução de pena de multa fixada na esfera penal, mesmo após o advento do Pacote Anticrime (Lei n, 13.964/2019). 2. A Suprema Corte, no leading case RE 1377843, reconheceu repercussão geral da questão controvertida posta a desate no presente recurso (Tema 1219). Todavia, referido tema encontra-se pendente de julgamento definitivo pelo STF. 3. O acórdão do Tribunal de origem se harmoniza com a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça no sentido de que, mesmo após a vigência da Lei 13.964/2019, perdura a legitimidade subsidiária da Fazenda Pública, uma vez que a legitimidade da Ministério Público para a cobrança da multa é prioritária, e não exclusiva. Precedentes: AgRg no AREsp n. 2.096.601/RS, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 24/8/2022 e AgRg no AREsp n. 2.101.526/RS, relator Ministro Olindo Menezes - Desembargador Convocado do TRF 1ª Região, Sexta Turma, DJe de 25/11/2022. 4. Ademais, o Tribunal a quo concedeu parcialmente a segurança determinando que o juízo de primeiro grau oportunize ao Ministério Público Federal - MPF, no prazo de 90 dias, na condição de legitimado prioritário, a promoção da cobrança da multa penal decorrente de sentença penal condenatória. Destarte, ausente, na espécie, violação a direito líquido e certo da Fazenda Nacional. 5. Agravo regimental ao qual se nega provimento. (AgRg no RMS n. 70.937/RS, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 27/5/2024, DJe de 29/5/2024.) No caso dos autos, a conclusão do Tribunal a quo está alinhada com o entendimento fixado pelo col. Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI n. 3.150/DF e com a jurisprudência desta Corte Superior, motivo pelo qual deve ser mantida. Ante o exposto, voto pelo desprovimento do agravo regimental.