REsp 1905924 - ACORDAO
Negou-se provimento ao agravo regimental porque (i) a aplicação retroativa do art. 28-A do CPP é incompatível quando a denúncia já havia sido recebida e a prestação jurisdicional estava encerrada; (ii) a alegação de ausência de dolo constitui inovação recursal e seu acolhimento exigiria reexame de matéria...
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- Parties
- Agravante: PAULO ROBSON GIANOTTO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 November 2021
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Colegiado (sexta Turma)
- Outcome
- Agravo regimental desprovido
- Legal Topics
- Falso Testemunho, Acordo De Não Persecução Penal, Retroatividade, Crime Formal, Súmula 7/stj
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Parties
PAULO ROBSON GIANOTTO
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Colegiado (sexta Turma)
Legal Issues
- 1 Aplicação retroativa do art. 28-A do CPP quando a denúncia já havia sido recebida
- 2 Alegação de ausência de dolo configurando inovação recursal
- 3 Natureza formal do crime de falso testemunho e irrelevância da potencialidade lesiva ou influência no convencimento
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo regimental porque (i) a aplicação retroativa do art. 28-A do CPP é incompatível quando a denúncia já havia sido recebida e a prestação jurisdicional estava encerrada; (ii) a alegação de ausência de dolo constitui inovação recursal e seu acolhimento exigiria reexame de matéria fático-probatória vedado pela Súmula 7/STJ; e (iii) o falso testemunho é crime formal consumado com o encerramento do depoimento, não sendo necessário demonstrar a efetiva potencialidade lesiva ou sua influência no convencimento do juiz.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental.
Full Case Text
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2 paragraphs
EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSUAL PENAL. FALSO TESTEMUNHO. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. IMPOSSIBILIDADE. DENÚNCIA QUE JÁ HAVIA SIDO RECEBIDA NO MOMENTO DA ENTRADA EM VIGOR DA LEI N. 13.964/2019. AUSÊNCIA DE DOLO. INOVAÇÃO RECURSAL. SÚMULA N. 7/STJ. CRIME FORMAL. RESULTADO NATURALÍSTICO. INFLUÊNCIA NO CONVENCIMENTO DO JULGADOR. PRESCINDIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A orientação que se firmou no âmbito das Turmas que integram a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça é a de ser possível a aplicação retroativa do acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do Código de Processo Penal, introduzido pela Lei n. 13.924/2019, desde que não recebida a denúncia. Precedentes. 2. A tese de ausência de dolo ao prestar o falso testemunho configura inovação recursal, pois não foi suscitada no recurso especial, bem como encontra óbice na Súmula n. 7/STJ, pois a Corte de origem expressamente afirmou que as informações falsas foram prestadas propositalmente. 3. O crime de falso testemunho, por albergar o prestígio e a incolumidade da administração da Justiça, possui natureza formal, cuja consumação prescinde da ocorrência de qualquer resultado naturalístico, sendo irrelevante aferir a efetiva potencialidade lesiva do testemunho no resultado do processo ou o seu grau de influência no convencimento do magistrado. 4. Agravo regimental desprovido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz, Antonio Saldanha Palheiro e Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região) votaram com a Sra. Ministra Relatora.
RELATÓRIO A EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ: Trata-se de agravo regimental interposto por PAULO ROBSON GIANOTTO contra decisão por meio da qual neguei provimento a recurso especial, nos termos da seguinte ementa: "RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSUAL PENAL. FALSO TESTEMUNHO. ABERTURA DE VISTA AO MPF PARA O OFERECIMENTO DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. IMPOSSIBILIDADE. DENÚNCIA QUE JÁ HAVIA SIDO RECEBIDA NO MOMENTO DA ENTRADA EM VIGOR DA LEI N. 13.964/19. CRIME FORMAL. RESULTADO NATURALÍSTICO. INFLUÊNCIA NO CONVENCIMENTO DO JULGADOR. PRESCINDIBILIDADE. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO." Nas razões do agravo regimental, sustenta-se, inicialmente, que seria possível a aplicação retroativa do acordo de não persecução penal, previsto na atual redação do art. 28-A do Código de Processo Penal. Alega-se, ainda, que a conduta de falso testemunho imputada ao Agravante é atípica, pois não houve o dolo específico de falsear a verdade, mas simples "esquecimento", "confusões" e/ou "nervossismo" ao testemunhar. Aduz-se, por fim, que a tipicidade deve ser afastada também porque as informações equivocadas prestadas pelo Agravante não prejudicaram o julgamento da ação. Pleiteia-se, assim, o provimento do agravo regimental, a fim de que seja conhecido e provido o recurso especial defensivo. É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSUAL PENAL. FALSO TESTEMUNHO. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. IMPOSSIBILIDADE. DENÚNCIA QUE JÁ HAVIA SIDO RECEBIDA NO MOMENTO DA ENTRADA EM VIGOR DA LEI N. 13.964/2019. AUSÊNCIA DE DOLO. INOVAÇÃO RECURSAL. SÚMULA N. 7/STJ. CRIME FORMAL. RESULTADO NATURALÍSTICO. INFLUÊNCIA NO CONVENCIMENTO DO JULGADOR. PRESCINDIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A orientação que se firmou no âmbito das Turmas que integram a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça é a de ser possível a aplicação retroativa do acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do Código de Processo Penal, introduzido pela Lei n. 13.924/2019, desde que não recebida a denúncia. Precedentes. 2. A tese de ausência de dolo ao prestar o falso testemunho configura inovação recursal, pois não foi suscitada no recurso especial, bem como encontra óbice na Súmula n. 7/STJ, pois a Corte de origem expressamente afirmou que as informações falsas foram prestadas propositalmente. 3. O crime de falso testemunho, por albergar o prestígio e a incolumidade da administração da Justiça, possui natureza formal, cuja consumação prescinde da ocorrência de qualquer resultado naturalístico, sendo irrelevante aferir a efetiva potencialidade lesiva do testemunho no resultado do processo ou o seu grau de influência no convencimento do magistrado. 4. Agravo regimental desprovido. VOTO A EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ (RELATORA): O recurso não merece provimento. De início, conforme destacado na decisão recorrida, a jurisprudência desta Corte Superior orienta no sentido de que "a retroatividade do art. 28-A do CPP, introduzido pela Lei n. 13.964/2019, se revela incompatível com o propósito do instituto, quando já recebida a denúncia e já encerrada a prestação jurisdicional nas instâncias ordinárias, como no presente caso" (AgRg no REsp 1.946.453/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 17/08/2021, DJe 20/08/2021). No caso, no momento da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, o Recorrente já havia sido condenado em segunda instância (fl. 609), o que impede a aplicação retroativa das disposições do art. 28-A do Código de Processo Penal. Ressalte-se, ainda, que as alegações de que o Agravante foi absolvido no primeiro grau de jurisdição ou de que "houve discordância do próprio órgão, entre promotores, em apelar ou consentir com a absolvição do agravante" (fl. 697) são absolutamente irrelevantes para a análise do cabimento do acordo de não persecução penal. De outra parte, a tese de ausência de dolo não foi veiculada no recurso especial, que se limitou a impugnar a atipicidade da conduta por suposta ausência de potencialidade lesiva. Desse modo, constata-se a ocorrência de indevida inovação recursal, o que não é possível no agravo regimental. Sobre o tema, confira-se mutatis mutandis: "PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CRIME CONTRA A SAÚDE PÚBLICA. INOVAÇÃO RECURSAL. PRECLUSÃO CONSUMATIVA. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. RETROATIVIDADE. DENÚNCIA JÁ RECEBIDA. INAPLICABILIDADE. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO CABIMENTO. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE PARA A IMPOSIÇÃO DO REGIME MAIS GRAVOSO E PARA INVIABILIZAR A SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DESFAVORÁVEIS. AGRAVO REGIMENTAL CONHECIDO EM PARTE E, NESTA EXTENSÃO, DESPROVIDO. 1. O pedido de redução da pena configura indevida inovação recursal, pois essa questão não foi discutida ou suscitada no momento oportuno, de modo que seu acolhimento é vedado pela preclusão consumativa. .. " (AgRg no AREsp 1.909.408/SC, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 05/10/2021, DJe 13/10/2021; sem girfos no original.) Ademais, ainda que superado tal óbice, é certo que a instância ordinária, diversamente do que alega a Defesa, afirmou expressamente que "não foi por mero engano que PAULO ROBERTO GIANOTTO prestou informações inverídicas ao depor" e que houve "alteração substancial e proposital dos fatos narrados à autoridade judicial" (fl. 602). Portanto, o acolhimento da tese de ausência de dolo exigiria reexame fático-probatório, o que atrai a incidência da Súmula n. 7/STJ. Por fim, uma vez constatado que o Agravante mentiu dolosamente em juízo e que as informações falsas por ele prestadas eram juridicamente relevantes para "configurar a responsabilidade patrimonial por sucessão empresarial entre as empresas Flora Pison Ltda. e Ibirá Florestal Ltda." (fl. 602), não há falar em atipicidade da conduta. Com efeito, a jurisprudência desta Corte Superior orienta no sentido de que o delito de falso testemunho é formal e se consuma no momento em que o agente encerra seu depoimento, sendo desnecessário avaliar o grau de influência de suas declarações no convencimento do Magistrado ou a sua efetiva potencialidade lesiva no processo. Nesse sentido: "PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. OFENSA AO ART. 342 DO CP. SÚMULA 7/STJ. FALSO TESTEMUNHO. CRIME FORMAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Reavaliar se a conduta do recorrente se amolda ou não ao modelo típico descrito no art. 342 do Código Penal demandaria, necessariamente, o reexame dos elementos fáticos e probatórios carreados aos autos, procedimento vedado na via dos apelos excepcionais. Com efeito, não se mostra possível nova análise do contexto probatório por parte desta Corte Superior, haja vista a existência de vedação expressa nesse sentido, a teor do que dispõe a Súmula 7 desta Corte, in verbis: "A pretensão de simples reexame de prova não enseja Recurso Especial". 2. Nos termos da jurisprudência consolidada desta Corte Superior de Justiça, "o crime de falso testemunho é de natureza formal, consumando-se no momento da afirmação falsa a respeito de fato juridicamente relevante, aperfeiçoando-se quando encerrado o depoimento" (AgRg no REsp. n. 1.269.635/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, 23/9/2013). Assim, tratando-se de crime formal, é irrelevante aferir a potencialidade lesiva do falso testemunho ou seu grau de influência no convencimento do magistrado para que se configure o crime. 3. Agravo regimental a que se nega provimento." (AgRg no AREsp 1.428.315/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 20/08/2019, DJe 23/08/2019; sem grifos no original.) "AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO MONOCRÁTICA. ART. 932, IV, A, DO CPC, C/C O ART. 3º DO CPP. OFENSA A PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE. INEXISTÊNCIA. FALSO TESTEMUNHO. CRIME FORMAL. SUM. 83/STJ. APLICAÇÃO. SENTENÇA CONDENATÓRIA. MATERIALIDADE E AUTORIA COMPROVADAS. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. O julgamento monocrático do agravo em recurso especial encontra previsão no art. 932, IV, a, do CPC, c/c o art. 3º do CPP, não havendo falar em ofensa ao princípio da colegialidade. 2. O delito de falso testemunho é de natureza formal, consumando-se no momento em que a afirmação falsa é prestada, sendo desnecessário perquirir acerca da potencialidade lesiva da conduta. Precedentes. 3. Agravo regimental improvido." (AgRg no AREsp 723.184/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 22/11/2016, DJe 13/12/2016; sem grifos no original.) Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao agravo regimental. É como voto.