AREsp 2902687 - ACORDAO
Conheceu-se do agravo (afastada a deserção), entendeu-se que não houve negativa de prestação jurisdicional porque o acórdão recorrido enfrentou e fundamentou a questão do nexo causal, e confirmou-se a possibilidade de o tribunal alterar de ofício a base de cálculo dos honorários por se tratar de matéria de ordem...
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- Parties
- Agravante: EDUARDO KAYSER; Agravante: M CLASS INTERMEDIAÇÃO DE NEGÓCIOS LTDA.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 June 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Julgamento (acórdão)
- Outcome
- Agravo conhecido para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento.
- Legal Topics
- Indenização, Negativa De Prestação Jurisdicional, Honorários De Sucumbência, Base De Cálculo Dos Honorários, Apreciação De Ofício
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Parties
EDUARDO KAYSER
Agravante
M CLASS INTERMEDIAÇÃO DE NEGÓCIOS LTDA.
Agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Julgamento (acórdão)
Legal Issues
- 1 Configuração de negativa de prestação jurisdicional (omissão)
- 2 Possibilidade de alteração, de ofício, da base de cálculo dos honorários de sucumbência
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo (afastada a deserção), entendeu-se que não houve negativa de prestação jurisdicional porque o acórdão recorrido enfrentou e fundamentou a questão do nexo causal, e confirmou-se a possibilidade de o tribunal alterar de ofício a base de cálculo dos honorários por se tratar de matéria de ordem pública, majorando-se os honorários de 15% para 20% nos termos do art. 85, § 11, do CPC; negou-se provimento ao recurso especial na parte conhecida.
Court Disposition
Agravo conhecido para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento.
Orders
- Afasta-se a deserção do recurso especial
- Conhecer em parte do recurso especial
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 10/06/2025 a 16/06/2025, por unanimidade, conhecer do recurso mas lhe negar provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Nancy Andrighi, Humberto Martins, Moura Ribeiro e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins. EMENTA AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INDENIZAÇÃO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA . HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO DE CÁLCULO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. 1. Não viola o artigo 1.022 do Código de Processo Civil nem importa deficiência na prestação jurisdicional o acórdão que adota, para a resolução da causa, fundamentação suficiente, porém diversa da pretendida pelo recorrente para decidir, de modo integral, a controvérsia posta. 2. A base de cálculo dos honorários advocatícios constitui matéria de ordem pública e estão sujeitas à apreciação jurisdicional de ofício. 3 . Agravo conhecido para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento.
RELATÓRIO Trata-se de agravo interposto por EDUARDO KAYSER e M CLASS INTERMEDIAÇÃO DE NEGÓCIOS LTDA. contra a decisão que inadmitiu o recurso especial. O apelo extremo, com fundamento no artigo 105, III, alínea "a" , da Constituição Federal, insurge-se contra o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado: "Prestação de serviços - Plataforma digital - Marketplace - Bloqueios temporários de anúncios - Pedido indenizatório baseado em alegado lucro cessante c. c. obrigação de não fazer - Improcedência - Inconformismo dos autores em relação ao pedido indenizatório, sustentando a ocorrência e a demonstração de lucros cessantes Hipótese, porém, não comprovada - Inexistência de nexo causal entre os meses em que houve os bloqueios temporários e os faturamentos correspondentes - Planilhas apresentadas nos autos indicativas de que não houve, na maioria dos casos, variação de vendas pelo e-commerce - Mês que o rendimento foi menor que pode decorrer da sazonalidade comercial, uma vez que os autores nem sequer disseram qual o tipo de produto que comercializam - Bloqueios temporários condizentes com os termos e políticas da ré, aos quais aderiu a empresa autora - Inocorrência de violação ao Marco Civil da Internet - Sentença mantida - Apelo não provido." (e-STJ fl. 235). Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (e-STJ fls. 250/256). No recurso especial, os recorrentes alegam, a violação dos artigos 10, 223, 489 § 1º, IV e 1.022, II, do Código de Processo Civil . De início, aduzem que o acórdão combatido teria incorrido em negativa de prestação jurisdicional ao não apreciar matéria essencial à lide, qual seja a existência de prova matemática de nexo causal entre o bloqueio da conta no facebook e a perda de faturamento. Além disso, sustentam que o Tribunal de origem não poderia alterar a base de cálculo dos honorários advocatícios de ofício, configurando essa alteração reformatio in pejus. Após as contrarrazões (e-STJ fls. 276/290), o recurso especial foi inadmitido em razão da deserção, dando ensejo à interposição do presente agravo. É o relatório. EMENTA AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INDENIZAÇÃO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA . HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO DE CÁLCULO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. 1. Não viola o artigo 1.022 do Código de Processo Civil nem importa deficiência na prestação jurisdicional o acórdão que adota, para a resolução da causa, fundamentação suficiente, porém diversa da pretendida pelo recorrente para decidir, de modo integral, a controvérsia posta. 2. A base de cálculo dos honorários advocatícios constitui matéria de ordem pública e estão sujeitas à apreciação jurisdicional de ofício. 3 . Agravo conhecido para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento. VOTO No agravo em recurso especial a parte comprovou que efetuou o recolhimento do preparo em dobro, devendo, portanto, ser afastada a deserção. Ultrapassados os requisitos de admissibilidade do agravo, passa-se ao exame do recurso especial. A insurgência não merece prosperar. No tocante à negativa de prestação jurisdicional, verifica-se que o Tribunal de origem motivou adequadamente sua decisão, solucionando a controvérsia com a aplicação do direito que entendeu cabível à hipótese. No caso, acerca do nexo causal entre o bloqueio e a perda do faturamento consta no acórdão recorrido que: "(..) Antes de examinar a prova dos autos julgo pertinente fazer uma consideração de ordem geral a respeito da causa. Pela simples leitura da petição inicial e sem mesmo analisar as especificidades do caso concreto, já se podia vislumbrar, de antemão, a dificuldade de se estabelecer relação de causa e efeito entre os bloqueios de anúncios em um tipo de mídia e as alegadas quedas nos faturamentos mensais da autora. Como saber quanto um anúncio(s) ou a falta dele em uma mídia impacta o faturamento de uma empresa de vendas Esse aspecto, por si só, abstraindo-se o controverso tema da legitimidade dos bloqueios, já elevava o risco de os autores perderem a demanda, o que,como adiante se verá, acabou ocorrendo. Não obstante seja incontroverso que houve mesmo os bloqueios temporários de anúncios da autora pessoa jurídica na plataforma digital do marketplace gerido pela ré, e que esta os restabeleceu após a análise de cada situação, a improcedência da ação foi medida acertada, pois não há demonstração do nexo de causalidade entre a ocorrência de cada bloqueio e a alegada diminuição de faturamento da empresa anunciante" (e-STJ fl. 236/237). Não há falar, portanto, em existência de omissão apenas pelo fato de o julgado recorrido ter decidido em sentido contrário à pretensão da parte. A esse respeito: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PLANO DE SAÚDE. NEGATIVA DE CUSTEIO DE MEDICAMENTO (THIOTEPA). 1. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL NÃO CONFIGURADA. 2. FUNDAMENTO SUFICIENTE NÃO ATACADO. SÚMULA 283/STF. 3. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE SUPERIOR. SÚMULA 83/STJ. 4. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 282/STF E 211/STJ. 5. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Não ficou configurada a violação ao art. 1.022 do CPC/2015, uma vez que o Tribunal de origem se manifestou, de forma fundamentada, sobre todas as questões necessárias para o deslinde da controvérsia. O mero inconformismo da parte com o julgamento contrário à sua pretensão não caracteriza falta de prestação jurisdicional. 2. O acórdão recorrido encontra-se em perfeita harmonia com a jurisprudência desta Corte no sentido de que, "embora se trate de fármaco importado ainda não registrado pela ANVISA, teve a sua importação excepcionalmente autorizada pela referida Agência Nacional, sendo, pois, de cobertura obrigatória pela operadora de plano de saúde" (REsp 1.923.107/SP, relatora ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 10/8/2021, DJe 16/8/2021). 3. Atentando-se aos argumentos trazidos pela recorrente e aos fundamentos adotados pela Corte estadual de que a ANVISA admite a importação do fármaco, verifica-se que estes não foram objeto de impugnação nas razões do recurso especial, e a subsistência de argumento que, por si só, mantém o acórdão recorrido torna inviável o conhecimento do apelo especial, atraindo a aplicação do enunciado n. 283 da Súmula do Supremo Tribunal Federal. 4. A ausência de debate acerca do conteúdo normativo dos arts. 66 da Lei n. 6.360/1976 e 10, V, da Lei n. 6.437/1976, apesar da oposição de embargos de declaração, atrai os óbices das Súmulas 282/STF e 211/STJ. 5. Agravo interno a que se nega provimento" (AgInt no AREsp 2.164.998/RJ, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Terceira Turma, julgado em 13/2/2023, DJe de 16/2/2023 - grifou-se). "AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE REGRESSO - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DOS DEMANDADOS. 1. Não há se falar em negativa de prestação jurisdicional, na medida em que o órgão julgador dirimiu todas as questões que lhe foram postas à apreciação, de forma clara e sem omissões, embora não tenha acolhido a pretensão da parte. 2. Rever a conclusão do Tribunal de origem com relação à responsabilidade pelo ressarcimento dos valores pagos em reclamação trabalhista demandaria o reexame do conjunto fático-probatório dos autos e a interpretação de cláusulas contratuais, providencias que encontram óbice no disposto nas Súmulas 5 e 7 do STJ. Precedentes. 3. Agravo interno desprovido" (AgInt nos EDcl no AREsp 2.135.800/SP, Rel. Ministro MARCO BUZZI, Quarta Turma, julgado em 13/2/2023, DJe de 16/2/2023 - grifou-se). Ademais, quanto à alegação de impossibilidade de alteração da verba honorária de ofício, o acórdão deve ser mantido. De fato as verbas de sucumbência, incluindo os respectivos honorários e as discussões acessórias a seu respeito (a exemplo do critério legal adotado no caso), constituem matéria de ordem pública e estão sujeitas à apreciação jurisdicional de ofício. Nesse sentido: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ATRASO NA ENTREGA DE 3 (TRÊS) IMÓVEIS. 1. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL NÃO EVIDENCIADA. 2. LUCROS CESSANTES DEVIDOS. APLICAÇÃO DA SÚMULA 83/STJ. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DOS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. NÃO OBSERVÂNCIA AO DISPOSTO NO ART. 932, III, C/C O ART. 1.021, § 1º, AMBOS DO CPC/2015. 3. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS RECURSAIS. ILEGALIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. 4. SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA VERIFICADA. REDIMENSIONAMENTO NECESSÁRIO. 5. AGRAVO INTERNO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Embora rejeitados os embargos de declaração, a matéria controvertida foi devidamente enfrentada pelo colegiado de origem, que sobre ela emitiu pronunciamento de forma fundamentada, com enfoque suficiente a autorizar o conhecimento do recurso especial, não havendo falar em negativa de prestação jurisdicional. 2. Cabe à parte insurgente, nas razões do agravo interno, trazer argumentos suficientes para contestar a decisão agravada. A ausência de fundamentos válidos para impugnar a decisão proferida no agravo em recurso especial atrai a aplicação do disposto nos arts. 932, III, e 1.021, § 1º, do Código de Processo Civil de 2015. 3. Não se evidencia nenhuma ilegalidade por parte do Tribunal de origem que, constatando a necessidade de utilização da referida verba, a qual não foi aplicada pela sentença, fixou-a com observância dos limites percentuais previstos no § 2º do art. 85 do CPC/2015 (12% do valor da condenação), já majorados nos termos do § 11 do mesmo dispositivo normativo. 3.1. A "jurisprudência do STJ firmou-se no sentido de que os honorários advocatícios, como consectários legais da condenação principal, possuem natureza de ordem pública, podendo ser revistos a qualquer momento e até mesmo de ofício, sem que isso configure reformatio in pejus" (AgInt nos EDcl no AREsp 2.055.080/SP, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, j. em 23/8/2022, DJe de 9/9/2022). 4. Com o afastamento dos danos morais reconhecido pelo Tribunal local, a sucumbência recíproca fixada na sentença deve ser restabelecida, com a observância do regramento do novo Código Processual. 5. Agravo interno parcialmente provido". (AgInt no AREsp n. 2.398.614/RJ, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 8/4/2024, DJe de 11/4/2024.) Ante o exposto, conheço do agravo para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento. Na origem, os honorários sucumbenciais foram fixados em 15% (quinze por cento) sobre os lucros cessantes estimados por média na petição inicial, os quais devem ser majorados para o patamar de 20% (vinte por cento) em favor do advogado da parte recorrida, nos termos do artigo 85, § 11, do Código de Processo Civil, observado o benefício da gratuidade da justiça, se for o caso. É o voto.