HC 909232 - DECISAO
Não conhecer do habeas corpus porque a matéria objeto da impetração deve ser examinada no recurso de apelação já interposto, sendo vedada a supressão de instância; além disso, o writ não veio instruído com prova pré-constituída do alegado constrangimento ilegal e não ficou demonstrado excesso de prazo diante da...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: BRUNO DE LIMA DAMÁSIO; Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Estado do Paraná
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 May 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Não Conhecimento
- Outcome
- Não conheço do presente habeas corpus.
- Legal Topics
- Interceptações Telefônicas, Nulidade De Provas, Supressão De Instância, Excesso De Prazo, Prestação Jurisdicional
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
BRUNO DE LIMA DAMÁSIO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado do Paraná
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Não Conhecimento
Legal Issues
- 1 Ilegalidade das interceptações telefônicas
- 2 Negativa de prestação jurisdicional pelo Tribunal de origem
- 3 Excesso de prazo para julgamento da apelação
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus porque a matéria objeto da impetração deve ser examinada no recurso de apelação já interposto, sendo vedada a supressão de instância; além disso, o writ não veio instruído com prova pré-constituída do alegado constrangimento ilegal e não ficou demonstrado excesso de prazo diante da complexidade do feito e da pluralidade de réus.
Court Disposition
Não conheço do presente habeas corpus.
Orders
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de BRUNO DE LIMA DAMÁSIO, apontando como autoridade coatora o Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (HC n. 0017886-54.2024.8.16.0000). Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena total de 16 anos, 1 mês e 28 dias de reclusão, em regime inicial fechado, além do pagamento de 2.125 dias-multa, pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico. Contra a sentença, foi interposto recurso de apelação, o qual está em fase de apresentação de razões recursais por corréus. Em paralelo, a defesa impetrou habeas corpus no Tribunal de origem, o qual não foi conhecido, nos termos da seguinte ementa (e-STJ fl. 345): HABEAS CORPUS - CONDENAÇÃO POR TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO - PLEITO DE RECONHECIMENTO DA NULIDADE DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS E, CONSEQUENTEMENTE, ABSOLVIÇÃO DO PACIENTE - NÃO CONHECIMENTO - IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO WRIT COMO SUCEDÂNEO RECURSAL - MODIFICAÇÃO DE DECISÃO COM CARÁTER DEFINITIVO QUE DEVERIA SER POSTULADA EM APELAÇÃO CRIMINAL (ART. 593, I,CPP) - NÃO CONHECIDO. No presente mandamus, a defesa aduz, em síntese, a ilegalidade das interceptações telefônicas, porquanto autorizadas com base em denúncias anônimas e sem prévias diligências. Aponta que a inclusão do paciente como alvo das investigações ocorreu após o início das interceptações, em decorrência da prática de pesca predatória (fishing expedition). Assevera a ausência de fundamentação idônea da decisão judicial que autorizou a medida. Diz que o tema não foi abordado na sentença e no recurso de apelação, de modo que o não conhecimento do writ pelo Tribunal de origem configura indevida negativa de prestação jurisdicional. Alega, ao final, excesso de prazo para o julgamento da apelação. Pugna, liminarmente, pela concessão de liberdade ao paciente. No mérito, requer o reconhecimento da nulidade das provas, com a consequente absolvição do paciente. Subsidiariamente, pede a concessão da ordem para determinar que o Tribunal de Justiça do Paraná analise o mérito do writ lá impetrado. É o relatório. Decido. Em razão da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, o Superior Tribunal de Justiça passou a acompanhar a orientação do Supremo Tribunal Federal, no sentido de não ser admissível o emprego do writ como sucedâneo de recurso ou revisão criminal, a fim de não se desvirtuar a finalidade dessa garantia constitucional, preservando, assim, sua utilidade e eficácia, e garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Referido entendimento foi ratificado pela Terceira Seção, em 10/6/2020, no julgamento da Questão de Ordem no Habeas Corpus n. 535.063/SP. Nessa linha de intelecção, como forma de racionalizar o emprego do writ e prestigiar o sistema recursal, não se admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, tem se admitido o exame da insurgência, para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela concessão da ordem, de ofício. As disposições previstas no art. 64, inciso III, e no art. 202, ambos do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, bem como no art. 1º do Decreto-Lei n. 552/1969, não impedem o relator de decidir liminarmente o habeas corpus e o recurso em habeas corpus, nas hipóteses em que a pretensão se conformar com súmula ou com jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contrariar. De fato, a ciência posterior do Parquet, "longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido" (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Relevante consignar que o julgamento do writ liminarmente "apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental" (AgRg no HC 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Assim, "para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica" (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). Busca-se, no caso, o reconhecimento da ilegalidade das interceptações telefônicas, da ocorrência de negativa de prestação jurisdicional pelo Tribunal de origem e do excesso de prazo para julgamento das apelações. De início, anoto que não é possível o exame da tese de ilegalidade das interceptações telefônicas sem que o Tribunal de Justiça tenha se manifestado previamente acerca do suposto constrangimento ilegal, sob pena de indevida supressão de instância. Com efeito, "é vedada a apreciação per saltum da pretensão defensiva, sob pena de supressão de instância, uma vez que compete ao Superior Tribunal de Justiça, na via processual do habeas corpus, apreciar ato de um dos Tribunais Regionais Federais ou dos Tribunais de Justiça estaduais (art. 105, inciso II, alínea a, da Constituição da República)" (EDcl no HC n. 609.741/MG, Relatora Ministra LAURITA VAZ, Sexta Turma, julgado em 15/9/2020, DJe 29/9/2020). No mesmo sentido: PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. NULIDADES. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO PARA O RECEBIMENTO DA DENÚNCIA. PROLAÇÃO DE SENTENÇA CONDENATÓRIA QUE PREJUDICA A APRECIAÇÃO DO TEMA. AUSÊNCIA DE APRECIAÇÃO DAS TESES DEFENSIVAS PELA SENTENÇA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. EXCESSO DE PRAZO PARA O TÉRMINO DA INSTRUÇÃO . ENUNCIADO N. 52, DA SÚMULA DO STJ. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. As alegadas nulidades decorrentes da sentença condenatória não foram examinadas pelo Tribunal de origem, de modo que inviável a análise inaugural por esta Corte, sob pena de indevida supressão de instância. Outrossim, prolatada a sentença condenatória, fica obstada a análise de eventuais nulidades decorrentes do recebimento da denúncia. 2. No que se refere ao alegado excesso de prazo para o encerramento da instrução, incide o Enunciado n. 52, da Súmula do STJ, que afirma que "Encerrada a instrução criminal, fica superada a alegação de constrangimento ilegal por excesso de prazo". Nesse contexto, prolatada a sentença condenatória, inviável o reconhecimento do excesso de prazo. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 837.966/MG, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 23/10/2023, DJe de 27/10/2023.) No que diz respeito à alegação de negativa de prestação jurisdicional por parte do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, observo que a Corte local não conheceu do mandamus lá impetrado, aos seguintes fundamentos (e-STJ fl. 346): Veja-se que o objeto do presente é o reconhecimento de nulidade das writ interceptações telefônicas e, consequentemente, a absolvição do paciente, matéria evidentemente que deveria ser analisada em apelação criminal, nos termos do artigo 593,inciso I, do Código de Processo Penal. Aliás, verifica-se que já foi interposto recurso de apelação criminal pela defesa do paciente, o qual está em fase de apresentação de razões recursais por corréus perante este Tribunal de Justiça (autos nº 0001025-40.2020.8.16.0062). De qualquer forma, a utilização de Habeas Corpus como sucedâneo recursal é inviável, sobretudo quando da existência de recurso próprio, verificando-se, no presente caso, que o recurso cabível seria a apelação criminal. Como se vê, paralelamente ao recurso de apelação, a defesa impetrou habeas corpus no Tribunal estadual. Sobre o tema, consoante a jurisprudência desta Corte, não padece de ilegalidade o acórdão que deixa de conhecer de habeas corpus por veicular temas que serão melhor examinados em sede de recurso de apelação já interposto, impugnando a mesma decisão de primeiro grau e pendente de julgamento pelo Tribunal. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ART. 33, CAPUT, DA LEI N. 11.343/2006. PLEITO DE REVISÃO DA DOSIMETRIA. TEMA NÃO EXAMINADO PELA CORTE A QUO. IMPOSSIBILIDADE DE DEBATE SOBRE A MATÉRIA SOB PENA DE INDEVIDA SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO NA ORIGEM E NESTA INTÂNCIA POR VEICULAR IDÊNTICO TEMA POSTO EM APELAÇÃO CRIMINAL PENDENTE DE JULGAMENTO DO TRIBUNAL ESTADUAL. LEGALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Não se vislumbra qualquer irregularidade no não conhecimento do mandamus originário, pois, como bem consignado pela instância de origem, a via eleita não é adequada para o julgamento antecipado de matéria que foi objeto do recurso de apelação já interposto pela defesa. 2. Salvo excepcionalíssima hipótese de ilegalidade manifesta, não é de se admitir casos como o dos autos. Não sendo possível a verificação, de plano, de qualquer ilegalidade na decisão recorrida, deve-se aguardar a manifestação de mérito do Tribunal de origem, sob pena de se incorrer em supressão de instância e em patente desprestígio às instâncias ordinárias. Precedentes. 3. Na hipótese, é prematura a apreciação das matérias ventiladas neste habeas corpus, quando pendente recurso de apelação na origem, via adequada para o exame da alegação, notadamente pelo efeito devolutivo do recurso apelatório, permitindo ao Tribunal a quo a ampla revisão da sentença penal condenatória. Precedentes. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 859.866/SP, Relator Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 24/10/2023, DJe de 30/10/2023). AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. RECEPTAÇÃO. POSSE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO RESTRITO. SENTENÇA CONDENATÓRIA. REVISÃO DA DOSIMETRIA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. A defesa interpôs apelação, ainda pendente de julgamento e, concomitantemente, impetrou habeas corpus no Tribunal de origem por meio do qual pleiteou questões atinentes à dosimetria da pena, e a Corte local deixou de conhecer do remédio heroico sob o argumento de que o recurso de apelação é que seria a via adequada para o exame das matérias questionadas pela defesa. 2. Embora fosse possível a análise, em habeas corpus, das matérias lá aventadas e aqui reiteradas, mostram-se corretas as ponderações feitas pela Corte de origem de que a apreciação dessas questões implica considerações que, em razão da sua amplitude, merecem ser mais bem examinada em apelação (já interposta, frise-se). 3. Uma vez que as questões relacionadas à dosimetria da pena ainda não foram analisadas pelo Tribunal de origem, fica impossibilitada a sua apreciação diretamente por esta Corte Superior de Justiça, sob pena de, assim o fazendo, incidir na indevida supressão de instância. 4. Ademais, como salientado na decisão agravada, o ato aqui apontado como coator foi decisão monocrática do Desembargador relator, e a defesa não comprovou haver interposto agravo regimental contra tal decisum, a fim de obter manifestação do órgão colegiado estadual a respeito do tema, o que reforça a impossibilidade de conhecimento do pleito. 5. Agravo não provido. (AgRg no HC n. 821.311/MA, Relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 19/62023, DJe de 22/6/2023). Outrossim, a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do HC n. 482.549/SP, firmou jurisprudência no sentido de que "a interposição do recurso cabível contra o ato impugnado e a contemporânea impetração de habeas corpus para igual pretensão somente permitirá o exame do writ se for este destinado à tutela direta da liberdade de locomoção ou se traduzir pedido diverso em relação ao que é objeto do recurso próprio e que reflita mediatamente na liberdade do paciente. Nas demais hipóteses, o habeas corpus não deve ser admitido e o exame das questões idênticas deve ser reservado ao recurso previsto para a hipótese, ainda que a matéria discutida resvale, por via transversa, na liberdade individual". (HC n. 482.549/SP, Relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Terceira Seção, julgado em 11/3, DJe de 3/4/2020). Dessa forma, salvo excepcionalíssima hipótese, não é de se admitir a impetração de habeas corpus na pendência de julgamento de recurso de apelação. Contudo, na espécie, em que pese a defesa tenha argumentado que o tema objeto da impetração não foi abordado nos recursos de apelação pendentes de julgamento, não há nos autos documentos que comprovem o alegado. Como se sabe, o rito do habeas corpus pressupõe prova pré-constituída do direito alegado, devendo a parte demonstrar, de maneira inequívoca, por meio de documentos, a existência de constrangimento ilegal imposto ao paciente. Com efeito, " a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no sentido da inadmissão do habeas corpus quando não instruído o writ com as peças necessárias à confirmação da efetiva ocorrência do constrangimento ilegal". (AgRg no HC n. 182.788, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 22/5/2022, DJe 18/6/2020). No mesmo sentido, esta Corte assentou que " e m sede de habeas corpus, é cediço que a prova deve ser pré-constituída e incontroversa, cabendo ao impetrante apresentar documentos suficientes à análise de eventual ilegalidade flagrante no ato atacado". (AgRg no HC n. 772.017/SC, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 28/11/2022, DJe 2/12/2022). Por fim, no que se refere à tese de excesso de prazo para julgamento das apelações, destaco que, no ponto, a constatação de eventual constrangimento ilegal não resulta de um critério aritmético, mas de uma aferição realizada pelo julgador, à luz dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade, levando em conta as peculiaridades do caso concreto, de modo a evitar retardo abusivo e injustificado na prestação jurisdicional. Além disso, "a jurisprudência desta Corte Superior é firme em assinalar que as elevadas penas impostas na sentença condenatória devem ser consideradas para fins de análise de suposto excesso de prazo no julgamento da apelação". (Informações complementares à ementa do HC n. 448.058/SP, Relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 12/2/2019, DJe 8/3/2019). No caso, o paciente foi condenado à pena de 16 anos, 1 mês e 28 dias de reclusão e o processo conta com mais de 17 (dezessete) réus, o que efetivamente demanda tempo para análise de todas as teses defensivas. Nesse contexto, considerando os trâmites necessários, a complexidade do feito, a pluralidade de réus e o montante da pena privativa de liberdade aplicada ao paciente , não há que se falar em excesso de prazo para julgamento. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. Intimem-se. EMENTA