AREsp 2599444 - DECISAO
Reconsiderada a decisão da Presidência para conhecer do agravo interno; ao examinar o mérito, manteve-se o entendimento do Tribunal de origem de que as taxas contratuais são manifestamente abusivas em face da média de mercado divulgada pelo Banco Central (22% ao mês contra média de 5,25% ao mês), não havendo...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 October 2024
- Procedural Posture
- Agravo Interno Em Agravo Em Recurso Especial / Reexame De Decisão Da Presidência Do STJ E Julgamento Colegiado
- Outcome
- Agravo interno conhecido e negado provimento
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Ação Revisional, Cerceamento De Defesa, Súmulas 5, 7 E 83 Do STJ, Revisão De Taxas Bancárias, Aplicação Da Média De Mercado Do Banco Central
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Procedural Posture
Agravo Interno Em Agravo Em Recurso Especial / Reexame De Decisão Da Presidência Do STJ E Julgamento Colegiado
Legal Issues
- 1 Admissibilidade do agravo interno face à Súmula n. 182/STJ
- 2 Abusividade da taxa de juros remuneratórios em comparação com a média de mercado divulgada pelo Banco Central
- 3 Necessidade de produção de prova pericial contábil (alegado cerceamento de defesa)
Ratio Decidendi
Reconsiderada a decisão da Presidência para conhecer do agravo interno; ao examinar o mérito, manteve-se o entendimento do Tribunal de origem de que as taxas contratuais são manifestamente abusivas em face da média de mercado divulgada pelo Banco Central (22% ao mês contra média de 5,25% ao mês), não havendo justificativa para as discrepâncias; por se tratar de controvérsia que versa essencialmente sobre matéria de direito, não se exigiu dilação probatória ou perícia contábil, e as Súmulas n. 5 e 7 do STJ impedem o reexame do contexto fático-probatório no recurso especial, razão por que se negou provimento ao agravo.
Court Disposition
Agravo interno conhecido e negado provimento
Orders
- Reconsiderada a decisão da Presidência para conhecer do agravo e negado-lhe provimento
- Prejudicado o pedido de concessão de efeito suspensivo
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interno (e-STJ fls. 569/576) interposto contra decisão da Presidência desta Corte que não conheceu do agravo em recurso especial (e-STJ fls. 564/565). Em suas razões, a parte agravante aduz que impugnou todos os fundamentos da decisão de inadmissibilidade do recurso especial, não podendo o agravo ser rejeitado com base na Súmula n. 182/STJ. Ao final, pede a reconsideração da decisão monocrática ou a apreciação do agravo pelo Colegiado. A parte agravada não apresentou impugnação (e-STJ fl. 581). É o relatório. Decido. A parte recorrente atacou todos os fundamentos da decisão que não admitiu o recurso especial, não havendo falar em aplicação da Súmula n. 182/STJ. Assim, reconsidero a decisão agravada, proferida pela Presidência do STJ, e passo a novo exame do recurso. Na origem, o recurso especial foi inadmitido em virtude da incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ (e-STJ fls. 534/537). O acórdão recorrido está assim ementado (e-STJ fl. 310): APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL. JUROS REMUNERATÓRIOS. 1. O exame do conjunto probatório não evidencia a existência de cerceamento do direito de defesa, pois, restou comprovado que a controvérsia posta em causa versa exclusivamente sobre matéria de direito, independendo o deslinde do feito de dilação probatória. 2. A alteração da taxa de juros remuneratórios, em se tratando de pacto firmado por instituição cadastrada no sistema financeiro nacional, depende da demonstração cabal de sua abusividade em relação à taxa média do mercado estabelecida pelo Banco Central para o período, o que se verifica no caso em apreço, tendo em vista que as taxas pactuadas são significativamente superiores às respectivas médias de mercado. Por outro lado, uma vez apurada a existência de abusividade, os juros remuneratórios devem ser limitados à respectiva taxa média, não havendo falar em limitação com o acréscimo pretendido pela parte ré. 3 . Em se tratando de ação de cunho revisional, cabível a compensação e/ou devolução simples do indébito, como determinado na sentença, sob pena de enriquecimento indevido da instituição financeira requerida. 4. A descaracterização da mora está relacionada à revisão dos encargos previstos para o período da normalidade contratual. No caso em apreço, porém, como o contrato se encontra liquidado, não há necessidade de afastá-la de modo expresso. APELAÇÃO PARCIALMENTE PROVIDA. Os embargos de declaração foram rejeitados (e-STJ fls. 334/339). Nas razões do recurso especial (e-STJ fls. 346/380), interposto com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", da CF, a parte recorrente alegou dissídio jurisprudencial e violação dos s eguintes dispositivos legais: (i) art. 421 do CC, pois (e-STJ fl. 358): (..) o D. Juízo a quo incontroversamente invalidou um ato jurídico perfeito, justificando suas razões de decidir unicamente no fato de as taxas dos juros remuneratórios fixadas em contrato destoarem daquelas estabelecidas pelo Banco Central para o período, bem como determinou a adequação da taxa de juros pautada na "taxa média de mercado", sem ao menos considerar as particularidades da contratação em discussão, tampouco sem realizar uma detida e necessária análise quanto aos altos riscos da contratação em discussão. (ii) arts. 355, I e II, e 356, I e II, do CPC/2015, alegando cerceamento de defesa, pois (e-STJ fl. 361): (..) entende a Recorrente ser imprescindível a realização da prova pericial contábil para se concluir pela abusividade da taxa de juros remuneratórios definida em contrato e/ou substituição por outro percentual, principalmente considerando que na prática os julgadores estão, em sua maioria, limitando-se a seguir com a utilização da "taxa média de mercado" como ferramenta de aferição quanto a suposta abusividade da taxa de juros fixada e para definir o novo percentual a ser aplicado. Ao final, requer a concessão de efeito suspensivo ao especial. A insurgência não merece prosperar. Ao apreciar a questão relativa aos juros remuneratórios, o Tribunal de origem concluiu pela abusividade da taxa contratada em comparação com a média mensal apurada pelo Banco Central para operações da mesma espécie no período da contratação, fundamentando o caráter abusivo dos juros remuneratórios no caso concreto (e-STJ fls. 306/308): Quanto à abusividade dos juros remuneratórios, segundo o entendimento deste Órgão Colegiado, que se coaduna com a orientação do STJ, a revisão do encargo será permitida apenas nos casos em que restar comprovado que o percentual fixado no documento esteja discrepante das taxas de mercado usualmente utilizadas. Nesse sentido, o seguinte julgado do STJ: (..) Na 12ª Câmara Cível desta Corte firmou-se entendimento no sentido de que a taxa de juros remuneratórios seria abusiva na hipótese de ultrapassar uma vez e meia a média divulgada mensalmente pelo Banco Central do Brasil. Todavia, a 23ª Câmara Cível, a qual passei a compor em Outubro de 2022, posiciona-se de forma mais restritiva, considerando abusiva a taxa de juros que ultrapassa excessivamente a média praticada pelo mercado à época da contratação, não sendo necessário superar a média divulgada pelo BACEN em 50%. Nesse contexto, tendo em vista que o entendimento da 23ª Câmara Cível é mais benéfico ao consumidor e que está adequado à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, passo a adotá-lo, até porque, a bem da verdade, a posição da 12ª Câmara Cível não prevaleceria no julgamento estendido pela técnica do art. 942 do Código de Processo Civil vigente neste Órgão Fracionário. Ou seja, em homenagem ao Princípio do Colegiado e da Celeridade Processual, acompanharei a posição firmada pelos Magistrados que compõem a 23ª Câmara Cível. Convém asseverar que a média mensal divulgada pelo Banco Central do Brasil também considera no seu cálculo as taxas de juros pactuadas pelas instituições financeiras que concedem crédito para perfis diferenciados de mutuários, de maneira que pode ser utilizada para fins de limitação do encargo pelo Poder Judiciário. No caso em apreço, como bem ressaltou a Julgadora de origem, as taxas previstas no instrumento contratual sob revisão revela-se manifestamente abusivas (22% ao mês), já que destoam excessivamente das médias de mercado divulgadas pelo Banco Central (5,25 % ao mês), conforme Série Temporal nº 25464. Anoto, ainda, que a discrepância excessiva da taxa média, quando cotejada com outros elementos probatórios, é forte elemento de convicção, hábil a levar à revisão do negócio jurídico. Nesse sentido, veja-se a seguinte decisão, oriunda do Superior Tribunal de Justiça: (..) Observo que a decisão antes mencionada tratava de contrato cujos juros remuneratórios haviam sido pactuados em índice três vezes superior à média de mercado. Aqui se está diante de contexto potencialmente mais lesivo, com juros arbitrados em mais de quatro vezes o valor costumeiramente praticado no mesmo período, e, repita-se, sem justificativas plausíveis para tanto. Além do mais, não se verifica dos autos qualquer situação excepcional, relacionada especific amente à parte autora, a justificar o arbitramento de encargo de tal proporção. Logo, inexistindo qualquer justificativa da instituição financeira, além de argumentação genérica sem aprofundamento no caso concreto, para a fixação de taxas tão desvantajosas em comparação com a respectiva média de mercado, impõe-se a manutenção da sentença no tópico. Modificar o entendimento do acórdão impugnado quanto às peculiaridades do contrato e, assim, acolher os argumentos do recurso especial é inviável, em razão das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. Outrossim, est a Corte de Justiça possui entendimento de que a incidência da Súmula n. 7/STJ impede o exame de dissídio jurisprudencial, na medida em que falta identidade entre os paradigmas apresentados e os fundamentos do acórdão, tendo em vista a situação fática do caso concreto, com base na qual foi dada a solução pela Corte estadual. No que diz respeito ao alegado cerceamento de defesa, a Corte local assim se manifestou (e-STJ fl. 306): Inicialmente, não há falar em cerceamento de defesa, na medida em que a controvérsia posta em causa versa exclusivamente sobre matéria de direito, independendo o deslinde do feito de dilação probatória. Esse entendimento está de acordo com a jurisprudência desta Corte, a saber: CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. SÚMULA N. 7/STJ. REMÉDIO. CUSTEIO. LIMITES DA ÁREA DE ATUAÇÃO GEOGRÁFICA. VERIFICAÇÃO. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. PLANO DE SAÚDE. CÂNCER. TRATAMENTO. COBERTURA. DISCUSSÃO DA NATUREZA DO ROL DA ANS. IRRELEVÂNCIA. MEDICAMENTO. CUSTEIO. POSSIBILIDADE. ACÓRDÃO RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. SÚMULA N. 83/STJ. DECISÃO MANTIDA. 1. "Os princípios da livre admissibilidade da prova e da persuasão racional autorizam o julgador a determinar as provas que repute necessárias ao deslinde da controvérsia, e a indeferir aquelas consideradas prescindíveis ou meramente protelatórias. Não configura cerceamento de defesa o julgamento da causa sem a produção da prova solicitada pela parte, quando devidamente demonstrada a instrução do feito e a presença de dados suficientes à formação do convencimento" (AgInt no AREsp n. 1.457.765/SP, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/8/2019, DJe 22/8/2019). 1.1. O recurso especial não comporta o exame de questões que impliquem interpretação de cláusula contratual ou revolvimento do contexto fático- probatório dos autos, a teor do que dispõem as Súmulas n. 5 e 7 do STJ. 1.2. No caso, a Corte de origem afastou o alegado cerceamento de defesa, tendo em vista a desnecessidade da prova pericial. Modificar tal entendimento exigiria nova análise do conjunto probatório dos autos, medida inviável em recurso especial. (..) 4. Agravo interno que se nega provimento.(AgInt no REsp n. 2.043.178/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 11/12/2023, DJe de 18/12/2023.) Ante o exposto, reconsidero a decisão da Presidência desta Corte (e-STJ fls. 564/565) para CONHECER do agravo nos próprios autos e NEGAR-LHE PROVIMENTO. Prejudicado o pedido de concessão de efeito suspensivo. Mantida a majoração dos honorários aplicada pela decisão agravada. Publique-se e intimem-se. EMENTA