HC 954240 - ACORDAO
Não se conheceu do habeas corpus porque não se demonstrou flagrante ilegalidade na dosimetria da pena: o Tribunal de origem fundamentou a exasperação da pena-base em elementos concretos e dentro dos limites da discricionariedade vinculada, e as correções realizadas não configuram reformatio in pejus nem evidenciam...
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- Parties
- Paciente: WELLINGTON BELO DE ARAÚJO; Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Julgamento Não Conhecido
- Outcome
- Não conhecer do pedido
- Legal Topics
- Organização Criminosa, Dosimetria Da Pena, Pena Base, Reformatio in Pejus, Habeas Corpus Como Substitutivo De Recurso
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Parties
WELLINGTON BELO DE ARAÚJO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Julgamento Não Conhecido
Legal Issues
- 1 Uso do habeas corpus como substituto de recurso próprio ou revisão criminal
- 2 Existência de flagrante ilegalidade na dosimetria da pena
- 3 Aplicação da reformatio in pejus na correção de classificação de circunstância judicial
Ratio Decidendi
Não se conheceu do habeas corpus porque não se demonstrou flagrante ilegalidade na dosimetria da pena: o Tribunal de origem fundamentou a exasperação da pena-base em elementos concretos e dentro dos limites da discricionariedade vinculada, e as correções realizadas não configuram reformatio in pejus nem evidenciam desproporcionalidade patente a justificar o uso do habeas corpus como substituto de recurso próprio ou revisão criminal.
Court Disposition
Não conhecer do pedido
Orders
- Habeas corpus não conhecido.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, não conhecer do pedido. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Messod Azulay Neto votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA DIREITO PENAL. HABEAS CORPUS. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. DOSIMETRIA. PENA-BASE. FUNDAMENTOS CONCRETOS. QUANTUM PROPORCIONAL. REFORMATIO IN PEJUS. NÃO OCORRÊNCIA. ILEGALIDADE NÃO EVIDENCIADA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado em favor de paciente condenado à pena de 9 anos e 2 meses de reclusão, posteriormente reduzida para 7 anos e 1 mês, por infração ao art. 2º, §§ 2º e 4º, I, da Lei n. 12.850/2013, apontando erro na dosimetria da pena. 2. A defesa interpôs recurso de apelação, obtendo parcial provimento para retificar a dosimetria aplicada. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 3. A questão em discussão consiste em saber se há flagrante ilegalidade na dosimetria da pena que justifique a concessão de habeas corpus, em substituição a recurso próprio ou revisão criminal. III. RAZÕES DE DECIDIR 4. O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio ou revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 5. A dosimetria da pena foi fundamentada em elementos concretos, observando os limites da discricionariedade vinculada do magistrado, não havendo desproporcionalidade evidente que justifique a revisão. 6. Não implica reformatio in pejus a correção da classificação de um fato já valorado negativamente pela sentença para enquadrá-lo como outra circunstância judicial, nem o simples reforço de fundamentação para manter a valoração negativa de circunstância já reputada desfavorável na sentença. IV. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.
RELATÓRIO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de WELLINGTON BELO DE ARAÚJO em que se aponta como autoridade coatora o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte. O paciente foi condenado à pena de 9 anos e 2 meses de reclusão, em regime fechado, e 900 dias-multa, por infração ao art. 2º, §§ 2º e 4º, I, da Lei n. 12.850/2013. Contra a sentença condenatória, a defesa interpôs recurso de apelação à Corte de origem, que deu parcial provimento ao apelo, para retificar a dosimetria aplicada, fixando a pena final em 7 anos e 1 mês de reclusão, em regime fechado, e 160 dias-multa, nos termos do acórdão de fls. 121-152. A defesa alega, em síntese, a ocorrência de erro na dosimetria da pena. Requer a concessão da ordem para obter a redução da pena aplicada. É o relatório. EMENTA DIREITO PENAL. HABEAS CORPUS. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. DOSIMETRIA. PENA-BASE. FUNDAMENTOS CONCRETOS. QUANTUM PROPORCIONAL. REFORMATIO IN PEJUS. NÃO OCORRÊNCIA. ILEGALIDADE NÃO EVIDENCIADA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado em favor de paciente condenado à pena de 9 anos e 2 meses de reclusão, posteriormente reduzida para 7 anos e 1 mês, por infração ao art. 2º, §§ 2º e 4º, I, da Lei n. 12.850/2013, apontando erro na dosimetria da pena. 2. A defesa interpôs recurso de apelação, obtendo parcial provimento para retificar a dosimetria aplicada. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 3. A questão em discussão consiste em saber se há flagrante ilegalidade na dosimetria da pena que justifique a concessão de habeas corpus, em substituição a recurso próprio ou revisão criminal. III. RAZÕES DE DECIDIR 4. O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio ou revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 5. A dosimetria da pena foi fundamentada em elementos concretos, observando os limites da discricionariedade vinculada do magistrado, não havendo desproporcionalidade evidente que justifique a revisão. 6. Não implica reformatio in pejus a correção da classificação de um fato já valorado negativamente pela sentença para enquadrá-lo como outra circunstância judicial, nem o simples reforço de fundamentação para manter a valoração negativa de circunstância já reputada desfavorável na sentença. IV. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. VOTO A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos do art. 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade, situação que não se verifica de plano na hipótese dos autos, na medida em que o acórdão assim se manifestou acerca da dosimetria: Trata-se, com efeito, de fundamentação inidônea para agravar as circunstâncias em fito. Quanto ao motivo, o argumento se apresenta inerente à própria tipificação do delito; as circunstâncias e consequências, por sua vez, foram lastreadas em argumento genérico, não apontando elementos concretos das condutas dos apelantes que ultrapassem as balizas do tipo e apresentem maior desabono. Merecem, portanto, decote. Noutro giro, observo, como bem apontado pela 3.ª Procuradoria de Justiça, que há que se manter, por suplementação , a negativação da vetorial "circunstâncias do crime" para o apelante Wellington Belo Araújo, já que, embora estivesse recolhido em estabelecimento prisional, se comunicava e comandava os seus subordinados na ORCRIM por meio de grupos de WhatsApp, o que demonstra, por óbvio, uma maior reprovabilidade, desbordante dos limites do tipo. Com espeque na fundamentação por suplementação, aliás, considero que deve ser negativada a circunstância judicial da "culpabilidade" do apelante Renato: conforme se consignou, este mantinha estreita relação com o líder do grupo criminoso, atuando não apenas como "disciplina" da facção, distribuindo punições e efetuando execuções (tendo, inclusive, sido o autor da tortura de um adolescente acusado de furto, disparando um tiro de arma de fogo na mão deste), mas também atuando em outras atividades criminosas, havendo sido apreendidas em sua residência armas e drogas, tudo a conformar um quadro que indica um maior envolvimento do apelante no referido bando facínora e levando, por consequência, a uma maior reprovabilidade. Destarte, sendo mantidas apenas duas circunstâncias negativas para ambos os apelantes (antecedentes para ambos; culpabilidade para Renato, e circunstâncias do crime para Wellington), necessária a adequação da reprimenda imposta. Neste azo, subsistindo duas circunstâncias judiciais negativas para ambos os apelantes, fixo a pena-base em 04 anos, 03 meses de reclusão, mais 96 dias-multa. A dosimetria da pena, quando imposta com base em elementos concretos e observados os limites da discricionariedade vinculada atribuída ao magistrado sentenciante, impede a revisão da reprimenda por esta Corte Superior. Somente em casos de evidente desproporcionalidade entre o delito e a pena imposta, caberá a reapreciação para a correção de eventual desacerto quanto ao cálculo das frações de aumento e de diminuição e a reavaliação das circunstâncias judiciais listadas no art. 59 do Código Penal. A análise realizada pelo Tribunal de origem está em linha com a jurisprudência desta Corte acerca da temática. In casu, a Corte de origem bem exarou as circunstâncias judiciais desfavoráveis ao paciente, elencando os seguintes fundamentos: i) embora estivesse recolhido em estabelecimento prisional, se comunicava e comandava os seus subordinados na ORCRIM por meio de grupos de WhatsApp; ii) maus antecedentes criminais; todos esses fatores demonstram a reprovabilidade das condutas e justificam a exasperação da pena-base. Consigna-se que "não implicam reformatio in pejus a mera correção da classificação de um fato já valorado negativamente pela sentença para enquadrá-lo como outra circunstância judicial, nem o simples reforço de fundamentação para manter a valoração negativa de circunstância já reputada desfavorável na sentença."(REsp n. 2.058.970/MG, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, julgado em 28/8/2024, DJe de 12/9/2024.) No tocante ao critério numérico de aumento para cada circunstância judicial negativa, in casu, não há desproporção no aumento da pena-base, uma vez que há motivação particularizada, em obediência aos princípios da proporcionalidade e da individualização da pena, ausente, portanto, notória ilegalidade a justificar a concessão da ordem pleiteada. A propósito: "Salienta-se que a ponderação das circunstâncias judiciais não constitui mera operação aritmética, em que se atribuem pesos absolutos a cada uma delas, mas sim exercício de discricionariedade, devendo o julgador pautar-se pelo princípio da proporcionalidade e, também, pelo elementar senso de justiça. " (AgRg no AREsp n. 2.240.104/SP, Quinta Turma, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 27/2/2023.) Alterar o quadro formado no Tribunal de origem demanda inviável dilação probatória em sede de habeas corpus. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. É o voto.