REsp 2178269 - ACORDAO
Por se tratar de crime instantâneo de efeitos permanentes, cuja consumação ocorre com o início do loteamento, o prazo prescricional deve ser contado a partir dessa data; tendo decorrido prazo superior entre a data dos fatos (janeiro de 2010) e o recebimento da denúncia (13/08/2019), reconheceu-se a prescrição da...
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- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO; Recorrido: Marcelo Saraiva Gonçalves; Recorrido: Devanil Padilha; Recorrido: João Quinto de Carvalho; Recorrido: Josefa Vacilotto; Recorrido: Reinaldo Padilha
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 August 2025
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Colegiado (sexta Turma) Agravo Regimental Não Provido
- Outcome
- Agravo regimental não provido
- Legal Topics
- Parcelamento Irregular Do Solo, Prescrição Da Pretensão Punitiva, Termo Inicial Da Prescrição
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO
Agravante
Marcelo Saraiva Gonçalves
Recorrido
Devanil Padilha
Recorrido
João Quinto de Carvalho
Recorrido
Josefa Vacilotto
Recorrido
Reinaldo Padilha
Recorrido
Procedural Posture
Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento Colegiado (sexta Turma) Agravo Regimental Não Provido
Legal Issues
- 1 Quando se consuma o crime de parcelamento irregular do solo (momento da consumação)
- 2 Qual é o termo inicial do prazo prescricional para o crime de parcelamento irregular do solo
- 3 Incidência da prescrição em relação a fatos anteriores à Lei n. 12.234/2010
Ratio Decidendi
Por se tratar de crime instantâneo de efeitos permanentes, cuja consumação ocorre com o início do loteamento, o prazo prescricional deve ser contado a partir dessa data; tendo decorrido prazo superior entre a data dos fatos (janeiro de 2010) e o recebimento da denúncia (13/08/2019), reconheceu-se a prescrição da pretensão punitiva e manteve-se a decisão agravada, negando-se provimento ao agravo regimental.
Court Disposition
Agravo regimental não provido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental.
- Manter o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva em relação aos delitos praticados anteriores à Lei n. 12.234/2010.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 14/08/2025 a 20/08/2025, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Og Fernandes, Sebastião Reis Júnior, Antonio Saldanha Palheiro e Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP) votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIME DE PARCELAMENTO IRREGULAR DO SOLO. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA. TERMO INICIAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O crime de parcelamento irregular do solo é considerado instantâneo de efeitos permanentes, com a consumação ocorrendo no momento do início do loteamento, conforme jurisprudência do STJ e do STF. 2. O prazo prescricional deve ser computado a partir da consumação do delito, e não da eventual repetição de seus efeitos. 3. Transcorrido o lapso de tempo entre a data dos fatos e o recebimento da denúncia, cabível o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva em relação aos delitos praticados anteriores à Lei n. 12.234/2010. 4. Agravo regimental não provido.
RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ: O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO agrava da decisão de fls. 987-992, em que neguei provimento ao recurso especial e, por conseguinte, mantive o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva referente ao delito previsto no art. 50, parágrafo único, I, da Lei n. 6.766/1979. O Parquet postula o afastamento da prescrição da pretensão punitiva, ao argumento de que "a consumação do crime qualificado somente pode ocorrer com a execução de referidas elementares referentes às vendas ou promessas de vendas das unidades" (fl. .1005). Requer a reconsideração da decisão agravada ou a submissão do feito ao órgão colegiado. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIME DE PARCELAMENTO IRREGULAR DO SOLO. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA. TERMO INICIAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O crime de parcelamento irregular do solo é considerado instantâneo de efeitos permanentes, com a consumação ocorrendo no momento do início do loteamento, conforme jurisprudência do STJ e do STF. 2. O prazo prescricional deve ser computado a partir da consumação do delito, e não da eventual repetição de seus efeitos. 3. Transcorrido o lapso de tempo entre a data dos fatos e o recebimento da denúncia, cabível o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva em relação aos delitos praticados anteriores à Lei n. 12.234/2010. 4. Agravo regimental não provido. VOTO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ (Relator): Em que pesem os argumentos despendidos pela defesa, entendo que não lhe assiste razão. I. Prescrição da pretensão punitiva Consta dos autos que os réus Marcelo e Devanil foram condenados, em primeiro grau, pelo crime previsto no art. 51, caput, da Lei n. 6.766/1979 e o acusado João Quinto, pelo delito descrito no art. 50, parágrafo único, I, da Lei n. 6.766/1979. O Tribunal de origem reconheceu a prescrição da pretensão punitiva pelos seguintes fundamentos (fls. 889-891, destaquei) Os apelantes Marcelo Saraiva Gonçalves e Devanil Padilha foram processados e condenados como incursos nas penas do artigo 51, caput, da Lei nº 6.766/79, e João Quinto de Carvalho como incurso nas penas do artigo 50, parágrafo único, inciso I, da Lei nº 6.766/79 a cumprirem: os dois primeiros, em regime inicial aberto, 02 (dois) anos de reclusão, mais o pagamento de 20 (vinte) dias-multa; enquanto o último, em regime inicial aberto, 03 (três) anos de reclusão, mais o pagamento de 30 (trinta) dias-multa. Não houve recurso da acusação. Segundo a denúncia, no dia 24 de janeiro de 2010, na cidade e Comarca de Indaiatuba/SP, JOSEFA VACILOTTO, deu início, de qualquer modo, e efetuou loteamento e desmembramento do solo para fins urbanos, sem autorização do órgão público competente, e em desacordo com as disposições da Lei nº 6.766/76 e das normas pertinentes do Município de Indaiatuba/SP, por meio de venda de lote de 22.000 m a João Quinto de Carvalho. A partir do ano de 2010, na cidade e Comarca de Indaiatuba/SP, João Quinto de Carvalho, deu início, de qualquer modo, e efetuou loteamento e desmembramento do solo para fins urbanos, sem autorização do órgão público competente, e em desacordo com as disposições da Lei nº 6.766/76 e das normas pertinentes do Município de Indaiatuba/SP, por meio de venda de lotes em loteamento não registrado no Registro de Imóveis. Consta, ainda, que, em período incerto, entre os meses de janeiro e dezembro do ano de 2010, na cidade e Comarca de Indaiatuba/SP, Marcelo Saraiva Gonçalves, Reinaldo Padilha e Devanil Padilha, de qualquer modo, concorreram para a efetivação de loteamento e desmembramento do solo para fins urbanos, sem autorização do órgão público competente, e em desacordo com as disposições da Lei nº 6.766/76 e das normas pertinentes do Município de Indaiatuba/SP, por meio da intermediação da venda de lotes em loteamento não registrado no Registro de Imóveis, respectivamente, a Jailson Vaz da Costa e Pedro Stevanatto; Cícero Francisco da Silva; Nelson dos Santos. Foram declaradas extintas as punibilidades de Josefa e Reinaldo, em decorrência de seus falecimentos (cf. fls. 499 e 594). Quanto aos apelantes, considerando a data inicial da prática delitiva e as penas aplicadas na sentença, o prazo prescricional, no caso, é de 04 (quatro) anos, para Marcelo e Devanil, e de 08 (oito) anos, para João, nos termos do disposto nos artigos 109, incisos V e IV, respectivamente, 110, §§ 1º e 2º, ambos do Código Penal, com redação anterior à Lei nº 12.234/2010. Assim, como entre a data dos fatos (24/01/2010 - fls. 01/02) e a do recebimento da denúncia (13/08/2019 - fls. 372/373) já decorreram esses lapsos liberatórios, impõe-se o reconhecimento da extinção da punibilidade dos apelantes, pela prescrição da pretensão punitiva, na modalidade retroativa, considerando a legislação vigente ao tempo dos fatos. No julgamento dos embargos de declaração, a Corte estadual ressaltou que (fl. 906, destaquei): Ocorre que esse crime é instantâneo, de efeitos permanentes, de modo que a consumação se dá com o início do parcelamento, sendo as vendas posteriores, mero exaurimento do crime, fazendo incidir, conforme o caso, somente a causa de aumento prevista no inciso I, do parágrafo único, do artigo 50, que resulta, unicamente, na majoração da pena, o que equivale a dizer que o delito se consumou em janeiro de 2010, sendo que as vendas posteriores, ainda que efetuadas após o mês de maio de 2010, mero exaurimento do crime. O crime de parcelamento ilegal do solo configura crime instantâneo de efeitos permanentes. Independentemente das consequências que venha ou não a produzir, sua consumação ocorre no momento exato da prática da conduta delituosa, qual seja, a data do início do loteamento. Ressalte-se o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça quanto ao momento de consumação dos delitos instantâneos de efeitos permanentes e, consequentemente, do marco inicial para a contagem do prazo prescricional: .. 1. O crime de loteamento irregular de solo urbano possui natureza de crime instantâneo de efeitos permanente, isto é, o marco inicial do prazo prescricional é a data do início do loteamento, ou seja, a da consumação. 2. Os agravos regimentais não merecem prosperar, porquanto as razões reunidas nas insurgências são incapazes de infirmar o entendimento assentado na decisão agravada. 3. Agravos regimentais improvidos. (AgInt no REsp n. 1.580.947/RS, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 18/8/2016, DJe de 5/9/2016, destaquei) A propósito, veja-se também o precedente do STF: PRESCRIÇÃO - PARCELAMENTO URBANO - LEI N. 6.766/1979. Descabe confundir crime instantâneo de efeitos permanentes com crimes permanentes. O que previsto no artigo 50 da referida Lei encerra a primeira categoria, razão pela qual a prescrição tem inicio no dia em que o crime se consumou, não se podendo aplicar a regra do inciso III do artigo 111 do Código Penal. (HC n. 71.259/SP, Ministro Marco Aurélio, Segunda Turma, DJe 18/8/1995, grifei) Conforme pontuei na decisão monocrática, considero que a interpretação adotada pela Corte de origem está em consonância com a jurisprudência anteriormente citada. A legislação não pune um crime instantâneo por este continuar a produzir efeitos após sua consumação, de modo que o prazo prescricional deve ser computado a partir da consumação do delito, e não da eventual repetição de seus efeitos. Rememoro, ainda, a manifestação do Subprocurador-Geral da República Osnir Belice, em parecer que adoto como razões de decidir, como se vê (fl. 985, destaquei): Dessa forma, considerando que o crime em análise se consumou em janeiro de 2010, momento da primeira ação do parcelamento irregular do solo, ou seja, antes da edição da Lei nº 12.234/2010 - a qual alterou os parágrafos do artigo 110 do CP - e que entre a data do fato e o recebimento da denúncia (13/08/2019), passaram-se mais de 8 anos - prazo superior ao estipulado no artigo 109, IV e V, do Código Penal, forçoso reconhecer a prescrição da pretensão punitiva. Assim, reitero o entendimento de que o termo inicial para a contagem do prazo prescricional corresponde ao momento em que foi iniciado o loteamento por se tratar da data da consumação do delito, e não, como pretende o recorrente, nos fatos posteriores em que se realizaram as vendas ou promessas de vendas das respectivas unidades. Além disso, ressalte-se que, em relação ao recorrido João Quinto, a denúncia mencionou que os fatos ocorreram "em período incerto, porém a partir do ano de 2010" (fl. 1.), pois o acusado "deu início, de qualquer modo, e efetuou loteamento e desmembramento do solo para fins urbanos, sem autorização do órgão público competente, e em desacordo com as disposições da Lei n. 6.766/76 e das normas pertinentes do Município de Indaiatuba, por meio de venda de lotes em loteamento não registrado no Registro de Imóveis" (fl. 1.). O Ministério Público não especificou a data exata dos fatos, motivo pelo qual é admissível o reconhecimento da data mais favorável ao acusado, qual seja, o dia 1º/1/2010. Nesse sentido: .. 1. O crime de parcelamento ilegal de solo é instantâneo de efeitos permanentes, razão pela qual o termo inicial do prazo prescricional é a data do início do loteamento, momento em que o crime se consumou. Doutrina. Precedentes do STJ e do STF. 2. Nos casos em que o Ministério Público não declina na denúncia o(s) dia(s) preciso(s) dos fatos, indicando apenas um período de tempo dentro do qual a conduta teria sido praticada, esta Corte Superior de Justiça e o Supremo Tribunal Federal tem reputado a data mais benéfica ao acusado como sendo aquela a ser tida em conta para o cômputo do lapso prescricional. 3. Na hipótese em apreço, não tendo o órgão ministerial indicado as datas em que o recorrente teria praticado o ilícito disposto no artigo 50, inciso I, e parágrafo único, inciso I, da Lei 6.766/1979, afirmando, apenas, que os fatos teriam ocorrido entre os anos de 2002 a 2014, impõe-se a consideração da data mais benéfica ao acusado, qual seja, o dia 1.1.2002. 4. Entre 1.1.2002 e 4.2.2014, data em que recebida a denúncia e primeiro marco interruptivo previsto no artigo 117 do Código Penal, transcorreram mais de 12 (doze) anos, o que revela a ocorrência da prescrição da pretensão punitiva estatal em sua modalidade retroativa (artigo 110, §§ 1º e 2º, do Código Penal, na redação anterior à Lei 12.034/2010). 5. Recurso provido para declarar extinta a punibilidade do recorrente pela prescrição da pretensão punitiva estatal, estendendo-se os efeitos da decisão ao corréu em idêntica situação, na forma do artigo 580 do Código de Processo Penal. (RHC n. 65.785/RJ, relator Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 19/4/2018, DJe de 27/4/2018, grifei). Desse modo, uma vez condenado o réu João Quinto à pena de 3 anos de reclusão pelo delito previsto no art. 50, parágrafo único, I, da Lei n. 6.766/1979, o prazo prescricional é de 8 anos, consoante o art. 109, IV, do CP. Nesse contexto, transcorrido o lapso de tempo de 8 anos entre a data dos fatos (janeiro de 2010) e o recebimento da denúncia (13/8/2019 - fl. 372), cabível o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva em relação aos crimes praticados anteriores à Lei n. 12.234, de 5 de maio de 2010, com fundamento no art. 107, IV, do Código Penal. Portanto, ausentes fatos novos ou teses jurídicas diversas que permitam a análise do caso sob outro enfoque, deve ser mantida a decisão agravada. II. Dispositivo À vista do exposto, nego provimento ao agravo regimental.