HC 669451 - ACORDAO
Negou-se provimento ao agravo regimental porque não está demonstrado o requisito essencial para a atipicidade material — o reduzido grau de reprovabilidade — diante dos antecedentes criminais do acusado e das circunstâncias concretas da apreensão (munições adicionais e faca), além da orientação jurisprudencial de...
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- Parties
- Agravante (paciente No Habeas Corpus): GILDONIR CORTES SODRE
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 25 August 2021
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgamento Na Sexta Turma Do Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Negou provimento ao agravo regimental
- Legal Topics
- Porte Ilegal De Munição, Princípio Da Insignificância, Atipicidade Material, Antecedentes Criminais
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Parties
GILDONIR CORTES SODRE
Agravante (paciente No Habeas Corpus)
Procedural Posture
Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgamento Na Sexta Turma Do Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Incidência do princípio da insignificância no porte de munição (art. 14, caput, Lei n. 10.826/2003)
- 2 Existência de reduzido grau de reprovabilidade do comportamento como requisito para atipicidade material
- 3 Efeito de antecedentes e reiteração delitiva na aplicação da bagatela
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo regimental porque não está demonstrado o requisito essencial para a atipicidade material — o reduzido grau de reprovabilidade — diante dos antecedentes criminais do acusado e das circunstâncias concretas da apreensão (munições adicionais e faca), além da orientação jurisprudencial de que o porte de munição é típico mesmo sem arma de fogo.
Court Disposition
Negou provimento ao agravo regimental
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Ratificar a decisão monocrática que denegou a ordem de habeas corpus
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PORTE ILEGAL DE MUNIÇÃO (ART. 14, CAPUT, DA LEI N. 10.826/2003). PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO INCIDÊNCIA. REQUISITO REFERENTE AO REDUZIDO GRAU DE REPROVABILIDADE DO COMPORTAMENTO. AUSÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. Segundo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (RHC n. 143.449/MS) e de ambas as Turmas da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, afasta-se a tipicidade material nas hipóteses em que apreendida pequena quantidade de munição de uso permitido, desacompanhada de arma de fogo, ante a mínima ofensividade da conduta do agente. 2. Entretanto, na espécie não é possível a incidência do princípio da bagatela, porquanto não evidenciado o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento, tendo em vista que, embora não seja reincidente, o acusado possui antecedentes criminais pelos crimes de ameaça, medidas protetivas de urgência, injúria e delitos previstos no Código de Trânsito Brasileiro. Além disso, a munição "foi empreendida medida de busca e apreensão onde foram encontrados mais quatro cartuchos de munição calibre .16, um estojo de munição calibre .12, e um estojo de munição, calibre. 16, todos marca CBC. Merece destaque ainda que, no momento da abordagem policial, além dos cartuchos, foi encontrada uma faca na cintura do paciente" (e-STJ fl. 349). 3. Agravo regimental a que se nega provimento. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), Laurita Vaz, Sebastião Reis Júnior e Rogerio Schietti Cruz votaram com o Sr. Ministro Relator.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Trata-se de agravo regimental interposto por GILDONIR CORTES SODRE contra decisão monocrática, de minha lavra, que denegou a ordem de habeas corpus (e-STJ fls. 354/357). Depreende-se dos autos que o agravante foi denunciado pela suposta prática dos crimes previstos nos arts. 12 e 14, ambos da Lei n. 10.826/2003 (posse irregular de arma de fogo de uso permitido e porte de arma de fogo de uso permitido). Superadas as demais fases processuais, o acusado foi condenado à pena de 2 anos de reclusão, a ser cumprida no regime aberto, substituída a sanção privativa de liberdade por medidas restritivas de direitos. Contra o édito condenatório insurgiu-se a defesa. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul deu parcial provimento ao recurso para reduzir a pena de prestação pecuniária para um salário mínimo. No Superior Tribunal de Justiça, sustentou a defesa a atipicidade material do comportamento do réu, tendo em vista a apreensão de 10 munições de uso permitido, sem nenhum armamento capaz de deflagrá-las. Diante dessas considerações, pediu, liminar e definitivamente, a absolvição do réu do delito previsto no art. 14 da Lei n. 10.826/2003. Nesta oportunidade, sublinha a Defensoria Pública que, "a partir dos antecedentes constantes nos autos, fl s. 108/114 e 233/236 do processo eletrônico, que inexiste condenação contra o paciente, sendo manifestamente ilegal considerar em seu desfavor os processos mencionados na r. decisão ora agravada, sendo que a apreensão de faca na cintura em na cintura, além de fato atípico, no interior gaúcho faz inclusive parte da indumentária tradicionalista" (e-STJ fl. 369). Diante disso, pede a reconsideração da decisão monocrática combatida ou, caso assim não se entenda, a remessa do presente recurso à Sexta Turma desta Casa "onde se espera seja conhecido e provido, concedendo-se a ordem de habeas corpus pleiteada para que seja o paciente absolvido da condenação que lhe foi imposta" (e-STJ fl. 376). É o relatório. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Busca a defesa, como vimos do relatório, a absolvição do réu, tendo em vista a atipicidade material do comportamento. Sobre o tema, rememorei, na decisão monocrática combatida que, "para o Superior Tribunal de Justiça, há tipicidade na conduta do porte de munição de arma de fogo, ainda que desacompanhada de artefato bélico" (AgRg no AREsp n. 1.544.853/MG, relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 9/3/2021, DJe de 15/3/2021). Destaque, ademais, que, embora não seja reincidente, o acusado possui antecedentes criminais pelos crimes de ameaça, medidas protetivas de urgência, injúria e delitos previstos no Código de Trânsito Brasileiro. Além disso, conforme assinalou o Ministério Público Federal, a munição "foi empreendida medida de busca e apreensão onde foram encontrados mais quatro cartuchos de munição calibre .16, um estojo de munição calibre .12, e um estojo de munição, calibre. 16, todos marca CBC. Merece destaque ainda que, no momento da abordagem policial, além dos cartuchos, foi encontrada uma faca na cintura do paciente" (e-STJ fl. 349). Acerca do tema, colacionei importante julgado da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, ocasião em que assim se decidiu: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO. INSIGNIFICÂNCIA. CONCEITO INTEGRAL DE CRIME. PUNIBILIDADE CONCRETA. CONTEÚDO MATERIAL. BEM JURÍDICO TUTELADO. GRAU DE OFENSA. COMPORTAMENTO SOCIAL. VÁRIOS PROCESSOS EM CURSO. HABITUALIDADE DELITIVA ESPECÍFICA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Para que o fato seja considerado criminalmente relevante, não basta a mera subsunção formal a um tipo penal. Deve ser avaliado o desvalor representado pela conduta humana, bem como a extensão da lesão causada ao bem jurídico tutelado, com o intuito de aferir se há necessidade e merecimento da sanção, à luz dos princípios da fragmentariedade e da subsidiariedade. 2. As hipóteses de aplicação do princípio da insignificância se revelam com mais clareza no exame da punibilidade concreta - possibilidade jurídica de incidência de uma pena -, que atribui conteúdo material e sentido social a um conceito integral de delito como fato típico, ilícito, culpável e punível, em contraste com estrutura tripartite (formal). 3. Por se tratar de categorias de conteúdo absoluto, a tipicidade e a ilicitude não comportam dimensionamento do grau de ofensa ao bem jurídico tutelado - compreendido a partir da apreciação dos contornos fáticos e dos condicionamentos sociais em que se inserem o agente e a vítima. 4. O diálogo entre a política criminal e a dogmática na jurisprudência sobre a bagatela é também informado pelos elementos subjacentes ao crime, que se compõem do valor dos bens subtraídos e do comportamento social do acusado nos últimos anos. 5. A reincidência ou reiteração delitiva é elemento histórico objetivo, e não subjetivo, ao contrário do que o vocábulo possa sugerir. Isso porque não se avalia o agente (o que poderia resvalar em um direito penal do autor), mas, diferentemente, analisa-se, de maneira objetiva, o histórico penal do indivíduo, que poderá indicar aspecto impeditivo da incidência da referida exclusão da punibilidade. Essa análise, portanto, não se traduz no exame do indivíduo em si ou no que ele representa para a sociedade como pessoa, mas nas consequências reais, concretas e objetivas, extraídas de seu comportamento histórico avesso ao direito e na perspectiva, apoiada em tais evidências, de recidiva de tal comportamento. Sob pena de violação do princípio da isonomia, o indivíduo que furta uma vez não pode ser igualado ao que furta habitualmente, escorando-se este, conscientemente, na impunidade. 6. O legislador penal confere relevo ao histórico de vida pregressa do réu para outorgar-lhe a redução da pena, em forma de causa especial de diminuição da sanção, como, v.g., se verifica em diversas cominações da parte especial, a exemplo da descrita no art. 155, § 2º, do CP, reproduzida em diversos outros preceitos penais, como nos arts. 171, § 1º, 168, § 3º, 180, § 5º, e 337-A, § 2º. Em todos esses dispositivos, fica evidenciado, sem margem a tergiversações, que o legislador penal, máxime em crimes que afetam o patrimônio alheio, dá importância ao comportamento pretérito do agente para conceder-lhe o benefício da redução da pena. De igual modo, a Parte Geral do Código Penal dá vários exemplos de interferência da primariedade e/ou dos bons antecedentes penais do réu para fins de individualizar a sanção ou para conceder ou não certos benefícios. Destaco os arts. 44, III, 59, caput, 71, parágrafo único, 77, II, e 83. Igualmente, em leis extravagantes (v. g., art. 2º, § 2º, da Lei n. 8.072/1990) e na Lei de Execução Penal (art. 112 da Lei n. 7.210/1984). 7. Na espécie, a existência de quatro processos em curso em desfavor do réu pela suposta prática de furto é incompatível com a aplicação do princípio da insignificância, apesar do valor relativamente reduzido dos bens furtados de pessoa jurídica - três facas, avaliadas em R$ 101,70, equivalentes a 10,85% do salário mínimo vigente na época dos fatos. 8. Não há falar em reduzido grau de reprovabilidade no comportamento do agente que responde a vários processos criminais por crime da mesma natureza (contra o patrimônio), circunstância que configura a reiteração criminosa e impede a aplicação do princípio da insignificância. 9. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC 615.277/SC, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 9/3/2021, DJe 17/3/2021, grifei.) Nesse palmilhar, considerando o histórico do acusado, bem como as demais peculiaridades do caso concreto, não verifiquei ser possível o reconhecimento da atipicidade material da conduta praticada, pela não configuração de requisito essencial para o reconhecimento da atipicidade material, qual seja, a ausência de reduzido grau de reprovabilidade da conduta. Ante o exposto, ratifico os termos da decisão de e-STJ fls. 354/357 e nego provimento ao agravo regimental. É como voto. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Relator