REsp 2145548 - DECISAO
Conhecido e provido o recurso especial com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, por entender que a jurisprudência consolidada desta Corte afasta a aplicação do princípio da insignificância no furto de cabos de telefonia quando a conduta pode acarretar prejuízo à coletividade e quando presentes circunstâncias que...
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- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - MPRJ; Recorrido: MARICELIO NASCIMENTO SANTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 08 October 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Provimento Pelo Stj, Devolvendo Os Autos Ao Tribunal De Origem Para Dosimetria Da Pena
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Furto De Cabos De Telefonia, Repouso Noturno, Concurso De Agentes, Dosimetria De Pena, Súmula 568/stj
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - MPRJ
Recorrente
MARICELIO NASCIMENTO SANTOS
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Provimento Pelo Stj, Devolvendo Os Autos Ao Tribunal De Origem Para Dosimetria Da Pena
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do princípio da insignificância ao furto de cabos de telefonia
- 2 Relevância do valor da res furtiva (R$100,00) para reconhecimento da insignificância
- 3 Efeito de circunstâncias agravantes (repouso noturno, concurso de agentes) na impossibilidade de aplicação do princípio da insignificância
Ratio Decidendi
Conhecido e provido o recurso especial com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, por entender que a jurisprudência consolidada desta Corte afasta a aplicação do princípio da insignificância no furto de cabos de telefonia quando a conduta pode acarretar prejuízo à coletividade e quando presentes circunstâncias que aumentam a reprovabilidade (ex.: repouso noturno, concurso de agentes); determinou-se o retorno dos autos ao Tribunal de origem para fins de fixação da pena.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido
Orders
- Afasta-se a aplicação do princípio da insignificância no caso concreto
- Determina-se o retorno dos autos ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro para fins de fixação da pena
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DECISÃO Cuida-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - MPRJ com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - TJRJ em julgamento da Apelação Criminal n. 0200087-66.2020.8.19.0001. Consta dos autos que MARICELIO NASCIMENTO SANTOS foi absolvido da imputação de subtração de cabos de telefonia, tendo sido aplicada a teoria do princípio da insignificância em razão da primariedade do réu e do baixo valor da res furtiva (10 metros de cabo de telefonia cujo valor gira em torno de R$ 100,00). Recurso de apelação interposto pela acusação foi desprovido (fls. 378/383). O acórdão ficou assim ementado: "APELAÇÃO CRIMINAL - FURTO DE CABOS - ART.155 §§1º E 4º, IV DO CP - SENTENÇA ABSOLUTÓRIA COM FULCRO NO ART. 386, III DO CPP - IRRESIGNAÇÃO DO MINISTÉRIO PUBLICO - PRETENSÃO DE CONDENAÇÃO ANTE A ALEGADA INVIABILIDADE DA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICANCIA - NÃO CABIMENTO - VALOR DA RES SUBTRAÍDA APURADO EM R$100,00, O QUE NÃO ULTRAPASSA O PERCENTAL DE 10% DO SALARIO MINIMO DA ÉPOCA DOS FATOS - NO CASO CONCRETO, RESTAM PREENCHIDOS OS REQUISITOS PARA O RECONHECIMENTO DA ATIPICIDADE MATERIAL DA CONDUTA - MANUTENÇÃO DA ABSOLVIÇÃO - DESPROVIMENTO DO RECURSO." (fl. 378) Em sede de recurso especial (fls. 395/420), a acusação aponta violação aos arts. 155, §§ 1º e 4º, IV, do Código Penal - CP e 386, III, do Código de Processo Penal - CPP. Sustenta que o princípio da insignificância é inaplicável ao caso concreto, argumentando que a subtração de cabos telefônicos pode comprometer a disponibilidade do serviço telefônico para a sociedade e que o crime é qualificado, por ter sido praticado durante o período noturno. Requer a reforma do acórdão recorrido "afastando-se a aplicação do princípio da insignificância, com retorno dos autos ao E. Tribunal de Justiça de origem para fins de dosimetria de pena" (fl. 420). Contrarrazões de MARICELIO NASCIMENTO SANTOS às fls. 415/718. Admitido o recurso no TJRJ (fls. 720/725), os autos foram protocolados e distribuídos nesta Corte. Aberta vista ao Ministério Público Federal, este opinou pelo provimento do recurso especial sustentando que o furto praticado durante o repouso noturno e em concurso de agentes indica maior reprovabilidade da conduta (fls. 743/750). É o relatório. Decido. Sobre a alegação de violação aos arts. 155, §§ 1º e 4º, IV, do CP e 386, III, do CPP, o TJRJ manteve a absolvição nos seguintes termos do voto do relator: "Em que pese a irresignação do parquet, não lhe assiste razão. Em que pese o transtorno que o furto de cabos possam causar ao coletivo, não há noticias de que especificamente no caso trazido a lume, tenham advindo consequências que extrapolam o normal do tipo. Ademais, da análise do caderno probatório contido nos autos, extrai-se que o valor do bem subtraído, conforme auto de apreensão de fls. 13., foi calculado em R$100,00. Assim, no caso em comento, o valor da res não ultrapassou o equivalente a 10% do salario mínimo da época. Tal situação aliada aos demais fatores elencados para aplicação do princípio da bagatela estão todos presentes, com ênfase nas condições pessoais do ora acusado, primário de bons antecedentes, não havendo nada que aponte na direção da reiteração delitiva. Sobre o tema, aliás, a orientação do Supremo Tribunal Federal mostra-se no sentido de que, para a verificação da lesividade mínima da conduta, apta a torná-la atípica, deve-se levar em consideração os seguintes vetores: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social da ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada, salientando que o Direito Penal não se deve ocupar de condutas que, diante do desvalor do resultado produzido, não representem prejuízo relevante, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social. Desse modo, reputo o preenchidos os requisitos relativos ao reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do acusado; à mínima ofensividade da conduta do agente, aliada à ausência de periculosidade social da ação e à inexpressividade da lesão jurídica provocada, sendo o caso, portanto, de reconhecimento da atipicidade material da conduta pelo princípio da bagatela. Portanto, a decisão vergastada, no caso considerado, mostra-se correta e deve ser mantida." (fls. 381/382) Tal entendimento destoa da jurisprudência desta Corte Superior, que tem se orientado no sentido da não incidência do princípio da bagatela no caso de furtos de cabos que possam ocasionar prejuízo aos serviços prestados à coletividade. No mesmo sentido, citam-se precedentes: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. SUBTRAÇÃO DE CABOS DE ENERGIA ELÉTRICA. VÍTIMA CONCESSIONÁRIA DE ENERGIA ELÉTRICA. INCOMPATIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NOVOS ARGUMENTOS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O agravante não apresentou novos argumentos em relação à inviabilidade da incidência do princípio da insignificância no furto de cabos de energia elétrica, em que a vítima é concessionária de energia elétrica. 2. Ausentes fatos novos ou teses jurídicas diversas que permitam a análise do caso sob outro enfoque, deve ser mantida a decisão agravada em tais pontos. 3. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp n. 2.568.157/MG, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 25/6/2024.) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CRIME DE FURTO DE CABOS DE ENÉRGIA ELÉTRICA. PREJUÍZO À COLETIVIDADE. NÃO APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 83/STJ. QUALIFICADORA DE ESCALADA. NECESSIDADE DE PERÍCIA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS N. 282 E 356/STF. 1. Efetivamente impugnados os fundamentos da decisão de inadmissão do recurso especial, o agravo merece ser conhecido. 2. Inaplicável o princípio da insignificância diante de furto de cabos de telefonia, elétricos ou de internet, de propriedade de concessionárias prestadoras de serviço público, pois que a ação criminosa provoca considerável prejuízo à coletividade. Incidência da Súmula n. 83 do STJ. 3. Inexistindo pronunciamento do Tribunal de origem, carece o recurso especial do indispensável requisito do prequestionamento, a atrair a incidência das Súmulas n. 282 e 356 do STF. 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp n. 2.373.396/RJ, relator Ministro Jesuíno Rissato - Desembargador Convocado do TJDFT, Sexta Turma, DJe de 4/3/2024.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. FURTO DE CABOS DE TELEFONIA. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES. REITERAÇÃO NA PRÁT ICA CRIMINOSA E CONCURSO DE AGENTES. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. Este Tribunal, em precedentes de ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção, baseados não só no princípio da insignificância, mas também nos princípios da fragmentariedade e da intervenção mínima, tem admitido o afastamento da tipicidade material para os delitos de furto, desde que observados a mínima ofensividade da conduta do agente, a inexistência de periculosidade social da ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. O furto de cabos de telefonia, de cabos elétricos ou de internet de propriedade de concessionárias prestadoras de serviço público não preenche os requisitos necessários à incidência do princípio da insignificância, pois a ação criminosa provoca considerável prejuízo à coletividade. Ainda que a coisa furtada apresente pequeno valor econômico, é inegável o prejuízo a serviço público essencial à população, o qual pode se estender por longo período de tempo. Precedentes. 3. Na hipótese, a própria Corte local enfatizou que, independente do tamanho ou quantidade de fios elétricos furtados, os fios foram retirados de poste de companhia telefônica, logo, a conduta dos pacientes trouxe danos à coletividade, a denotar maior ofensividade e reprovabilidade do comportamento. 4. A Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação da medida ser socialmente recomendável. 5. Os pacientes apresentam maus antecedentes e, agindo em concurso de agentes, subtraíram fios de telefonia, o que denota o elevado grau de reprovabilidade de sua conduta. Precedentes. 6. Agravo regimental a que nega provimento. (AgRg no HC n. 835.652/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 13/9/2023.) PENAL. PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ART. 155, § 4º, IV, E § 2º, DO CP. FURTO. QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. CABOS TELEFÔNICOS. CONCURSO DE AGENTES. INAPLICABILIDADE. DECISÃO MANTIDA. I - A jurisprudência desta Corte Superior se firmou no sentido de que são requisitos para a incidência do princípio da insignificância a mínima ofensividade da conduta do agente, a inexistência de periculosidade social da ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. II - O furto de cabos de telefonia e de internet de propriedade de concessionária prestadora de serviço público não preenche os requisitos que possibilitam a incidência do princípio da insignificância, pois a ação, ainda que a res furtiva seja de pequena monta financeira, provoca considerável prejuízo à coletividade, porquanto praticada em prejuízo de serviço caro à população e capaz de ensejar a interrupção dos fluxos de comunicação telefônica e telemática por longo período. Precedentes. III - O concurso de agentes é elemento que obsta a incidência do princípio da insignificância por indicar uma especial reprovabilidade do comportamento do agente. Precedentes. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AREsp n. 1.383.633/DF, relator Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe de 3/12/2018.) Ademais, o STJ também afasta a aplicação do princípio da bagatela quando o delito é praticado durante o repouso noturno e em concurso de agentes, por entender que tais circunstâncias agravam a reprovabilidade da conduta. A propósito, confira-se precedente cujas ementas seguem transcritas: PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO TENTADO. WRIT ORIGINÁRIO NÃO IMPETRADO EM FAVOR DE ROBSON. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. ABSOLVIÇÃO. DELITO PRATICADO EM CONCURSO DE PESSOAS E DURANTE O REPOUSO NOTURNO. MAIOR REPROVABILIDADE DA CONDUTA. REITERAÇÃO DELITIVA. RÉU REINCIDENTE. ATIPICIDADE DA CONDUTA NÃO EVIDENCIADA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DE ROBSON NÃO CONHECIDO E DE LUIZ CARLOS NÃO PROVIDO. 1. Evidenciado que o writ originário foi impetrado somente em benefício de LUIZ CARLOS, o presente habeas corpus não deve ser conhecido em relação a ROBSON, pois a questão ora deduzida não foi objeto de cognição pela Corte de origem no tocante a este agravante, o que obsta o exame da matéria pelo Superior Tribunal de Justiça, sob pena de incidir em indevida supressão de instância e em violação da competência constitucionalmente definida para esta Corte. 2. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público." (HC n. 84.412-0/SP, STF, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, DJU 19/11/2004). 3. A jurisprudência desta Corte entende que, tendo o furto sido praticado mediante o concurso de pessoas e durante o repouso noturno, resta demonstrada maior reprovabilidade da conduta, o que torna incompatível a aplicação do Princípio da Insignificância. Precedentes. 4. A Quinta Turma reconhece que o princípio da insignificância não tem aplicabilidade em casos de reiteração da conduta delitiva, salvo excepcionalmente, quando demonstrado ser tal medida recomendável diante das circunstâncias concretas, o que não se evidencia na hipótese, eis que o paciente "é reincidente, registrando condenações transitadas em julgado pela prática de roubo agravado e tráfico de drogas, cujas penas foram extintas no ano de 2018", o que denota sua habitualidade delitiva e afasta, por consectário, a incidência do princípio da bagatela. 5. Não há que se falar em atipicidade material da conduta, por não restarem demonstrados os exigidos ausência de periculosidade social da ação, reduzidíssimo grau de reprovabilidade, bem como em razão da contumácia do agravante Luiz Carlos na prática de delitos contra o patrimônio. 6. Agravo regimental de Robson não conhecido e de Luiz Carlos não provido. (AgRg no HC n. 792.160/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 20/4/2023.) Ante o exposto, conheço do recurso especial e, com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, dou-lhe provimento para afastar a aplicação do princípio da insignificância e determinar o retorno dos autos ao TJRJ para fins de fixação da pena. Publique-se. Intimem-se. EMENTA