AREsp 2696223 - DECISAO
Reconsiderou-se a decisão que não conheceu do agravo e conheceu-se do recurso para dar provimento ao recurso especial, porquanto, no caso concreto, apesar da reincidência, a natureza dos bens (gêneros alimentícios), as circunstâncias do furto simples, a restituição dos produtos, o baixo valor dos bens (R$ 100,00) e...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: FAGNER DOS SANTOS COSTA; Manifestante: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 November 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Em Agravo Em Recurso Especial / Reconsideração; Conhecimento Do Agravo; Provimento Do Recurso Especial E Absolvição Do Recorrente
- Outcome
- Conheço do agravo regimental e dou provimento ao recurso especial para absolver o recorrente da prática do delito do art. 155, caput, do Código Penal, mantendo os demais termos do acórdão recorrido.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Reincidência, Furto, Dosimetria, Absolvição, Restituição Da Coisa Furtada
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
FAGNER DOS SANTOS COSTA
Recorrente
Ministério Público Federal
Manifestante
Procedural Posture
Agravo Regimental Em Agravo Em Recurso Especial / Reconsideração; Conhecimento Do Agravo; Provimento Do Recurso Especial E Absolvição Do Recorrente
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância em face de réu multirreincidente
- 2 Violação dos arts. 155 do Código Penal e 386, III, do Código de Processo Penal
- 3 Valoração da conduta social e personalidade do agente com base em elementos concretos
Ratio Decidendi
Reconsiderou-se a decisão que não conheceu do agravo e conheceu-se do recurso para dar provimento ao recurso especial, porquanto, no caso concreto, apesar da reincidência, a natureza dos bens (gêneros alimentícios), as circunstâncias do furto simples, a restituição dos produtos, o baixo valor dos bens (R$ 100,00) e a ausência de ato mais grave configuraram mínima ofensividade e reduzido grau de reprovabilidade, ensejando a aplicação excepcional do princípio da insignificância e a absolvição do recorrente quanto ao art. 155, caput, do Código Penal, mantendo-se os demais termos do acórdão recorrido.
Court Disposition
Conheço do agravo regimental e dou provimento ao recurso especial para absolver o recorrente da prática do delito do art. 155, caput, do Código Penal, mantendo os demais termos do acórdão recorrido.
Orders
- Reconsiderada a decisão proferida; conhecido o agravo e provido o recurso especial para absolvê-lo do art. 155, caput, do Código Penal; intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de agravo regimental interposto por FAGNER DOS SANTOS COSTA contra decisão proferida pela Presidência do Superior Tribunal de Justiça que não conheceu do agravo em recurso especial. Alega o recorrente que foi devidamente atacado o fundamento da decisão que, na origem, não admitiu o recurso especial, buscando, portanto, a reconsideração da decisão agravada ou o provimento do agravo pela Quinta Turma. O Ministério Público Federal se manifestou pelo não provimento do agravo regimental. Preenchidos os requisitos legais, deve ser reconsiderada a decisão que não conheceu do agravo. Trata-se de recurso especial, com fundamento na alínea "a" do permissivo constitucional, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Tocantins, assim ementado (e-STJ fl. 305): EMENTA: PENAL. PROCESSUAL PENAL. FURTO. RÉU MULTIRREINCIDENTE. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES DO STJ. DOSIMETRIA. VALORAÇÃO NEGATIVA DA CONDUTA SOCIAL E PERSONALIDADE DO AGENTE FUNDADAS EM ELEMENTOS CONCRETOS. EXASPERAÇÃO DA PENA-BASE MANTIDA. 1. Consoante remansosa jurisprudência, a aplicação do princípio da insignificância depende da ocorrência concomitante dos seguintes requisitos: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. Neste contexto, conforme posicionamento pacífico desta Corte e do STJ, a reincidência impede a adoção do princípio da insignificância. 3. A valoração negativa das modulares relativas à conduta social e personalidade do agente está fundamentada em elementos concretos retirados dos autos, posto que o réu praticou o crime durante o cumprimento de pena e, diante de sua extensa folha de antecedentes, possui sua vida direcionada à prática de atividades criminosas. 5. Apelo não provido. Opostos embargos de declaração, foram acolhidos sem efeitos modificativos. Nas razões recursais, alega a defesa violação dos arts. 155 do Código Penal e 386, III, do Código de Processo Penal. Argumenta que a reincidência e a contumácia delitiva não afastam, por si sós, a incidência do princípio da insignificância, notadamente devido ao pequeno valor e à natureza da res furtivae: dois pacotes de biscoito Tuc"s, uma Fanta laranja de 2 litros, um bolo mané pelado, um saco de pão de queijo, um marmitex campelo simples, um pote de amendoim crocante, um pote de amendoim torrado e um pote de frutas cristalizadas, além de um cantil sem marca aparente, ambos em estado de conservação bom (sem uso), sendo avaliados em R$ 100,00. É o relatório. Decido. O recurso merece acolhida. O recorrente foi condenado, por infração ao art. 155, caput, do Código Penal, à pena de 2 anos e 11 meses de reclusão e 15 dias- multa, além de 8 meses de detenção por infração ao art. 307 do Código Penal, o que foi mantido pelo Tribunal de origem em grau de apelação. Como cediço, a jurisprudência consolidou o entendimento de que a lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. No entanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n.º 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. º 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação que a medida é socialmente recomendável. Precedentes: AgRg no REsp n.º 1.739.282/MG, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 24/8/2018; AgRg no HC n.º 439.368/SC, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 22/8/2018; AgRg no AREsp n.º 1.260.173/DF, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 7/8/2018, DJe 15/8/2018; AgRg no HC n.º 429.890/MS, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 3/4/2018, DJe 12/4/2018. Não obstante, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar conjuntamente os HCs n. 123.108/MG, 123.533/SP e 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da bagatela deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). No caso, o entendimento do Tribunal de origem deve ser afastado, por se tratar de situação que atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância. Isso porque, a despeito da reincidência e contumácia delitiva, a natureza da res furtivae (gêneros alimentícios), as circunstâncias do delito (furto simples), a restituição do produto ao estabelecimento comercial, o valor dos bens furtados e a ausência de qualquer ato mais grave configuram a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento dos envolvidos, conjuntura que admite a aplicação do princípio da insignificância. Nesse sentido: PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL DO PARQUET FEDERAL EM HABEAS CORPUS. ART. 155, § 4.º, INCISO IV, DO CÓDIGO PENAL. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. ATIPICIDADE DA CONDUTA. RECONHECIMENTO. EXCEPCIONALIDADE. ACUSADO MULTIRREINCIDENTE. CONCURSO DE AGENTES. VALOR DA RES. MÍNIMA OFENSIVIDADE. REDUZIDO GRAU DE REPROVABILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. - " .. esta Corte Superior pacificou o entendimento segundo o qual, em razão da excepcionalidade do trancamento da ação penal, inquérito policial ou procedimento investigativo, tal medida somente se verifica possível quando ficar demonstrada - de plano e sem necessidade de dilação probatória - a total ausência de indícios de autoria e prova da materialidade delitiva, a atipicidade da conduta ou a existência de alguma causa de extinção da punibilidade" (AgRg no RHC n. 159.796/DF, Rel. Min. JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 31/3/2023). - Lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. - O princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente; (b) a nenhuma periculosidade social da ação; (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). - O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. 221.999/RS, de MINHA RELATORIA, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, verificação de que a medida é socialmente recomendável, como no presente caso. Precedentes. - A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça firmou-se no sentido de ser incabível a aplicação do princípio da insignificância quando o montante do valor da res furtiva superar o percentual de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. Precedentes. - Na hipótese, o entendimento do Tribunal a quo devia mesmo ser afastado, tendo em vista que se trata de situação que atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância, uma vez que, apesar do acusado ser multirreincidente e de o delito ter sido cometido em concurso de agentes, não há notícias nos autos acerca de qualquer dado concreto da ofensividade da conduta, pois o bem subtraído - um saco de ração - é de valor não relevante e foi prontamente recuperado, tudo a configurar a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do envolvido. - " .. mesmo nos casos de acusados reincidentes e que tenham praticado furto qualificado, esta Corte Superior tem admitido a incidência do princípio da insignificância diante das peculiaridades do caso concreto" (AgRg no REsp n. 2.035.302/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 3/4/2023). - Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 844.190/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 5/9/2023, DJe de 8/9/2023.) PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO TENTADO DE COMIDA. VALOR IRRISÓRIO. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA, APESAR DAS QUALIFICADORAS. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Os réus tentaram furtar poucos pedaços de carne, no valor de apenas R$ 60,00, em muito inferior a 10% do salário-mínimo vigente à época dos fatos. Atipicidade material da conduta, pelo princípio da insignificância. 2. Tratando-se de um furto evidentemente famélico, a existência das qualificadoras do concurso de pessoas e do abuso de confiança não impede o reconhecimento do princípio da insignificância. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AREsp n. 2.216.975/RN, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/2/2023, DJe de 17/2/2023.) RECURSO ESPECIAL. FURTO SIMPLES. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REITERAÇÃO DELITIVA. EXCEPCIONALIDADE DO CASO. BENS DO GÊNERO ALIMENTÍCIO. VÍTIMA DE GRANDE PORTE ECONÔMICO. RESTITUIÇÃO. RESTABELECIMENTO DA SENTENÇA ABSOLUTÓRIA. 1. "A Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp 221.999/RS (Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 10/12/2015), estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação de que a medida é socialmente recomendável" (AgRg no HC 623.343/SC, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 18/05/2021, DJe 25/05/2021). 2. No presente feito, além de o recorrente possuir apenas uma condenação por delito patrimonial (furto qualificado) - transitada em julgado em 19/4/2018 -, os bens furtados (duas garrafas de bebida e sachês de suco em pó), avaliados em R$ 100,00, pouco acima de 10% do salário-mínimo vigente à época dos fatos (R$ 937,00), foram restituídos à vítima, um supermercado de grande porte econômico, não se mostrando recomendável a sua condenação, ficando autorizada, excepcionalmente, a incidência do princípio da insignificância. 3. "Os mecanismos de controle social dos quais o Estado se utiliza para promover o bem estar social possuem graus de severidade, constituindo o Direito Penal a ultima ratio, de modo que a sua aplicação deve obedecer aos princípios da intervenção mínima e da fragmentariedade" (HC 363.350/MG, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 08/02/2018, DJe 16/02/2018). 4. Recurso especial provido. Afastamento da tipicidade da conduta. Incidência do princípio da insignificância. Restabelecimento da sentença absolutória (art. 386, III - CPP). (REsp n. 1.977.132/MG, relator Ministro Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), Sexta Turma, julgado em 5/4/2022, DJe de 9/6/2022.) Ante o exposto, com fundamento no art. 932, VIII, do CPC, c/c art. 253, parágrafo único, II, "c", do RISTJ, reconsidero a decisão proferida às e-STJ fls. 437/438 e conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de absolver o recorrente da prática do delito do art. 155, caput, do Código Penal, mantendo os demais termos do a córdão recorrido. I ntimem-se. EMENTA