HC 699067 - DECISAO
Não se verificou flagrante constrangimento ilegal apto a autorizar atuação ex officio; a manutenção da prisão preventiva foi devidamente fundamentada com base no art. 312 do CPP, diante de indícios de integração em organização criminosa, gravidade concreta do roubo de carga com emprego de armas e restrição de...
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- Parties
- Paciente: MARCIO DE ARAUJO MOREIRA; Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 13 October 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; pedido de liminar prejudicado.
- Legal Topics
- Prisão Preventiva, Habeas Corpus, Organização Criminosa, Roubo De Carga, Medidas Cautelares, Pandemia De Covid 19
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Parties
MARCIO DE ARAUJO MOREIRA
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento
Legal Issues
- 1 Legalidade e fundamentação da prisão preventiva
- 2 Possibilidade de substituição da prisão preventiva por medidas cautelares diversas
- 3 Relevância da gravidade concreta e do modus operandi como fundamentação
Ratio Decidendi
Não se verificou flagrante constrangimento ilegal apto a autorizar atuação ex officio; a manutenção da prisão preventiva foi devidamente fundamentada com base no art. 312 do CPP, diante de indícios de integração em organização criminosa, gravidade concreta do roubo de carga com emprego de armas e restrição de liberdade, e risco de reiteração delitiva, além da ausência de requisitos que justifiquem flexibilização em razão da pandemia de covid-19.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; pedido de liminar prejudicado.
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de MARCIO DE ARAUJO MOREIRA em que se aponta como autoridade coatora o Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (HC n. 1.0000.21.133172-3/000). O paciente teve a prisão em flagrante convertida em preventiva a pedido do Ministério Público pela suposta prática dos delitos tipificados nos arts. 157, § 2º, II e V, § 2º-A, I, do Código Penal e 2º, § 2º, da Lei n. 12.850/2013. A defesa sustenta a existência de constrangimento ilegal consubstanciado na ausência de fundamentação idônea do decreto preventivo, pois não estariam preenchidos os requisitos da custódia cautelar e a prisão preventiva teria se fundado na gravidade abstrata do delito. Argumenta que as condições pessoais favoráveis do paciente lhe permitiriam responder à acusação em liberdade ou mediante medidas cautelares mais brandas. Por fim, destaca a situação emergencial de saúde pública decorrente da disseminação da covid-19, que autorizaria a manutenção do paciente em liberdade. Requer a concessão da ordem para que seja revogada a prisão preventiva do paciente, ainda que mediante a aplicação de cautelares diversas do cárcere. É o relatório. Decido. Ainda que inadequada a impetração de habeas corpus em substituição à revisão criminal ou ao recurso constitucional próprio, diante do disposto no art. 654, § 2º, do Código de Processo Penal, o STJ considera passível de correção de ofício o flagrante constrangimento ilegal. Nos casos em que a pretensão esteja em conformidade ou em contrariedade com súmula ou jurisprudência pacificada dos tribunais superiores, a Terceira Seção desta Corte admite o julgamento monocrático da impetração antes da abertura de vista ao Ministério Público Federal, em atenção aos princípios da celeridade e da efetividade das decisões judiciais, sem que haja ofensa às prerrogativas institucionais do parquet ou mesmo nulidade processual (AgRg no HC n. 674.472/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 10/8/2021; e AgRg no HC n. 530.261/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 7/10/2019). Sendo essa a hipótese dos autos, passo ao exame do mérito da impetração. A prisão preventiva é cabível mediante decisão fundamentada em dados concretos, quando evidenciada a existência de circunstâncias que demonstrem a necessidade da medida extrema, nos termos dos arts. 312, 313 e 315 do Código de Processo Penal (HC n. 527.660/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 2/9/2020). No caso, está justificada a manutenção da prisão preventiva, pois foi demonstrado o preenchimento dos requisitos do art. 312 do CPP, não sendo recomendável a aplicação de medida cautelar referida no art. 319 do CPP. A propósito, assim se manifestou o Tribunal a quo (fls. 21-23, destaquei): Da análise do presente writ, extraem-se indícios de que o paciente integra organização criminosa destinada ao cometimento de diversos delitos, notadamente roubos, furtos e receptações de cargas transportadas por caminhoneiros em trecho da BR-116, até mesmo com a utilização de armas de fogo e de colete balístico, sendo que alguns membros seriam responsáveis pela abordagem, ameaça e restrição de liberdade dos ofendidos, enquanto outros seriam encarregados do transbordo e da ocultação das res furtivas. Consta que, no dia dos fatos, uma família (composta pelo motorista, por uma mulher grávida e por uma criança de três anos de idade, filha do casal) trafegava num caminhão, quando foi abordada mediante disparos de arma de fogo vindos em sua direção. Logo após o condutor estacionar o referido veículo, outro automóvel surgiu, com mais indivíduos, de modo que alguns deles teriam entrado no caminhão, portando rádio transmissor e revólveres, e subtraído um relógio, dois celulares e a quantia de R$ 200,00. Consta também que o grupo teria exigido que a vítima continuasse a dirigir pela rodovia, enquanto era escoltada por um carro, até uma estrada, ocasião em que a família foi mantida refém na cabine do caminhão e que os demais comparsas passaram a retirar e a realizar o transbordo da carga. .. Neste contexto, não se pode olvidar que os crimes imputados a Márcio são gravíssimos e evidenciam sua periculosidade, ínsita nas condutas supostamente perpetradas por ele. Repita-se: o paciente supostamente integra organização criminosa e teria se envolvido em roubo de carga praticado em concurso de agentes, mediante grave ameaça exercida com o emprego de armas de fogo e restrição da liberdade das vítimas, inclusive uma mulher grávida e uma criança. É de se ressaltar também a notícia de que os fatos teriam sido cometidos mediante extrema violência, sendo que foram efetuados disparos na direção frontal do caminhão que os ofendidos ocupavam. Isso sem desconsiderar a informação de que existe um grupo de WhatsApp no qual o paciente e os supostos comparsas, em tese, são avisados quando da abordagem dos veículos pelos membros do grupo atuantes na linha de frente e sobre o local em que o transbordo da carga deverá ser efetuado para posterior ocultação. Há de se consignar, ainda, que Márcio já responde a ação penal por posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito (fls. 271/278 do doc. único). Por sinal, nos termos de decisão proferida pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, a existência de registros criminais anteriores justifica a prisão para evitar a reiteração delitiva (RHC n.º 143.584/RS, cuja relatoria incumbiu ao Min. Joel Ilan Paciornik). O entendimento acima está em consonância com a jurisprudência do STJ de que, tendo a necessidade de prisão cautelar sido exposta de forma fundamentada e concreta, é incabível a substituição por medidas cautelares mais brandas (RHC n. 133.153/MG, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 21/9/2020). Note-se que, no presente caso, a gravidade concreta da conduta - roubo de carga em concurso de agentes, mediante emprego de arma de fogo e restrição da liberdade das vítimas - bem como o fato de o paciente responder a outra ação penal foram considerados pelo Tribunal a quo para a manutenção da prisão preventiva e justificam a imposição da medida extrema em detrimento das demais cautelares substitutivas. Destaca-se que a prisão preventiva possui natureza excepcional, sempre sujeita a reavaliação, de modo que a decisão judicial que a impõe ou a mantém, para compatibilizar-se com a presunção de não culpabilidade e com o Estado Democrático de Direito - o qual se ocupa de proteger tanto a liberdade individual quanto a segurança e a paz públicas - , deve ser suficientemente motivada, com indicação concreta das razões fáticas e jurídicas que justificam a cautela, nos termos dos arts. 312, 313, 315 e 282, I e II, do Código de Processo Penal, com as alterações dispostas pela Lei n. 13.964/2019. Consoante jurisprudência consolidada desta Corte superior, a gravidade concreta da conduta, evidenciada pelo modus operandi, é circunstância apta a indicar a periculosidade do agente e constitui fundamentação idônea para o decreto preventivo (RHC n. 119.549/RS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 26/2/2020). E conforme a orientação jurisprudencial do STJ, inquéritos policiais ou ações penais em curso justificam a imposição de prisão preventiva como forma de evitar a reiteração delitiva e, assim, garantir a ordem pública (AgRg no HC n. 603.774/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 28/9/2020; e HC n. 602.698/RS, relator Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe de 6/10/2020). Ademais, eventuais condições subjetivas favoráveis do paciente, como residência fixa e trabalho lícito, não impedem a prisão preventiva quando preenchidos os requisitos legais para sua decretação. Essa orientação está de acordo com a jurisprudência do STJ. Vejam-se os seguintes precedentes: AgRg no HC n. 585.571/GO, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 8/9/2020; e RHC n. 127.843/MG, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe de 2/9/2020. No que diz respeito à pandemia de covid-19, o STJ firmou o entendimento de que a flexibilização da medida extrema não ocorre de forma automática (AgRg no HC n. 574.236/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 11/5/2020; e HC n. 575.241/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, DJe de 3/6/2020). Para tanto, é necessária a demonstração de que o preso preenche os seguintes requisitos: a) inequívoco enquadramento no grupo de vulneráveis à covid-19; b) impossibilidade de receber tratamento no estabelecimento prisional em que se encontra; e c) exposição a mais risco de contaminação no estabelecimento onde está segregado do que no ambiente social (AgRg no HC n. 561.993/PE, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 4/5/2020). Como não foram demonstradas as situações descritas, não se verifica a ocorrência de constrangimento ilegal. Como visto, na hipótese, não se constata a existência de flagrante constrangimento ilegal que autorize a atuação ex officio. Ante o exposto, com fundamento no art. 34, XX, do RISTJ, não conheço do presente habeas corpus, ficando prejudicado o pedido de liminar.. Publique-se. Intimem-se. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Após o trânsito em julgado, remetam-se os autos ao arquivo.