REsp 1613561 - DECISAO
O recurso extraordinário não foi conhecido porque a alegada ofensa constitucional seria reflexa, por depender da análise de normas infraconstitucionais (notadamente o art. 37, § 2º do CDC e o art. 104, I do CC), razão pela qual, nos termos do Tema 660 do STF e do art. 1.030, I, a, do CPC, negou-se seguimento; quanto...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 November 2024
- Procedural Posture
- Recurso Extraordinário / Negado Seguimento E Não Admitido
- Outcome
- Recurso extraordinário negado seguimento em relação à ofensa ao art. 5º, XXXVI, da CF (art. 1.030, I, a, CPC) e não admitido quanto às demais alegações (art. 1.030, V, CPC).
- Legal Topics
- Publicidade Destinada Às Crianças, Abusividade Da Publicidade, Repercussão Geral, Ofensa Reflexa À Constituição
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Procedural Posture
Recurso Extraordinário / Negado Seguimento E Não Admitido
Legal Issues
- 1 Abusividade de publicidade de alimentos direcionada a crianças
- 2 Natureza infraconstitucional da alegação de ofensa aos princípios constitucionais quando depende de normas infraconstitucionais (ofensa reflexa)
- 3 Impossibilidade de reexame de fatos e provas em recurso extraordinário
Ratio Decidendi
O recurso extraordinário não foi conhecido porque a alegada ofensa constitucional seria reflexa, por depender da análise de normas infraconstitucionais (notadamente o art. 37, § 2º do CDC e o art. 104, I do CC), razão pela qual, nos termos do Tema 660 do STF e do art. 1.030, I, a, do CPC, negou-se seguimento; quanto às demais alegações, o recurso não foi admitido com fundamento no art. 1.030, V, do CPC.
Court Disposition
Recurso extraordinário negado seguimento em relação à ofensa ao art. 5º, XXXVI, da CF (art. 1.030, I, a, CPC) e não admitido quanto às demais alegações (art. 1.030, V, CPC).
Orders
- Nego seguimento ao recurso extraordinário quanto à suscitada ofensa ao art. 5º, XXXVI, da Constituição Federal (art. 1.030, I, a, do CPC).
- Quanto às demais alegações, não admito o recurso (art. 1.030, V, do CPC).
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO 1. Trata-se de recurso extraordinário, fundado no art. 102, III, a, da Constituição Federal, interposto contra acórdão do Superior Tribunal de Justiça, assim ementado (fl. 893): PROCESSUAL CIVIL. CONSUMIDOR. AUTO DE INFRAÇÃO E MULTA DO PROCON. PUBLICIDADE DESTINADA ÀS CRIANÇAS.GÊNEROS ALIMENTÍCIOS DE BAIXA QUALIDADE NUTRICIONAL. PUBLICIDADE ABUSIVA. ART. 37, § 2º, DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. 1. Hipótese em que o Tribunal estadual consignou: " .. não se verificando na campanha publicitária excesso qualificável como patológico nem ofensa aos hipossuficientes (crianças), por desrespeito à dignidade humana, por indução de comportamentos prejudiciais à saúde ou à segurança pessoal, por exploração de diminuta capacidade de discernimento ou inexperiência, por opressão, ou, ainda, por estratégia de coação moral ao consumo ou abuso de persuasão, não se justifica a autuação e a punição aplicada pelo Procon." (fl. 647, e-STJ). 2. O Superior Tribunal de Justiça possui jurisprudência reconhecendo a abusividade de publicidade de alimentos direcionada, de forma explícita ou implícita, a crianças. Isso porque a decisão de comprar gêneros alimentícios cabe aos pais, especialmente em época de altos e preocupantes índices de obesidade infantil, um grave problema nacional de saúde pública. Diante disso, consoante o art. 37, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, estão vedadas campanhas publicitárias que utilizem ou manipulem o universo lúdico infantil. Na ótica do Direito do Consumidor, publicidade é oferta e, como tal, ato precursor da celebração de contrato de consumo, negócio jurídico cuja validade depende da existência de sujeito capaz (art. 104, I, do Código Civil). Em outras palavras, se criança, no mercado de consumo, não exerce atos jurídicos em seu nome e por vontade própria, por lhe faltar poder de consentimento, tampouco deve ser destinatária de publicidade que, fazendo tábula rasa da realidade notória, a incita a agir como se plenamente capaz fosse. Precedente do STJ. 3. Recurso Especial provido. Os embargos de declaração opostos na sequência foram rejeitados (fls. 950-954). A parte recorrente sustenta a ocorrência de violação dos arts. 1º, caput, 5º, II e XXXVI, 37, caput, e 170 da CF e aduz haver repercussão geral da matéria tratada. Alega que o Superior Tribunal de Justiça teria adotado postura contraditória em relação a precedente idêntico, afrontando o princípio da segurança jurídica. Esclarece que, no presente caso, o óbice da Súmula n. 7/STJ teria sido superado para reformar o acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ao passo que, em caso análogo, esta Corte Superior de Justiça teria considerado, para entender que a publicidade não seria abusiva, necessário o revolvimento de fatos. Defende que, conforme reconhecido pela Corte de origem, não se estaria diante de publicidade abusiva, de modo que a multa imposta pelo PROCON seria excessiva, exorbitante e ilegal, extrapolando o que a lei o permitiria fazer. Argumenta que a publicidade seria elemento indissociável do exercício das atividades econômicas, estando protegida pelos preceitos constitucionais relativos à liberdade de expressão, e amparo, ainda, na liberdade de iniciativa, princípio fundamental da ordem constitucional econômica. Aduz que o impedimento ou punição em decorrência de publicidade, tida por abusiva pelo PROCON e pelo acórdão recorrido, interferiria na livre iniciativa. Adverte que, a imposição de restrições publicitárias e distribuição promocional de brindes a produtos notadamente de consumo e controle adulto, criaria distorções concorrenciais anti-isonômicas, em prejuízo aos consumidores e à ordem econômica. Requer, ao final, a admissão do recurso e a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal. As contrarrazões foram apresentadas às fls. 1.047-1.054. É o relatório. 2. O STF já definiu que a alegação de afronta aos princípios do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, bem como ao ato jurídico perfeito, ao direito adquirido e aos limites da coisa julgada, quando dependente da prévia análise de normas infraconstitucionais, configura ofensa reflexa ao texto constitucional. No Tema n. 660 do STF, a Suprema Corte fixou a seguinte tese: A questão da ofensa aos princípios do contraditório, da ampla defesa, do devido processo legal e dos limites à coisa julgada, tem natureza infraconstitucional, e a ela se atribuem os efeitos da ausência de repercussão geral, nos termos do precedente fixado no RE n. 584.608, rel. a Ministra Ellen Gracie, DJe 13/03/2009. (ARE n. 748.371-RG, relator Ministro Gilmar Mendes, julgado em 6/6/2013, DJe de 1º/8/2013.) Essa conclusão foi adotada sob o regime da repercussão geral e é de aplicação obrigatória, devendo os tribunais, ao analisar a viabilidade prévia dos recursos extraordinários, negar seguimento aos recursos que discutam questão à qual o STF não tenha reconhecido a existência de repercussão geral, nos termos do art. 1.030, I, a, do CPC. No caso dos autos, o exame da alegada ofensa aos art. 5º, XXXVI, da Constituição Federal dependeria da análise de dispositivos da legislação infraconstitucional considerados na solução do acórdão recorrido, motivo pelo qual se aplica a conclusão do STF no mencionado Tema n. 660. É o que se observa do seguinte trecho do acórdão recorrido (fl. 898): O Superior Tribunal de Justiça possui jurisprudência reconhecendo a abusividade de publicidade de alimentos direcionada, de forma explícita ou implícita, a crianças. Isso porque a decisão de comprar gêneros alimentícios cabe aos pais, especialmente em época de altos e preocupantes índices de obesidade infantil, um grave problema nacional de saúde pública. Diante disso, consoante o art. 37, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, estão vedadas campanhas publicitárias que utilizem ou manipulem o universo lúdico infantil. Na ótica do Direito do Consumidor, publicidade é oferta e, como tal, ato precursor da celebração de contrato de consumo, negócio jurídico cuja validade depende da existência de sujeito capaz (art. 104, I, do Código Civil). Em outras palavras, se criança, no mercado de consumo, não exerce atos jurídicos em seu nome e por vontade própria, por lhe faltar poder de consentimento, tampouco deve ser destinatária de publicidade que, fazendo tábula rasa da realidade notória, a incita a agir como se plenamente capaz fosse. 3. No mais, do teor do acórdão impugnado, já transcrito, verifica-se que a controvérsia cinge-se à questão da abusividade da publicidade de alimentos direcionada a crianças. Desse modo, a matéria ventilada depende do exame do art. 37, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, motivo pelo qual eventual ofensa à Constituição da República, se houvesse, seria reflexa ou indireta, não legitimando a interposição do recurso. Em caso semelhante, assim já decidiu o STF: Agravo regimental em recurso extraordinário com agravo. Direito do consumidor. Publicidade enganosa. Direito à informação. Lei Estadual nº 6.419/13. Código de Defesa do Consumidor. Ofensa reflexa à Constituição Federal. Fatos e provas. Reexame. Impossibilidade. Precedentes. 1. Não se abre a via do recurso extraordinário para a análise de matéria ínsita ao plano normativo infraconstitucional ou para o reexame dos fatos e das provas dos autos. Incidência das Súmulas nºs 280 e 279/STF. 2. Agravo regimental não provido. 3. Havendo prévia fixação de honorários advocatícios pelas instâncias de origem, seu valor monetário será majorado em 10% (dez por cento) em desfavor da parte recorrente, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observados os limites dos §§ 2º e 3º do referido artigo e a eventual concessão de justiça gratuita. (ARE 1399224 AgR, relator Ministro Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 13/12/2022, DJe de 24/2/2023.) 4 . Ante o exposto, com amparo no art. 1.030, I, a, do Código de Processo Civil, nego seguimento ao recurso extraordinário, em relação à suscitada ofensa ao art. 5º, XXXVI, da Constituição Federal, e, quanto às demais alegações, com fundamento no art. 1.030, V, do Código de Processo Civil, não o admito. Publique-se. Intimem-se. EMENTA RECURSO EXTRAORDINÁRIO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. EXAME DE NORMAS INFRACONSTITUCIONAIS. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. TEMA N. 660 DO STF. NEGATIVA DE SEGUIMENTO. ART. 1.030, I, A, DO CPC. DIREITO DO CONSUMIDOR. PUBLICIDADE DESTINADA ÀS CRIANÇAS. GÊNEROS ALIMENTÍCIOS DE BAIXA QUALIDADE NUTRICIONAL. PUBLICIDADE ABSUSIVA. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. OFENSA REFLEXA À CONSTITUIÇÃO FEDERAL. RECURSO NÃO ADMITIDO.