REsp 2045146 - DECISAO
Deu-se provimento ao recurso especial porque o STJ unificou entendimento no sentido de que a cláusula do plano que estende a novação aos coobrigados é legítima, mas somente é oponível aos credores que aprovaram o plano sem ressalvas; além disso, a supressão ou substituição de garantias exige a anuência do credor...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: ITAÚ UNIBANCO S.A.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 June 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgado No Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Recurso especial provido
- Legal Topics
- Recuperação Judicial, Novação, Garantias Reais E Fidejussórias, Assembleia Geral De Credores, Supressão De Garantias, Consentimento Do Credor Titular, Overruling
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Parties
ITAÚ UNIBANCO S.A.
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgado No Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Se a cláusula do plano de recuperação que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível aos credores que não aprovaram o plano
- 2 Se a assembleia geral de credores pode suprimir ou substituir garantias reais e fidejussórias sem a anuência do credor titular
- 3 Compatibilidade da decisão do Tribunal de origem com precedentes do STJ e ocorrência de overruling
Ratio Decidendi
Deu-se provimento ao recurso especial porque o STJ unificou entendimento no sentido de que a cláusula do plano que estende a novação aos coobrigados é legítima, mas somente é oponível aos credores que aprovaram o plano sem ressalvas; além disso, a supressão ou substituição de garantias exige a anuência do credor titular.
Court Disposition
Recurso especial provido
Orders
- Dar provimento ao recurso especial
- Determinar que a cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas em relação aos credores que aprovaram o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz em relação aos credores ausentes, aos que se abstiveram de votar ou se posicionaram contra tal disposição.
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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por ITAÚ UNIBANCO S.A., com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará em agravo de instrumento nos autos de recuperação judicial. O julgado foi assim ementado (fls. 65-67): AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. DECISÃO QUE HOMOLOGOU O PLANO RECUPERACIONAL COM BASE NA ASSEMBLEIA GERAL DE CREDORES. IRRESIGNAÇÃO DO CREDOR. ALEGATIVA DE ABUSIVIDADE ECONÔMICA DO PLANO: DESÁGIO, PRAZO DE PAGAMENTO, PERÍODO DE CARÊNCIA E FORMA DE ATUALIZAÇÃO DOS CRÉDITOS. ESTIPULAÇÕES RELACIONADAS A QUESTÕES NEGOCIAIS PACTUADAS PELOS CREDORES. ILEGALIDADE NÃO DEMONSTRADA A JUSTIFICAR O CONTROLE JUDICIAL. SOBERANIA DA ASSEMBLEIA GERAL. ALEGATIVA DE NULIDADE DA CLÁUSULA DE SUPRESSÃO DAS GARANTIAS FIDEJUSSÓRIAS. INOCORRÊNCIA. RELATIVIZAÇÃO DAS GARANTIAS. INTELIGÊNCIA DO ART. 49, § 2º, DA LEI Nº 11.101/2005. PRECEDENTES DO STJ. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. Os embargos de declaração opostos foram decididos nestes termos (fls. 138-139): EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. HOMOLOGAÇÃO DO PLANO RECUPERACIONAL. SUPRESSÃO DAS GARANTIAS. POSSIBILIDADE. ALEGAÇÃO DE OMISSÃO NO ACÓRDÃO QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECURSO DO AGRAVANTE/EMBARGANTE MANTENDO A VALIDADE DA CLÁUSULA DE EXONERAÇÃO DAS GARANTIAS FIDEJUSSÓRIAS. INEXISTÊNCIA. TENTATIVA DE REDISCUSSÃO DA MATÉRIA EM SEDE DE EMBARGOS. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA DAS HIPÓTESES DO ART. 1022 DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 18 DO TJ/CE. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. No recurso especial, a parte aponta, além de divergência jurisprudencial, violação dos seguintes artigos: a) 50, § 1º, da Lei n. 11.101/2005, pois o credor da respectiva garantia precisa autorizar expressamente para que possa ocorrer a supressão ou substituição da garantia real; b) 49, § 1º, da Lei n. 11.101/2005, visto que garante ao credor a possibilidade de preservar seus direitos e privilégios contra os coobrigados, fiadores e obrigados de regresso; c) Súmula n. 581 do STJ, porque a recuperação judicial do devedor principal não impede o prosseguimento das ações e execuções ajuizadas contra terceiros devedores solidários ou coobrigados em geral; e, ao final, 59, caput, da Lei n. 11.101/2005. Sustenta que o Tribunal de origem divergiu do entendimento do STJ, especialmente do Recurso Repetitivo REsp n. 1333349/SP, relator Ministro Luis Felipe Salomão, que assentou que a recuperação judicial do devedor principal não impede o prosseguimento das execuções nem induz suspensão ou extinção de ações ajuizadas contra terceiros devedores solidários ou coobrigados em geral (fls. 91-98). Requer o provimento do recurso para que se conceda efeito suspensivo à decisão proferida em primeiro grau, permitindo a manutenção da trava bancária. Nas contrarrazões, a parte recorrida aduz que o recurso especial não deve ser conhecido, pois busca rediscussão de matéria fática e não apresenta o necessário cotejo analítico para a interposição por dissídio jurisprudencial (fls. 137-159). O recurso especial foi admitido, nos termos do artigo 1.030, V, do Código de Processo Civil, devendo os autos ascenderem ao colendo Superior Tribunal de Justiça (fls. 195-201). É o relatório. Decido. O STJ já decidiu que a cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas aos credores que aprovarem o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz, portanto, no tocante aos credores que não se fizeram presentes quando da assembleia geral de credores, abstiveram-se de votar ou se posicionaram contra tal disposição. Nesse sentido: RECURSO ESPECIAL. DIREITO EMPRESARIAL. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. PLANO DE RECUPERAÇÃO. NOVAÇÃO. EXTENSÃO. COOBRIGADOS. IMPOSSIBILIDADE. GARANTIAS. SUPRESSÃO OU SUBSTITUIÇÃO. CONSETIMENTO. CREDOR TITULAR. NECESSIDADE. 1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 2015 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. Cinge-se a controvérsia a definir se a cláusula do plano de recuperação judicial que prevê a supressão das garantias reais e fidejussórias pode atingir os credores que não manifestaram sua expressa concordância com a aprovação do plano. 3. A cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas aos credores que aprovaram o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz em relação aos credores ausentes da assembleia geral, aos que abstiveram-se de votar ou se posicionaram contra tal disposição. 4. A anuência do titular da garantia real é indispensável na hipótese em que o plano de recuperação judicial prevê a sua supressão ou substituição. 5. Recurso especial interposto Tonon Bionergia S.A., Tonon Holding S.A. e Tonon Luxemborg S.A. não provido. Agravo em recurso especial interposto por CCB BRASIL - China Construction Bank (Brasil) Banco Múltiplo não conhecido. (REsp n. 1.794.209/SP, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Segunda Seção, julgado em 12/5/2021, DJe de 29/6/2021.) DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DO RECURSO. SÚMULA N. 284 DO STF. PLANO DE RECUPERAÇÃO. EXTENSÃO DA NOVAÇÃO AOS COOBRIGADOS. IMPOSSIBILIDADE. SUPRESSÃO OU SUBSTITUIÇÃO DAS GARANTIAS REAIS E FIDEJUSSÓRIAS. NECESSIDADE DE CONSENTIMENTO DO CREDOR TITULAR. DECISÃO MANTIDA. I. Caso em exame 1. Agravo interno interposto contra decisão monocrática que conheceu em parte do recurso e negou-lhe provimento. II. Razões de decidir 2. Inexiste afronta aos arts. 489, 1.022 e 1.025 do CPC/2015 quando a Corte local pronunciou-se, de forma clara e suficiente, acerca das questões suscitadas, manifestando-se sobre todos os argumentos que, em tese, poderiam infirmar a conclusão adotada pelo Juízo. 3. Ausente o enfrentamento da matéria pelo acórdão recorrido, mesmo após a oposição de embargos declaratórios, inviável o conhecimento do recurso especial, por falta de prequestionamento. Incidência da Súmula n. 211/STJ. 4. A deficiência na fundamentação do recurso, de modo a impedir a compreensão da suposta ofensa ao dispositivo legal invocado, obsta o conhecimento do recurso especial (Súmula n. 284/STF). 5. "A assembleia geral não pode suprimir garantias reais e fidejussórias previstas no plano de recuperação judicial sem a anuência do credor interessado, visto que o art. 49, § 2º, da Lei n. 11.101/2005 refere-se à obrigação e, em consequência, a deságios, prazos e encargos, não a garantias cuja desoneração exige anuência expressa" (AgInt no REsp n. 2.015.950/GO, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 15/8/2024). III. Dispositivo 6. Agravo interno desprovido. (AgInt no REsp n. 2.125.847/MG, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 4/11/2024, DJe de 7/11/2024.) RECUPERAÇÃO JUDICIAL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PLANO DE RECUPERAÇÃO. EXTENSÃO DA NOVAÇÃO AOS COOBRIGADOS. IMPOSSIBILIDADE. SUPRESSÃO OU SUBSTITUIÇÃO DAS GARANTIAS REAIS E FIDEJUSSÓRIAS. NECESSIDADE DE CONSENTIMENTO DO CREDOR TITULAR. SUPERAÇÃO DO PRECEDENTE INVOCADO PELA PARTE COMO PARADIGMA DO ACÓRDÃO PROFERIDO NA ORIGEM. OVERRULING. INTERPRETAÇÃO CONFERIDA AO ART. 49, § 2º, DA LEI N. 11.101/2005. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. "A cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas aos credores que aprovaram o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz em relação aos credores ausentes da assembleia geral, aos que abstiveram-se de votar ou se posicionaram contra tal disposição" (REsp n. 1.794.209/SP, Segunda Seção). 2. A superveniência de julgado por órgão superior do STJ que unifica entendimento das turmas julgadoras caracteriza a aplicação da técnica de superação/overruling em relação ao precedente anterior apontado como paradigma. 3. A assembleia geral não pode suprimir garantias reais e fidejussórias previstas no plano de recuperação judicial sem a anuência do credor interessado, visto que o art. 49, § 2º, da Lei n. 11.101/2005 refere-se à obrigação e, em consequência, a deságios, prazos e encargos, não a garantias cuja desoneração exige anuência expressa. 4. Agravo interno desprovido. (AgInt no REsp n. 2.015.950/GO, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 15/8/2024.) Ressalte-se que os julgados mencionados nas contrarrazões recursais são todos de datas anteriores. O que se observa no caso é que a jurisprudência mencionada pela parte recorrida foi superada, tendo ocorrido o overruling tanto sob o ponto de vista temporal quanto sob o critério hierárquico, na medida em que a Segunda Seção, ao avaliar situação semelhante em momento posterior, unificou o entendimento das turmas julgadoras, fixando nova tese jurídica a respeito do tema: "a cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas aos credores que aprovaram o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz em relação aos credores ausentes da assembleia geral, aos que abstiveram-se de votar ou se posicionaram contra tal disposição" (REsp n. 1.794.209/SP, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Segunda Seção, julgado em 12/5/2021, DJe de 29/6/2021). Portanto, a conclusão do Tribunal de Justiça estadual não está de acordo com o entendimento do STJ. Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial para se determinar que a cláusula que estende a novação aos coobrigados é legítima e oponível apenas em relação aos credores que aprovaram o plano de recuperação sem nenhuma ressalva, não sendo eficaz em relação aos credores ausentes da assembleia geral, aos que se abstiveram de votar ou se posicionaram contra tal disposição . Publique-se. Intimem-se. EMENTA