HC 1001918 - DECISAO
Constatada jurisprudência dominante do STJ no sentido de que a aprovação parcial em exame nacional (ENCCEJA/ENEM) pode ser considerada como aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena, aplica-se interpretação extensiva in bonam partem ao art. 126 da Lei de Execução Penal, de modo que a aprovação...
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- Parties
- Paciente: WENDEL SANTOS SOARES; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 14 May 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Concessão Liminar
- Outcome
- Habeas corpus não conhecido, mas ordem concedida liminarmente de ofício para determinar aplicação da remição em razão da aprovação parcial no ENCCEJA.
- Legal Topics
- Remição Da Pena, ENCCEJA, Atividades Educativas No Cumprimento Da Pena, Recomendação Do CNJ
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Parties
WENDEL SANTOS SOARES
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Concessão Liminar
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição de pena em razão de aprovação parcial no ENCCEJA
- 2 Cabimento de habeas corpus como substitutivo de recurso ordinário
- 3 Valor vinculante de Recomendação do CNJ
Ratio Decidendi
Constatada jurisprudência dominante do STJ no sentido de que a aprovação parcial em exame nacional (ENCCEJA/ENEM) pode ser considerada como aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena, aplica-se interpretação extensiva in bonam partem ao art. 126 da Lei de Execução Penal, de modo que a aprovação parcial no ENCCEJA autoriza a concessão do benefício da remição da pena; assim, reconhecendo flagrante ilegalidade no indeferimento, concedeu-se a ordem liminar para determinar ao Juízo das Execuções que aplique a remição.
Court Disposition
Habeas corpus não conhecido, mas ordem concedida liminarmente de ofício para determinar aplicação da remição em razão da aprovação parcial no ENCCEJA.
Orders
- Determinar ao Juízo das Execuções que aplique o benefício da remição em virtude da aprovação parcial no ENCCEJA.
- Comunique-se a presente decisão, com urgência, ao Juízo das Execuções Criminais.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, sem pedido de liminar, impetrado em favor de WENDEL SANTOS SOARES, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO no Agravo em Execução n. 0005161-39.2025.8.26.0996. Narra a impetrante que o Juízo da Execução Criminal indeferiu pedido de remição do paciente pela aprovação parcial no ENCCEJA (Exame Nacional p ara Certificação de Competências de Jovens Adultos), por ausência de amparo legal. Irresignada, a Defesa interpôs recurso em agravo em execução, tendo o Tribunal de origem negado provimento ao recurso. Neste writ, o impetrante aponta a ocorrência de constrangimento ilegal, sustentando que a aprovação no ENCCEJA deve ser utilizada para remição da pena, conforme previsão do §5º do art. 126 da Lei de Execuções Penais. Aduz, ainda, que a Resolução n. 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça objetiva, expressamente, valorar e considerar as atividades educacionais de caráter complementar à educação nas prisões (art. 1º, inc. I). Requer a concessão da ordem para que seja deferida a remição. É o relatório. DECIDO. Esta Corte - HC n. 535.063/SP, Terceira Seção, relator Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/06/2020, DJe de 25/08/2020 - e o Supremo Tribunal Federal - AgRg no HC n. 180.365/PB, Primeira Turma, relatora Ministra Rosa Weber, julgado em 27/03/2020, DJe de 02/04/2020, e AgRg no HC n. 147.210/SP, Segunda Turma, relator Ministro Edson Fachin, julgado em 30/10/2018, DJe de 20/02/2020 - pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Ademais, consoante entendimento desta Corte Superior, o dispositivo regimental que prevê abertura de vista ao Ministério Público Federal antes do julgamento de mérito do habeas corpus impetrado nesta Corte (arts. 64, III, e 202, RISTJ) não retira do relator do feito a faculdade de decidir liminarmente a pretensão que se conforma com súmula ou jurisprudência dominante no Superior Tribunal de Justiça ou a confronta (AgRg no HC 530.261/SP, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 24/09/2019). Assim, passo à análise das razões da impetração, de forma a verificar a ocorrência de flagrante ilegalidade a justificar a concessão do habeas corpus, de ofício. O Juiz de Execução, ao indeferir o pedido de remição, assim se manifestou (fls. 31/32): A pretensão não merece acolhimento. Com efeito, o artigo 126, § 1º, inciso I, da Lei de Execução Penal é expresso ao prever "atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional". O artigo 126, § 1º, inciso I, da Lei de Execução Penal é expresso ao prever "atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional". Assim, o requisito legal para a concessão do benefício é a pessoa fazer algum curso, não a aprovação em exame. Órgão administrativo não cria benefícios que dependem de lei. A dita recomendação invocada, oriunda de órgão administrativo do Planalto Central, é, na verdade, usurpação de competência exclusiva do Poder Legislativo. Neste país, por imposição constitucional, quem cria crimes, penas, formas de execução de pena e benefícios é o Poder Legislativo. Ante o exposto, INDEFIRO o pedido de remição de penas em virtude de aprovação no exame do "ENCCEJA", ante a ausência de amparo legal ,formulado em favor do sentenciado WENDEL SANTOS SOARES, MTR: 917406-1 , atualmente recolhido na Penitenciária de Pracinha. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo em execução nos seguintes termos do voto condutor do acórdão (fls. 61/62): Inconsistente o reclamo. De fato, não há dúvidas de que o estudo, ainda que por conta própria, é meio de reinserção social do sentenciado, servindo de instrumento de crescimento intelectual e combate da ociosidade no ambiente prisional. Todavia, ainda assim, o pleito do sentenciado não era de ser acolhido, eis que, a instrução autodidata não pode ser equiparada à atividade de ensino de que trata o art. 126, §§ 1º, I, e 2º, da LEP, descabendo ao intérprete criar o que a norma legal não o fez. Ademais, não há nos autos qualquer documento a comprovar que tenha o reeducando desenvolvido atividade de estudo no ambiente prisional, daí ser descabida a incidência do §5º do art. 126 da LEP, incluído pela Lei 12.433/2011. Trata-se, pois, de contagem ficta de tempo de frequência escolar, sem amparo legal. E não se desconhece o teor da Recomendação nº 391/2021, que revogou a de nº 44/2013, editada pelo Conselho Nacional de Justiça, mas certo é que o ato não tem efeito vinculante, mesmo porque de natureza administrativa aquele órgão editor. Constata-se que o apenado apresentou Atestado de Eliminação de Á reas de Conhecimento/Disciplinas de aprovação parcial no ENCCEJA - ensino médio (fl. 26), documento hábil a demonstrar o aprendizado por conta própria do ensino fundamental. Para a aprovação no ENCCEJA, é necessário atingir o mínimo de 100 (cem) pontos em cada uma das provas objetivas e obter uma nota igual ou superior a 5,0 (cinco) pontos na redação. Segundo a Lei n. 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), em seu art. 24, I, a carga horária total do ensino médio corresponde a 2.400 (duas mil e quatrocentos) horas. A base de cálculo para o apenado que não frequentar curso regular, mas estudar por conta própria, é de 50% (cinquenta por cento), ou seja, 1.200 (mil e duzentas) horas, no caso de ensino médio, conforme art. 1º, IV, da Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do julgamento do HC n. 602.425/SC, decidiu que a base de cálculo da carga horária, a fim de dar aplicação ao disposto no art. 126 da Lei de Execução Penal (LEP) - no que se refere aos apenados que realizam estudos por conta própria -, conforme a Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça, seria de 1.200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio e de 1.600 (mil e seiscentas) horas para o ensino fundamental, ou 100 (cem) e 133 (cento e trinta e três) dias, respectivamente (HC n. 602.425/SC, Terceira Seção, julgado em 10/03/2021, DJe de 06/04/2021). E, segundo firme entendimento desta Corte Superior, há direito à remição da pena, pelo estudo, em decorrência da aprovação parcial no ENEM: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO. REMIÇÃO DA PENA. APROVAÇÃO PARCIAL NO ENEM. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA IN BONAM PARTEM. POSSIBILIDADE. ACÓRDÃO IMPUGNADO DE ACORDO COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. APROVAÇÃO EM CURSO BÍBLICO À DISTÂNCIA. REQUISITOS NÃO PREENCHIDOS. AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 782.901/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 06/12/2022, DJe de 12/12/2022, grifamos). Assim, diante da possibilidade de interpretação extensiva in bonam partem, o benefício da remição deve ser aplicado no caso dos autos, tendo em vista que a aprovação parcial do paciente no ENCCEJA configura aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena, conforme dispõem o art. 126 da LEP e os normativos do CNJ. Ante o exposto, com amparo no art. 34, XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício, liminarmente, para determinar ao Juízo das Execuções que aplique o benefício da remição em virtude da aprovação parcial no ENCCEJA. Comunique-se a presente decisão, com urgência, ao Juízo das Execuções Criminais. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se e intimem-s e. EMENTA