HC 1023050 - DECISAO
Concluiu-se que há flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem por divergir da Resolução CNJ n. 391/2021 e da jurisprudência deste Tribunal Superior (EREsp n. 1.979.591/SP e outros precedentes), que autorizam a remição por aprovação no ENEM mesmo quando o reeducando já possuía formação antes do...
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- Parties
- Paciente: RICARDO BRITO RIBEIRO; Órgão Julgador: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; Parecerista: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; entretanto, concedo a ordem de ofício para declarar a remição de 100 dias de pena.
- Legal Topics
- Remição De Pena, Habeas Corpus, ENEM, Remição Por Estudos, Resolução CNJ N. 391/2021
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Parties
RICARDO BRITO RIBEIRO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão Julgador
Ministério Público Federal
Parecerista
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição de pena por aprovação no ENEM durante a execução penal, inclusive quando o apenado já possuía ensino superior antes do início do cumprimento da pena
- 2 Critérios de cálculo das horas para fins de remição por aprovação no ENEM
Ratio Decidendi
Concluiu-se que há flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem por divergir da Resolução CNJ n. 391/2021 e da jurisprudência deste Tribunal Superior (EREsp n. 1.979.591/SP e outros precedentes), que autorizam a remição por aprovação no ENEM mesmo quando o reeducando já possuía formação antes do cumprimento da pena; aplicando-se a base de cálculo fixada (1.200 horas para o ensino médio, 1 dia de pena a cada 12 horas), resultou-se na remição de 100 dias, razão pela qual se concedeu a ordem de ofício para declarar a remição de 100 dias de pena.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; entretanto, concedo a ordem de ofício para declarar a remição de 100 dias de pena.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus
- Conceder a ordem de ofício e declarar a remição de 100 dias de pena
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de Habeas Corpus, sem pedido de liminar, impetrado em favor de RICARDO BRITO RIBEIRO, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo nos autos do Agravo em Execução n. 001503-77.2025.8.26.0520 Consta dos autos que o Tribunal de Justiça de São Paulo negou provimento ao Agravo em Execução da defesa e ratificou o indeferimento do pedido de remição de pena pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio ENEM, sob argumento de que o paciente já havia concluído o ensino superior antes de dar início a execução da pena, nos termos do acórdão assim ementado: "EMENTA: Direito Penal. Agravo em Execução. Remição de Pena. Recurso desprovido. I. Caso em Exame 1. Agravo em execução interposto por Ricardo Brito Ribeiro contra decisão que indeferiu o pedido de remição de pena, alegando que o sentenciado já possuía ensino superior completo antes do cumprimento da pena, tornando incabível a concessão do benefício. II. Questão em Discussão 2. A questão em discussão consiste em determinar se a aprovação no ENEM durante a execução penal pode justificar a remição de pena para sentenciado que já possuía ensino superior completo antes do cumprimento da pena. III. Razões de Decidir 3. A remição pela aprovação no ENEM visa incentivar o estudo dentro da prisão, especialmente para apenados que estudam por conta própria, sem suporte de instituição regular. 4. A interpretação do benefício deve observar os limites do artigo 126 da Lei de Execução Penal, que condiciona a remição ao desenvolvimento de atividades educacionais realizadas durante a execução da pena. IV. Dispositivo e Tese 5. Recurso desprovido. Tese de julgamento: 1. A remição de pena por estudo exige a conclusão do ensino fundamental ou médio durante o cumprimento da pena. 2. A aprovação no ENEM não certifica a conclusão do ensino médio e não justifica remição para quem já possui ensino superior completo. Legislação Citada: LEP, art. 126, § 5º. Jurisprudência Citada: TJSP, Agravo de Execução Penal 0007084-26.2023.8.26.0041, Rel. Reinaldo Cintra, 7ª Câmara de Direito Criminal, j. 17/06/2023. TJSP, Agravo de Execução Penal 0005211-36.2023.8.26.0996, Rel. Adilson Paukoski Simoni, 7ª Câmara de Direito Criminal, j. 14/08/2023." (fls. 11/12) No presente writ, a defesa sustenta a ocorrência de constrangimento ilegal, uma vez que o apenado estudou por conta própria e obteve aprovação no ENEM do ano de 2023, o que, segundo a Recomendação CNJ n. 44/2013, deveria ser considerado, para fins de remição de pena. Requer o deferimento da remição de 100 (cem) dias da pena. Parecer do Ministério Público Federal pelo não conhecimento do habeas corpus ou pela denegação da ordem (fls. 40/43). É o relatório. Decido. A presente impetração investe contra acórdão, funcionando como substituto do recurso próprio, motivo pelo qual não deve ser conhecida. A 3ª Seção, no âmbito do HC 535.063-SP, de relatoria do Ministro Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/06/2020, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AgRg no HC 180.365, de relatoria da Ministra Rosa Weber, julgado em 27/03/2020, consolidaram a orientação de que não cabe habeas corpus substitutivo ao recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Passo a analisar a presença de coação ilegal que desafie a concessão da ordem ofício, em observância § 2º do artigo 654 do Código de Processo Penal. Consoante relatado, a defesa pretende, em síntese, a remição da pena por aprovação no ENEM. Da análise dos elementos informativos constantes dos autos, verifica-se a flagrante ilegalidade a legitimar a atuação desta Corte. O Tribunal de origem manteve o indeferimento da remição da pena pelos estudos, com os seguintes fundamentos: " .. De fato, a remição pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio ENEM foi acatada e regulamentada inicialmente pela Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça, que estabeleceu parâmetros para o incentivo e a aplicação da remição de penas pelo estudo e pela leitura na rotina das execuções criminais, com a finalidade de auxiliar no processo ressocializador dos sentenciados. A possibilidade se manteve na Resolução do CNJ em vigor, de nº 391, que traz o seguinte preceito: .. Da leitura de tal dispositivo, é possível depreender que a finalidade da norma é o incentivo ao estudo dentro da prisão, com atenção especial às situações nas quais o apenado estuda por conta própria, sem o suporte de uma instituição regular. Admitir entendimento diverso permitiria que sentenciados que já concluíram o ensino médio realizassem o ENEM reiteradamente, obtendo remição de pena sem que isso correspondesse a efetivo avanço educacional durante a execução da pena, em evidente desvio da finalidade do instituto. Além disso, a interpretação do benefício deve observar os limites do artigo 126 da Lei de Execução Penal, que condiciona a remição ao desenvolvimento de atividades educacionais realizadas no curso da execução, não sendo possível reconhecer efeitos aptos à remição a etapas de escolarização já superadas antes do início do cumprimento da pena. .. Aqui não se está desmerecendo o esforço do sentenciado. Pelo contrário, ele fica reconhecido, mas com a ponderação de que o benefício exige requisitos mínimos e igualitários a todos, pelo que não pode ser o agravado privilegiado indevidamente, até mesmo porque já havia concluído o ensino superior antes mesmo do ingresso no sistema prisional (vide informe acostado às fls. 64/65). Além disso, frise se que tal documento, além de informar que o sentenciado já possuía ensino superior ao ingressar na unidade, indica que este não participou de atividades educacionais, e que o ENEM não certifica conclusão do ensino médio, servindo apenas para avaliação ou ingresso em programas de ensino superior, motivo pelo qual não há viabilidade na concessão da remição pretendida. Destarte, não tendo sido finalizado o ensino médio enquanto cumpria pena, nos termos do regramento próprio, não há se falar em remição pelas notas alcançadas no ENEM." (fls. 12/16) Contudo, o entendimento do acórdão recorrido destoa da orientação desta Corte de Justiça. A Resolução n. 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que revogou a Recomendação n. 44/2013 do mesmo órgão, determina que a aprovação nos exames que certificam a conclusão do ensino fundamental ou médio (Encceja ou outros) e aprovação no Enem, será considerada como base de cálculo para fins de cômputo das horas visando à remição da pena. Assim, a alteração de redação da norma do CNJ silenciou sobre a possibilidade de remição em caso de aprovação parcial no Enem, bem como sobre sua aplicação aos casos em que o reeducando possuía a formação antes do ingresso no sistema prisional. Não por outro motivo, no julgamento do EREsp n. 1.979.591/SP, a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça fixou o entendimento de que é possível a remição, mesmo nos casos de aprovação parcial no Enem ou de prévia conclusão do grau de ensino. Eis a ementa do julgado: "EXECUÇÃO PENAL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. PROCESSO PENAL. REMIÇÃO DE PENA. APROVAÇÃO NO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO. APÓS CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO. POSSIBILIDADE DE CONCESSÃO DA BENESSE. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA PROVIDOS. 1. O Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos - ENCCEJA é a avaliação de âmbito nacional própria para a certificação do aproveitamento do conteúdo programático do ensino médio e do ensino fundamental àqueles que atingiram a idade de quinze anos (para o nível fundamental) ou dezoito anos (para o nível médio). Diferentemente do ENEM, o ENCCEJA não se presta, por si só, ao ingresso no ensino superior. 2. No caso dos autos, minha posição externada no julgamento do HC n. º 786.844, foi no sentido de que o paciente não faria jus à remição pelo estudo individual, uma vez que, conforme ressaltado pelo agravante, ao iniciar o cumprimento da pena, o agravado já havia concluído o ensino médio. Naquela oportunidade, o fundamento adotado era o de que a finalidade da remição pelo estudo não é simplesmente diminuir o tempo de encarceramento da pessoa presa, mas, facilitar a sua reintegração social por meio do aprendizado de novos conhecimentos. 3. Contudo, no julgamento do precitado HC n.º 786.844, realizado em agosto desta ano de 2023, restou consignado pela Quinta Turma deste STJ, por maioria de votos, a possibilidade de remição da pena na hipótese em exame, ou seja, mesmo após a conclusão do ensino médio e ainda que o sentenciado tenha obtido o diploma de curso superior antes do início do cumprimento da pena, como é o caso dos autos. 4. Em sendo assim, submeto os presentes embargos de divergência a esta Terceira Seção, para que se defina a posição deste colegiado em relação ao tema e se estabilize a jurisprudência desta Corte, de forma a se atender ao dever cooperativo de coerência enunciado pelo art. 926 do CPC. Embargos de divergência providos" (EREsp n. 1.979.591/SP, Terceira Seção, de minha relatoria, DJe de 13/11/2023). E ainda: RECURSO ESPECIAL MINISTERIAL. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DA PENA PELO ESTUDO POR CONTA PRÓPRIA EM RAZÃO DA APROVAÇÃO NO ENEM. RECLUSO COM PRÉVIO DIPLOMA DE CURSO SUPERIOR . IRRELEVÂNCIA. NORMAS EXECUTÓRIAS RELACIONADAS À REMIÇÃO PELO ESTUDO QUE DEVEM SER INTERPRETADAS FAVORAVELMENTE AO APENADO. INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA IN BONAM PARTEM. AUSÊNCIA DE CRÉDITO PERANTE A JUSTIÇA . EFETIVA APROVAÇÃO NO EXAME NACIONAL. AUSÊNCIA DE LIMITAÇÃO LEGAL À CONCESSÃO DO DIREITO EXECUTÓRIO. RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. 1 . Como resultado de uma interpretação analógica in bonam partem da norma inserta no art. 126 da LEP, segundo jurisprudência desta Corte, é possível hipóteses de abreviação da reprimenda em razão de atividades que não estejam expressas no texto legal. 2. A Resolução CNJ n . 391/2021 prevê que faz jus à remição o apenado que, embora não esteja vinculado a atividades regulares de ensino, realiza estudos por conta própria e obtém aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental ou médio.Quanto à abrangência dessa hipótese, a Terceira Seção desta Corte Superior de Justiça, no julgamento dos Embargos de Divergência em Recurso Especial 1.979.591/SP decidiu, à unanimidade, que é possível a remição da pena por aprovação no ENEM ainda que o reeducando já tenha concluído o ensino médio anteriormente ao início do resgate da reprimenda . 3. No caso, a tese ministerial no sentido de ser incabível a concessão da remição pela aprovação no ENAM em razão de o apenado ser portador de prévio diploma de nível superior não merece acolhimento. De fato, as normas da execução penal, notadamente aquela relacionada à remição pelos estudos, deve ser interpretada de modo mais favorável ao réu, especialmente em razão de inexistir, na regra contida no art. 126 da LEP, restrição à concessão do referido direito àqueles que já tenham concluído o ensino médio ou superior .É esse caminho interpretativo que o Superior Tribunal de Justiça tem adotado nas controvérsias relacionadas ao tema, porquanto vem considerando devidas benesses executórias que, apesar de não terem expressa previsão legal, prestigiam a ressocialização do recluso, como na espécie. Não se trata, ademais, de se conferir crédito contra a justiça, porquanto a remição não é concedida pelo simples fato de o apenado já ter formação superior, mas, sim, por ele ter obtido êxito na aprovação do Exame Nacional do Ensino Médio por meio de conhecimentos por ele adquiridos. 4. Em julgados recentes, a Quinta Turma do STJ tem considerado válida a concessão do mencionado direito executório ao condenado que já concluiu o ensino superior: AgRg no HC n . 790.202/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 4/3/2024, DJe de 11/3/2024; AgRg nos EDcl no HC n. 746.292/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 26/2/2024, DJe de 29/2/2024 .5. Recurso especial ministerial não provido. (REsp: 2156059 MS 2024/0248161-2, Relator.: Ministro RIBEIRO DANTAS, Data de Julgamento: 05/11/2024, T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação: DJe 13/11/2024) No que se refere à base de cálculo a ser utilizada, a Resolução n. 391/2021, CNJ determina que, para a remição decorrente do estudo individual com a aprovação total no Enem ou no Encceja, será considerada como base de cálculo, para fins de cômputo das horas visando à remição da pena, 50% (cinquenta por cento) da carga horária definida legalmente para cada nível de ensino, fundamental ou médio, o que corresponde o montante de 1.600 (mil e seiscentas) horas para os anos finais do ensino fundamental e 1.200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio ou educação profissional técnica de nível médio. Partindo dessa diretriz, este Superior Tribunal de justiça firmou o entendimento de que o total de 1.200 horas, pela aprovação em exame que certifica a conclusão do ensino médio deve incidir na proporção de 1 dia de pena para cada 12 horas de estudo, resultando em 100 dias de remição, o que equivale a 20 dias de remição para cada uma das cinco áreas de conhecimento avaliadas no exame. Idêntica forma de realizar a contagem do tempo a ser remido é aplicável ao ENEM, ressalvado o acréscimo de 1/3 (um terço) com fundamento no art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal. Corroborando: " .. 1. O art. 126 da LEP possibilita ao condenado, em cumprimento dos regimes fechado ou semiaberto, a remição de parte do tempo de execução da pena por meio do trabalho ou do estudo. 1. Como resultado de uma interpretação analógica in bonam partem do art. 126 da LEP, a jurisprudência desta Corte entende ser possível a abreviação da reprimenda em razão de atividades que não estejam expressas no texto legal. 2. Nessa linha de raciocínio, o Conselho Nacional de Justiça editou a Recomendação n. 44 de 26/11/2013 e a Resolução n. 391/2021, que tratam da possibilidade de remir dias de pena pela aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão de ensino médio e fundamental, bem como no ENEM. 3. O objetivo deste conjunto de regras acerca da remição da pena por aproveitamento dos estudos é incentivar ao apenado a dedicação de seu tempo aos estudos, favorecendo, desse modo, a readaptação ao convívio social, bem como o ingresso no mercado de trabalho. 4. Quanto à base de cálculo,"a jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal é assente no sentido de que as 1.200 horas, correspondentes ao ensino médio, divididas por 12 (1 dia de pena a cada 12 horas de estudo) resultam em 100 dias remidos .. "e que" .. Idêntica forma de parametrar a contagem do tempo a ser remido é aplicável ao ENEM, com a exceção de que o apenado aprovado em todas as áreas do ENEM, a partir de 2017, não faz jus ao acréscimo de 1/3 (um terço) previsto no art. 126, § 5º, da LEP."(AgRg no HC n. 786.844/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, relator para acórdão Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 8/8/2023, DJe de 13/9/2023). 5. Hipótese em que não se verifica flagrante ilegalidade, apta a ensejar a concessão da ordem, de ofício, na determinação judicial para que fossem remidos 40 dias de pena do reeducando, relativos à sua aprovação em duas áreas do conhecimento do ENEM. 6. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 935.988/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 30/9/2024, DJe de 4/10/2024.) " .. 1. "É cabível a remição pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM ainda que o Apenado já tenha concluído o ensino médio anteriormente, pois a aprovação no exame demanda estudos por conta própria mesmo para aqueles que, fora do ambiente carcerário, já possuem o referido grau de ensino" (REsp n. 1854391/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 22/9/2020, DJe 6/10/2020), ressalvado o acréscimo de 1/3 (um terço) com fundamento no art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal. (AgRg no HC n. 768.530/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 6/3/2023, DJe de 9/3/2023) Precedentes: AgRg no REsp n. 1.863.149/SC, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/3/2023, DJe de 22/3/2023; AREsp 1.741.138/DF, Rel. Min. MESSOD AZULAY NETO, DJe de 15/06/2023; HC 828.572/SP, Rel. Min. ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, DJe de 12/06/2023; REsp 2.069.804/MG, Rel. Min. RIBEIRO DANTAS, DJe de 06/06/2023; HC 799.103/SP, Rel. Min. RIBEIRO DANTAS, DJe de 19/04/2023. 2. O objetivo do conjunto de regras acerca da remição da pena por aproveitamento dos estudos é o de incentivar os apenados aos estudos, bem como sua readaptação ao convívio social. 3. A despeito de as matérias nas quais o estudante é examinado no ENCCEJA - ensino médio e no ENEM possuírem nomes semelhantes, não há como se deduzir que ambos os exames tenham o mesmo grau de complexidade. Pelo contrário, é muito mais plausível depreender-se que a avaliação efetuada no ENEM contém questões mais complexas dos que as formuladas no ENCCEJA - ensino médio, sobretudo tendo em conta que a finalidade do ENEM é possibilitar o ingresso no ensino superior, o que, por certo, demanda mais empenho do executado nos estudos. Reforça essa presunção o fato de que as notas mínimas para aprovação nos referidos exames são diferentes, a prova do ENEM tem mais questões e dura 1h30min a mais que a prova do ENCCEJA. Nessa linha de entendimento, o pedido de remição de pena por aprovação (total ou parcial) no ENCCEJA - ensino médio não possui o mesmo "fato gerador" do pleito de remição de pena em decorrência de aprovação (total ou parcial) no ENEM realizado a partir de 2017. 4. Não fosse assim, a Resolução n. 391, de 10/05/2021, do Conselho Nacional de Justiça, que revogou a Recomendação n. 44/2013, teria deixado de reiterar a possibilidade de remição de pena por aprovação no ENEM, mantendo apenas a remição de pena por aprovação no ENCCEJA. Mas não foi o que ocorreu. Com isso em mente, deixar de reconhecer o direito do apenado à remição de pena por aprovação total ou parcial no ENEM é negar vigência à Resolução 391 do CNJ. 5. Transposto esse raciocínio para a situação da conclusão do ensino médio antes do ingresso do apenado no sistema prisional, é forçoso concluir, também, que sua superveniente aprovação no ENEM durante o cumprimento da pena não corresponde ao mesmo nível de esforço e ao mesmo "fato gerador" correspondente à obtenção do grau do ensino médio, não havendo que falar em concessão do benefício (remição de pena) em duplicidade pelo mesmo fato. 6. De se pontuar, ademais, que essa particular forma de interpretar a lei e as normas que tratam da remição de pena por estudo é a que mais se aproxima da Constituição Federal, que faz da cidadania e da dignidade da pessoa humana dois de seus fundamentos, bem como tem por objetivos fundamentais erradicar a marginalização e construir uma sociedade livre, justa e solidária (incisos I, II e III do art. 3º). Tudo na perspectiva da construção do tipo ideal de sociedade que o preâmbulo da respectiva Carta Magna caracteriza como "fraterna" (HC n. 94163, Relator Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma do STF, julgado em 2/12/2008, DJe-200 DIVULG 22/10/2009 PUBLIC 23/10/2009 EMENT VOL-02379-04 PP-00851). 7. A jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal é assente no sentido de que as 1.200 horas, correspondentes ao ensino médio, divididas por 12 (1 dia de pena a cada 12 horas de estudo) resultam em 100 dias remidos. Idêntica forma de parametrar a contagem do tempo a ser remido é aplicável ao ENEM, com a exceção de que o apenado aprovado em todas as áreas do ENEM, a partir de 2017, não faz jus ao acréscimo de 1/3 (um terço) previsto no art. 126, § 5º, da LEP. 8. No caso concreto, a defesa comprovou que o apenado obteve aprovação em 4 (quatro) das 5 (cinco) áreas de conhecimento no ENEM 2019, somente não atingiu a nota mínima na área de conhecimento "Matemática e suas tecnologias". Portanto, não merece reparos a decisão agravada que concedeu a ordem de ofício, para deferir ao paciente o total de 80 (oitenta) dias de remição de pena, em virtude de sua aprovação parcial no ENEM/2019. 9. Agravo regimental do Ministério Público estadual desprovido. (AgRg no HC n. 786.844/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, relator para acórdão Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 8/8/2023, DJe de 13/9/2023.) No caso dos autos, o paciente realizou o ENEM/2023 e obteve aprovação nas 5 (cinco) áreas de conhecimento (fl. 17), o que corresponde a 100 dias de remição, nos termos da Jurisprudência acima colacionada. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, no entanto, concedo a ordem de ofício para declarar a remição de 100 dias de pena. Intime-se, com urgência, a origem para cumprimento. Publique-se. Intime-se. EMENTA