REsp 2162301 - DECISAO
Conheceu-se e deu-se provimento ao recurso especial, por entender que a remição de pena pelo estudo, especialmente para cursos na modalidade à distância, exige que as atividades sejam oferecidas por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o poder público (ou otherwise credenciada para a finalidade no...
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- Parties
- Recorrente: Ministério Público do Estado de Minas Gerais; Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 January 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento Monocrático Do Mérito
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido; acórdão recorrido reformado; remição de pena cassada; restabelecidos os efeitos da decisão de indeferimento do Juízo da Execução Penal da Comarca de Ribeirão das Neves
- Legal Topics
- Remição De Pena Pelo Estudo, Ensino À Distância, Convênio Entre Instituição De Ensino E Unidade Prisional, Interpretação Do Art. 126 Da Lei De Execução Penal, Recomendação CNJ N. 44/2013
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Parties
Ministério Público do Estado de Minas Gerais
Recorrente
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG)
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento Monocrático Do Mérito
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição de pena pelo estudo com base em certificados emitidos por instituição não conveniada com a unidade prisional
- 2 Interpretação do art. 126, § 6º, da Lei de Execução Penal e da Recomendação n.º 44/2013 do CNJ
- 3 Necessidade de supervisão/controle estatal para validar remição por estudo, especialmente em cursos na modalidade à distância
Ratio Decidendi
Conheceu-se e deu-se provimento ao recurso especial, por entender que a remição de pena pelo estudo, especialmente para cursos na modalidade à distância, exige que as atividades sejam oferecidas por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o poder público (ou otherwise credenciada para a finalidade no sistema prisional), de modo a permitir a fiscalização estatal; certificados emitidos por entidade não conveniada não atendem ao requisito legal e, assim, não podem fundamentar remição de pena, razão pela qual o acórdão recorrido foi reformado e a remição cassada.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido; acórdão recorrido reformado; remição de pena cassada; restabelecidos os efeitos da decisão de indeferimento do Juízo da Execução Penal da Comarca de Ribeirão das Neves
Orders
- Conheço e dou provimento ao recurso especial
- Reformo o acórdão recorrido
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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, com base no art. 105, III, "a", da Constituição da República, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG), por violação ao artigo 126, § 6º, da Lei de Execução Penal, porque as instâncias ordinárias concederam remição de pena pelo estudo à vista de certificados de conclusão de curso à distância emitidos por entidade não conveniada com a unidade prisional. A defesa contra-arrazoou o recurso (e-STJ fls. 100-108). O Ministério Público Federal opinou pelo provimento do recurso (e-STJ fls. 134-141). É o relatório. O recurso especial é tempestivo e está com a representação processual correta. O recorrente indicou os permissivos constitucionais que embasam o recurso e o dispositivo de lei federal supostamente violado, demonstrando pertinência na fundamentação (não incidência da súmula nº 284 do STF). Observa-se, ainda, que o acórdão recorrido examinou expressamente a matéria arguida no recurso, cumprindo com a exigência do prequestionamento (não incidência da súmula 282 do STF). Ademais, o acórdão apresentou fundamentos de cunho infraconstitucional (não incidência da súmula 126 do STJ), todos rebatidos nas razões recursais (não incidência da súmula 283 do STF). Por fim, não se aplica ao caso o teor da súmula 7, uma vez que avaliar a correção dos fundamentos invocados para conceder a remição por estudo à vista de certificados emitidos por entidade não conveniada à Administração Penitenciária não exige revolvimento fático e probatório, limitando-se essa Corte de Justiça a promover a revaloração jurídica dos fatos reconhecidos pelas instâncias ordinárias e a correta aplicação da lei federal no caso concreto. Passo a jugar, monocraticamente, o mérito do recurso especial, uma vez que o acórdão recorrido é contrário à jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça (art. 255, § 4º, III, do RISTJ). É fato incontroverso e foi expressamente declarado pelo acórdão recorrido, que a remição de pena por estudo foi concedida com base em certificados de conclusão emitidos por entidade de ensino não conveniada. Vejamos a fundamentação do acórdão do TJMG sobre essa questão: "De mais a mais, a legislação nem mesmo estabelece a exigência de que a instituição de ensino, onde o reeducando realizou o curso profissionalizante, esteja conveniada com a unidade prisional. Salienta-se, ainda, que o Instituto Universal Brasileiro é uma instituição educacional privada que integra o sistema de ensino de São Paulo, credenciada na Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, bem como o certificado emitido foi expedido em observância à Lei 9.394/96, Decreto 5.154/04 que estabelecem as diretrizes e bases da educação no país." (e-STJ fls. 56). No voto vencido, a Desembargadora consignou que: "Como se não bastasse, não há nos autos notícia de que a instituição de ensino esteja autorizada ou conveniada com a unidade prisional." (e-STJ fls. 61). Isso quer dizer que as instâncias ordinárias declararam que a entidade de ensino não tinha convênio com a unidade prisional ao tempo de realização dos cursos, razão pela qual o acórdão recorrido violou o art. 126, § 6º, da Lei de Execução Penal. De fato, o artigo 1º, inciso I, da Recomendação n.º 44, de 26/11/2013, do Conselho Nacional de Justiça, assim dispõe: "Art. 1º Recomendar aos Tribunais que: (..) I - para fins de remição pelo estudo (Lei nº 12.433/2011), sejam valoradas e consideradas as atividades de caráter complementar, assim entendidas aquelas que ampliam as possibilidades de educação nas prisões, tais como as de natureza cultural, esportiva, de capacitação profissional, de saúde, entre outras, conquanto integradas ao projeto político-pedagógico (PPP) da unidade ou do sistema prisional local e sejam oferecidas por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o poder público para esse fim" - grifei . Verifica-se, portanto, que o mencionado dispositivo, a ser interpretado como verdadeira regulamentação do artigo 126 da Lei n.º 7.210/84, autoriza a remição da pena pelo estudo, desde que as atividades sejam oferecidas por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o poder público para esse fim. A finalidade da citada Recomendação é promover a ressocialização através do estudo formal, possibilitando ao apenado progredir em sua formação intelectual e, por conseguinte, facilitar sua reinserção no seio da sociedade. Contudo, é indispensável que esse estudo seja feito sob supervisão do Estado, visando garantir a seriedade do projeto pedagógico e sua adesão aos fins da execução penal. Por isso que o convênio é requisito indispensável para validar esse tipo de remição, por permitir a fiscalização do Estado e o interesse público de que o estudo é desenvolvido com seriedade. E assim há de ser, pois somente instituições credenciadas estão sujeitas à devida fiscalização por parte do Poder Público para o fim que se pretende alcançar. Todavia, a remição concedida pelas instâncias ordinárias está relacionada a cursos realizados à distância, sem qualquer controle de efetiva frequência do preso e sem que haja convênio realizado entre a dita instituição e a unidade prisional, o que inviabiliza a concessão da remição por ausência de requisito legal. A remição por estudo disposta na Recomendação n.º 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça (art. 1º, inciso I) abrange somente as instituições que possuam convênio com o Poder Público ou autorização para promover curso à distância no sistema prisional, o que não é o caso dos autos. A propósito, confiram-se os seguintes precedentes: PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. REMIÇÃO DE PENA. ENSINO À DISTÂNCIA. ENTIDADE EDUCACIONAL. NECESSIDADE DE CREDENCIAMENTO JUNTO AO "SISTEC" DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CONVÊNIO COM A UNIDADE PRISIONAL. REQUISITOS NÃO CUMPRIDOS. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Nos termos do art. 126, § 2º, da Lei de Execução Penal e da Resolução n. 391, de 10/05/2021, do Conselho Nacional de Justiça (publicada no DJe/CNJ n. 120/2021, de 11/05/2021), a remição de pena em virtude de estudo realizado pelo apenado na modalidade capacitação profissional à distância deve atender os requisitos previstos nos arts. 2º e 4º da mencionada resolução, dentre os quais (1) demonstração de que a instituição de ensino que ministra o curso à distância é autorizada ou conveniada com o poder público para esse fim; (2) demonstração da integração do curso à distância realizado ao projeto político-pedagógico (PPP) da unidade ou do sistema prisional; (3) indicação da carga horária a ser ministrada e do conteúdo programático; (4) registro de participação da pessoa privada de liberdade nas atividades realizadas. 2. No caso, extrai-se do acórdão p recorrido que a entidade educacional denominada Centro de Educação Profissional - Escola CENED não está cadastrada junto à unidade prisional, tampouco está devidamente autorizada ou conveniada com o Poder Público para tal fim. Não há, outrossim, evidência de que a entidade, emissora do certificado do curso, seja credenciada junto ao Sistema Nacional de Informações da Educação Profissional e Tecnológica (SISTEC) do Ministério da Educação para ofertar os cursos realizados pelo agravante, não sendo possível aferir se a certificação possui respaldo das autoridades educacionais competentes, na forma do art. 129 da LEP. 3. Não se olvida da orientação jurisprudencial de que o apenado não pode ser prejudicado pela inércia do Estado na fiscalização, no caso, contudo, não se cuida de falha na fiscalização, o que se verifica, na verdade, é a efetiva ausência de prévio cadastramento da entidade de ensino com a unidade prisional e o poder público para a finalidade pretendida, conforme expressamente consignado pelo Juízo das Execuções Penais. 4. Em situações análogas esta Corte Superior já se posicionou pela impossibilidade de remição de pena em virtude de conclusão de curso à distância oferecido por entidade não credenciada. Precedentes: REsp n. 2.082.457, Ministro Messod Azulay Neto, DJe de 04/12/2023; REsp n. 2.053.661, Ministro Joel Ilan Paciornik, DJe de 10/11/2023; REsp n. 2.062.003, Ministro Rogerio Schietti Cruz, DJe de 10/10/2023; e REsp n. 1.965.900, Ministro Messod Azulay Neto, DJe de 01/08/2023. 5. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no REsp 2.105.666/MG, relator o Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 27/02/2024, DJe de 01/03/2024, grifos acrescidos). AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO POR CURSO À DISTÂNCIA. REQUISITOS NÃO PREENCHIDOS (FALTA DE CONTROLE SOBRE AS HORAS EFETIVAMENTE ESTUDADAS, MÉTODOS DE AVALIAÇÃO, RELATÓRIOS DISCRIMINADOS DE APROVEITAMENTO E FREQUÊNCIA). REVISÃO DO ENTENDIMENTO ADOTADO PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. A orientação jurisprudencial desta Corte é no sentido de que a realização de estudo na modalidade à distância, para fins de remição da pena, deve atender a critérios mínimos, inclusive convênio prévio entre a unidade prisional e o poder público, a fim de demonstrar a sua sintonia e adequação aos propósitos da Lei de Execução Penal, sendo indispensável, ainda, a supervisão pela Unidade Prisional, o acompanhamento pelo Juiz da execução e a fiscalização pelo Ministério Público. 2. No caso, o Tribunal de origem indeferiu o pedido de remição ao fundamento de que o certificado apresentado não traz informações precisas sobre a carga horária diária de estudo realizada pelo apenado, métodos de avaliação, bem como relatórios discriminados de aproveitamento e frequência, ressaltando a inadequação de se presumir que o condenado estudou todos os dias, comparecendo à integralidade da carga horária prevista. 3. A revisão desse entendimento demanda revolvimento fático-probatório, inviável na estreita via do habeas corpus. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 789.525/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 24/3/2023, grifos acrescidos.) EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. REMIÇÃO DA PENA PELO ESTUDO. INVIABILIDADE. INSTITUIÇÕES QUE NÃO POSSUEM CONVÊNIO OU AUTORIZAÇÃO PARA PROMOVER CURSO À DISTÂNCIA NO SISTEMA PRISIONAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. I. Caso em exame Cuida-se de agravo regimental contra decisão desta Relatora que denegou a ordem de habeas corpus. II. Questão em discussão. Cinge-se a controvérsia em verificar o curso realizado pelo sentenciado em cumprimento de pena, promovido por instituição que não possua convênio ou autorização junto ao sistema prisional, é válido para fins de remição de pena. III. Razões de decidir 1. Consoante entendimento pacificado, "a remição de pena pelo estudo somente é possível quando o curso for oferecido por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o Poder Público para esse fim" (HC 724.388/SP, relatora a Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 24/05/2022, DJe de 31/05/2022). 2. Na espécie, conforme destacado pelas instâncias ordinárias, as instituições que ministraram os cursos não possuem convênio com o Poder Público ou autorização para promover curso à distância no sistema prisional, o que inviabiliza o deferimento da remição de pena. IV. Dispositivo Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 867.752/RJ, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 7/10/2024, DJe de 15/10/2024, grifos acrescidos.) Por esses fundamentos, nos termos do art. 255, § 4º, III, do RISTJ, conheço e dou provimento ao recurso especial para reconhecer a interpretação divergente do artigo 126, § 6º, da Lei de Execução Penal, reformar o acórdão recorrido e cassar a remição de pena por ele concedida, restabelecendo os efeitos da decisão de indeferimento emitida pelo MM Juízo da Execução Penal da Comarca de Ribeirão das Neves, processo SEEU n. 0912587-66.2013.8.13.0024 (seq. 254.1). Publique-se. Intime-se. EMENTA