REsp 2187554 - ACORDAO
Conheceu-se do recurso especial e deu-se-lhe parcial provimento: afastou-se a obrigação de a operadora oferecer plano individual substitutivo do coletivo rescindido quando esta modalidade não é comercializada pela operadora, mantendo-se, todavia, a obrigação de continuidade da cobertura financeira do tratamento...
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- Parties
- Autora/recorrida: PRISCILA RODRIGUES DAUD; Ré/recorrente: BRADESCO SAÚDE S.A.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 May 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Acórdão Proferido Pela Terceira Turma (conhecido E Parcialmente Provido)
- Outcome
- Recurso especial conhecido e parcialmente provido.
- Legal Topics
- Resilição Unilateral De Plano Coletivo, Continuidade De Cobertura Até Alta Médica, Obrigatoriedade De Oferta De Plano Individual, Portabilidade De Carências
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Parties
PRISCILA RODRIGUES DAUD
Autora/recorrida
BRADESCO SAÚDE S.A.
Ré/recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Acórdão Proferido Pela Terceira Turma (conhecido E Parcialmente Provido)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de resilição unilateral de contrato de plano de saúde coletivo com menos de 30 beneficiários
- 2 Obrigação da operadora de manter cobertura assistencial até alta médica quando o beneficiário estiver em tratamento médico
- 3 Obrigatoriedade (ou não) de oferecimento de plano individual quando a operadora não comercializa tal modalidade
Ratio Decidendi
Conheceu-se do recurso especial e deu-se-lhe parcial provimento: afastou-se a obrigação de a operadora oferecer plano individual substitutivo do coletivo rescindido quando esta modalidade não é comercializada pela operadora, mantendo-se, todavia, a obrigação de continuidade da cobertura financeira do tratamento médico até a alta médica, desde que o titular arque integralmente com a mensalidade, e computado o prazo para eventual portabilidade de carência conforme RN nº 438/2018.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e parcialmente provido.
Orders
- Afastar a obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo rescindido.
- Manter a determinação de continuidade de cobertura financeira do tratamento médico até alta médica, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida, contado a partir de então o prazo normativo para o exercício do direito de requerer a portabilidade de carência.
Full Case Text
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 13/05/2025 a 19/05/2025, por unanimidade, conhecer do recurso e lhe dar parcial provimento, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Humberto Martins, Moura Ribeiro e Daniela Teixeira votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. PLANO DE SAÚDE COLETIVO COM MENOS DE 30 BENEFICIÁRIOS. RESILIÇÃO UNILATERAL. POSSIBILIDADE. BENEFICIÁRIO SUBMETIDO A TRATAMENTO MÉDICO. DIREITO A MANUTENÇÃO ATÉ ALTA MÉDICA. OBRIGAÇÃO DA OPERADORA DE DISPONIBILIZAR PLANO INDIVIDUAL NÃO COMERCIALIZADO. IMPOSSIBILIDADE. PORTABILIDADE DE CARÊNCIAS. ADMISSIBILIDADE. 1. Ação de obrigação de fazer c/c compensação por danos morais. 2. "Os contratos de plano de saúde com menos de 30 (trinta) usuários não podem ser trasmudados para planos familiares, com vistas à aplicação da vedação do art. 13, parágrafo único, II, da Lei nº 9.656/1998, mas a rescisão unilateral, nessa hipótese, deve ser devidamente motivada, haja vista a natureza híbrida da avença e a vulnerabilidade do grupo possuidor de poucos beneficiários, incidindo a legislação consumerista e o princípio da conservação dos contratos" (AgInt nos EREsp n. 1.846.403/SP, Segunda Seção, julgado em 31/8/2021, DJe de 8/9/2021). 3. A operadora, mesmo após o exercício regular do direito à rescisão unilateral de plano coletivo, deverá assegurar a continuidade dos cuidados assistenciais prescritos a usuário internado ou em pleno tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou de sua incolumidade física, até a efetiva alta, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida. (Tema 1082 do STJ). 4. Consoante jurisprudência desta Corte há de se reconhecer o direito à portabilidade de carências, permitindo, assim, que os beneficiários possam contratar um novo plano de saúde, observado o prazo de permanência no anterior, sem o cumprimento de novos períodos de carência ou de cobertura parcial temporária e sem custo adicional pelo exercício do direito, ou a migração para plano de saúde na modalidade individual ou familiar, na hipótese de sua comercialização pela operadora do plano de saúde. Precedentes. 5. Recurso especial conhecido e parcialmente provido.
RELATÓRIO Relatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI Examina-se recurso especial interposto por BRADESCO SAÚDE S.A., fundamentado nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional. Recurso especial interposto em: 02/09/2024 Concluso ao gabinete em: 27/12/2024 Ação: de obrigação de fazer c/c danos morais ajuizada por PRISCILA RODRIGUES DAUD em face de BRADESCO SAÚDE S.A., visando a manutenção do contrato de plano de saúde e o fornecimento de medicamentos necessários ao tratamento de artrite reumatóide. Sentença: confirmou a tutela provisória e declarou a obrigação da parte ré em manter o contrato de seguro de saúde da parte autora, condenando a ré ao pagamento de danos morais no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Acórdão: negou provimento ao apelo da recorrente, nos termos da seguinte ementa: "APELAÇÃO. PLANO DE SAÚDE. Resilição unilateral de contrato coletivo empresarial pela operadora. Possibilidade, desde que preenchidos os requisitos da Resolução CONSU 19, e desde que observado o disposto no art. 17, parágrafo único, da RN 195/2009 da ANS. Impossibilidade, no entanto, de resilição imotivada do contrato coletivo, quando o beneficiário está recebendo tratamento médico capaz de assegurar sua sobrevivência ou incolumidade física (Tema 1082, do C. STJ). Aplicação, por analogia, do art. 13, par. único, III, da Lei n. 9.656/98 que obsta a resilição do contrato de plano de saúde enquanto persistirem a enfermidade e o seu tratamento. Comprovação de que uma das beneficiárias se encontra em tratamento médico. Hipótese, ademais, em que o contrato não se mostra verdadeiramente coletivo. Falsa coletivização. Circunstâncias que justificam a aplicação das regras dos contratos individuais. Indenização devida. Fixação em R$ 5.000,00. Valor que indeniza e tem caráter educativo sem causar enriquecimento ilícito à apelada. Sentença mantida. RECURSO DESPROVIDO." (fls. 472-480) Embargos de Declaração: opostos pela recorrente, foram rejeitados. Recurso especial: alega violação dos artigos 1º e 4º, VII, XI e XXIII da Lei 9.961/2000. Sustenta a inexistência do dever das operadoras de plano de saúde oferecerem plano na modalidade individual quando não comercializam tal produto. Insurge-se, ademais, contra a manutenção da parte recorrida como segurada, após o cancelamento da apólice. É o relatório. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. PLANO DE SAÚDE COLETIVO COM MENOS DE 30 BENEFICIÁRIOS. RESILIÇÃO UNILATERAL. POSSIBILIDADE. BENEFICIÁRIO SUBMETIDO A TRATAMENTO MÉDICO. DIREITO A MANUTENÇÃO ATÉ ALTA MÉDICA. OBRIGAÇÃO DA OPERADORA DE DISPONIBILIZAR PLANO INDIVIDUAL NÃO COMERCIALIZADO. IMPOSSIBILIDADE. PORTABILIDADE DE CARÊNCIAS. ADMISSIBILIDADE. 1. Ação de obrigação de fazer c/c compensação por danos morais. 2. "Os contratos de plano de saúde com menos de 30 (trinta) usuários não podem ser trasmudados para planos familiares, com vistas à aplicação da vedação do art. 13, parágrafo único, II, da Lei nº 9.656/1998, mas a rescisão unilateral, nessa hipótese, deve ser devidamente motivada, haja vista a natureza híbrida da avença e a vulnerabilidade do grupo possuidor de poucos beneficiários, incidindo a legislação consumerista e o princípio da conservação dos contratos" (AgInt nos EREsp n. 1.846.403/SP, Segunda Seção, julgado em 31/8/2021, DJe de 8/9/2021). 3. A operadora, mesmo após o exercício regular do direito à rescisão unilateral de plano coletivo, deverá assegurar a continuidade dos cuidados assistenciais prescritos a usuário internado ou em pleno tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou de sua incolumidade física, até a efetiva alta, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida. (Tema 1082 do STJ). 4. Consoante jurisprudência desta Corte há de se reconhecer o direito à portabilidade de carências, permitindo, assim, que os beneficiários possam contratar um novo plano de saúde, observado o prazo de permanência no anterior, sem o cumprimento de novos períodos de carência ou de cobertura parcial temporária e sem custo adicional pelo exercício do direito, ou a migração para plano de saúde na modalidade individual ou familiar, na hipótese de sua comercialização pela operadora do plano de saúde. Precedentes. 5. Recurso especial conhecido e parcialmente provido. VOTO Relatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI - Da não obrigatoriedade de oferecimento de plano de saúde individual quando não comercializado pela operadora após a rescisão unilateral do contrato de plano de saúde. O TJ/SP alinhou-se à jurisprudência do STJ, firmada no sentido de que "os contratos de plano de saúde com menos de 30 (trinta) usuários não podem ser trasmudados para planos familiares, com vistas à aplicação da vedação do art. 13, parágrafo único, II, da Lei nº 9.656/1998, mas a rescisão unilateral, nessa hipótese, deve ser devidamente motivada, haja vista a natureza híbrida da avença e a vulnerabilidade do grupo possuidor de poucos beneficiários, incidindo a legislação consumerista e o princípio da conservação dos contratos" (AgInt no REsp n. 2.023.672/SP, Terceira Turma, julgado em 15/4/2024, DJe de 18/4/2024; AgInt nos EREsp n. 1.846.403/SP, Segunda Seção, julgado em 31/8/2021, DJe de 8/9/2021). Contudo, quanto à migração para apólice individual, o acórdão recorrido esta em desacordo com a jurisprudência do STJ no sentido de que não há obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo rescindido, na hipótese de ausência de sua comercialização pela operadora do plano de saúde. Importante transcrever a ementa do julgado do REsp 1.846.123/SP, 2ª Seção, DJe 01/08/2022, no qual houve o julgamento da Tema 1082 do STJ: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. PLANO DE SAÚDE COLETIVO. CANCELAMENTO UNILATERAL. BENEFICIÁRIO SUBMETIDO A TRATAMENTO MÉDICO DE DOENÇA GRAVE. 1. Tese jurídica firmada para fins do artigo 1.036 do CPC: "A operadora, mesmo após o exercício regular do direito à rescisão unilateral de plano coletivo, deverá assegurar a continuidade dos cuidados assistenciais prescritos a usuário internado ou em pleno tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou de sua incolumidade física, até a efetiva alta, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida." 2. Conquanto seja incontroverso que a aplicação do parágrafo único do artigo 13 da Lei 9.656/1998 restringe-se aos seguros e planos de saúde individuais ou familiares, sobressai o entendimento de que a impossibilidade de rescisão contratual durante a internação do usuário - ou a sua submissão a tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou da manutenção de sua incolumidade física - também alcança os pactos coletivos. 3. Isso porque, em havendo usuário internado ou em pleno tratamento de saúde, a operadora, mesmo após exercido o direito à rescisão unilateral do plano coletivo, deverá assegurar a continuidade dos cuidados assistenciais até a efetiva alta médica, por força da interpretação sistemática e teleológica dos artigos 8º, § 3º, alínea "b", e 35-C, incisos I e II, da Lei n. 9.656/1998, bem como do artigo 16 da Resolução Normativa DC/ANS n. 465/2021, que reproduz, com pequenas alterações, o teor do artigo 18 contido nas Resoluções Normativas DC/ANS n. 428/2017, 387/2015 e 338/2013. 4. A aludida exegese também encontra amparo na boa-fé objetiva, na segurança jurídica, na função social do contrato e no princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, o que permite concluir que, ainda quando haja motivação idônea, a suspensão da cobertura ou a rescisão unilateral do plano de saúde não pode resultar em risco à preservação da saúde e da vida do usuário que se encontre em situação de extrema vulnerabilidade. 5. Caso concreto: (i) a autora aderiu, em 1º.12.2012, ao seguro-saúde coletivo empresarial oferecido pela ré, do qual o seu empregador era estipulante; (ii) no aludido pacto, havia cláusula expressa prevendo que, após o período de 12 meses de vigência, a avença poderia ser rescindida imotivadamente por qualquer uma das partes, mediante notificação por escrito com no mínimo 60 dias de antecedência; (iii) diante da aludida disposição contratual, a operadora enviou carta de rescisão ao estipulante em 14.12.2016, indicando o cancelamento da apólice em 28.2.2017; (iv) desde 2016, a usuária encontrava-se afastada do trabalho para tratamento médico de câncer de mama, o que ensejou notificação extrajudicial - encaminhada pelo estipulante à operadora em 11.1.2017 - pleiteando a manutenção do seguro-saúde até a alta médica; (v) tendo em vista a recusa da ré, a autora ajuizou a presente ação postulando a sua migração para plano de saúde individual; (vi) desde a contestação, a ré aponta que não comercializa tal modalidade contratual; e (vii) em 4.4.2017, foi deferida antecipação da tutela jurisdicional pelo magistrado de piso - confirmada na sentença e pelo Tribunal de origem - determinando que "a ré mantenha em vigor o contrato com a autora, nas mesmas condições contratadas pelo estipulante, ou restabeleça o contrato, se já rescindido, por prazo indeterminado ou até decisão em contrário deste juízo, garantindo integral cobertura de tratamento à moléstia que acomete a autora" (fls. 29-33). 6. Diante desse quadro, merece parcial reforma o acórdão estadual a fim de se afastar a obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo extinto, mantendo-se, contudo, a determinação de continuidade de cobertura financeira do tratamento médico do câncer de mama - porventura em andamento -, ressalvada a ocorrência de efetiva portabilidade de carências ou a contratação de novo plano coletivo pelo atual empregador. 7. Recurso especial parcialmente provido. (REsp n. 1.846.123/SP, Segunda Seção, julgado em 22/6/2022, DJe de 1/8/2022.) Assim, com fundamento na jurisprudência deste STJ, o recurso deve ser parcialmente provido, apenas para afastar a obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo rescindido, mantendo-se, contudo, a determinação de continuidade de cobertura financeira do tratamento médico da beneficiária até alta médica, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida, contando-se, a partir de então, o prazo normativo para o exercício do direito de requerer a portabilidade de carência (art. 8º, IV e § 1º, 11 e 21 da RN nº 438/2018 da ANS). Precedentes: AgInt no AREsp 1675994/SP, 4ª Turma, DJe 02/12/2022; e AgInt no AREsp 2028288/SP, 3ª Turma, DJe 18/05/2022. Logo, o acórdão recorrido merece reforma, devendo o recurso ser parcialmente provido, apenas para afastar a obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo rescindido, mantendo-se, contudo, a determinação de continuidade de cobertura financeira do tratamento médico da beneficiária até alta médica, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida, contando-se, a partir de então, o prazo normativo para o exercício do direito de requerer a portabilidade de carência (art. 8º, IV e § 1º, 11 e 21 da RN nº 438/2018 da ANS). Precedentes: AgInt no AREsp 1675994/SP, 4ª Turma, DJe 02/12/2022; e AgInt no AREsp 2028288/SP, 3ª Turma, DJe 18/05/2022. DISPOSITIVO Forte nessas razões, CONHEÇO do recurso especial e DOU-LHE PARCIAL PROVIMENTO, apenas para afastar a obrigatoriedade de oferecimento do plano de saúde individual substitutivo do coletivo rescindido, mantendo-se, contudo, a determinação de continuidade de cobertura financeira do tratamento médico até alta médica, desde que o titular arque integralmente com a contraprestação (mensalidade) devida, contando-se, a partir de então, o prazo normativo para o exercício do direito de requerer a portabilidade de carência.