HC 990888 - ACORDAO
As alterações introduzidas pela Lei n. 14.843/2024 ao § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal têm natureza penal e implicam novatio legis in pejus, de modo que sua aplicação retroativa a fatos anteriores à sua edição é vedada pela Constituição (art. 5º, XL) e pelo art. 2º do Código Penal; portanto, não se pode...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 June 2025
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Em Habeas Corpus / Julgamento Em Sessão Virtual Da Sexta Turma (decisão Colegiada Que Negou Provimento)
- Outcome
- Agravo regimental não provido.
- Legal Topics
- Saída Temporária, Retroatividade De Norma Penal, Novatio Legis in Pejus, Irretroatividade Da Lei Penal, Aplicação Da Lei N. 14.843/2024
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental Em Habeas Corpus / Julgamento Em Sessão Virtual Da Sexta Turma (decisão Colegiada Que Negou Provimento)
Legal Issues
- 1 Natureza da alteração legislativa promovida pela Lei n. 14.843/2024 (penal ou processual)
- 2 Possibilidade de aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária em processos e condenações anteriores
Ratio Decidendi
As alterações introduzidas pela Lei n. 14.843/2024 ao § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal têm natureza penal e implicam novatio legis in pejus, de modo que sua aplicação retroativa a fatos anteriores à sua edição é vedada pela Constituição (art. 5º, XL) e pelo art. 2º do Código Penal; portanto, não se pode aplicar a norma posterior para prejudicar o agravado que cumpria pena por fatos anteriores.
Court Disposition
Agravo regimental não provido.
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental.
- Manter a decisão monocrática que afastou a aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária.
Full Case Text
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 29/05/2025 a 04/06/2025, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Og Fernandes, Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz e Antonio Saldanha Palheiro votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. EMENTA DIREITO PROCESSUAL PENAL. EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. SAÍDA TEMPORÁRIA. LEI N. 14.843/2024. § 2º DO ART. 122 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. RETROATIVIDADE. IMPOSSIBILIDADE. NORMA DE NATUREZA PENAL. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina contra decisão monocrática que não conheceu do habeas corpus, mas concedeu a ordem, de ofício, afastando a aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária.II. Questão em discussão 2. A discussão consiste em saber se as alterações trazidas pela Lei n. 14.843/2024, que modificam os requisitos para concessão da saída temporária, têm natureza penal ou procedimental e se podem ser aplicadas retroativamente a processos em curso.III. Razões de decidir 3. Esta Corte Superior já interpretou a alteração legislativa como norma de natureza penal, vedando sua retroatividade, nos termos do art. 2º do Código Penal.4. A nova legislação impõe requisitos adicionais à concessão da saída temporária, afetando materialmente o direito de locomoção do apenado, caracterizando novatio legis in pejus.5. A retroatividade da norma é inconstitucional, conforme o art. 5º, XL, da Constituição Federal, e ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal.6. No caso concreto, o agravado já cumpria pena por fatos anteriores à modificação legislativa, não sendo possível aplicar a lei posterior de caráter material para prejudicá-lo.IV. Dispositivo e tese 7. Agravo regimental não provido. Tese de julgamento:1. As alterações trazidas pela Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária têm natureza penal e não podem ser aplicadas retroativamente. 2. A retroatividade de normas penais mais gravosas é vedada pela Constituição Federal e pelo Código Penal.Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, XL; CP, art. 2º; CP, art. 4º; § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal; Lei n. 14.843/2024. Jurisprudência relevante citada: STJ, HC 939.084/SC, Rel. Min. Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 03.12.2024; STJ, RHC 200.670/GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20.08.2024; STF, HC 2407770, Ministro André Mendonça, julgado em 28/5/2024 e publicado em 29/5/2024.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA contra decisão monocrática por mim proferida que deferiu liminarmente o habeas corpus. Em suas razões recursais, o parquet contesta a referida decisão, defendendo que o acórdão reformado não padece de ilegalidade. Argumenta que a alteração legislativa promovida pela Lei n. 14.843/2024 tem natureza procedimental, e não material, devendo ser aplicada do forma imediata, conforme o art. 2º do CPP, ainda que em prejuízo ao apenado. Destaca que o benefício da saída temporária não constitui direito subjetivo do apenado, mas benefício condicionado aos requisitos e à avaliação judicial, o que impede a aplicação da garantia da irretroatividade (CF, art. 5º, XL). Defende que o propósito da nova legislação foi reforçar a segurança pública, diante da reincidência e evasão associadas ao usufruto do benefício, pelo que o novo regramento deve prevalecer nos processos em curso, inclusive para condenações anteriores. Afirma que (fl. 106) o instituto e sua quase abolição não devem ser analisados sob a ótica do direito material do apenado. Ao contrário, o referido instituto e, notadamente, sua cessação, possuem natureza processual, que, portanto, não atrai a aplicação do princípio contido no art. 5º, XL, da Constituição Federal. Assere que, até que o STF se manifeste definitivamente nas ADIs em curso, deve prevalecer a presunção de validade da nova legislação. Requer o provimento do presente agravo regimental, com a reconsideração da decisão ora recorrida ou, caso mantida, que seja o presente recurso conhecido e provido pela Turma Julgadora, restabelecendo-se o acórdão reformado. É o relatório. EMENTA DIREITO PROCESSUAL PENAL. EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. SAÍDA TEMPORÁRIA. LEI N. 14.843/2024. § 2º DO ART. 122 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. RETROATIVIDADE. IMPOSSIBILIDADE. NORMA DE NATUREZA PENAL. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina contra decisão monocrática que não conheceu do habeas corpus, mas concedeu a ordem, de ofício, afastando a aplicação retroativa da Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária.II. Questão em discussão 2. A discussão consiste em saber se as alterações trazidas pela Lei n. 14.843/2024, que modificam os requisitos para concessão da saída temporária, têm natureza penal ou procedimental e se podem ser aplicadas retroativamente a processos em curso.III. Razões de decidir 3. Esta Corte Superior já interpretou a alteração legislativa como norma de natureza penal, vedando sua retroatividade, nos termos do art. 2º do Código Penal.4. A nova legislação impõe requisitos adicionais à concessão da saída temporária, afetando materialmente o direito de locomoção do apenado, caracterizando novatio legis in pejus.5. A retroatividade da norma é inconstitucional, conforme o art. 5º, XL, da Constituição Federal, e ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal.6. No caso concreto, o agravado já cumpria pena por fatos anteriores à modificação legislativa, não sendo possível aplicar a lei posterior de caráter material para prejudicá-lo.IV. Dispositivo e tese 7. Agravo regimental não provido. Tese de julgamento:1. As alterações trazidas pela Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária têm natureza penal e não podem ser aplicadas retroativamente. 2. A retroatividade de normas penais mais gravosas é vedada pela Constituição Federal e pelo Código Penal.Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, XL; CP, art. 2º; CP, art. 4º; § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal; Lei n. 14.843/2024. Jurisprudência relevante citada: STJ, HC 939.084/SC, Rel. Min. Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 03.12.2024; STJ, RHC 200.670/GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20.08.2024; STF, HC 2407770, Ministro André Mendonça, julgado em 28/5/2024 e publicado em 29/5/2024. VOTO O agravo não merece provimento. Com efeito, o recorrente não se desincumbiu de trazer novos argumentos aptos a infirmar a fundamentação consignada na decisão combatida, a qual considerou inidôneas as razões apresentadas no acórdão reformado. Conforme relatado, o agravante pretende o provimento do recurso, asserindo que as alterações trazidas pela Lei n. 14.843/2024 acerca do benefício da saída temporária consubstanciam norma de natureza procedimental, devendo, por conseguinte, serem aplicadas a todos os processos em curso. No entanto, conforme consignado na decisão própria agravada, esta Corte Superior já teve oportunidade de enfrentar a questão, interpretando a referida alteração legislativa do § 2º do art. 122 da Lei de Execução Penal, trazida pela Lei n. 14.843/2024, como norma de natureza penal, sendo vedada sua retroatividade, nos termos do art. 2º do Código Penal (HC n. 939.084/SC, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 3/12/2024, DJEN de 17/12/2024). Tal efeito decorre da interpretação de que a novel legislação, ao proceder ao incremento de novos requisitos necessários concessão da benesse da saída temporária, repercute materialmente no direito de locomoção do apenado. Quanto ao tema, o Superior Tribunal de Justiça interpretou a alteração legislativa no sentido de que a nova redação conferida ao § 2º do art. 112 da LEP constitui implemento de norma de natureza penal, e não processual, de modo que a sua aplicação retroativa mostra-se inconstitucional, haja vista o art. 5º, XL, da Constituição Federal, bem como ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal. A propósito: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. SAÍDA TEMPORÁRIA. LEI N. 14.843/2024. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO RETROATIVA. CASOS COMETIDOS SOB ÉGIDE DA LEI ANTERIOR. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Esta Corte possui o entendimento de que "as normas relacionadas à execução são de natureza penal e, enquanto tais, somente podem incidir ao tempo do crime, ou seja, no momento em que a ação ou omissão for praticada (art. 4º do CP), salvo se forem mais benéficas ao executando, situação em que terão efeitos retroativos (art. 2º, parágrafo único, do CP)" (HC n. 926.021, Ministro JESUÍNO RISSATO (Desembargador Convocado do TJDFT), D Je de 5/8/2024). 2. Desse modo, constata-se que a alteração legislativa promovida pela Lei n. 14.843/2024, ao restringir e limitar as hipóteses de concessão do benefício da saída temporária, não pode ser aplicada retroativamente para atingir fatos praticados sob a égide da legislação anterior, sob pena de afrontar o disposto nos art. 5º, XL, da Constituição Federal e art. 2º do Código Penal. 3. Nessa linha, a respeito da alteração legislativa promovida pela Lei n. 14.843/2024 ao benefício da saída temporária, tem-se a decisão monocrática proferida pelo Ministro ANDRÉ MENDONÇA no HC n. 240.770/MG, em que se considerou que tendo em vista o princípio da individualização da pena, o qual também se estende à fase executória, consistindo em inovação legislativa mais gravosa, faz-se necessária a incidência da norma vigente quando da prática do crime, somente admitida a retroatividade de uma nova legislação se mais favorável ao sentenciado (novatio legis in mellius), concluindo pela impossibilidade de retroação no que toca à limitação aos institutos da saída temporária e trabalho externo para alcançar aqueles que cumprem pena por crime crime hediondo ou com violência ou grave ameaça contra pessoa - no qual se enquadra o crime de roubo -, cometido anteriormente à sua edição, porquanto mais grave (lex gravior) (HC 2407770, Ministro ANDRÉ MENDONÇA, julgado em 28/5/2024 e publicado em 29/5/2024). Precedentes desta Corte no mesmo sentido, dentre outros: RHC n. 200.670/GO, relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 20/8/2024, D Je de 23/8/2024; HC n. 964.472, Ministro RIBEIRO DANTAS, D Je de 3/12/2024; HC n. 947.366, Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, D Je de 3/12/2024 e HC n. 946.672, Ministro OTÁVIO DE ALMEIDA TOLEDO (Desembargador Convocado do Tjsp), D Je de 27/11/2024. 4. No caso, considerando que o paciente já vinha cumprindo pena por fatos anteriores à referida modificação legislativa, não é possível incidir lei posterior, de caráter material, para prejudicá-lo. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 947.760/SC, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 10/12/2024, DJEN de 17/12/2024) Por derradeiro, quanto ao argumento de que se deveria aguardar o julgamento das Ações Diretas de Inconstitucionalidade em tramitação no Supremo Tribunal Federal acerca do tema em apreço, verifica-se já haver precedente da própria Corte Suprema no sentido de que as alterações ocasionadas com o advento da Lei n. 14.843/2024 consistem em novatio legis in pejus (STF, HC 2407770, Ministro André Mendonça, julgado em 28/5/2024 e publicado em 29/5/2024). Além disso, não se constata nenhuma disposição no sentido da afetação da matéria no âmbito deste Tribunal Superior. Na espécie, portanto, tem-se que o caso do agravado, por ser anterior ao advento da Lei n. 14.843/2024, não está sob sua incidência. Assim, a decisão agravada deve ser mantida por seus próprios fundamentos. Ante o exposto, nego provimento a o agravo regimental. É o voto.