AREsp 2623508 - DECISAO
Aplicando-se o CPC/2015, o art. 1.003, §6º impõe que a ocorrência de feriado local seja comprovada no ato de interposição do recurso; tal vício é considerado insanável, de modo que o parágrafo único do art. 932, aplicável apenas a vícios sanáveis, não autoriza a abertura de prazo para complementação posterior;...
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- Parties
- Embargante: ARYKELLE BEVILAQUA CUNHA; Embargante: LUCINEI ANTUNES BEVILAQUA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 24 July 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração / Julgamento
- Outcome
- Embargos de declaração rejeitados
- Legal Topics
- Tempestividade Recursal, Feriado Local, Admissibilidade Recursal, Embargos De Declaração
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Parties
ARYKELLE BEVILAQUA CUNHA
Embargante
LUCINEI ANTUNES BEVILAQUA
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Declaração / Julgamento
Legal Issues
- 1 Se a ocorrência de feriado local pode ser comprovada após a interposição do recurso
- 2 Aplicabilidade do art. 932, parágrafo único do CPC para abertura de prazo para saneamento
- 3 Efeito da suspensão de expediente do STJ na contagem de prazo para recursos dirigidos ao tribunal a quo
Ratio Decidendi
Aplicando-se o CPC/2015, o art. 1.003, §6º impõe que a ocorrência de feriado local seja comprovada no ato de interposição do recurso; tal vício é considerado insanável, de modo que o parágrafo único do art. 932, aplicável apenas a vícios sanáveis, não autoriza a abertura de prazo para complementação posterior; ademais, a eventual ausência de expediente no STJ não altera a contagem do prazo do tribunal a quo, motivo pelo qual os embargos foram rejeitados.
Court Disposition
Embargos de declaração rejeitados
Orders
- Rejeito os embargos de declaração
- Advirto a parte embargante de que a reiteração deste expediente ensejará o pagamento de multa de 2% sobre o valor atualizado da causa, por serem considerados manifestamente protelatórios os próximos embargos que tratem do mesmo assunto (art. 1.026, § 2º, do CPC)
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de embargos de declaração opostos por ARYKELLE BEVILAQUA CUNHA e LUCINEI ANTUNES BEVILAQUA à decisão de fls. 844/845, que não conheceu do recurso. Sustenta a parte embargante que: Respeitadas as ponderações havidas pela D. Presidência, ousa a parte discordar da forma pela qual equacionada a controvérsia dos autos. Explica-se: A teor da expressa dicção do art. 932, também do CPC, incumbe ao Relator, antes de inadmitir o recurso, oportunizar à parte recorrente o prazo de 5 dias para que sane o vício ou complemente a documentação exigível aqui, por óbvio incluída a comprovação de eventual feriado local ou indisponibilidade sistêmica . .. Ora, quisesse o legislador obstar a aplicação do art. 932 à hipótese de apresentação de indisponibilidade ou feriado local, assim o teria feito. Se o legislador assim não fixou, não cabe ao órgão jurisdicional "criar" referida restrição - pena da caracterização de usurpação de competência. .. Dentro deste cenário, temos que a adequada interpretação ao art. 1.003, §6º do CPC é a de que a existência de feriado local (leia-se: feriado estadual ou municipal), para fins de demonstração da tempestividade dos recursos interpostos perante os Tribunais Superiores deve ser comprovado no ato da interposição do recurso (CPC, art. 1.003, § 6º) ou, na sua ausência, quando do juízo de admissibilidade, após a intimação do recorrente para a regularização do ato no prazo de 5 dias (CPC, art. 10 c/c art. 932, parágrafo único), sendo certo, que em ambas as circunstâncias o recorrente é autorizado trazer ao Poder Judiciário a Lei que instituiu o feriado local, a fim de afastar qualquer dúvida quanto à tempestividade do recurso. .. Ora, o art. 1.003, §6º do CPC surge em nosso ordenamento pátrio como uma forma de otimizar a atuação dos tribunais superiores - notadamente porquanto admite-se que o órgão jurisdicional é feito por pessoas, e a quantidade de recursos humanos a serem empreendidos na aferição de feriados locais em todos os municípios da federação se mostra uma atividade invencível. Neste prisma, busca o legislador "terceirizar" o levantamento de tais informações à parte. .. Mais do que isso. Viola de forma frontal o próprio art. 6º do CPC - posto que se prestigia regra processual sanável em detrimento do Mérito. O mais teratológico, contudo, é a constatação de que, nos termos da Portaria STJ/GP 643/2023 Editada pelo próprio E. STJ - destarte, não se tratando de "feriado local" , não houve expediente entre os dias 20.12.2023 à 01.02.2024 - de sorte que o recurso, face ao tribunal ao qual o tribunal se destina, é tempestivo. .. À luz de tais questões - notadamente: a) a expressa dicção do art. 932, PU e art. 6º do CPC pelo qual deve o relator oportunizar o prazo de 5 dias para se sanar os vícios formais ; b) o art. 3º do Decreto 4657/42 (LINDB) pelos quais é defeso o descumprimento da Lei invocando-se seu desconhecimento - aqui, inclusos os feriados locais informados por Lei, nos termos da Lei 9.093/95) ; e c) circunstância de estar sendo desconsiderada a ausência de atividade forense deste E. STJ entre os dias 20.12.2023 à 01.02.2024 na contagem de prazo para a tempestividade, pugna-se seja a questão aclarada, nos termos do art. 1.022 do CPC (fls. 849/851). Requer o conhecimento e acolhimento dos embargos declaratórios para que seja sanado o vício apontado. A parte embargada foi devidamente intimada para contra-arrazoar estes aclaratórios. É, no essencial, o relatório. Decido. Nos termos do art. 1.022 do Código de Processo Civil, os embargos de declaração destinam-se a esclarecer obscuridade, eliminar contradição, suprir omissão e corrigir erro material eventualmente existentes no julgado, o que não se verifica na hipótese. Quanto à tempestividade do recurso, o que define a aplicação do CPC de 2015 é a data de intimação do decisum recorrido, que, no presente caso, ocorreu na vigência do novo código. Nos termos do Enunciado Administrativo n. 3 do STJ, "aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo CPC", em observância ao princípio do tempus regit actum, ou seja, ao presente caso aplicam-se as regras do CPC de 2015. Assim, no código atual, o prazo para a interposição de agravo e de recurso especial é de 15 dias úteis, nos termos do art. 219, caput, c/c os arts. 994, VI e VIII, 1.003, § 5º, 1.029 e 1.042, caput, todos do CPC. Na vigência do CPC de 1973, a jurisprudência admitia a comprovação posterior da tempestividade. (AgInt no AREsp 1576616/SP, relatora Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, DJe de 26/5/2020; e EDcl no AgInt no AREsp 1008329/SP, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe de 9/9/2019.) Todavia, esse entendimento não subsiste em razão de disposição expressa do CPC vigente, cujo art. 1.003, § 6º, dispõe que "o recorrente comprovará a ocorrência de feriado local no ato de interposição do recurso", ou seja, a novel legislação vedou expressamente a possibilidade de comprovação posterior da tempestividade, devendo o documento apto a comprová-la ser juntado aos autos no momento da interposição do recurso. A propósito, confira-se este precedente: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FERIADO LOCAL. COMPROVAÇÃO. ATO DE INTERPOSIÇÃO DO RECURSO. 1. O propósito recursal é dizer, à luz do CPC/15, sobre a possibilidade de a parte comprovar, em agravo interno, a ocorrência de feriado local, que ensejou a prorrogação do prazo processual para a interposição do agravo em recurso especial. 2. O art. 1.003, § 6º, do CPC/15, diferentemente do CPC/73, é expresso no sentido de que "o recorrente comprovará a ocorrência de feriado local no ato de interposição do recurso". 3. Conquanto se reconheça que o novo Código prioriza a decisão de mérito, autorizando, inclusive, o STF e o STJ a desconsiderarem vício formal, o § 3º do seu art. 1.029 impõe, para tanto, que se trate de "recurso tempestivo". 4. A intempestividade é tida pelo Código atual como vício grave e, portanto, insanável. Daí porque não se aplica à espécie o disposto no parágrafo único do art. 932 do CPC/15, reservado às hipóteses de vícios sanáveis. 5. Seja em função de previsão expressa do atual Código de Processo Civil, seja em atenção à nova orientação do STF, a jurisprudência construída pelo STJ à luz do CPC/73 não subsiste ao CPC/15: ou se comprova o feriado local no ato da interposição do respectivo recurso, ou se considera intempestivo o recurso, operando-se, em consequência, a coisa julgada. 6. Agravo interno desprovido. (AgInt no AREsp n. 957.821/MS, relatora para o acórdão Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe de 19/12/2017.) É certo que o feriado nacional não precisa ser comprovado. Porém, os dias 25/1/2024 e 26/1/2024 são supostamente feriados locais, razão pela qual deveriam ter sido comprovados no momento da interposição do recurso. O STJ firmou o entendimento de que a ocorrência de feriado local, recesso, paralisação ou interrupção de expediente forense deve ser demonstrada no ato de interposição do recurso, por meio de documento oficial ou certidão expedida pelo tribunal de origem, não bastando a mera menção ao feriado local nas razões recursais, tampouco a apresentação de documento não dotado de fé pública. Nesse sentido, AgInt nos EDcl no AREsp 1553768/RJ, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe de 27/4/2020; e AgInt nos EDcl no AREsp 1379051/SP, relator Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe de 3/10/2019. Ademais, não há que se falar na aplicação do art. 932, parágrafo único, do CPC, uma vez que somente é utilizado para os vícios sanáveis. Conforme mencionado anteriormente, com o advento do CPC de 2015, a comprovação posterior da tempestividade é vedada de forma expressa, tornando este vício insanável. Nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.RECURSO INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DO NCPC. RECURSO INTEMPESTIVO. SUSPENSÃO DOS PRAZOS PROCESSUAIS NO TRIBUNAL ESTADUAL. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO FERIADO LOCAL, POR DOCUMENTO IDÔNEO, QUANDO DA INTERPOSIÇÃO DO RECURSO. ART. 1.003, § 6º, DO NCPC. ENTENDIMENTO DA CORTE ESPECIAL. ART. 932, PARÁGRAFO ÚNICO, DO NCPC. ABERTURA DE PRAZO. DESCABIMENTO. SANEAMENTO DE VÍCIOS FORMAIS SOMENTE. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. Aplica-se o NCPC a este julgamento ante os termos do Enunciado Administrativo nº 3, aprovado pelo Plenário do STJ na sessão de 9/3/2016: Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo CPC. 2. O recurso especial foi protocolado na vigência do NCPC, a atrair a aplicabilidade do art. 1.003, § 6º, do NCPC, que não mais permite a comprovação da ocorrência de feriado local em momento posterior, já que estabeleceu ser necessária a demonstração quando interposto o recurso. Entendimento da Corte Especial. 3. Esta Corte adota o entendimento de que o Dia de Corpus Christi não é feriado nacional. Desse modo, é dever da parte comprovar nos autos, por documento idôneo, a suspensão do expediente forense no Tribunal de origem, o que não ocorreu na hipótese. 4. Não obstante o princípio da primazia do mérito, o próprio Código de Processo Civil de 2015 estabeleceu expressa obrigatoriedade de comprovação de feriado local ou suspensão do expediente, regra específica que prevalece sobre a regra geral (ex specialis derrogat lex generalis). 5. O prazo conferido pelo parágrafo único do art. 932 do NCPC somente é aplicável aos casos em que seja possível sanar vícios formais, como ausência de procuração ou de assinatura, e não à complementação da fundamentação ou de comprovação da intempestividade. 6. Agravo interno não provido. (AgInt no AREsp 1522409/PR, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 21/11/2019.) Registre-se ainda que a Corte Especial, por maioria, acolheu a questão de ordem para reconhecer que a tese firmada por ocasião do julgamento do REsp 1.813.684/SP é restrita aos recursos interpostos até 17/11/2019 e alcança apenas o feriado de segunda-feira de carnaval, ou seja, não se aplica aos demais feriados, inclusive aos feriados locais. (QO no REsp 1813684/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe de 28/2/2020.) Assim, só a segunda-feira de carnaval até 2019 poderia ser comprovada posteriormente, excluindo-se qualquer outro feriado, como no caso dos autos. Ainda, para a aferição da tempestividade do recurso dirigido ao STJ, é indiferente que tenha havido ou não expediente forense nesta Corte, pois o agravo e o recurso especial interpostos são endereçados ao presidente do tribunal a quo, regendo-se o respectivo prazo, em matéria de recesso forense e feriados, pela legislação local. Nesse sentido, o AgInt nos EDcl no AREsp 1482882/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe de 14/5/2020 e o AgInt no AREsp 1514470/RJ, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, DJe de 5/12/2019. Por fim, a pretensão de rediscutir matéria devidamente abordada e decidida no decisum embargado evidencia mera insatisfação com o resultado do julgamento, não sendo a via eleita apropriada para tanto. Nesse sentido: EDcl no AgInt nos EDcl nos EAREsp 1202915/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Corte Especial, DJe de 28/8/2019. Assim, não há irregularidade sanável por meio dos presentes embargos, porquanto toda a matéria submetida à apreciação do STJ foi julgada, não havendo, na decisão embargada, os vícios que autorizariam a utilização do recurso - obscuridade, contradição, omissão ou erro material. Ante o exposto, rejeito os embargos de declaração e advirto a parte embargante de que a reiteração deste expediente ensejará o pagamento de multa de 2% sobre o valor atualizado da causa, porque os próximos embargos que tratem do mesmo assunto serão considerados manifestamente protelatórios (art. 1.026, § 2º, do CPC). Publique-se. Intimem-se. EMENTA