RMS 65884 - DECISAO
Embora a Administração possa rever seus atos por meio da autotutela (Súmula 473/STF), quando a revisão afeta direitos individuais e produz efeitos concretos deve ser precedida de regular processo administrativo que assegure o contraditório e a ampla defesa, consoante o Tema 138 (RE 594.296) e os arts....
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- Parties
- Recorrente/impetrante: Marcos Antonio de Souza Vital; Autoridade Coatora/recorrido: Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 August 2021
- Procedural Posture
- Recurso Ordinário Em Mandado De Segurança / Decisão De Mérito (acórdão Do Stj)
- Outcome
- Recurso ordinário parcialmente provido
- Legal Topics
- Vantagem Pessoal De Eficiência, Irredutibilidade De Vencimentos, Autotutela Administrativa, Contraditório E Ampla Defesa, Revisão/anulação De Ato Administrativo, Tema 138 De Repercussão Geral, Súmula 473/stf
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Parties
Marcos Antonio de Souza Vital
Recorrente/impetrante
Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia
Autoridade Coatora/recorrido
Procedural Posture
Recurso Ordinário Em Mandado De Segurança / Decisão De Mérito (acórdão Do Stj)
Legal Issues
- 1 Se a Administração pode reduzir ou corrigir o valor da VPE sem prévio processo administrativo que assegure contraditório e ampla defesa
- 2 Se a redução da vantagem configura vedação pela irredutibilidade de vencimentos
Ratio Decidendi
Embora a Administração possa rever seus atos por meio da autotutela (Súmula 473/STF), quando a revisão afeta direitos individuais e produz efeitos concretos deve ser precedida de regular processo administrativo que assegure o contraditório e a ampla defesa, consoante o Tema 138 (RE 594.296) e os arts. constitucionais e legais aplicáveis; por isso o recurso foi parcialmente provido para acolher a pretensão relativa à ausência de processo administrativo com garantia do contraditório e ampla defesa antes da alteração da VPE.
Court Disposition
Recurso ordinário parcialmente provido
Orders
- Recurso ordinário parcialmente provido
- Publique-se
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso ordinário manejado por Marcos Antonio de Souza Vitalem face de acórdão proferido Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Na hipótese dos autos, Marcos Antonio de Souza Vital impetrou mandado de segurança contra ato do Presidente do TJBA, que reduziu o valor da Vantagem Pessoal de Eficiência. Assevera que essa redução foi abrupta e em desrespeito ao princípio constitucional da irredutibilidade de vencimentos. O Tribunal a quo declara que a redução salarial é comprovada pelos contracheques. Porém, negou provimento a agravo regimental para manter a denegação da segurança, pois a administração pública deve anular seus atos eivados de ilegalidade nos termos do art. 37 da CF/1988 e da Súm. nº 473/STF. Nas razões do recurso, o recorrente defende a reforma do acórdãoa quo, porque a redução da vantagem percebida não foi precedida de processo administrativo com observaçãodos princípios do contraditório e da ampla defesa. Assevera, também, que a mudança de entendimento sobre o valor da vantagem não pode importar em redução salarial. Contrarrazões às e-STJ fls. 301/306. Em parecer no STJ, o Ministério Público Federal se manifesta pelo provimento dos recursos ordinários. É o relatório. Passo a decidir. Inicialmente é necessário consignar que o presente recurso atrai a incidência do Enunciado Administrativo n. 3/STJ: "Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo CPC". A pretensão parcial merece acolhida. A princípio, deve ser afastada a alegada impossibilidade de reduzir o valor da vantagem com base no princípio da irredutibilidade de vencimentos. Não se trata de redução, mas de possível correção do valor que é devido. A esse respeito, cabe salientar que, nos termos da Súm. n. 473/STF: "A administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque dêles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial." No caso dos autos, vê-se que o Tribunal de Justiça embasou a redução de vantagem pessoal sem a comunicação dos servidores públicos envolvidos. Dessa forma, o ato administrativo, cujos efeitos são prejudiciais aos particulares, não foi precedido de prévio processo administrativo com direito à ampla defesa e ao contraditório garantido. O acórdão a quo atenta contra o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral reconhecida no RE n. 594.296, cujo julgamento definiu o Tema n. 138, que assim dispõe: "Ao Estado é facultada a revogação de atos que repute ilegalmente praticados; porém, se de tais atos tiverem efeitos concretos, seu desfazimento deve ser precedido de regular processo administrativo." Frisa-se que regular processo administrativo pressupõe a garantia do contraditório e da ampla defesa aos particulares que foram beneficiados pelo ato administrativo em revisão à luz do art. 5º, LV, da CF/1988. Nesse sentido, o seguinte precedente do STJ em caso semelhante ao caso dos autos: ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO EM RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. SERVIDOR PÚBLICO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA BAHIA. REDUÇÃO DA VANTAGEM PESSOAL DE EFICIÊNCIA (VPE). PROCESSO ADMINISTRATIVO. NECESSIDADE DE HAVER CONHECIMENTO PRÉVIO. 1. Trata-se de Agravo Interno em Recurso Ordinário em Mandado de Segurança provido para determinar à autoridade coatora que se abstenha de alterar o valor da Vantagem Pessoal de Eficiência da recorrente, garantindo a ampla defesa e o contraditório no processo administrativo. 2. Consoante a Súmula 473/STF, a Administração, com fundamento no seu poder de autotutela, pode anular seus próprios atos, desde que ilegais. Ocorre que, quando tais atos produzem efeitos na esfera de interesses individuais, mostra-se necessária a prévia instauração de processo administrativo, garantindo-se a ampla defesa e o contraditório, nos termos dos arts. 5º, LV, da Constituição Federal, 2º da Lei 9.784/1999 e 35, II, da Lei 8.935/1994. 3. Pacífica é a jurisprudência desta Corte no sentido de que "a Súmula 283 do STF prestigia o princípio da dialeticidade, por isso não se limita ao recurso extraordinário, também incidindo, por analogia, no recurso ordinário, quando o interessado não impugna, especificamente, fundamento suficiente para a manutenção do acórdão recorrido." (AgRg no RMS 30.555/MG, Rel. Min. Og Fernandes, Sexta Turma, DJe de 1º.8.2012). 4. Deveria a parte ter rebatido os fundamentos determinantes dos julgados apontados como precedentes, com a demonstração de que eles não se aplicam ao caso concreto ou de que há julgados do STJ contemporâneos ou posteriores em sentido diverso. Tal situação caracteriza a ausência de impugnação específica dos fundamentos da decisão recorrida. 5. Os argumentos expendidos não são suficientes para infirmar as conclusões do decisum, cuja fundamentação é adequada para lhe dar respaldo, tampouco ficou evidenciada a suposta afronta às normas legais enunciadas. 6. Agravo Interno não provido. (AgInt no RMS 65.606/BA, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 29/03/2021, DJe 06/04/2021) DIREITO ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL ADMINISTRATIVO. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. REDUÇÃO PARCIAL DE VALOR CONCERNENTE À RUBRICA DENOMINADA VANTAGEM PESSOAL DE EFICIÊNCIA. DECISÃO ADMINISTRATIVA PROFERIDA EM PROCEDIMENTO QUE CORREU SEM O CHAMAMENTO DOS SERVIDORES ATINGIDOS POR ESSA REDUÇÃO PECUNIÁRIA. NULIDADE DO RESPECTIVO PROCESSO ADMINISTRATIVO. OFENSA ÀS PRERROGATIVAS CONSTITUCIONAIS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. RECURSO AUTORAL PROVIDO. CONCESSÃO PARCIAL DA SEGURANÇA. 1. Compreende esta Corte Superior que, sem embargo do preceito contido na Súmula 473/STF e do lídimo poder-dever de a Administração revisar seus próprios atos, alguns limites são impostos pela Constituição Federal ao exercício da autotutela administrativa, notadamente em respeito aos princípios da segurança jurídica e da legítima confiança dos administrados. 2. Nesse sentido, v.g., desponta a impossibilidade de a Administração rever e suprimir os efeitos de atos administrativos favoráveis aos administrados, sem que se lhes assegure, em regular processo administrativo, o pleno exercício da ampla defesa e do contraditório, sob pena de se comprometer a validade da própria decisão assim proferida. 3. Caso concreto em que a autoridade judiciária impetrada, no seu poder de autotutela, decidiu por reduzir o valor pecuniário da rubrica denominada Vantagem Pessoal de Eficiência (VPE), fazendo-o no âmbito de processo administrativo que correu à revelia dos servidores beneficiários da vantagem. 4. Não se consente com a possibilidade de a Administração rever e reduzir os efeitos de atos administrativos favoráveis aos administrados, sem que se lhes assegure, em regular processo administrativo, o pleno exercício da ampla defesa e do contraditório, sob pena de se comprometer a validade da própria decisão assim proferida. 5. Recurso provido, com a parcial concessão da ordem e sem prejuízo da renovação do competente procedimento administrativo. (RMS 65.669/BA, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 09/03/2021, DJe 22/03/2021) Ante o exposto, dou parcial provimento ao recurso ordinário de Marcos Antonio de Souza Vital. Publique-se. Intimem-se. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. ENUNCIADO ADMINISTRATIVO N. 3/STJ. REDUÇÃO DE VANTAGEM. REVISÃO/ANULAÇÃO DE ATO ADMINISTRATIVO. POSSIBILIDADE, DESDE QUE PRECEDIDO DE PRÉVIO PROCESSO ADMINISTRATIVO COM OBSERVAÇÃO DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. TEMA N. 138 DE REPERCUSSÃO GERAL. RECURSO ORDINÁRIO PARCIALMENTE PROVIDO.