HC 882347 - DECISAO
Não conhecer do habeas corpus, pois a hipótese não revela flagrante ilegalidade a justificar o remédio constitucional: o acordo de não persecução penal é faculdade do Ministério Público, não direito do investigado, e a recusa fundamentada por ausência dos requisitos legais não configura constrangimento ilegal;...
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- Parties
- Paciente: ADEMIR MOREIRA DA SILVA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Manifestante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 February 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Não Conhecido (decisão De Mérito Acerca Do Habeas Corpus)
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Acordo De Não Persecução Penal, Habeas Corpus, Constrangimento Ilegal, Qualificadora De Rompimento De Obstáculo, Discricionariedade Do Ministério Público
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Parties
ADEMIR MOREIRA DA SILVA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Não Conhecido (decisão De Mérito Acerca Do Habeas Corpus)
Legal Issues
- 1 cabimento de habeas corpus como substitutivo de recurso
- 2 possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal (ANPP) após investigação/condenação
- 3 discricionariedade do Ministério Público para propor ANPP
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus, pois a hipótese não revela flagrante ilegalidade a justificar o remédio constitucional: o acordo de não persecução penal é faculdade do Ministério Público, não direito do investigado, e a recusa fundamentada por ausência dos requisitos legais não configura constrangimento ilegal; ademais, habeas corpus não substitui recursos previstos em lei.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Liminar indeferida (fls. 485-486).
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em favor de ADEMIR MOREIRA DA SILVA, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 01 (um) ano, 06 (seis) meses e 20 (vinte) dias de reclusão, em regime aberto, pela prática do delito capitulado no artigo 155, § 4º, inciso I, c/c o artigo 14, ambos do CP. Em suas razões, sustenta a impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal, uma vez que o paciente preenche todos os requisitos necessários ao oferecimento de acórdão de não persecução penal, pelo Ministério Público, haja vista que "(a) o crime imputado ao paciente não foi praticado com violência ou grave ameaça; (b) a pena mínima cominada é inferior a 04 (quatro) anos; (c) não é cabível, no caso, transação penal (pena máxima superior a 02 (dois) anos); (d) o paciente não é reincidente e nem "criminoso habitual"; (e) o paciente não foi beneficiado por institutos despenalizadores nos 05 (cinco) anos anteriores ao crime ora apurado; e (f) o crime imputado não envolve violência doméstica ou familiar contra a mulher" (fl. 7). Defende, ainda, que deve ser afastada a qualificadora de rompimento de obstáculo, uma vez que nem foi elaborado laudo pericial para atestar o arrombamento e nem houve justificativa quanto a eventual impossibilidade de realização dessa perícia. Requer, assim, liminarmente, a suspensão dos efeitos da condenação do paciente. No mérito, pugna pela anulação do acórdão de origem, para converter o julgamento em diligência, intimando-se o Ministério Público para o oferecimento de acordo de não persecução penal ao paciente, bem como para afastar a qualificadora de rompimento de obstáculo. A liminar foi indeferida às fls. 485-486. Foram prestadas informações processuais às fls. 493-500 e 501-551. O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento da ordem ou pela sua denegação (fls. 557-562). É o relatório. DECIDO. Inicialmente, pontuo que esta Corte Superior, seguindo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (AgRg no HC 180.365, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/03/2020; AgRg no HC 147.210, Segunda Turma, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 30/10/2018), pacificou orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado (HC 535.063/SP, Terceira Seção, Rel. Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/06/2020). Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, cumpre analisar a existência de eventual ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, a fim de evitar prejuízo à sua defesa. Passarei, assim, ao exame das razões deste writ. O acordo de não persecução penal indica a possibilidade de realização de negócio jurídico pré-processual entre a acusação e o investigado com a finalidade de afastar a necessidade da persecução penal. É, portanto, fase prévia e alternativa à propositura de ação penal, que exige, dentre outros requisitos, aqueles previstos no caput do artigo 28-A do Código de Processo Penal: 1) delito sem violência ou grave ameaça com pena mínima inferior a 04 (quatro) anos; 2) ter o investigado confessado formal e circunstancialmente a infração; e 3) suficiência e necessidade da medida para reprovação e prevenção do crime. Além disso, extrai-se do §2º, inciso II, que a reincidência ou a conduta criminal habitual, reiterada ou profissional afasta a possibilidade da proposta. Acerca da questão, esta Corte Superior entende que não há ilegalidade na recusa do oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal quando o representante do Ministério Público, de forma fundamentada, constata a ausência dos requisitos subjetivos legais necessários à elaboração do acordo, de modo que este não atenderia aos critérios de necessidade e suficiência em face do caso concreto. Ainda, cumpre ressaltar que: "o acordo de não persecução penal deve ser eventualmente ofertado ao agente sobre o qual há, em tese, justa causa para o oferecimento de denúncia, com o claro objetivo de mitigar o princípio da obrigatoriedade da ação penal. Contudo, a norma processual não obriga o Ministério Público a oferecer o benefício, que não é direito subjetivo dos investigados. É resguardado ao Membro do Ministério Público a opção, devidamente fundamentada, entre denunciar ou realizar o acordo quando este for suficiente para a reprovação e prevenção do crime." (AgRg no HC 708.105/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe 17/12/2021). Isso porque, realmente, a possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal é conferida exclusivamente ao Ministério Público, não constituindo direito subjetivo do investigado. Nesse sentido, precedente recente da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal: "AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL EM RELAÇÃO AO DELITO DE ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS (ART. 35 DA LEI 11.343/2006). INVIABILIDADE. 1. As condições descritas em lei são requisitos necessários para o oferecimento do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), importante instrumento de política criminal dentro da nova realidade do sistema acusatório brasileiro. Entretanto, não obriga o Ministério Público, nem tampouco garante ao acusado verdadeiro direito subjetivo em realizá-lo. Simplesmente, permite ao Parquet a opção, devidamente fundamentada, entre denunciar ou realizar o acordo, a partir da estratégia de política criminal adotada pela Instituição. 2. O art. 28-A do Código de Processo Penal, alterado pela Lei 13.964/19, foi muito claro nesse aspecto, estabelecendo que o Ministério Público "poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições". 3. A finalidade do ANPP é evitar que se inicie o processo, não havendo lógica em se discutir a composição depois da condenação, como pretende a defesa (cf. HC 191.464-AgR/SC, Primeira Turma, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, DJe de 26/11/2020). 4. Agravo Regimental a que nega provimento". (HC 191124 AgR, relator Ministro Alexandre de Moraes, Primeira Turma, julgado em 08/04/2021, DJe de 13/04/2021, grifamos). Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA