AREsp 1730713 - DECISAO
A Corte entendeu que a admissibilidade do agravo de instrumento depende da apresentação das peças obrigatórias previstas no art. 1.017, I, do CPC/2015 e da indicação do conteúdo material apenas dessas peças; a exigência de identificação individualizada do teor das peças facultativas não possui amparo legal e não...
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- Parties
- Agravante/recorrente: LEDA OPPITZ HUYER
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 November 2021
- Procedural Posture
- Agravo Interno / Decisão
- Outcome
- conheço do agravo para conhecer em parte do recurso especial, acolher a preliminar de ofensa ao art. 1.017 do CPC/2015 e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que prossiga na admissibilidade do agravo de instrumento
- Legal Topics
- Admissibilidade De Recurso Especial, Agravo De Instrumento, Peças Obrigatórias E Facultativas, Instrumentalidade Das Formas, Primazia Do Julgamento De Mérito
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Summary, issues, holding and outcome
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Parties
LEDA OPPITZ HUYER
Agravante/recorrente
Procedural Posture
Agravo Interno / Decisão
Legal Issues
- 1 se a identificação do teor material é exigível também para peças facultativas juntadas eletronicamente ao agravo de instrumento
- 2 ofensa ao art. 1.017 do CPC/2015
- 3 aplicação do princípio da instrumentalidade das formas e da primazia do julgamento de mérito
Ratio Decidendi
A Corte entendeu que a admissibilidade do agravo de instrumento depende da apresentação das peças obrigatórias previstas no art. 1.017, I, do CPC/2015 e da indicação do conteúdo material apenas dessas peças; a exigência de identificação individualizada do teor das peças facultativas não possui amparo legal e não pode justificar a inadmissibilidade do recurso, devendo o Tribunal de origem prosseguir na análise da admissibilidade do agravo, desconsiderando tal exigência regulamentar do TJRS.
Court Disposition
conheço do agravo para conhecer em parte do recurso especial, acolher a preliminar de ofensa ao art. 1.017 do CPC/2015 e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que prossiga na admissibilidade do agravo de instrumento
Orders
- Conhecer em parte do recurso especial
- Acolher a preliminar de ofensa ao art. 1.017 do CPC/2015
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por LEDA OPPITZ HUYER contra decisão que inadmitiu o recurso especial fundado no art. 105, III, a, da Constituição Federal, que objetiva reformar o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, assim ementado: AGRAVO INTERNO CONTRA DECISÃO DO RELATOR QUE NEGOU TRÂNSITO A AGRAVO DE INSTRUMENTO POR INADMISSIBILIDADE. AUTOS ELETRÔNICOS. PRINCÍPIO DA IDENTIFICAÇÃO DO TEOR MATERIAL DE TODOS ARQUIVOS ANEXADOS. IMPRESCINDIBILIDADE, SOB PENA DE O RELATOR SER OBRIGADO A ABRIR UM POR UM, A FIM DE SABER ONDE ESTÃO AS PROVAS DO FATO CONSTITUTIVO, MODIFICATIVO OU EXTINTIVO DO DIREITO ALEGADO NA PEÇA RECURSAL. PRINCÍPIO PREVISTO NA LEGISLAÇÃO ESPECIAL E QUE ABRANGE TANTO OS DOCUMENTOS OBRIGATÓRIOS QUANTO OS FACULTATIVOS REPUTADOS ÚTEIS PELA PARTE RECORRENTE. DESPERDÍCIO DA OPORTUNIDADE PARA SER CUMPRIDO O REQUISITO. CASO DE NÃO CONHECIMENTO OU INADMISSIBILIDADE. DECISÃO MONOCRÁTICA PREVISTA NO ART. 932, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC/2015. MANUTENÇÃO. POR MAIORIA, AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. O feito decorre de execução fiscal no valor de R$ 48.209,08. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados. No recurso especial, a recorrente aponta, preliminarmente, a violação do art. 1.017 do CPC/2015, alegando, em síntese, o direito em ver seu agravo processado e julgado no Tribunal de origem por ter realizado, de formas regular e em meio eletrônico, a juntada dos documentos obrigatórios e facultativos. Sustenta, também, a violação dos arts. 6º, 188 e 277 do mesmo diploma legal, sustentando, em suma, a impossibilidade do juízo monocrático do Tribunal ter deixado de apreciar seu agravo porquanto a ausência de identificação do teor material do documento não ensejaria, por si só, a inadmissão do recurso. Após decisum que inadmitiu o recurso especial foi interposto o presente agravo, tendo arecorrente apresentado argumentos visando rebater os fundamentos da decisão agravada. É o relatório. Decido. A preliminar de ofensa ao art. 1.017 do CPC/2015 merece ser acolhida. Com efeito, cinge-se a controvérsia na definição da necessidade ou não de identificação do conteúdo material das peças facultativamente apresentadas pela parte agravante quando da interposição do recurso de agravo de instrumento na origem. De fato, cabia à parte agravante apresentar as peças obrigatórias para interposição do agravo de instrumento e, facultativamente, apresentar peças reputadas úteis, nos termos do art. 1017, I, II e III, do CPC/2015. O acórdão recorrido desproveu o agravo interno colacionando a decisão monocrática e alegando que tal decisão havia esgotado o exame da matéria, o qual aplicou o princípio da identificação do teor material dos arquivos nos autos eletrônicos, decorrente da regra prevista no art. 6º, IV, do Ato da Presidência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul nº 17/2012, para ao final deter-se à questão processual do não conhecimento, restando prejudicado as questões de mérito. Da leitura do art. 1.017, I, do CPC/2015, denota-se que a parte agravante deve apresentar, quando da interposição do recurso de agravo de instrumento, as peças obrigatórias, que são as cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da decisão agravada, da certidão da respectiva intimação (ou outro documento oficial que comprove a tempestividade) e as procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado. E o seu inciso III faculta à parte agravante apresentar outras peças que reputar úteis. Depreende-se, portanto, que a admissibilidade do recurso de agravo de instrumento está condicionada, tão somente, à apresentação da petição recursal e a juntada das peças consideradas obrigatórias por expressa determinação legal. Assim, mostra-se necessária a indicação do conteúdo material apenas das peças obrigatórias, ou seja, daquelas sem as quais o recurso não será admitido. A ausência de "lançamento individualizado" e de especificação do conteúdo material das demais peças apresentadas, por serem facultativas, não podem, por óbvio, impedir o conhecimento do agravo de instrumento se já apresentadas as peças obrigatórias para a formação do instrumento, com a respectiva indicação de cada peça, como ocorreu na espécie. O entendimento firmado na decisão monocrática e corroborado pelo colegiado do Tribunal a quo, ou seja, de que também se deve indicar o conteúdo material das peças facultativamente apresentadas, não possui amparo no ordenamento jurídico, no CPC/2015 e mesmo na Lei nº 11.419/06, que disciplina a informatização do processo judicial. Nesse passo, acolher tal entendimento configura inaceitável e inexplicável tratamento desigual na admissibilidade do recurso de agravo de instrumento, pois se a parte agravante apresenta apenas as peças obrigatórias, com a respectiva indicação do conteúdo material de cada uma delas, o seu recurso será conhecido pelo Tribunal. E se as peças facultativamente apresentadas não estejam corretamente indicadas ou especificadas, basta que o Tribunal não as aprecie, ou seja, simplesmente ignore os documentos juntados, hipótese na qual poderá se recusar a analisá-las, se assim desejar. O Código de Processo Civil de 2015 consagrou o princípio da primazia do julgamento do mérito como um de seus pilares fundamentais. De fato, deve-se evitar o formalismo exacerbado e o rigor desmesurado, prestigiando-se sempre a resolução do mérito da demanda, isto é, a efetiva prestação jurisdicional requerida pelas partes. Em que pese as formalidades serem importantes, expressamente previstas em lei e necessárias para a prática do ato processual, dessume-se a necessidade de afastar as que sejam notoriamente desnecessárias, de forma a permitir o saneamento de vícios menos graves, sempre em prol do julgamento de mérito da demanda. Por fim, deve-se ter em mente que o processo não constitui um fim em si mesmo, e sim um instrumento para a realização do direito material, segundo preceitua o princípio da instrumentalidade das formas. Nesse sentido, os seguintes precedentes desta Corte Superior: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. VIOLAÇÃO AOS ARTS. 7º, 489 E 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO DE INSTRUMENTO. VERIFICAÇÃO DE SUA TEMPESTIVIDADE. DOCUMENTOS. INSTRUMENTALIDADE DAS FORMAS. ART. 526 CPC/73. VIOLAÇÃO. REDISCUSSÃO DE MATÉRIA FÁTICA. NECESSIDADE. SÚMULA 7/STJ. INCIDÊNCIA. 1. Não ocorreu omissão no aresto combatido, na medida em que o Tribunal de origem dirimiu, fundamentadamente, as questões que lhe foram submetidas, apreciando integralmente a controvérsia posta nos autos, não se podendo, ademais, confundir julgamento desfavorável ao interesse da parte com negativa ou ausência de prestação jurisdicional. 2. A Corte Especial deste Tribunal Superior adotou entendimento no sentido de que a ausência da cópia da certidão de intimação da decisão agravada não é óbice ao conhecimento do agravo de instrumento, quando, por outros meios inequívocos, for possível aferir a tempestividade do recurso, em atendimento ao princípio da instrumentalidade das formas. 3. A alteração das conclusões adotadas pela Corte de origem, no sentido de que houve o descumprimento das exigências previstas no art. 526 do CPC/73, demandaria, necessariamente, novo exame do acervo fático-probatório constante dos autos, providência vedada na via especial, conforme o óbice previsto na Súmula 7/STJ. 4. Agravo interno não provido. (AgInt nos EDcl no AREsp 1086019/MG, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 11/11/2019, DJe 18/11/2019) AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. SEGURO DE VIDA. AÇÃO DE COBRANÇA. TERCEIRO BENEFICIÁRIO. PRESCRIÇÃO. PRAZO DECENAL. 1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 1973 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. É possível a aplicação do direito à espécie, sendo autorizado ao julgador adotar fundamento diverso do invocado pelo recorrente, a teor dos arts. 1.034 do CPC/2015 e 255, § 5º, do RISTJ, bem como da Súmula nº 456/STF, os quais procuram dar efetividade à prestação jurisdicional sem deixar de atentar para o devido processo legal, coadunando-se com a nova tendência de primazia das decisões de mérito, adotada no art. 4º do CPC/2015. (..) 4. Agravo interno não provido. (AgInt no AREsp 178.910/MG, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/06/2018, DJe 25/06/2018) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ROUBO CIRCUNSTANCIADO (ARTIGO 157, § 2º, INCISOS I E II, DO CÓDIGO PENAL). SÚMULA 182/STJ. INCIDÊNCIA AFASTADA. IMPUGNAÇÃO DOS TERMOS DA DECISÃO DE INADMISSIBILIDADE DO RECURSO. PRIMAZIA DA RESOLUÇÃO DE MÉRITO. 1. "A impugnação, ainda que de forma sucinta, de todos os fundamentos da decisão de inadmissão do recurso especial por meio do agravo, afasta a incidência da Súmula 182/STJ. Logo, preenchidos os requisitos de admissibilidade do agravo, correta a decisão que determinou a reautuação dos autos em recurso especial" (AgRg no AgRg nos EDcl no AREsp 499.574/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/08/2014, DJe 25/08/2014). 2. Ademais, não se pode perder de vista a finalidade instrumental do processo, que não deve ser concebido como um fim em si mesmo, mas como um instrumento para a concretização de um direito material. Este é o posicionamento adotado pelo Código de Processo Civil de 2015, que traz como diretriz a primazia da resolução de mérito, cuja aplicação ao processo penal é autorizada em razão da previsão contida no art. 3º do CPP. DOSIMETRIA. PENA-BASE. FIXAÇÃO ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. DESPROPORCIONALIDADE. COAÇÃO ILEGAL EVIDENCIADA. CONCESSÃO DE HABEAS CORPUS DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. RECURSO IMPROVIDO. 1. A dosimetria da pena é o momento em que o juiz, dentro dos limites abstratamente previstos pelo legislador, deve eleger, fundamentadamente, atentando-se para as singularidades do caso concreto, o quantum ideal da sanção a ser aplicada ao condenado criminalmente, visando à prevenção e à repressão do delito praticado. 2. Nos termos de entendimento pacífico no âmbito desta Corte Superior de Justiça, a revisão da dosimetria da pena em recurso especial é admissível apenas diante de ilegalidade flagrante, exatamente como no caso dos autos. 3. Agravo improvido. (AgRg no AREsp 1117326/PA, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 20/02/2018, DJe 02/03/2018) No caso sub examine, a agravante juntou e especificou cada uma das peças obrigatórias elencadas no art. 1.017, I, do CPC/2015 quando da interposição do agravo de instrumento na origem, sendo indevido o não conhecimento do recurso por ausência de lançamento individualizado e especificação do teor material das peças facultativamente apresentadas, pois referida exigência, além de não encontrar respaldo legal, viola os princípios da primazia do julgamento do mérito e da instrumentalidade das formas (AREsp nº 1.276.659, DJe 23/10/2018; AREsp 1.417.793, DJe 11/02/2019). Desta forma, deve o Tribunal de origem prosseguir na análise da admissibilidade do agravo interno lá interposto, desconsiderando a exigência, que ora se afasta. Ante o exposto, com fulcro no art. 253, parágrafo único, II, c, do RISTJ, conheço do agravo para conhecer em parte do recurso especial a fim de acolher a preliminar de ofensa ao art. 1.017 do CPC e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que prossiga na admissibilidade do agravo de instrumento, nos termos da fundamentação. Publique-se. Intimem-se.