AREsp 2488140 - DECISAO
Negou-se provimento ao agravo porque o Tribunal de origem enfrentou de modo suficiente as questões, reconhecendo a abusividade dos encargos ao constatar que a taxa contratual (36,07% a.a.) supera em mais de uma vez e meia a taxa média de mercado (22,23% a.a.), o que descaracteriza a mora, e porque a reforma da...
Source-derived case information.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 February 2024
- Procedural Posture
- Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Sobre Agravo (negado Provimento)
- Outcome
- Negado provimento ao agravo
- Legal Topics
- Alienação Fiduciária, Ação De Busca E Apreensão, Mora, Juros Remuneratórios, Capitalização De Juros, Abusividade De Encargos, Súmulas, Prequestionamento, Honorários Advocatícios
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Procedural Posture
Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Sobre Agravo (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 inadmissibilidade do recurso especial por aplicação das Súmulas 5, 7 e 83 do STJ e Súmulas 282 e 356 do STF
- 2 reconhecimento da abusividade dos encargos e descaracterização da mora
- 3 possibilidade de revisão de juros remuneratórios e vedação ao reexame fático-probatório
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo porque o Tribunal de origem enfrentou de modo suficiente as questões, reconhecendo a abusividade dos encargos ao constatar que a taxa contratual (36,07% a.a.) supera em mais de uma vez e meia a taxa média de mercado (22,23% a.a.), o que descaracteriza a mora, e porque a reforma da decisão demandaria reexame de cláusulas contratuais e provas vedado pelas Súmulas 5 e 7 do STJ; além disso, as questões relativas à capitalização e às normas invocadas não foram prequestionadas, atraindo as Súmulas 282 e 356 do STF.
Court Disposition
Negado provimento ao agravo
Orders
- Majorar os honorários advocatícios em 20% do valor arbitrado, na forma do art. 85, §11, do CPC/2015, observando-se os limites dos §§2º e 3º
- Publique-se e intimem-se
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo nos próprios autos interposto contra decisão publicada na vigência do CPC /2015, que inadmitiu o recurso especial em razão da incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ e 282 e 356 do STF (e-STJ fls. 260/264). O acórdão recorrido encontra-se assim ementado (e-STJ fl. 199): APELAÇÃO CÍVEL. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. MORA DO DEVEDOR DESCARACTERIZADA. ENCARGOS ABUSIVOS. DISPÕE O ART. 3º DO DECRETO-LEI Nº 911/69 QUE O CREDOR FIDUCIÁRIO TEM O DIREITO DE REAVER O BEM QUE SE ENCONTRA NA POSSE DO DEVEDOR EM MORA. NO CASO CONCRETO, DESCABE A CONCESSÃO DO PEDIDO DE BUSCA E APREENSÃO DO VEÍCULO, TENDO EM VISTA A DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA DO DEVEDOR, EM FACE DA ABUSIVIDADE DE ENCARGO(S) PREVISTO(S) PARA O PERÍODO DA NORMALIDADE CONTRATUAL. ENTENDIMENTO ASSENTE DO STJ E DESTA CORTE. RECURSO IMPROVIDO. Os embargos de declaração foram rejeitados (e-STJ fls. 219/223). Nas razões do recurso especial (e-STJ fls. 230/247), interposto com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", da CF, a parte alegou, além de dissídio jurisprudencial, violação dos seguintes dispositivos legais: (i) art. 1.022 do CPC/2015, pois "a veneranda decisão se apresenta contraditória, uma vez que permite a limitação da taxa de juros remuneratórios à taxa média praticada pelo mercado, sem, contudo, ter sido, demonstrada abusividade tão pouco excessividade, pelo contrário, se trata de fato cabalmente demonstrado nos autos a existência de margem moderada de variação, o que segundo entendimento dominante não caracteriza vantagem exacerbada, razão pela qual se impõe a manutenção dos termos contratados e, por via de consequência da taxa de juros remuneratórios aplicada contratualmente" (e-STJ fl. 236); (ii) arts. 4º, IX, da Lei n. 4.595/1964, 333, I, e 373, I e II, do CPC/2015 e 51, IV, do CDC, porque "não restou comprovada nos autos vantagem exagerada ou abusividade na aplicação da taxa de juros pactuada contratualmente, única hipótese de incidência das normas de proteção ao consumidor nas operações financeiras, que não são diretamente reguladas por este estatuto" (e-STJ fl. 235); (iii) arts. 5º da Medida Provisória n. 2.170-36/2001 e 4º do Decreto n. 22.626/1933, tendo em vista que "autoriza expressamente as instituições financeiras a estipulação de capitalização mensal dos juros. Não há qualquer restrição de caráter subjetivo que se possa verificar da previsão legal" (e-STJ fl. 242); (iv) art. 394 do CC/2002, "diante da constatação de legalidade dos juros remuneratórios e capitalização de juros, amparada na legislação vigente e na previsão do contrato, decorrerá a modificação do julgamento quanto à caracterização da mora. Uma vez que seja reconhecida a prova e da manutenção dos juros remuneratórios conforme contratados, não concorrerá qualquer modificação contratual no período da normalidade, capaz de justificar o inadimplemento" (e-STJ fl. 246). Nesses termos, requereu o provimento do recurso, para "reformar o acórdão, reconhecendo a ausência de abusividade dos juros remuneratórios e capitalização contratados e a consequente mora da parte adversa, reformando a decisão para manter a liminar deferida em primeiro grau de jurisdição" (e-STJ fl. 247). No agravo (e-STJ fls. 274/288), afirma a presença dos requisitos de admissibilidade do especial. Não foi apresentada contraminuta (e-STJ fl. 299). É o relatório. Decido. Inexiste afronta ao art. 1.022 do CPC/2015 quando o acórdão recorrido pronuncia-se, de forma clara e suficiente, acerca das questões suscitadas nos autos, manifestando-se sobre todos os argumentos que, em tese, poderiam infirmar a conclusão adotada pelo Juízo. De fato, em relação à tese, o Tribunal de origem assim se manifestou (e-STJ fls. 196/197): Desde logo indico que, o Superior Tribunal de Justiça, com base na Lei de Recursos Repetitivos, na esteira de inúmeros julgados, traçou orientação (REsp 1.061.530/RS, julgado em 22/10/2008, DJe 10/03/2009) no sentido de que resta descaracterizada a mora do devedor quando constatada abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade contratual (juros remuneratórios e capitalização) e, uma vez descaracterizada a mora, é inadmissível a busca e apreensão do bem dado em garantia fiduciária; não descaracteriza a mora, no entanto, o ajuizamento isolado de ação revisional de contrato. (..). No caso concreto, a taxa de juros remuneratórios estabelecida no contrato (36,07% a.a.), ultrapassa uma vez e meia a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil 1 (22,23% a.a.) para o período da normalidade, sendo, pois, abusiva. Nesse contexto, resta reconhecida a descaracterização da mora do devedor, em face da abusividade em encargo(s) previsto(s) para o período da normalidade contratual. Na decisão que rejeitou os aclaratórios, a Corte local asseverou (e-STJ fl. 219): Toda a matéria objeto da controvérsia foi suficientemente enfrentada, não se verificando qualquer obscuridade, contradição, omissão ou erro material no acórdão embargado, sendo nítido o escopo infringente dos presentes embargos, já que o embargante pretende rediscutir questões já decididas, buscando modificar os próprios fundamentos do acórdão, o que é inviável no caso presente, ressaltando-se que, conforme apontado no acórdão embargado, a taxa de juros remuneratórios estabelecida no contrato (36,07% a.a.), ultrapassa uma vez e meia a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil 1 (22,23% a.a.) para o período da normalidade, sendo, pois, abusiva. A contradição que dá ensejo a embargos de declaração é a interna, isto é, entre proposições do próprio julgado, e não entre o julgado e as razões da parte. No caso, não se observa a apontada contradição. Por conseguinte, não assiste razão à parte, visto que o Tribunal a quo decidiu a matéria controvertida nos autos, ainda que contrariamente a seus interesses, não incorrendo em nenhum dos vícios previstos no art. 1.022 do CPC/2015. O entendimento adotado no acórdão recorrido está em consonância com a jurisprudência do STJ, firmada por ocasião do julgamento do REsp n. 1.061.530/RS, submetido ao rito dos recursos repetitivos, de que "o reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade contratual (juros remuneratórios e capitalização) descaracteriza a mora" (Relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009). No mesmo sentido: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO DA PRESIDÊNCIA. RECONSIDERAÇÃO. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA DE MERCADO. NÃO OBSERVÂNCIA. REVISÃO. POSSIBILIDADE. MORA DESCARACTERIZADA. AGRAVO INTERNO PROVIDO PARA CONHECER DO AGRAVO E NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL. 1. (..). 2. É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a cobrança abusiva (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento concreto. 3. Em conformidade com a jurisprudência pacífica desta Corte Superior, firmada por ocasião do julgamento do Recurso Especial 1.061.530/RS, submetido ao rito dos recursos repetitivos, instituído pelo artigo 543-C do CPC, "o reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade contratual (juros remuneratórios e capitalização) descaracteriza a mora" (AgRg no AREsp 507.275/MG, Relator Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 5/8/2014, DJe de 8/8/2014). 4. Agravo interno provido para, reconsiderando a decisão agravada, conhecer do agravo e negar provimento ao recurso especial. (AgInt no AREsp n. 1.584.971/RS, Relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 22/3/2021, DJe de 13/4/2021.) Havendo posicionamento dominante acerca do tema, aplica-se a Súmula n. 83 do STJ. Ademais, modificar as conclusões do acórdão impugnado, em especial quanto à abusividade nos encargos e à descaraterização da mora, demandaria análise de cláusulas contratais e reexame do conjunto fático-probatório dos autos, providências não admitidas no âmbito desta Corte, a teor das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. A propósito: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. ABUSIVIDADE RECONHECIDA. SÚMULAS 5 E 7/STJ. MORA. DESCARACTERIZADA. SÚMULA 83 DO STJ. DECISÃO MONOCRÁTICA DA PRESIDÊNCIA DESTA CORTE QUE NÃO CONHECEU DO AGRAVO. AGRAVO INTERNO PROVIDO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. 1. (..). 2. Conforme decidido por esta Corte, "a perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos" (REsp 1061530/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe 10/03/2009). 3. No caso dos autos, o Tribunal de origem entendeu, quanto aos juros remuneratórios, que houve abusividade em sua cobrança. Rever essa conclusão demandaria reexame de provas e interpretação de cláusulas contratuais, providências vedadas nos termos das Súmulas 5 e 7/STJ. 4. A Segunda Seção do STJ definiu o entendimento, em sede de repetitivo, de que "o reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade contratual (juros remuneratórios e capitalização) descarateriza a mora" (REsp 1061530/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe 10/03/2009). 5. Agravo interno a que se dá provimento para reconsiderar a decisão da Presidência desta Corte e negar provimento ao agravo em recurso especial. (AgInt no AREsp n. 1.983.007/RS, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 21/2/2022, DJe de 25/2/2022.) AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO DE CARTÃO DE CRÉDITO. JUROS REMUNERATÓRIOS. ABUSIVIDADE VERIFICADA NO CASO CONCRETO. TAXA ACIMA DA MÉDIA DE MERCADO ESTIPULADA PELO BACEN. SÚMULA 83/STJ. NECESSIDADE DE ANÁLISE DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS E REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULAS 5 E 7/STJ. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO. 1. Conforme destacado pela Ministra Relatora do REsp 1.061.530/RS, a jurisprudência "tem considerado abusivas taxas superiores a uma vez e meia (voto proferido pelo Min. Ari Pargendler no REsp 271.214/RS, Rel. p. Acórdão Min. Menezes Direito, DJ de 04.08.2003), ao dobro (REsp 1.036.818, Terceira Turma, minha relatoria, DJe de 20.06.2008) ou ao triplo (REsp 971.853/RS, Quarta Turma, Min. Pádua Ribeiro, DJ de 24.09.2007) da média. Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos" (AgInt no AREsp 657.807/RS, Rel. Ministro Lázaro Guimarães, Desembargador convocado do TRF 5ª Região, Quarta Turma, julgado em 21/6/2018, DJe 29/6/2018). 2. De acordo com a orientação do Superior Tribunal de Justiça, não há como acolher a pretensão recursal que demande o reexame dos aspectos fáticos e probatórios da causa e/ou a interpretação de cláusulas contratuais, com vistas a modificar a conclusão exarada pelo Tribunal de origem, ante os óbices dispostos nas Súmulas 5 e 7 do Superior Tribunal de Justiça. 3. Agravo interno improvido. (AgInt no REsp n. 2.002.576/RS, Relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 17/10/2022, DJe de 20/10/2022.) Com efeito, "a incidência das Súmulas 5 e 7 do Superior Tribunal de Justiça impede o exame de dissídio jurisprudencial, uma vez que falta identidade entre os paradigmas apresentados e os fundamentos do acórdão, tendo em vista a situação fática do caso concreto, com base na qual o Tribunal de origem deu solução à causa" (AgInt no AREsp n. 1.232.064/SP, Relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 4/12/2018, DJe de 7/12/2018). Além disso, para o conhecimento do recurso especial com base na alínea "c" do permissivo constitucional, seria indispensável demonstrar, por meio de cotejo analítico, que as soluções encontradas, tanto na decisão recorrida quanto nos paradigmas, tiveram por base as mesmas premissas fáticas e jurídicas, existindo entre elas similitude de circunstâncias. Contudo, a parte recorrente não se desobrigou desse ônus, nos termos do art. 1.029, § 1º, do CPC/2015. Por derradeiro, no que diz respeito à capitalização de juros, bem como à alegação de afronta aos arts. 5º da Medida Provisória n. 2.170-36/2001 e 4º do Decreto n. 22.626/1933, constata-se que a tese e o conteúdo normativo de tais dispositivos não foram apreciados pelo Tribunal a quo, nem a Corte local foi instada a fazê-lo por via de embargos declaratórios. Tal circunstância impede o conhecimento da insurgência por falta de prequestionamento. Assim, devem ser aplicadas as Súmulas n. 282 e 356 do STF. Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao agravo. Na forma do art. 85, § 11, do CPC/2015, MAJORO os honorários advocatícios em 20% (vinte por cento) do valor arbitrado, observando-se os limites dos §§ 2º e 3º do referido dispositivo. Publique-se e intimem-se. EMENTA