REsp 1830100 - DECISAO
Por ausência de registro do contrato no Cartório de Registro de Imóveis, nos termos do art. 23 da Lei 9.514/1997, não se constituiu a propriedade fiduciária, de modo que a cláusula de alienação fiduciária não impede a rescisão do contrato; assim, o recurso especial não merece provimento.
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: C.A.D.M. Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda.; Recorrido: Michael Cristian Paladini
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 25 March 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial (ação De Rescisão Contratual C/c Restituição De Valores) / Julgamento De Recurso Especial
- Outcome
- nego provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Alienação Fiduciária, Rescisão Contratual, Registro Imobiliário, Lei 9.514/1997
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Parties
C.A.D.M. Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda.
Recorrente
Michael Cristian Paladini
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial (ação De Rescisão Contratual C/c Restituição De Valores) / Julgamento De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se a previsão de cláusula de alienação fiduciária em contrato particular de compra e venda impede a rescisão do contrato pelo adquirente quando o contrato não foi registrado no Cartório de Registro de Imóveis.
Ratio Decidendi
Por ausência de registro do contrato no Cartório de Registro de Imóveis, nos termos do art. 23 da Lei 9.514/1997, não se constituiu a propriedade fiduciária, de modo que a cláusula de alienação fiduciária não impede a rescisão do contrato; assim, o recurso especial não merece provimento.
Court Disposition
nego provimento ao recurso especial
Orders
- Nego provimento ao recurso especial.
- Majoro os honorários em favor do advogado da parte recorrida em R$ 2% sobre o valor atualizado da condenação.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial apresentado por C.A.D.M. Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda., com base no art. 105, III, a, da Constituição Federal. Compulsando os autos, verifica-se que Michael Cristian Paladini ajuizou ação de rescisão contratual cumulada com restituição de valores (e-STJ, fls. 1-17), tendo o Juízo de primeiro grau julgado improcedente o pedido (e-STJ, fls. 163-165). Interposta apelação pelo ora recorrido, o Tribunal estadual decidiu, por unanimidade, dar-lhe parcial provimento em acórdão assim ementado (e-STJ, fl. 292): COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA COM PREVISÃO DE ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. PEDIDO DE DESISTÊNCIA DO NEGÓCIO. CLÁUSULA DE ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA DO LOTE QUE NÃO IMPEDE A RESILIÇÃO DO CONTRATO, UMA VEZ QUE NÃO COMPROVADA O REGISTRO DA GARANTIA, NOS TERMOS DO ARTIGO 23 DA LEI 9514/97. CONSIDERANDO A JURISPRUDÊNCIA DESTE COLEGIADO E, PARA PROPORCIONAR ADEQUADA REPARAÇÃO DOS PREJUÍZOS DECORRENTES DO DESFAZIMENTO DO CONTRATO, AFIGURA-SE RAZOÁVEL A RETENÇÃO DE 20% DE TODAS AS PARCELAS PAGAS, PERCENTUAL ESTE CONDIZENTES A COBRIR DESPESAS ADMINISTRATIVAS DE PUBLICIDADE E FORMALIZAÇÃO DO CONTRATO. CORREÇÃO MONETÁRIA A PARTIR DO DESEMBOLSO DE CADA PARCELA E JUROS DE MORA A PARTIR DO TRÂNSITO EM JULGADO. RECURSO PROVIDO EM PARTE. Nas razões do recurso especial (e-STJ, fls. 305-316), C.A.D.M. Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda. alega violação ao art. 27 da Lei n. 9.514/1997. Sustenta que, no contrato firmado entre as partes litigantes, há cláusula adjeta de alienação fiduciária em garantia, motivo pelo qual sua rescisão somente é possível com a consolidação da propriedade em nome da credora fiduciária, cabendo à parte adquirente a restituição do que sobejar após a venda do bem em leilão. Aduz que a ausência de registro do contrato não afasta a incidência da norma específica. Contrarrazões apresentadas (e-STJ, fls. 331-338). O Tribunal de origem admitiu o processamento do recurso especial (e-STJ, fls. 339-341). Brevemente relatado, decido. A questão jurídica discutida no recurso especial consiste em verificar se a existência de cláusula de alienação fiduciária em garantia no contrato de compra e venda impossibilita a rescisão do pacto por iniciativa do comprador, ainda que sem registro, no cartório competente. O Tribunal local, ao julgar a apelação, assim se manifestou (e-STJ, fl. 294, sem grifo no original): Em tese, não se olvida que, uma vez alienado fiduciariamente o imóvel com a formalização do direito real de garantia, surge para o credor à faculdade de, em caso de impossibilidade de pagar as parcelas, consolidara propriedade do bem em seu nome, promovendo a alienação e devolvendo ao devedor apenas eventual excedente resultante da arrematação. Mas para isso, o artigo 23 da Lei 9.514/97 estabelece a necessidade de constituir a propriedade fiduciária mediante registro, no cartório de imóvel competente, servindo o contrato como título. Todavia, na hipótese dos autos não houve a formalização do registro (fls. 50 e 97/115) de modo a inexistir impedimento para o pedido de resilição do contrato de compra e venda. Da análise do acórdão recorrido, observa-se que a Corte originária consignou que o contrato não foi levado a registro. Dessa forma, não se constituiu a propriedade fiduciária mediante registro do respectivo instrumento contratual no Cartório de Registro de Imóveis, nos termos do art. 23 da Lei n. 9.514/1997. A respeito da matéria em discussão, a Terceira Turma, por maioria, no julgamento do REsp n. 1.835.598/SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi, em 9/2/2021, consignou que, "no regime especial da Lei 9.514/97, o registro do contrato tem natureza constitutiva, sem o qual a propriedade fiduciária e a garantia dela decorrente não se perfazem". Acrescentou que, "na ausência de registro do contrato que serve de título à propriedade fiduciária no competente Registro de Imóveis, como determina o art. 23 da Lei 9.514/97, não é exigível do adquirente que se submeta ao procedimento de venda extrajudicial do bem para só então receber eventuais diferenças do vendedor". Confira-se a ementa: DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO PARTICULAR DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL C/C PEDIDO DE DEVOLUÇÃO DAS QUANTIAS PAGAS. CLÁUSULA DE ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. AUSÊNCIA DE REGISTRO. GARANTIA NÃO CONSTITUÍDA. VENDA EXTRAJUDICIAL DO BEM. DESNECESSIDADE. 1. Ação ajuizada em 01/08/2017. Recurso especial interposto em 27/05/2019 e concluso ao Gabinete em 03/09/2019. Julgamento: CPC/2015. 2. O propósito recursal consiste em dizer se a previsão de cláusula de alienação fiduciária em garantia em instrumento particular de compra e venda de imóvel impede a resolução do ajuste por iniciativa do adquirente, independentemente da ausência de registro. 3. No ordenamento jurídico brasileiro, coexiste um duplo regime jurídico da propriedade fiduciária: a) o regime jurídico geral do Código Civil, que disciplina a propriedade fiduciária sobre coisas móveis infungíveis, sendo o credor fiduciário qualquer pessoa natural ou jurídica; b) o regime jurídico especial, formado por um conjunto de normas extravagantes, dentre as quais a Lei 9.514/97, que trata da propriedade fiduciária sobre bens imóveis. 4. No regime especial da Lei 9.514/97, o registro do contrato tem natureza constitutiva, sem o qual a propriedade fiduciária e a garantia dela decorrente não se perfazem. 5. Na ausência de registro do contrato que serve de título à propriedade fiduciária no competente Registro de Imóveis, como determina o art. 23 da Lei 9.514/97, não é exigível do adquirente que se submeta ao procedimento de venda extrajudicial do bem para só então receber eventuais diferenças do vendedor. 6. Recurso especial conhecido e não provido. (REsp 1835598/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 09/02/2021, DJe 17/02/2021) Desse modo, verifica-se que o julgado recorrido encontra-se em harmonia com o precedente retrocitado, razão pela qual não merece reforma. Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial. Nos termos do art. 85, § 11, do CPC/2015, majoro os honorários em favor do advogado da parte recorrida em R$ 2% (dois por cento) sobre o valor atualizado da condenação. Publique-se. EMENTA RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL C/C RESTITUIÇÃO DE VALORES. CLÁUSULA DE ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. AUSÊNCIA DE REGISTRO. GARANTIA NÃO CONSTITUÍDA. VENDA EXTRAJUDICIAL DO BEM. DESNECESSIDADE. PRECEDENTE. RECURSO ESPECIAL IMPROVIDO.