MS 27609 - DECISAO
Concedeu-se a ordem porque as notificações iniciais não foram válidas diante da prova de devolução postal e da exigência, segundo entendimento da Primeira Seção do STJ, de que a Administração, diante de tentativa frustrada pelos Correios, adote outro meio idôneo para demonstrar a certeza da ciência do interessado;...
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- Parties
- Impetrante: GERALDO CELESTINO DE ALMEIDA; Autoridade Coatora: MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS; Agravante: UNIÃO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 December 2021
- Procedural Posture
- Mandado De Segurança / Decisão
- Outcome
- Ordem concedida
- Legal Topics
- Anistia Política, Revisão De Anistia, Notificação, Ampla Defesa, Devido Processo Legal
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Parties
GERALDO CELESTINO DE ALMEIDA
Impetrante
MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS
Autoridade Coatora
UNIÃO
Agravante
Procedural Posture
Mandado De Segurança / Decisão
Legal Issues
- 1 Validade da notificação por via postal e por edital no processo administrativo de revisão de anistia
- 2 Observância do devido processo legal e da ampla defesa na revisão de atos de anistia
- 3 Competência e participação da Comissão de Anistia/órgão colegiado na revisão e anulação de anistias
Ratio Decidendi
Concedeu-se a ordem porque as notificações iniciais não foram válidas diante da prova de devolução postal e da exigência, segundo entendimento da Primeira Seção do STJ, de que a Administração, diante de tentativa frustrada pelos Correios, adote outro meio idôneo para demonstrar a certeza da ciência do interessado; ademais, a revisão de anistia requer observância do devido processo legal e da participação/parecer do colegiado da Comissão de Anistia, de modo que os atos subsequentes à notificação inválida (inclusive Portaria n. 582/2021) devem ser anulados.
Court Disposition
Ordem concedida
Orders
- Anular as Notificações n. 1.349/2020 e 2.304/2020
- Anular o Edital de Notificação n. 9/2020
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado por GERALDO CELESTINO DE ALMEIDA contra ato da MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS, consubstanciado na edição da Portaria n. 582, de 18 de fevereiro de 2021, anulatória daPortaria n. 1.333, de 1º de julho de 2005, que o declarou anistiado político, ante a ausência de comprovação da existência de perseguição exclusivamente política quando do ato concessivo. O impetrante sustenta a ocorrência das seguintes ilegalidades no processo administrativo de revisão: a) não foi devidamente intimado para apresentar defesa, já que a notificação não foi enviada para o seu endereço, "ficando para ser retirada por meio do código do objeto que o impetrante desconhecia" (e-STJ fl. 05); b) "mesmo conhecendo o endereço do impetrante, a autoridade coatora preferiu tentar intimá-lo por meio de um endereço incorreto" (e-STJ fl. 06); c) intimado por edital, do qual não tomou conhecimento, a autoridade coatora não nomeou defensor dativo; d) não sendo intimado, não pode se defender e tampouco produzir provas; e) não houve julgamento pelo colegiado da Comissão de Anistia. Ao final, pleiteia a concessão da ordem, com a anulação do ato coator. A liminar foi deferida (e-STJ fls. 129/121), sendo a decisão atacada por agravo interno manejado pela União (e-STJ fls. 147/159). Informações prestadas pela autoridade indicada como coatora às e- STJ fls. 127/140. O Ministério Público Federal opinou pela denegação da ordem (e- STJ fls. 272/281). Passo a decidir. Inicialmente, registro que a revisão da anistia no caso em exame se refere exclusivamente àquelas concedidas aos Cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria n. 1.104, editada pelo Ministro de Estado da Aeronáutica em 12 de outubro de 1964. Pois bem. A Primeira Seção do STJ, nojulgamentodoMS 27.227/DF, darelatoria do Ministro Sérgio Kukina - realizadono dia 27/10/2021 -, entendeu que "nas hipóteses em que a tentativa de entrega da notificação pelos Correios é frustrada, cabe à Administração buscar outro meio idôneo para provar, nos autos, "a certeza da ciência do interessado", reservando-se a publicação oficial, nos termos da lei, tão somente às hipóteses de: a) interessado indeterminado; b) interessado desconhecido; ou c) interessado com domicílio indefinido". A ementa sintetizou o julgado com o seguinte teor: ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL ADMINISTRATIVO. PROCESSO DE REVISÃO DE ANISTIA DE MILITAR. CABO DA AERONÁUTICA. MANDADO DE SEGURANÇA.ENUNCIADO APROVADO PELO STF EM REGIME DE REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 839. NOTIFICAÇÃO POR EDITAL. PREJUÍZO AO EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA.NULIDADE RECONHECIDA. ORDEM CONCEDIDA. RESTABELECIMENTO DA CONDIÇÃO DE ANISTIADO DO EX-MILITAR. 1. Caso em que se discute a validade de ato administrativo ministerial que determinou a anulação de anterior portaria, por meio da qual se havia declarado a condição de anistiado político do impetrante, ex-cabo da Aeronáutica. 2. Ao apreciar o Tema 839, com repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal aprovou o seguinte enunciado: "No exercício do seu poder de autotutela, poderá a Administração Pública rever os atos de concessão de anistia a cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria nº 1.104/1964, quando se comprovar a ausência de ato com motivação exclusivamente política, assegurando-se ao anistiado, em procedimento administrativo, o devido processo legal e a não devolução das verbas já recebidas". 3. A Administração Pública não é obrigada a revisar as anistias.Porém, caso o faça, a revisão estará condicionada, dentre outras exigências, à observância de regular procedimento administrativo, em que sejam asseguradas ao administrado as garantias inerentes ao devido processo legal, como deflui, com primazia, do art. 5º, LIV, da Constituição Federal. 4. A validade do processo administrativo é constitucionalmente vinculada à rigorosa observação do princípio da ampla defesa "com os meios e recursos a ela inerentes". Inteligência do disposto no art.5º, LV, da Carta Republicana. Ao disciplinar, no âmbito do processo administrativo, a incidência do princípio da ampla defesa e "dos meios e recursos a ela inerentes", o legislador ordinário positivou parâmetros mais precisos, cuidadosamente descritos no art. 2º, parágrafo único, da Lei do Processo Administrativo Federal - LPA (Lei n. 9.784/1999), os quais não foram fixados para conveniência, ou comodidade, da Administração. Antes, privilegiaram a garantia dos direitos dos administrados, razão pela qual a notificação que não chega ao conhecimento do cidadão intimado não cumpre, em linha de princípio, a sua função constitucionalmente prevista. Assim, a intimação por via postal só pode ser tida como meio idôneo se alcançar o fim a que se destina: dar, ao interessado, inequívoca ciência da decisão ou da efetivação de diligências (Lei n.9.784/199, art. 26). 5. Nas hipóteses em que a tentativa de entrega da notificação pelos Correios é frustrada, cabe à Administração buscar outro meio idôneo para provar, nos autos, "a certeza da ciência do interessado", reservando-se a publicação oficial, nos termos da lei, tão somente às hipóteses de: a) interessado indeterminado; b) interessado desconhecido; ou c) interessado com domicílio indefinido. 6. Ordem concedida para para anular a notificação feita por edital, bem como todos os atos que lhe seguiram nos autos do processo administrativo correspondente. (MS 27.227/DF, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 27/10/2021, DJe 09/11/2021) Na hipótese, assim destacou a Autoridade coatora, nas informações (e-STJ fl.fl. 135): A Noficação nº 1349/2020/DGTI/CCP/CGP/CA foi encaminhada ao interessado, no endereço Rua Vasco da Gama, nº 956 - Bairro Vasco da Gama/ Recife - PE/ CEP: 52081-005, sendo, contudo devolvida ao remetente, conforme protocolo dos Correios. Posteriormente a Comissão de Anistia reiterou o comunicado por meio da Notificação nº 2304/2020/DGTI/CCP/CGP/CA, enviada ao destinatário em 18/05/2020 no endereço mencionado, que, inclusive é o constante do instrumento de procuração e do contrato de prestação de serviços advocatícios juntado aos autos. Porém, novamente a notificação foi devolvida ao remetente, razão pela qual foi providenciada a notificação por edital O prazo para apresentação da defesa acabou por transcorreu in albis e os autos foram encaminhados à Ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos para decisão. Em tal circunstância, não há espaço para a arguição de nulidade da notificação, porquanto ausente o prejuízo a um direito de defesa que sequer foi exercido. Ademais, a Primeira Seção também concluiu que não é razoável que, para o processamento, instrução e análise dos requerimentos das anistias seja competente a Comissão de Anistia (por meio do seu Conselho - órgão colegiado) e para a revisão/anulação seja possível apenas a elaboração de Nota Técnica por um único assessor especial da autoridade indicada como coatora, que nem sequer integra a Comissão de Anistia nem a Força-Tarefa do Ministério da MFDH. A ementa sintetizou o julgado com o seguinte teor: ADMINISTRATIVO. ANISTIA POLÍTICA. CABOS DA AERONÁUTICA. ANULAÇÃO. DEVIDO PROCESSO LEGAL. VIOLAÇÃO.NOTIFICAÇÃO. NULIDADE. PARECER FINAL DA COMISSÃO PROCESSANTE. NECESSIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA.PROVA. AUSÊNCIA. 1. A Primeira Seção do STJ, realinhando seu posicionamento, entendeu que é nulo o ato notificatório inicialmente encaminhado ao anistiado político - que o informa sobre a abertura de processo administrativo de revisão de sua anistia -, quando não há a especificação dos fatos e dos fundamentos contra os quais deveria a parte interessada se defender (art. 26, § 1º, VI, da Lei n. 9.784/1999). 2. O entendimento externado pelo STF nos autos do RE 817.338 DF, sob regime de repercussão geral, faculta à Administração a revisão dos atos concessivos de anistia política a cabos da Aeronáutica, sendo certo, porém, que ao exercício desse direito foram impostos limites de índole constitucional, cuja inobservância acarreta a nulidade do procedimento de revisão. 3. Hipótese em que o ato notificatório inicial não atendeu aos ditames próprios dos arts. 26 e 27 da Lei n. 9.784/1999, já que esses comandos disciplinam não só a forma mas também o conteúdo da comunicação, de modo que sua fiel observância não se aperfeiçoa sem a necessária, precisa e clara "indicação dos fatos e fundamentos legais pertinentes", nos termos do art. 26, § 1º, VI, da Lei do Processo Administrativo. 4. O art. 17 da Lei n. 10.559/2002, ao tratar da anulação das anistias, prevê que, caso seja comprovada a falsidade dos motivos que ensejaram a declaração da condição de anistiado político ou os benefícios e direitos assegurados por esta Lei, será o ato respectivo tornado nulo pelo Ministro de Estado competente, em procedimento em que se assegurará a plenitude do direito de defesa. 5. Nos processos de anulação de anistia deve ser aplicado o disposto no art. 12 da Lei n. 10.559/2002, que prevê que os requerimentos relacionados aos pedidos de anistia serão examinados pela Comissão de Anistia, a qual tem exatamente a finalidade de assessorar o Ministro de Estado em suas decisões. 6. Não se mostra razoável que, para o processamento, instrução e análise dos requerimentos das anistias seja competente a Comissão (por meio do seu Conselho - órgão colegiado) e para a revisão/anulação seja possível apenas a elaboração de Nota Técnica por um único assessor especial da autoridade indicada como coatora, que nem sequer integra a Comissão de Anistia nem a Força-Tarefa do Ministério da MFDH. 7. Não havendo elementos comprobatórios nos autos de negativa por parte da Administração de produção de provas, não há que se acolher a tese de cerceamento de defesa. 8. Mandado de segurança concedido para anular a Notificação n. 1.617/2020, bem como todos os atos posteriores, inclusive a Portaria n. 1.579, de 5 de junho de 2020. (MS 26.496/DF, do qual fui relator para acórdão, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 26/05/2021, DJe 01/07/2021) Ante o exposto, nos termos do art. 34, XIX, do RISTJ, CONCEDO A ORDEM para anular as Notificações n. 1.349/2020 e 2.304/2020, o Edital de Notificação n.9/2020, bem como todos os atos posteriores, inclusive a Portaria n. 582, de 18 de fevereiro de 2021. Fica PREJUDICADA a análise do agravo interno (e-STJ fls. 147/159). Sem honorários advocatícios, nos moldes do art. 25 da Lei n.12.016/2009 e da Súmula 105 do STJ. Intimem-se. Publique-se.