MS 32078 - DECISAO
Indefere-se a inicial por ausência de demonstração documental do direito líquido e certo exigido no mandado de segurança; alegações genéricas de nulidade do processo administrativo de revisão da anistia são insuficientes para concessão de tutela de urgência ou segurança, devendo observar-se a exigência probatória e...
Source-derived case information.
- Parties
- Impetrante: Espólio de Mausi Marquezeti, representado por sua inventariante e viúva IVENE DE ARAUJO MARQUEZETI; Impetrado: Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 March 2026
- Procedural Posture
- Mandado De Segurança / Decisão De Indeferimento Da Inicial; Liminar Prejudicada
- Outcome
- Indefiro a inicial; liminar prejudicada.
- Legal Topics
- Anistia Política, Revisão Administrativa, Autotutela Administrativa, Devido Processo Legal, Mandado De Segurança, Segurança Jurídica, Proteção À Pessoa Idosa, Tema 839/stf
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
Espólio de Mausi Marquezeti, representado por sua inventariante e viúva IVENE DE ARAUJO MARQUEZETI
Impetrante
Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania
Impetrado
Procedural Posture
Mandado De Segurança / Decisão De Indeferimento Da Inicial; Liminar Prejudicada
Legal Issues
- 1 anulação de portaria de anistia após revisão administrativa
- 2 necessidade de demonstração de direito líquido e certo em mandado de segurança
- 3 alegações genéricas de nulidade administrativa insuficientes
Ratio Decidendi
Indefere-se a inicial por ausência de demonstração documental do direito líquido e certo exigido no mandado de segurança; alegações genéricas de nulidade do processo administrativo de revisão da anistia são insuficientes para concessão de tutela de urgência ou segurança, devendo observar-se a exigência probatória e os precedentes da Primeira Seção do STJ.
Court Disposition
Indefiro a inicial; liminar prejudicada.
Orders
- Indeferimento da inicial
- Liminar prejudicada
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de mandado de segurança com pedido liminar impetrado por Espólio de Mausi Marquezeti, representado por sua inventariante e viúva IVENE DE ARAUJO MARQUEZETI, contra ato do Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania consubstanciado na Portaria 2.157, de 18/11/2025, que anulou a Portaria 435, de 28/3/2005, fundamentado nos arts. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) e 53 da Lei 9.784/1999, na Lei 10.559/2002 e na Instrução Normativa 2/2021 (fls. 10/11 e 110). O impetrante aponta a presença de vícios na sucessiva revisão administrativa do ato concessivo de anistia após longo lapso temporal, com ofensa à segurança jurídica e à confiança legítima (fls. 12/19 e 24/25). Narra que a Administração instaurou revisões em 2011 e 2022 com os mesmos fundamentos, apesar de não ter identificado irregularidade na primeira revisão (Portaria Interministerial 134/2011), configurando preclusão administrativa e perda de objeto por inércia (fls. 14/18 e 24). Alega a inaplicabilidade da Instrução Normativa 2/2021 ao caso, por se tratar de instrumento infralegal e vocacionado aos ex-cabos da Aeronáutica, além de não poder criar ou retirar direitos; afirma, ainda, que a anulação carece de prova inequívoca de má-fé do beneficiário e atinge prestação de natureza alimentar percebida há mais de 20 anos (fls. 14/16, 21/23 e 36/37). Sustenta violação aos princípios da dignidade da pessoa humana e da proteção integral à pessoa idosa, com corte imediato da renda e do acesso a saúde, e invoca o entendimento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 777/DF sobre a inconstitucionalidade de anulações tardias de anistia, bem como decisões judiciais que resguardam a coisa julgada e mitigam os efeitos do Tema 839 do Supremo Tribunal Federal (STF) (fls. 20/31). Requer a concessão da tutela liminar e, ao final, a declaração de nulidade da Portaria 2.157/2025 e o restabelecimento da Portaria 435/2005, com a consequente continuidade do pagamento da reparação econômica mensal, permanente e continuada e dos benefícios dela decorrentes, inclusive assistência médico-hospitalar (fls. 41/42). É o relatório. Trata-se de mandado de segurança em que a parte autora pretende o restabelecimento da anistia política concedida pela Portaria 435, de 28/3/2005, anulada após procedimento de revisão de anistias concedidas e que resultou na edição da Portaria 2.157, de 18/11/2025, ora impugnada. O mandado de segurança é instrumento processual que exige a demonstração de direito líquido e certo, não havendo espaço, em sua via estreita, para dilação probatória. Pois bem. No presente caso, a despeito de a impetrante ter indicado a ocorrência de vícios no processo administrativo de revisão, furtou-se do dever de demonstrar a ocorrência das ilegalidades, pois ausente nos autos qualquer demonstração documental a respeito de suas alegações. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já se manifestou quanto à necessidade de demonstração da ocorrência de violação ao direito líquido e certo do impetrante, sendo insuficientes as alegações genéricas de nulidade do ato que se pretende impugnar. Nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO. MANDADO DE SEGURANÇA. ANISTIA POLÍTICA. TEMA 839/STF. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO DEVIDO PROCESSO LEGAL. PROVIMENTO NEGADO. 1. Conforme consignado na decisão agravada, "trata-se de mandado de segurança com pedido de liminar impetrado por MARLI MORAES DESTRO contra ato praticado pelo Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, consubstanciado na Portaria 238 de 5/4/2024 (fl. 25), que determinou a anulação da portaria que havia reconhecido a condição de anistiado político ao falecido marido da impetrante". 2. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao analisar a questão da anulação de anistia de cabos da aeronáutica - exatamente a hipótese dos autos -, fixou a seguinte tese: "no exercício do seu poder de autotutela, poderá a Administração Pública rever os atos de concessão de anistia a cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria nº 1.104/1964, quando se comprovar a ausência de ato com motivação exclusivamente política, assegurando-se ao anistiado, em procedimento administrativo, o devido processo legal e a não devolução das verbas já recebidas" (Tema 839/STF). 3. No presente caso, a parte agravante, nas razões do writ e do agravo interno, se limita a trazer argumentações genéricas para sustentar a tese de que a revisão da concessão da anistia implica violação aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da proteção do idoso e da razoabilidade. Contudo, não demonstra a ocorrência de violação ao devido processo legal. 4. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já se manifestou quanto à necessidade de demonstração da ocorrência de violação ao direito líquido e certo da parte impetrante, sendo insuficientes as alegações genéricas de nulidade do ato que se pretende anular. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no MS n. 30.345/DF, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Seção, julgado em 1º/10/2024, DJe de 7/10/2024.) PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. AGRAVO INTERNO. ANISTIA. REVISÃO DE OFÍCIO. AUTOTUTELA. VIOLAÇÃO DE CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. DEVIDO PROCESSO LEGAL. NÃO OBSERVAÇÃO. JURISPRUDÊNCIA DA 1ª SEÇÃO DO STJ. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A Administração Pública pode (e deve) rever de ofício seus atos maculados de ilegalidade, conforme a Súm. n. 473/STF. Porém, quando esse ato administrativo favorece particulares, eventual revisão deve observar processo administrativo com respeito ao devido processo legal, por força expressa do art. 5º, LV, da CF/1988 ("aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes"). 2. Quanto aos procedimentos de revisão de anistia de militares instaurados pela Ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a Primeira Seção, quando do julgamento do MS n. 26.496/DF, formou maioria acompanhando o voto-vista do E. Min. Gurgel de Faria. Decidiu-se que as notificações encaminhadas aos administrados sob o início do procedimento são nulas por serem genéricas, uma vez que não apresentam razões que levaram a administração pública entender pelo início da revisão. A nulidade dos processos administrativos é devida, porque não é possível obrigar que os administrados realizem defesa "às cegas", sendo necessário que a intimação do interessado contenha a indicação dos fatos e fundamentos legais (art. 26, § 1º, VI, da Lei n. 9.784/1999). 3. Além disso, declarou-se que o processo de revisão de anistia não pode cercear a defesa dos particulares. Porém, não basta eventual alegação genérica de nulidade na inicial do mandado de segurança. Necessária a demonstração de abuso ilegal na condução do processo administrativo de modo que cabe ao impetrante indicar que houve pedido específico da defesa de produção de provas indeferido pela administração pública. 4. Ademais, também houve declaração da impossibilidade de simples Nota Técnica elaborada por um único assessor especial da Ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos - não integrante de Comissão de Anistia ou de Força-Tarefa do junto a esse ministério -justificar a revisão de anistia concedida após exame um órgão colegiado (Conselho da Comissão de Anistia). 5. Agravo interno não provido. (AgInt nos EDcl no MS n. 26.352/DF, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 16/8/2022, DJe de 19/8/2022 - sem destaque no original.) ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. SERVIDOR PÚBLICO. PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. DEMISSÃO. PARCIALIDADE DA COMISSÃO PROCESSANTE. INEXISTÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. USO DE PROVA EMPRESTADA DA ESFERA CRIMINAL. POSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS POR AUSÊNCIA DE CONDENAÇÃO NA ESFERA PENAL. INOCORRÊNCIA. INDEPENDÊNCIA DAS INSTÂNCIAS CÍVEL, PENAL E ADMINISTRATIVA. PROPORCIONALIDADE DA PENA APLICADA. SEGURANÇA DENEGADA. 1. Consta dos documentos acostados que o impetrante foi submetido a processo administrativo disciplinar, que resultou na demissão, mediante Portaria Ministerial n. 589, de 1º/4/2014, tendo como fundamento a prática das infrações disciplinares previstas nos arts. 117, inciso IX (valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública), e 132, incisos IV (improbidade administrativa), XI (corrupção) e XIII (transgressão dos incisos IX a XVI do art. 117), da Lei n. 8.112/90, de forma a sujeitá-lo à penalidade de demissão, por força do disposto no art. 132, caput, e incisos IV, XI e XIII, da referida Lei. 2. O impetrante sustenta que houve parcialidade e ofensa ao princípio da impessoalidade, pois o PAD que resultou na sua demissão teve a participação de servidores que atuaram em PAD anterior. Ficou demonstrado que não se tratou de processos administrativos que envolveram os mesmos fatos, mas da apuração de condutas distintas, embora supostamente praticadas pelo mesmo processado. O presente tema é recorrente neste Colendo Tribunal Superior, entendendo-se que, nos casos não constantes dos artigos 18 a 21 da Lei n. 9.784/99 (que trata das hipóteses de suspeição ou impedimento), deve o impetrante apresentar dados objetivos que revelem a quebra da isenção por parte da comissão processante; até porque não se pode olvidar que a atuação da Administração Pública está amparada pela presunção juris tantum de legalidade, legitimidade e veracidade. 3. Não há impedimento da utilização da prova emprestada de feito criminal no processo administrativo disciplinar, desde que regularmente autorizada, o que se deu na espécie. 4. No que diz respeito às alegadas ofensas a princípios constitucionais na escolha da penalidade de demissão, tais como os da dignidade da pessoa humana, solidariedade, segurança jurídica e proporcionalidade, deve-se salientar que o controle jurisdicional no processo administrativo disciplinar não pode implicar invasão à independência/separação dos Poderes e, portanto, centra-se na averiguação da legalidade das medidas adotadas e conformidade em geral com o direito. A aplicação dos princípios constitucionais como fundamento para anular (ou até permutar) determinada punição administrativa, infligida após regular procedimento, exige cautela redobrada do Judiciário, sob pena de transformação em instância revisora do mérito administrativo, passando a agir como se administrador público fosse, o que somente cabe aos investidos da função administrativa estatal. 5. O impetrante não realizou prova pré-constituída que tenha havido cerceamento de defesa ou violação ao contraditório, limitando-se a alegações genéricas sobre a injustiça da decisão proferida no processo administrativo disciplinar, insuscetíveis de acolhimento na via mandamental. 6. Segurança denegada. (MS n. 21.002/DF, relator Ministro Og Fernandes, Primeira Seção, julgado em 24/6/2015, DJe de 1º/7/2015 - sem destaque no original.) Ante o exposto, indefiro a inicial. Liminar prejudicada. Sem honorários advocatícios nos moldes do art. 25 da Lei 12.016/2009 e da Súmula 105 do STJ. Publique-se. Intimem-se. EMENTA