MS 27345 - DECISAO
Concedeu-se a liminar porque a notificação para defesa foi genérica e não especificou fatos e fundamentos, comprometendo o contraditório e a ampla defesa (violação de art.26 da Lei 9.784/99 e art.5º, LV, CF), sendo esse entendimento respaldado pela jurisprudência da Primeira Seção do STJ e pela tese do STF no Tema...
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- Parties
- Impetrante: MARIA LUIZA DA SILVA SANTOS; Autoridade Coatora: MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 June 2021
- Procedural Posture
- Mandado De Segurança / Liminar Deferida
- Outcome
- medida liminar deferida para restabelecer o pagamento da prestação mensal, permanente e continuada e do plano de saúde da impetrante até o julgamento final do mandado de segurança.
- Legal Topics
- Anistia Política, Revisão Administrativa, Devido Processo Legal, Contraditório E Ampla Defesa, Notificação Genérica
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Parties
MARIA LUIZA DA SILVA SANTOS
Impetrante
MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Mandado De Segurança / Liminar Deferida
Legal Issues
- 1 irregularidade da notificação para defesa (vício de forma)
- 2 nulidade de ato administrativo por violação do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa
- 3 aplicação do Tema 839 do STF sobre revisão de anistias
Ratio Decidendi
Concedeu-se a liminar porque a notificação para defesa foi genérica e não especificou fatos e fundamentos, comprometendo o contraditório e a ampla defesa (violação de art.26 da Lei 9.784/99 e art.5º, LV, CF), sendo esse entendimento respaldado pela jurisprudência da Primeira Seção do STJ e pela tese do STF no Tema 839; assim, restabeleceu-se o pagamento da prestação mensal e o plano de saúde até o julgamento final.
Court Disposition
medida liminar deferida para restabelecer o pagamento da prestação mensal, permanente e continuada e do plano de saúde da impetrante até o julgamento final do mandado de segurança.
Orders
- Restabelecer o pagamento da prestação mensal, permanente e continuada da impetrante e o plano de saúde correspondente até o julgamento final do mandado de segurança.
- Comunicar-se à autoridade coatora e à União com urgência.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de Mandado de Segurança, com pedido de liminar, impetrado por MARIA LUIZA DA SILVA SANTOS, indicando como autoridade coatora a MINISTRA DE ESTADO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS, para que seja restabelecida a condição de anistiado político do seu falecido marido, concedida pela Portaria 2.222, de 09/12/2003, que foi anulada pela Portaria 3.271,de 18/12/2020 (fl. 36e). Sustenta aimpetrante, na inicial, que "oato administrativo de intimação para defesa possui conteúdo abstrato, pois não traz qualquer elemento de acusação, prova, fundamentação ou motivação que pudesse afastar a condição de anistiado político do falecido marido da Impetrante. A Impetrante não foi notificada sobre qualquer fato concreto que houvesse sido levantado contra a condição de anistiado de seu falecido marido. Enfim, a Impetrante foi simplesmente notificada para apresentar defesa, sem saber exatamente de quê deveria se defender"; bem como que, "no curso do processo, a Impetrante foi cerceada em seu direito de defesa, uma vez que foi negada a produção de provas"(fls. 4/16e). Requer, por fim, "seja concedida medida liminar, em caráter de urgência, independentemente de informações da Autoridade Impetrada, com o objetivo de garantir a continuidade do pagamento da prestação mensal, permanente e continuada da Impetrante e do plano de saúde até final julgamento do presente mandado de segurança"; e, no mérito, seja "concedida a segurança para anular o ato coator, por vícios ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, a fim degarantir a continuidade no recebimento da prestação mensal, permanente e continuada da Impetrante, além dos demais benefícios e efeitos jurídicos dela decorrentes" (fls. 17/18e). O pedido de justiça gratuita foi deferido pelo Presidente desta Corte, a fl. 69e. A fls. 74/79e, o pedido de concessão de medida liminar foi indeferido. Informações da autoridade impetrada, a fls. 89/107e, alegandoa ausência de direito líquido e certo e a regularidade da Portaria 3.076/2019, da notificação encaminhada ao impetrante e da portaria de anulação da anistia. Parecer do MPF, a fls. 140/147e, pela denegação da segurança. A União, a fls. 82/83e, manifesta o seu interesse na causa. Agravo interno interposto pelaimpetrante, a fls. 109/122e, contra o indeferimento da liminar. Impugnação pela parte agravada, a fls. 130/139e. A fls. 123/124e, aimpetrante apresenta pedido de reconsideração da decisão de fls. 74/79e, pugnando pela concessão da medida liminar, mormente ante o entendimento da Primeira Seção, firmado em 14/04/2021, pela concessão da ordem em hipóteses semelhantes à presente. Embora o processo esteja pronto para julgamento em Colegiado, a próxima sessão da Primeira Seção somente ocorrerá no final do mês de agosto de 2021, razão pela qual, ante a alegada urgência, passo, novamente, ao exame da liminar requerida, mormente porque assiste razão à parte agravante. Como cediço, nos termos do art. 1º da Lei 12.016/2009 e em conformidade com o art. 5º, LXIX, da Constituição Federal, "conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça". Nesses termos, a impetração do mandamus deve-se apoiar em incontroverso direito líquido e certo, comprovado desde o momento da impetração. De igual modo, nos termos do art. 7º, III, da Lei 12.016/2009, a concessão de medida liminar em sede de mandado de segurança requer a presença, concomitante, de dois pressupostos autorizadores: a) a relevância dos argumentos da impetração; b) que o ato impugnado possa resultar a ineficácia da ordem judicial, caso seja concedida ao final, havendo o risco de dano irreparável ou de difícil reparação. Na hipótese, o Supremo Tribunal Federal, apreciando o Tema 839 (RE 817.338 RG-DF, Rel. Ministro DIAS TOFFOLI, DJe de 31/07/2020), fixou, sob o regime de repercussão geral, a seguinte tese: "No exercício do seu poder de autotutela, poderá a Administração Pública rever os atos de concessão de anistia a cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria 1.104/1964, quando se comprovar a ausência de ato com motivação exclusivamente política, assegurando-se ao anistiado, em procedimento administrativo, o devido processo legal e a não devolução das verbas já recebidas". O Relator, por pertinente, fez constar expressamente de seu voto que: "Verifico, assim, que a matéria em questão está inserida na ordem constitucional, sendo, por tal razão, insuscetível de decadência administrativa. De outro lado, o Supremo Tribunal Federal também já assentou em julgados que a Portaria nº 1.104/64, por si, não constitui ato de exceção, sendo necessária a comprovação, caso a caso, da ocorrência de motivação político-ideológica para o ato de exclusão das Forças Armadas e a consequente concessão de anistia política.(..) Desse modo, reconheço o poder-dever da administração pública de revisitar seus atos, em procedimento administrativo, com a observância do devido processo legal, como uma manifestação da obrigação de velar pela supremacia constitucional, princípio propulsor do Estado Democrático de Direito.(..) Por fim, registro que a revisão das anistias no caso em exame se refere exclusivamente àquelas concedidas aos cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria nº 1.104 editada pelo Ministro de Estado da Aeronáutica em 12 de outubro de 1964". Com efeito, consoante entendimento consolidado, sob o rito de repercussão geral, pelo STF (Tema 138), "os atos administrativos que repercutem no campo dos interesses individuais dependem de processo administrativo prévio - no qual hão de ser observados os princípios do devido processo, do contraditório e da ampla defesa - para serem anulados" (STJ, AgInt no REsp 1.703.826/TO, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, SEGUNDA TURMA, DJe de 04/05/2020). Diante desse cenário, no tocante ao fundamento relativo à irregularidade da Notificação para defesa, encaminhada àimpetrante, não obstante em um primeiro momento a Primeira Seção tenha denegado a segurança, em situações semelhantes - STJ, MS 25.837/DF e MS 25.848/DF, Rel. p/ acórdão Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 29/03/2021 e DJe de 30/03/2021, respectivamente -, esta Corte, de fato, em sessão realizada em 14/04/2021, reformulou o posicionamento anterior, para, por maioria de votos - oportunidade em que fiquei vencida -, conceder a segurança, na linha do voto do Ministro SÉRGIO KUKINA, ao entendimento de que "na espécie, a notificação endereçada ao anistiado não especificou, como de lei (art. 26, § 1º, VI, da Lei n. 9.784/99), os fatos e fundamentos de que deveria o impetrante se defender, ante a anunciada possibilidade de perder seu estatuto de anistiado político, daí resultando inequívoco vício de forma", restando também comprometida "a amplitude do exercício do contraditório e da ampla defesa pelo autor (art. 5º, LV, da CF), notadamente porque o alto grau de generalidade e de abstração de sua notificação lhe subtraiu, pelo desconhecimento dos fatos e fundamentos ensejadores do procedimento revisional, o acesso às ferramentas de defesa constitucionalmente postas à sua disposição". Confira-se a ementa do acórdão: "ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL ADMINISTRATIVO. PROCESSO DE REVISÃO DE ANISTIA DE MILITAR. CABO DA AERONÁUTICA. MANDADO DE SEGURANÇA. ENUNCIADO APROVADO PELO STF EM REGIME DE REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 839. APLICAÇÃO IMEDIATA. DESNECESSIDADE DE PUBLICAÇÃO. NOTIFICAÇÃO GENÉRICA DO ANISTIADO. VÍCIO DE FORMA. PREJUÍZO AO EXERCÍCIO DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. NULIDADE RECONHECIDA. ORDEM CONCEDIDA. RESTABELECIMENTO DA CONDIÇÃO DE ANISTIADO. 1. A ausência de publicação do respectivo acórdão não impede a imediata aplicação de enunciado aprovado pelo STF, em regime de repercussão geral. Nesse sentido: RE 1.215.332 AgR, Rel. Ministro LUÍS ROBERTO BARROSO, 1ª Turma, DJe 14/12/2020 e RE 1.129.931 AgR, Rel. Ministro GILMAR MENDES, 2ª Turma, DJe 27/08/2018. 2. Caso concreto em que se discute a validade de ato administrativo ministerial que determinou a anulação de anterior portaria, por meio da qual se havia declarado a condição de anistiado político do ora impetrante, ex-cabo da Aeronáutica. 3. Ao apreciar o Tema 839, com repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal aprovou o seguinte enunciado: "No exercício do seu poder de autotutela, poderá a Administração Pública rever os atos de concessão de anistia a cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria nº 1.104/1964, quando se comprovar a ausência de ato com motivação exclusivamente política, assegurando-se ao anistiado, em procedimento administrativo, o devido processo legal e a não devolução das verbas já recebidas". 4. Como explica CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE MELLO, "Nos procedimentos administrativos, os atos previstos como anteriores são condições indispensáveis à produção dos subsequentes, de tal modo que estes últimos não podem validamente ser expedidos sem antes completar-se a fase precedente. Além disto, o vício jurídico de um ato anterior contamina o posterior, na medida em que haja entre ambos um relacionamento lógico incindível" (Curso de direito administrativo. 30 ed. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 453). 5. Na espécie, a notificação endereçada ao anistiado não especificou, como de lei (art. 26, § 1º, VI, da Lei n. 9.784/99), os fatos e fundamentos de que deveria o impetrante se defender, ante a anunciada possibilidade de perder seu estatuto de anistiado político, daí resultando inequívoco vício de forma. 6. Em indissociável desdobramento, restou também comprometida a amplitude do exercício do contraditório e da ampla defesa pelo autor (art. 5º, LV, da CF), notadamente porque o alto grau de generalidade e de abstração de sua notificação lhe subtraiu, pelo desconhecimento dos fatos e fundamentos ensejadores do procedimento revisional, o acesso às ferramentas de defesa constitucionalmente postas à sua disposição. Assiste-lhe razão, pois, quando diz ter sido chamado a fazer uma defesa "às cegas". Não poderia ter se defendido eficazmente do oculto, do encoberto, do que não se deu a conhecer. 7. A tal propósito, conforme ensinamento de THIAGO MARRARA, "O contraditório é a premissa da defesa, daí porque andam inexoravelmente juntos. Não há reação ao desconhecido; não há, pois, defesa possível sem conhecimento do objeto processual, suas causas, elementos probatórios nem dos motivos a sustentar as decisões liminares ou finais. O contraditório enseja a divulgação, ativa ou a pedido, dos elementos que estimulam, inspiram e motivam as decisões, garantindo-se aos sujeitos por ela potencialmente afetados a faculdade de reações formais. Essa divulgação há de ser garantida, em situação extrema, mesmo em prejuízo do sigilo ou da restrição de acesso a informações sensíveis. Não por outra razão, a Lei de Acesso à Informação adequadamente prescreve que: "não poderá ser negado acesso à informação necessária à tutela judicial ou administrativa de direitos fundamentais" (art. 21, caput)" (Princípios do Processo Administrativo. In Processo administrativo brasileiro - estudos em homenagem aos 20 anos da lei federal de processo administrativo. Belo Horizonte: Fórum, 2020, p. 89-90). 8. Ordem concedida, com o pleno e imediato restabelecimento do estatuto de anistiado político do ora impetrante" (STJ, MS 26.323/DF, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 25/05/2021). Sendo assim, quanto à irregularidade da Notificação para defesa, encaminhada àimpetrante (fl. 29e) - ainda que em juízo perfunctório -, verifica-se, por si só, a relevância dos argumentos da impetração, bem como a presença de risco de dano irreparável ou de difícil reparação, necessários à concessão da medida liminar. Ante o exposto,na linha do entendimento da Primeira Seção e ressalvando o meu posicionamento no tema, em juízo de retratação, reconsidero a decisão de fls. 74/79e e defiro a medida liminar, para restabelecer o pagamento da prestação mensal, permanente e continuada da parte impetrante, bem como o plano de saúde correspondente, até o julgamento final do presente mandamus. Comunique-se à autoridade coatora e à União, com a urgência que o caso requer. Dê-se ciência ao MPF. I.