AREsp 2622776 - DECISAO
O Decreto nº 11.321/2022, que reduziria as alíquotas do AFRMM, não chegou a produzir efeitos concretos aplicáveis a quaisquer situações concretas (estando plenamente vigente apenas em dia feriado e revogado em 02/01/2023), e o contribuinte não comprovou ocorrência do fato gerador em 01/01/2023; assim, a revogação...
Source-derived case information.
- Parties
- Impetrante: HNK BR BEBIDAS LTDA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 October 2024
- Procedural Posture
- Mandado De Segurança / Agravo Interposto Contra Decisão Que Inadmitiu Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial
- Legal Topics
- Anterioridade Nonagesimal, AFRMM, Revogação De Decreto, Efeitos Temporais De Norma Tributária
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
HNK BR BEBIDAS LTDA
Impetrante
Procedural Posture
Mandado De Segurança / Agravo Interposto Contra Decisão Que Inadmitiu Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se o Decreto nº 11.374/2023 está sujeito à anterioridade nonagesimal
- 2 Se o Decreto nº 11.321/2022 chegou a produzir efeitos concretos antes de ser revogado
- 3 Se a revogação do Decreto nº 11.321/2022 configura majoração tributária
Ratio Decidendi
O Decreto nº 11.321/2022, que reduziria as alíquotas do AFRMM, não chegou a produzir efeitos concretos aplicáveis a quaisquer situações concretas (estando plenamente vigente apenas em dia feriado e revogado em 02/01/2023), e o contribuinte não comprovou ocorrência do fato gerador em 01/01/2023; assim, a revogação pelo Decreto nº 11.374/2023 não constituiu majoração tributária sujeita à anterioridade nonagesimal, razão pela qual o recurso especial não foi conhecido por usurpação de competência do STF sobre matéria constitucional.
Court Disposition
Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial
Orders
- Conheço do agravo para não conhecer o recurso especial
- Sem arbitramento de honorários recursais
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto da decisão que inadmitiu o recurso especial no qual HNK BR BEBIDAS LTDA se insurgira, com fundamento no art. 105, inciso III, alíneas a e c, da Constituição Federal, contra o acórdão do TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO assim ementado (fls. 242/243). APELAÇÃO CÍVEL. MANDADO DE SEGURANÇA. AFRMM. DECRETO Nº 11.374/23. REVOGAÇÃO DO DECRETO Nº 11.321/22, QUE HAVIA CONCEDIDO DESCONTO DE CINQUENTA POR CENTO PARA AS ALÍQUOTAS. INEXISTÊNCIA DE MAJORAÇÃO DE TRIBUTOS. DECRETO Nº 11.321/22 NÃO CHEGOU A PRODUZIR EFEITOS CONCRETOS. ANTERIORIDADE NONAGESIMAL. INAPLICABILIDADE. O IMPETRANTE TAMBÉM NÃO COMPROVA A OCORRÊNCIA DO FATOR GERADOR EM 01/01/2023. 1. Trata-se de recurso de apelação interposto por HNK BR BEBIDAS LTDA (Evento 35) em face de sentença proferida pelo juízo da 29ª Vara Federal do Rio de Janeiro - Seção Judiciária do Rio de Janeiro, que denegou a segurança, a qual objetivava pagar o AFRMM à alíquota de 4% no ano calendário de 2023, postulando a observância do princípio da anterioridade nonagesimal pelo Decreto nº 11.374/23. 2. Cinge-se a controvérsia em aferir se o Decreto nº 11.374/2023 se sujeita ou não à anterioridade nonagesimal. 3. Desde 2022,em razão da Lei 14.301/2022 que alterou a Lei nº 10.893/2004, as alíquotas do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), calculado sobre a remuneração do transporte aquaviário, eram de 8% ou 40%, a depender da navegação. 4. Em 30/12/2022, foi publicado o Decreto nº 11.321/2022 que, alterando o art. 6º da Lei nº 10.893/2004, estabeleceu desconto de cinquenta por cento para as alíquotas do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante, o que ocasionaria em alíquotas de 4% ou 20% 5. O art. 2º do referido decreto expressamente previu que este passaria a produzir efeitos apenas a partir de 01/01/2023. 5. Ocorre que, em 02/01/2023, foi publicado o Decreto nº 11.374/2023, que revogou o Decreto nº 11.321/2022, restabelecendo as alíquotas de 8 e 40%., prevendo, ainda, em seu art. 4º, que este entrava em vigor na data da sua publicação. 6. Questão semelhante, acerca dos efeitos do Decreto 11.374/2023 em relação a contribuição para o PIS/Cofins, foi submetida ao Supremo Tribunal Federal através da ADI nº 7.342 e da ADC nº 84. Nesta, foi deferida, monocraticamente, medida cautelar, ad referendum do Plenário, "para suspender a eficácia das decisões judiciais que, de forma expressa ou tácita, tenham afastado a aplicação do Decreto 11.374/2023 e, assim, possibilitar o recolhimento da contribuição para o PIS/Cofins pelas alíquotas reduzidas de 0,33% e 2%, respectivamente, até o exame de mérito desta ação." Na sessão virtual finalizada em 08/05/2023, o Plenário do Supremo Tribunal Federal referendou, por maioria, a concessão da referida medida cautelar. 7. O único dia em que o Decreto nº 11.321/22 estava plenamente vigente e eficaz, era feriado nacional, nos termos do art. 1º da Lei nº 662/1949. 8. O fato gerador da AFRMM é a entrada da mercadoria no porto de descarga. Portanto, ainda que se considere, para fins de aplicação da anterioridade, a necessidade de se observar a situação material geradora da obrigação tributária, independentemente do seu aspecto temporal, o fato é que o contribuinte, em sede mandamental, não comprova ter ocorrido o fato gerador no momento em que o Decreto nº 11.321/22 estava, em tese, apto a gerar efeitos (01/01/2023). 9. Assim, considerando que o Decreto nº 11.321/22 foi publicado em 30.12.2022 e revogado em 02.01.2023, ou seja, no primeiro dia útil subsequente, não há que se falar em elemento surpresa a justificar a aplicação do princípio da anterioridade nonagesimal. Ademais, o contribuinte também não comprova a ocorrência de fato gerador no único dia em que o Decreto nº 11.321/22 estava plenamente vigente e eficaz , dia 01/01/2023. 10. Apelação desprovida. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (fls. 282/288). Nas razões de seu recurso especial, a parte recorrente, além de divergência jurisprudencial, alega violação dos arts. 1.013, § 3º, e 1.023 do Código de Processo Civil (CPC) e 100, I, e 103, I, do Código Tributário Nacional (CTN). Sustenta, em suma, que a pretensão de restabelecer a alíquota de 8% do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) está sujeita ao princípio da anterioridade prevista nos arts. 149 e 150 da Constituição Federal, pois trata de majoração de tributo, logo não pode ser cobrado no mesmo exercício financeiro em que majorado. Todavia, o acórdão julgou a aplicação do princípio da anterioridade nonagesimal do art. 195, § 6º, da Constituição Federal, que se aplica especificamente às contribuições sociais que incidem sobre a folha de salários. Dessa forma, defende que "a revogação do do Decreto 11.321/2022 (que havia reduzido em 50% as alíquotas da carga tributária incidente sobre o AFRMM a partir de 1 de janeiro de 2023) pelo Decreto 11.374/2023 só deve ser eficaz a partir de 1º de janeiro de 2024, como preceituam os artigos 149 e 150, III, "b" e "c" da Constituição Federal" (fls. 314). Requer o provimento do recurso especial para que lhe seja assegurado o direito de recolher o AFRMM com base na alíquota de 4% durante o ano de 2023, ou que seja reconhecida a nulidade do acórdão recorrido por violação dos arts. 1.013, § 3º, e 1.023 do CPC. A parte adversa apresentou contrarrazões (fls. 362/375). É o relatório. A decisão de admissibilidade foi devidamente refutada na petição de agravo e, por isso, passo ao exame do recurso especial. Em seus exatos termos, o acórdão recorrido está assim fundamentado (fls. 239/240): .. cinge-se a controvérsia em aferir se o Decreto nº 11.374/2023 se sujeita ou não à anterioridade nonagesimal. Enquanto o juízo a quo entendeu pela não incidência de tal anterioridade, afirmando para tanto que o decreto revogado, que reduzira as alíquotas, não chegou efetivamente a produzir efeitos, as Apelantes defendem que o Decreto nº 11.322/2022 produziu efeitos, ainda que só por um dia, de modo que sua revogação implicou em majoração das aludidas contribuições, devendo-se respeitar o princípio da anterioridade nonagesimal. Pois bem. Desde 2022, em razão da Lei 14.301/2022 que alterou a Lei nº 10.893/2004, as alíquotas do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), calculado sobre a remuneração do transporte aquaviário, eram de 8% ou 40%, a depender da navegação. Todavia, em 30/12/2022, foi publicado o Decreto nº 11.321/2022 que, alterando o art. 6º da Lei nº 10.893/2004, estabeleceu desconto de cinquenta por cento para as alíquotas do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante, o que ocasionaria em alíquotas de 4% ou 20%. O art. 2º do referido decreto expressamente previu que este passaria a produzir efeitos apenas a partir de 01/01/2023. Ocorre que, em 02/01/2023, foi publicado o Decreto nº 11.374/2023, que revogou o Decreto nº 11.321/2022, restabelecendo as alíquotas de 8 e 40%, prevendo, em seu art. 4º, que este entrava em vigor na data da sua publicação. Diante desse cenário legislativo, surgiu a questão objeto da presente lide, qual seja, aferir se o Decreto nº 11.374/2023 implicou na majoração do AFRMM e, dessa forma, deve respeitar a anterioridade nonagesimal, conforme defendido pelas Apelantes. Inicialmente, cumpre destacar que questão semelhante, acerca dos efeitos do Decreto 11.374/2023 em relação a contribuição para o PIS/Cofins, foi submetida ao Supremo Tribunal Federal através da ADI nº 7.342 e da ADC nº 84. Nesta, foi deferida, monocraticamente, medida cautelar, ad referendum do Plenário, "para suspender a eficácia das decisões judiciais que, de forma expressa ou tácita, tenham afastado a aplicação do Decreto 11.374/2023 e, assim, possibilitar o recolhimento da contribuição para o PIS/Cofins pelas alíquotas reduzidas de 0,33% e 2%, respectivamente, até o exame de mérito desta ação." Na sessão virtual finalizada em 08/05/2023, o Plenário do Supremo Tribunal Federal referendou, por maioria, a concessão da referida medida cautelar. Embora ainda não haja manifestação definitiva da Suprema Corte quanto à questão mencionada, observa-se que o juízo a quo seguiu o entendimento de que não houve efetiva majoração com o advento do Decreto nº 11.374/2023, tendo em vista que as alíquotas reduzidas pelo Decreto nº 11.321/2022 não chegaram a ser efetivamente implementadas. Com efeito, se considerarmos apenas as datas, seria possível concluir, a princípio, pela incidência da regra prevista no art. 195, §6º, da CF/88, uma vez que o Decreto nº 11.374/23 somente foi publicado em 02/01/2023, ou seja, revogou o Decreto nº 11.321/22 quando este produzia efeitos desde o dia anterior, ou seja, 01/01/23. Ocorre que, apesar de tal ato normativo estar apto a produzir efeitos no dia 01/01/23, tais efeitos não chegaram a se concretizar. Isso porque o único dia em que o Decreto nº 11.321/22 estava plenamente vigente e eficaz, era feriado nacional, nos termos do art. 1º da Lei nº 662/1949. Nesse sentido, o juízo a quo consignou que "no mesmo dia 01/01/2023, já havia sido editado o Decreto nº 11.374/2022, revogando às alíquotas que haviam sido estabelecidas pelo Decreto nº 11.321/22." E que, em regra, "as publicações no DOU ocorrem apenas em dias úteis" , nos termos do art. 10, do Decreto nº 9.215/2017, que dispõe sobre publicação do Diário Oficial da União. A toda evidência, o fato gerador da AFRMM é a entrada da mercadoria no porto de descarga. Portanto, ainda que se considere, para fins de aplicação da anterioridade, a necessidade de se observar a situação material geradora da obrigação tributária, independentemente do seu aspecto temporal, o fato é que o contribuinte, em sede mandamental, não comprova ter ocorrido o fato gerador no momento em que o Decreto nº 11.321/22 estava, em tese, apto a gerar efeitos (01/01/2023). Sendo assim, é possível concluir que o Decreto nº 11.321/22 foi revogado antes de que pudesse ser efetivamente aplicado a qualquer situação concreta, de modo que não houve solução de continuidade quanto à aplicação das alíquotas estabelecidas pela redação do art. 6º da Lei nº 10.893/2004, razão pela qual o Decreto nº 11.374/23 não implicou na majoração de tributos, mantendo apenas a aplicação das alíquotas. Nesse passo, tendo em vista que o Decreto nº 11.321/22 não chegou efetivamente a produzir efeitos, não há que se falar em majoração de tributos pelo Decreto nº 11.374/23, razão pela qual não estaria sujeito à anterioridade nonagesimal, sendo legítima sua aplicabilidade imediata. Ressalte-se que o STF tem entendimento consolidado no sentido de que, não havendo solução de continuidade quanto às alíquotas aplicáveis, inexiste majoração de tributos a ensejar a aplicação da anterioridade. Nesse sentido: .. Apesar da questão ora discutida ser recente no mundo jurídico, inexistindo muitos precedentes abordando especificamente tal questão, é possível verificar a existência de julgados corroborando o entendimento quanto à inaplicabilidade da anterioridade nonagesimal ao Decreto nº 11.374/2023, conforme se infere do aresto abaixo colacionado: AGRAVO DE INSTRUMENTO. MANDADO DE SEGURANÇA. ALÍQUOTAS DA CONTRIBUIÇÃO AO PIS E DA COFINS SOBRE RECEITAS FINANCEIRAS. DECRETO Nº 11.322, DE 30-12-2022. DECRETO Nº 11.374, DE 01-01-2023. INEXISTÊNCIA DE MAJORAÇÃO DE CARGA TRIBUTÁRIA. PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE NONAGESIMAL. NÃO APLICAÇÃO. LIMINAR INDEVIDA. (TRF4, AG 5005549-48.2023.4.04.0000, Segunda Turma, Rel. Des. Fed. RÔMULO PIZZOLATTI, DJ 04/04/2023) Por fim, cumpre consignar que o princípio da anterioridade visa a assegurar a previsibilidade da carga tributária, resguardando o contribuinte de eventuais surpresas que possam comprometer seu planejamento, observando, assim, a segurança jurídica. No caso em tela, observa-se que, de fato, não houve o elemento surpresa ou quebra da previsibilidade capaz de prejudicar o planejamento dos contribuintes, tendo em vista que a sucessão dos atos normativos em questão se deu em um espaço de tempo ínfimo, no qual, conforme já exposto anteriormente, o Decreto nº 11.321/22 sequer chegou a produzir efeitos concretos. Assim, considerando que o Decreto nº 11.321/22 foi publicado em 30.12.2022 e revogado em 02.01.2023, ou seja, no primeiro dia útil subsequente, não há que se falar em elemento surpresa a justificar a aplicação do princípio da anterioridade nonagesimal. Ademais, o contribuinte também não comprova a ocorrência de fato gerador no único dia em que o Decreto nº 11.321/22 estava plenamente vigente e eficaz , dia 01/01/2023. Em síntese, tendo em vista que o Decreto nº 11.321/22 foi revogado antes de que pudesse ser efetivamente aplicado a qualquer situação concreta, de modo que não houve solução de continuidade quanto à aplicação das alíquotas estabelecidas pela redação original do art. 6º da Lei nº 10.893/2004, não há que se falar em majoração de tributos pelo Decreto nº 11.374/223, não sendo, portanto, aplicável a anterioridade nonagesimal, conforme pleiteado pela Apelante, devendo a sentença ser mantida. Do acima exposto, verifico que a solução alcançada pelo Tribunal de origem decorre de fundamento eminente constitucional, qual seja, a interpretação conferida ao princípio constitucional da anterioridade nonagesimal, tal como estampado na decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal na medida cautelar na ADC 84/DF. Dessa forma, não se pode conhecer do recurso especial no ponto, sob pena de usurpação da competência constitucional do STF. Cito, a propósito, julgados desta Corte com esse entendimento: AREsp 2.729.546, relator Ministro Teodoro Silva Santos, data da publicação 27/9/2024; AREsp 2.683.070, relator Ministro Herman Benjamin, data da publicação 10/9/2024; REsp 2.119.318, relator Ministro Benedito Gonçalves, data da publicação 5/9/2024; AREsp 2.676.274, relator Ministro Gurgel de Faria, data da publicação 3/9/2024; AREsp 2.715.713, relator Ministro Herman Benjamin, data da publicação 30/8/2024; AREsp 2.672.643, relator Ministro Gurgel de Faria, data da publicação 20/8/2024. Ante o exposto, conheço do agravo para não conhecer recurso especial. Sem arbitramento de honorários recursais, pois o recurso especial se origina de mandado de segurança. Publique-se. Intimem-se. EMENTA