AREsp 2482060 - DECISAO
O acórdão do TJSP foi reformado porque as condições contratuais analisadas se assemelham a contrato de depósito/serviço de guarda, sujeitando-se ao regime protetivo do CDC (arts. 2º e 3º), razão pela qual os autos devem retornar ao Tribunal de origem para reapreciação à luz do sistema do CDC.
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: CLÁUDIO LUIZ NOGUEIRA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 March 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão De Conhecimento E Provimento Do Agravo
- Outcome
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Aplicação Do CDC, Contrato De Locação De Box/depósito, Nulidade De Cláusulas Limitativas De Responsabilidade, Responsabilidade Por Perda De Bens Armazenados, Competência
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
CLÁUDIO LUIZ NOGUEIRA
Recorrente
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão De Conhecimento E Provimento Do Agravo
Legal Issues
- 1 aplicação do Código de Defesa do Consumidor ao contrato de locação de espaço (box) para depósito de bens móveis
- 2 validade ou nulidade de cláusulas contratuais que eximem a locadora da responsabilidade pela guarda e perda dos bens
- 3 responsabilidade objetiva da empresa contratada pela perda dos objetos armazenados
Ratio Decidendi
O acórdão do TJSP foi reformado porque as condições contratuais analisadas se assemelham a contrato de depósito/serviço de guarda, sujeitando-se ao regime protetivo do CDC (arts. 2º e 3º), razão pela qual os autos devem retornar ao Tribunal de origem para reapreciação à luz do sistema do CDC.
Court Disposition
Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
Orders
- Determinar o retorno dos autos ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para que aprecie novamente a demanda à luz do sistema protetivo do Código de Defesa do Consumidor
- Publique-se
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por CLÁUDIO LUIZ NOGUEIRA em face de decisão de inadmissibilidade de recurso especial, fundado no art. 105, III, "a" e "c", da Constituição, interposto em face do v. acórdão proferido pelo eg. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, assim ementado: "Ação declaratória de rescisão contratual e nulidade de cláusula contratual c/c indenização por danos materiais e morais. Sentença de procedência parcial. Apelações. O contrato juntado aos autos pelo autor diz respeito a "Contrato de Locação de Espaço ("Box") Temporário". Os pedidos postos na peça inicial guardam relação com contrato de locação. Esse o contrato que se busca rescindir, anular cláusulas e discutir responsabilidades. Matéria afeta à competência da Terceira Subseção de Direito Privado, composta pelas 25ª a 36ª Câmaras, nos termos da Resolução n. 623/2013 deste Tribunal. Recurso não conhecido, com determinação de redistribuição a uma das Câmaras competentes." (fl. 400) Sob a alegação de ofensa aos arts. II do artigo 494; inciso IV do artigo 994 e inciso IV do §1º do artigo 489, do CPC/15, 14, §1º, incisos I e II, 51, inciso I, e §1º, inciso II, do CDC, 327, 628, 629 e 630 do Código Civil, bem como de dissídio jurisprudencial, o recorrente sustenta (a) omissão do Tribunal de origem e (b) aplica-se o CDC ao "contrato de locação de espaço para depósito de bens móveis, armazenagem e guarda de objetos e documentos" (fl. 456), o que enseja a responsabilidade objetiva da empresa contratada pela perda dos objetos armazenados. Contrarrazões às fls. 486/501. É o relatório. Preliminarmente, não conheço da tese de ofensa aos arts. 489 e 1.022 do CPC/15, pois foi formulada de modo genérico - isto é, sem indicar quais questões teriam sido efetivamente omitidas pelo Tribunal de origem -, deficiência que atrai o óbice da Súmula n. 284/STF. O eg. TJSP rejeitou a tese de aplicação do CDC à espécie, por se tratar de "contrato de locação de espaço (box) temporário" (fl. 404) - contrato típico de locação -, validando, assim, as cláusulas do ajuste que isentam a locadora da responsabilidade pela guarda, conservação e segurança dos bens armazenados no box. O acórdão merece reforma. Trata-se, na origem, de ação de rescisão de contrato, cumulada com pedido de indenização, visando a declaração de nulidade de cláusulas limitativas da responsabilidade da locadora de boxes de armazenamento, em especial das que a isentam do dever de indenizar a perda das coisas armazenadas, após ocorrido incêndio nas suas instalações. As condições do ajuste sob exame se parecem muito com as do contrato de depósito celebrado com instituições financeiras, em que estas se comprometem a guardar, com segurança e sob vigilância, bens de seus clientes - nítida prestação de serviço, submetida, pois, às disposições do Código de Defesa do Consumidor, na forma dos arts. 2º e 3º do diploma normativo. Esta Corte já fixou, a propósito: RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. ART. 535 DO CPC/1973. VIOLAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. JULGAMENTO EXTRA PETITA. INEXISTÊNCIA. CONTRATO DE LOCAÇÃO DE COFRE. CLÁSULA LIMITATIVA DE USO. ABUSIVIDADE. INEXISTÊNCIA. ASSALTO. AGÊNCIA BANCÁRIA. ARROMBAMENTO E ESVAZIAMENTO DO COFRE. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. LIMITAÇÃO DO DEVER DE INDENIZAR. DANO MATERIAL. CONTEÚDO LICITAMENTE ARMAZENADO. JOIAS DE FAMÍLIA. VALOR SENTIMENTAL. DANOS MORAIS. CONFIGURAÇÃO. 1. Ação indenizatória promovida por consumidora para fins de reparação de danos decorrentes da perda da totalidade de joias de família armazenadas no interior de cofre locado em instituição financeira que foram subtraídas em assalto. 2. Acórdão recorrido que, reconhecendo a abusividade de cláusula contratual limitativa de uso (que vedava o depósito no interior do cofre locado de bens que em seu conjunto superassem o valor de R$ 15.000,00 - quinze mil reais), condenou o banco locador do cofre a indenizar a autora pela totalidade dos prejuízos materiais por ela suportados (oriundos da perda de joias de família de valor total estimado em R$ 600.000,00 - seiscentos mil reais) bem como por danos morais no valor de R$ 30.000,00 (trinta mil reais). 3. O contrato bancário de locação de cofre particular é espécie contratual mista que conjuga características tanto de um contrato de depósito quanto de um contrato de locação, qualificando-se, ainda, pela verdadeira prestação dos serviços de segurança e guarda oferecidos pela instituição financeira locadora, ficando o banco locador responsável pela guarda e vigilância do recipiente locado, respondendo por sua integridade e inviolabilidade. 4. A prática de crimes por terceiros que importem no arrombamento do cofre locado (roubo/furto) constitui hipótese de fortuito interno, revelando grave defeito na prestação do serviço bancário contratado, provocando para a instituição financeira o dever de indenizar seus consumidores pelos prejuízos eventualmente suportados. 5. Não se revela abusiva a cláusula meramente limitativa do uso do cofre locado, ou seja, aquela que apenas delimita quais são os objetos passíveis de serem depositados em seu interior pelo locatário e que, consequentemente, estariam resguardados pelas obrigações (indiretas) de guarda e proteção atribuídas ao banco locador. 6. A não observância, pelo consumidor, de regra contratual limitativa que o impedia de, sem prévia comunicação e contratação de seguro específico, depositar no interior do cofre bens de valor superior ao expressamente fixado no contrato exime o banco locador do dever de reparação por prejuízos materiais diretos relativos à perda dos bens excedentes ali indevidamente armazenados. 7. Na hipótese, a violação do cofre e a consequente perda da parte das joias de família da autora que estavam abrangidas pela proteção contratual e que foram reconhecidas pelas instâncias de primeiro grau como sendo dotadas de valor sentimental dão azo à indenização por danos morais. 8. Recurso especial parcialmente provido para julgar improcedente apenas o pedido de indenização por danos materiais. (REsp n. 1.704.204/SP, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 7/8/2018, DJe de 3/9/2018.) AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTRATO DE LOCAÇÃO DE COFRE. CLÁSULA LIMITATIVA DE USO. ABUSIVIDADE. INEXISTÊNCIA. ASSALTO. AGÊNCIA BANCÁRIA. ARROMBAMENTO E ESVAZIAMENTO DO COFRE. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. LIMITAÇÃO DO DEVER DE INDENIZAR. DANO MATERIAL. CONTEÚDO LICITAMENTE ARMAZENADO. JOIAS DE FAMÍLIA. VALOR SENTIMENTAL. DANOS MORAIS. CONFIGURAÇÃO. 1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 1973 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. O contrato bancário de locação de cofre particular é espécie contratual mista que conjuga características tanto de um contrato de depósito quanto de um contrato de locação, qualificando-se, ainda, pela verdadeira prestação dos serviços de segurança e guarda oferecidos pela instituição financeira locadora, ficando o banco locador responsável pela guarda e vigilância do recipiente locado, respondendo por sua integridade e inviolabilidade. 3. A prática de crimes por terceiros que importem no arrombamento do cofre locado (roubo/furto) constitui hipótese de fortuito interno, revelando grave defeito na prestação do serviço bancário contratado, provocando para a instituição financeira o dever de indenizar seus consumidores pelos prejuízos eventualmente suportados. 4. Não se revela abusiva a cláusula meramente limitativa do uso do cofre locado, ou seja, aquela que apenas delimita quais são os objetos passíveis de serem depositados em seu interior pelo locatário e que, consequentemente, estariam resguardados pelas obrigações (indiretas) de guarda e proteção atribuídas ao banco locador. 5. A não observância, pelo consumidor, de regra contratual limitativa que o impedia de, sem prévia comunicação e contratação de seguro específico, depositar no interior do cofre bens de valor superior ao expressamente fixado no contrato exime o banco locador do dever de reparação por prejuízos materiais diretos relativos à perda dos bens excedentes ali indevidamente armazenados. Precedente. 6. Agravo interno não provido. (AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.206.017/SP, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 25/11/2019, DJe de 27/11/2019.) AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. CONTRATO DE DEPÓSITO DE AÇÕES NA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. VENDA INDEVIDA. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL (ART. 27 DO CDC). IMPROVIMENTO. 1.- A ação de indenização movida pelo consumidor contra o prestador de serviço, por falha relativa à prestação do serviço, prescreve em cinco anos, ao teor do art. 27 do CDC. Precedentes. 2.- Agravo regimental improvido. (AgRg no REsp n. 1.436.833/RS, relator Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 27/5/2014, DJe de 9/6/2014.) Ante o exposto, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial a fim de determinar o retorno dos autos ao eg. TJSP para que aprecie novamente a demanda à luz do sistema protetivo do CDC. Publique-se. EMENTA