AREsp 2738198 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e não se conheceu do recurso especial porque, à luz da Lei 14.230/2021 e da jurisprudência do STJ, a configuração do art.10, VIII da Lei 8.429/1992 exige comprovação de dano patrimonial efetivo, ausente nos autos, não havendo base para condenação por improbidade fundada em dano presumido.
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 December 2024
- Procedural Posture
- Agravo / Decisão Sobre Admissibilidade De Recurso Especial
- Outcome
- CONHEÇO do agravo para NÃO CONHECER do recurso especial.
- Legal Topics
- Aplicabilidade Da Lei 14.230/2021 a Processos Em Curso, Prescrição (tema 1199 Do Stf), Dano Ao Erário, Dano in Re Ipsa Vs Dano Efetivo, Licitação, Art. 10, VIII, Da Lei 8.429/1992, Admissibilidade Do Recurso Especial
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Agravante
Procedural Posture
Agravo / Decisão Sobre Admissibilidade De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 aplicabilidade imediata das alterações da Lei 14.230/2021 a processos em curso
- 2 necessidade de comprovação de dano patrimonial efetivo para configuração do art.10, VIII da Lei 8.429/1992
- 3 incidência da presunção de dano (dano in re ipsa) após alteração legislativa
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e não se conheceu do recurso especial porque, à luz da Lei 14.230/2021 e da jurisprudência do STJ, a configuração do art.10, VIII da Lei 8.429/1992 exige comprovação de dano patrimonial efetivo, ausente nos autos, não havendo base para condenação por improbidade fundada em dano presumido.
Court Disposition
CONHEÇO do agravo para NÃO CONHECER do recurso especial.
Orders
- CONHEÇO do agravo para NÃO CONHECER do recurso especial.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL contra decisão que inadmitiu o recurso especial aviado em face de acórdão proferido pelo TRF-1ª assim ementado (e-STJ fls. 764/765): ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. LEI 14.230/21. APLICABILIDADE IMEDIATA. PRELIMINAR DE PRESCRIÇÃO AFASTADA. ART. 10, INCISO VIII, DA LEI 8.429/92. IRREGULARIDADE NO PROCESSO LICITATÓRIO. EFETIVO PREJUÍZO AO ERÁRIO NÃO COMPROVADO. ABSOLVIÇÃO. PRECEDENTES. APELO PROVIDO. 1. Durante a tramitação do processo foi publicada a Lei n. 14.230/2021, que introduziu consideráveis alterações na Lei nº 8.429/92, havendo decisão do STF (Tema 1.199) dirimindo conflitos relacionados à aplicabilidade dessas modificações aos processos em curso. 2. As mudanças na Lei nº 8.429/92, promovidas pela Lei nº 14.230/2021, aplicam-se ao caso concreto, eis que atingem as ações em curso, considerando que o artigo 1º, §4º determina expressamente a aplicação imediata de seus dispositivos em razão dos princípios constitucionais do direito administrativo sancionador, que comporta aplicação retroativa por beneficiar o réu, conforme determinado pelo Supremo Tribunal Federal na tese do Tema 1199, ao finalizar o julgamento do Recurso Extraordinário no Agravo nº 843989. 3. O STF decidiu na Repercussão Geral Tema 1199 da seguinte forma: o novo regime prescricional previsto na Lei 14.230/2021 é irretroativo, aplicando-se os novos marcos temporais a partir da publicação da lei. Término do mandato ocorrido em 31.12.2004, tendo sido ajuizada a ação em 31.12.2009, ou seja, antes do prazo prescricional previsto no inciso I, do art. 23, da Lei 8.429/92, vigente à época. Preliminar afastada. 4. No caso, a prática de ato de improbidade administrativa consubstanciado na conduta de aplicação irregular de recursos repassados pelo FUNDEB apontou, em síntese, que a carta convite nº 027/2004 não se referia à reforma de escolas para o ensino fundamental, mas à locação de veículos evidenciando irregularidade no processo licitatório. 5. As alterações promovidas pela Lei 14.230/21 impedem a condenação pelas condutas previstas no art. 10, VIII, da LIA, se não houver cabal comprovação de danos efetivos ao erário. É elemento material necessário para caracterizar ato ímprobo previsto no art. 10, inciso VIII, da Lei de Improbidade, a existência de efetiva lesão ao erário. Precedentes. 6. Em que pese esteja demonstrada a existência de irregularidades no processo no administrativo licitatório, não se extrai dos autos a comprovação da efetiva perda patrimonial, ante a ausência de elementos da prestação de serviços, seja na reforma de escola, seja na locação de veículos, deixando o MPF, a quem competia instruir o feito, de trazer aos autos elementos nesse sentido. 7. Apelo provido. Em suas razões, os recorrente aponta violação do art. 10, VIII, da Lei n. 8.429/1992, defendendo a inviabilidade da aplicação retroativa da Lei n. 14.230/2021. Inadmissão recursal (e-STJ fls. 812/813). Manifestação ministerial pelo desprovimento do recurso. (e-STJ fls. 872/883). Passo a decidir. Compulsando os autos, verifico que o acórdão recorrido não merece ajuste. Registro, inicialmente, que, examinando a mesma questão debatida na origem, antes das alterações operadas pela Lei n. 14/230/2021, apliquei a orientação até então pacífica no STJ, no sentido de que configurava ato de improbidade administrativa a dispensa indevida da licitação, porquanto, ness es casos, o dano seria presumido. Ocorre que a já referida Lei n. 14.230/2021, que alterou, profundamente, a Lei n. 8.429/1992, deu nova redação ao art. 10, VIII, assim dispondo: Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão dolosa, que enseje, efetiva e comprovadamente, perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta Lei, e notadamente: (..) VIII - frustrar a licitude de processo licitatório ou de processo seletivo para celebração de parcerias com entidades sem fins lucrativos, ou dispensá-los indevidamente, acarretando perda patrimonial efetiva. Desta forma, entendo não ser adequada a manutenção da afetação do presente Recurso Especial como representativo da controvérsia. Vê-se que a norma do art. 10, caput, da Lei de Improbidade passou a prever expressamente que "constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão dolosa, que enseje, efetiva e comprovadamente, perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta Lei, e notadamente (..)". Com isso, o dano presumido, para qualquer figura típica do art. 10 da LIA não pode mais dar suporte à condenação pela prática de ato ímprobo. Diante desse novo cenário, a Primeira Turma, por ocasião do julgamento do REsp 1.929.685/TO, que tive oportunidade de relatar, consolidou o entendimento de que os processos ainda em curso e que apresentem a supracitada controvérsia devem ser solucionados com a posição externada na nova lei, que reclama dano efetivo. Sem este (o dano efetivo), não há como reconhecer o ato ímprobo. A propósito, vale transcrever a ementa do julgado mencionado: ADMINISTRATIVO. ATO ÍMPROBO. DANO PRESUMIDO. ALTERAÇÃO LEGAL EXPRESSA. NECESSIDADE DE EFETIVO PREJUÍZO. MANUTENÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ. IMPOSSIBILIDADE. 1. Em sessão realizada em 22/2/2024, a Primeira Seção, por unanimidade, cancelou o Tema 1.096 do STJ, o qual fora outrora afetado para definir a questão jurídica referente a "definir se a conduta de frustrar a licitude de processo licitatório ou dispensá-lo indevidamente configura ato de improbidade que causa dano presumido ao erário (in re ipsa)". 2. Após o referido cancelamento, ressurgiu a necessidade desta Primeira Turma enfrentar a seguinte controvérsia jurídica: com a expressa necessidade (tratada nas alterações trazidas pela Lei 14.320/2021) de o prejuízo ser efetivo (não mais admitindo o presumido), como ficam os casos anteriores (à alteração legal), ainda em trâmite, em que a discussão é sobre a possibilidade de condenação por ato ímprobo em decorrência da presunção de dano 3. Os processos ainda em curso e que apresentem a supracitada controvérsia devem ser solucionados com a posição externada na nova lei, que reclama dano efetivo, pois sem este (o dano efetivo), não há como reconhecer o ato ímprobo. 4. Não se desconhece os limites impostos pelo STF, ao julgar o Tema 1199, a respeito das modificações benéficas trazidas pela Lei 14.320/2021 às ações de improbidade ajuizadas anteriormente, isto é, sabe-se que a orientação do Supremo é de que a extensão daquele tema se reservaria às hipóteses relacionadas à razão determinante do precedente, o qual não abrangeu a discussão ora em exame. 5. In casu, não se trata exatamente da discussão sobre a aplicação retroativa de alteração normativa benéfica, já que, anteriormente, não havia norma expressa prevendo a possibilidade do dano presumido, sendo este (o dano presumido) admitido após construção pretoriana, a partir da jurisprudência que se consolidara no STJ até então e que vinha sendo prolongadamente aplicada. 6. Esse entendimento (repita-se, fruto de construção jurisprudencial, e não decorrente de texto legal) não pode continuar balizando as decisões do STJ se o próprio legislador deixou expresso não ser cabível a condenação por ato ímprobo mediante a presunção da ocorrência de um dano, pois cabe ao Judiciário prestar a devida deferência à opção que seguramente foi a escolhida pelo legislador ordinário para dirimir essa questão. 7. Recurso especial desprovido. Embargos de declaração prejudicados. (REsp 1.929.685/TO, rel. Min. GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, j. 27/8/2024). Nesse sentido, considerando que o Tribunal de origem reconheceu que não ficou demonstrado o dano efetivo, afastando, em consequência, a tese do dano in re ipsa, é de se aplicar a Súmula 83 do STJ. Ante o exposto, CONHEÇO do agravo para NÃO CONHECER do recurso especial . Publique-se. Intimem-se. EMENTA