REsp 1938026 - DECISAO
O Recurso Especial foi provido porque o STJ entendeu que há uniformização jurisprudencial (PUIL 452/PE) no sentido de que o trabalhador da lavoura de cana-de-açúcar não pode ser equiparado à categoria profissional de agropecuária constante no item 2.2.1 do Decreto 53.831/1964 para fins de conversão ou contagem de...
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- Parties
- Recorrente: INSS; Recorrido: autor
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 June 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgado
- Outcome
- Recurso Especial provido para afastar a equiparação da categoria profissional de agropecuária à atividade exercida pelo autor
- Legal Topics
- Aposentadoria Especial, Tempo De Serviço Especial, Equiparação Por Categoria Profissional, Exposição a Ruído, Exposição a Agentes Químicos, EPI, DIB, Correção Monetária, Ônus Da Sucumbência, Custas Judiciais
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Parties
INSS
Recorrente
autor
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgado
Legal Issues
- 1 Se o trabalhador rural da lavoura da cana-de-açúcar pode ser enquadrado na categoria profissional de trabalhador da agropecuária constante no item 2.2.1 do Decreto 53.831/1964 para fins de reconhecimento de tempo de serviço especial
- 2 Aplicabilidade da legislação vigente ao tempo de serviço
- 3 Efeito do uso de EPI na descaracterização de atividade especial
Ratio Decidendi
O Recurso Especial foi provido porque o STJ entendeu que há uniformização jurisprudencial (PUIL 452/PE) no sentido de que o trabalhador da lavoura de cana-de-açúcar não pode ser equiparado à categoria profissional de agropecuária constante no item 2.2.1 do Decreto 53.831/1964 para fins de conversão ou contagem de tempo como especial; por essa razão afastou-se a equiparação reconhecida pelo Tribunal de origem.
Court Disposition
Recurso Especial provido para afastar a equiparação da categoria profissional de agropecuária à atividade exercida pelo autor
Orders
- Dar provimento ao Recurso Especial do INSS
- Afastar a equiparação da categoria profissional de agropecuária à atividade exercida pelo autor
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de Recurso Especial interposto pelo INSS, com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", da CF/1988, contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região assim ementado: PREVIDENCIÁRIO. APELAÇÃO. APOSENTADORIA ESPECIAL. COMPROVAÇÃO DAS CONDIÇÕES ESPECIAIS. LAVRADOR DE CANAVIAL. RUÍDO. USO DE EPI. AGENTES QUÍMICOS. IMPLEMENTAÇÃO DOS REQUISITOS. DIB. JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA. MANUAL DE CÁLCULOS NA JUSTIÇA FEDERAL. INVERSÃO DO ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA. CUSTAS. JUSTIÇA FEDERAL. ISENÇÃO. 1. Deve ser observada a legislação vigente à época da prestação do trabalho para o reconhecimento da natureza da atividade exercida pelo segurado e os meios de sua demonstração. 2. A especialidade do tempo de trabalho é reconhecida por mero enquadramento legal da atividade profissional (até 28/04/95), por meio da confecção de infonnativos ou formulários (no período de 29/04/95 a 10/12/97) e via laudo técnico ou Perfil Profissiográfico Previdenciário (a partir de 11/12/97). 3. Comprovado o labor do trabalhador rural na cultura de cana-de-açúcar, possível o enquadramento no item 2.2.1 do Decreto n.º 53.831/64 (trabalhadores na agricultura). 4. Para o agente ruído, considera-se especial a atividade desenvolvida acima do limite de 80dB até 05/03/1997, quando foi editado o Decreto nº 2.172/97, a partir de então deve-se considerar especial a atividade desenvolvida acima de 90dB. A partir da edição do Decreto nº 4882 em 18/11/2003,0 limite passou a ser de 85Db. 5. O uso de Equipamento de Proteção Individual - EPI para o agente nocivo ruído, desde que em níveis acima dos limites legais, não descaracteriza o tempo de serviço especial. 6. Comprovada a exposição habitual e permanente à agentes químicos (defensivos agrícolas e agrotóxicos - herbicidas, fungicidas e inseticidas), decorrente do exercício de atividade de tratorista, enquadrando-se no código 1.3.2 do Decreto nº 53.831/64, no item 1.3.4 do Decreto nº 83.080/79 e item 3.0.1 do Decreto nº 2.172/97. 7. A soma dos períodos redunda no total de mais de 25 anos de tempo de serviço especial, o que autoriza a concessão da aposentadoria especial, nos termos do art. 57 da Lei nº8.213/91. 8. O beneficio é devido desde a data do requerimento administrativo. 9. Juros e correção monetária pelos índices constantes do Manual de Orientação para a elaboração de Cálculos na Justiça Federal vigente à época da elaboração da conta, observando-se, em relação à correção monetária, a aplicação do IPCA-e em substituição à TR - Taxa Referencial, consoante decidido pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal no RE nº 870.947, tema de repercussão geral nº 810, em 20.09.2017, Relator Ministro Luiz Fux, observado quanto a este o termo inicial a ser fixado pela Suprema Corte no julgamento dos embargos de declaração. 10. Inversão do ônus da sucumbência. 11. O Instituto Nacional do Seguro Social - INSS é isento do pagamento de custas processuais nos processos em trâmite na Justiça Federal, exceto as de reembolso. Art. 4º, 1, da Lei 9.289/96. 12. Apelação do autor provida. Os Embargos de Declaração opostos foram rejeitados. Em suas razões recursais, o INSS aponta, além de divergência jurisprudencial, violação dos arts. 489 e 1.022 do CPC, uma vez que o decisumfoi omisso acerca da impossibilidade do enquadramento como especial por categoria profissional do período em que a parte autora trabalhou na lavoura de cana-de-açúcar, por ser uma atividade exclusiva de agricultura. Aduz ainda que houve ofensa aos arts. 57, capute§ 3º, da Lei 8.213/1991, tendo em vista que não é possível enquadrar a atividade desenvolvida pela parte recorrida no código 2.2.1 do anexo ao Decreto 53.831/1964, haja vistatal dispositivo ser aplicável apenas à atividade agropecuária, não englobando atividade laborada apenas em agricultura, como é o caso do corte de cana. Contrarrazões às fls. 285-290, e-STJ. É o relatório. Decido. Os autos foram recebidos neste Gabinete em 1º.6.2021. De plano, afasto a apontada violação dos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015, pois não se constata omissão, obscuridade ou contradição nos acórdãos recorridos capazes de torná-los nulos, especialmente porque o Tribunal de origem apreciou a demanda de forma clara e precisa, estando bem delineados os motivos e fundamentos que embasam o decisum. Não é o órgão julgador obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos trazidos pelas partes em defesa da tese que apresentaram. Deve apenas enfrentar a demanda, observando as questões relevantes e imprescindíveis à sua resolução. Não se pode confundir julgamento desfavorável ao interesse da parte com negativa ou ausência de prestação jurisdicional. No mais, o ponto controvertido da presente análise é se o trabalhador rural da lavoura da cana-de-açúcar empregado rural poderia ou não ser enquadrado na categoria profissional de trabalhador da agropecuária constante no item 2.2.1 do Decreto 53.831/1964 vigente à época da prestação dos serviços. Colhe-se do acórdão o seguinte trecho, verbis: Caso concreto - elementos probatórios Atividade especial De início, verifica-se que a controvérsia cinge-se à especialidade das atividades trabalhadas no(s) período(s) de 14/05/1984 a 05/03/1988, 23/05/1988 a 17/11/1988, 01/12/1988 a 08/07/1989, 14/12/1998 a 05/08/2001, 06/08/2001 a 18/11/2003, 19/11/2003 a 17/03/2004 e 03/06/2004 a 08/04/2014, considerando que em relação aos demais, quais sejam, de 17/07/1989 a 13/02/1998, já houve reconhecimento na esfera administrativa do INSS - fls. 41/42. Neste contexto, do exame dos autos verifico que o(s) período(s) de 14/05/1984 a 05/03/1988 devem ser reconhecidos como especial, considerando a ocupação informada no informativo e PPP - Perfil Profissiográfico Previdenciário (fis. 35/40) como lavrador em lavoura canavieira (camarada). Cumpre salientar a condição insalubre do trabalho na cultura de cana-de-açúcar, a qual é evidenciada pela descrição da atividade constante do Código 6221-10 da Classificação Brasileira de Ocupações. Com efeito, o preparo, o plantio e a colheita de cana-de-açúcar, assim como o trato posterior, requerem intensa atividade fisica do rurícola, que está associada a riscos ergonômicos, os quais são agravados pela circunstância de este trabalho ser exercido a céu aberto, exposto a fatores climáticos (radiação solar, calor e umidade) e a riscos de acidentes na manipulação de insumos (pesticidas, herbicidas e inseticidas) e na operação de equipamentos. Corroborando este entendimento, nota-se que o labor do trabalhador rural na cultura de cana-de-açúcar encontra enquadramento no item 2.2.1 do Decreto n.º 53.831/64 (trabalhadores na agricultura), de modo que deve ser considerada a condição especial da referida atividade profissional. Neste sentido, segue a jurisprudência (TRF da 3º Região, Processo n.º 200203990338491, APELREE n.º 823910, 9º T., ReI. Juíza Fed. Conv. Diana Brunstein, v. u., D: 04/10/2010, DJF3 CJ1: 08/10/2010, pág: 1368; Processo n.º 200503990535832, APELREE n.º 1079209, 9.º T., ReI. Des. Fed. Nelson Bemardes, v. u., D: 05/07/2010, DJF3 CJ1: 29/07/2010, pág: 1018; Processo n.º 200703990307935, APELREE n.º 1210718, 10º T., ReI. Des. Fed. Sergio Nascimento, v. u., D: 23/06/2009, DJF3 CJ1: 01/07/2009, pág: 889). Neste contexto, do exame dos autos verifico que o(s) período(s) de 19/11/2003 a 17/03/2004 e 03/06/2004 a 08/04/2014 deve(m) ser considerado(s) como trabalhado(s) em condições especiais, porquanto restou comprovada a exposição a ruído acima do limite permitido, conforme os informativos, laudos técnicos e PPP - Perfil Profissiográfico Previdenciário acostados às fis. 3 5/40, enquadrando-se no código 1.1.6 do Decreto nº 53.831/64 e no item 1.1.5 do Decreto nº 83.080/79, bem como no item 2.0.1 do Decreto nº 2.172/97 e no item 2.0.1 do Decreto nº3.048/99 c/c Decreto n.º 4.882/03. Os interregnos de 14/12/1998 a 05/08/2001, 06/08/2001 a 18/11/2003 devem ser considerados especiais, tendo em vista as condições insalubres de trabalho a que o autor estava submetido laborando junto à empresa Sucocítrico Cutrale Ltda., conforme comprova o laudo técnico de fls. 95/107, com exposição habitual e permanente à agentes químicos (defensivos agrícolas e agrotóxicos - herbicidas, fungicidas e inseticidas). A descrição pormenorizada das atividades, constante no laudo, confirma a efetiva exposição: O Autor na função de Tratorista executava as atividades de operar Trator de Pneus Marca Massey, 255, sem cabine para proteção, com seus implementos agrícolas, realizando os serviços de irrigação, pulverização, com defensivos Agrícolas (Fungicidas e Pesticidas), roçando áreas infestadas, preparando o solo para plantio, e transportando materiais (1..). A empressa forneceu as ficha (sic) de Controle de EPI, porém evidencia o fornecimento de EPI anualmente, intervalos superiores ao usualmente praticado em função da utilização do EPI, no PPRA apresentado não informa a periodicidade necessária para cada EPI, não foi evidenciado a utilização do EPI Creme de protetor de Pele para a atividade de Pulverização com Herbicidas, e luvas antes de 29/O 7/2000 e fornecimento de EPI a partir de 06/08/2001." (fls. 98/101). Dessa forma, a soma do(s) período(s) especial(ais) aqui reconhecido(s) com aqueles já reconhecidos pelo INSS no âmbito administrativo (fis. 41/42), totaliza mais de 25 anos de tempo de serviço especial, o que autoriza a concessão da aposentadoria especial, nos termos do art. 57 da Lei nº 8.213/91, restando reformada a sentença (fls. 213-215, e-STJ, grifei). APrimeira Seção do STJ, no julgamento do PUIL 452/PE, de relatoria do Ministro Herman Benjamin, DJe 14/06/2019, firmou entendimento segundo a qual o trabalhador rural (seja empregado rural ou segurado especial) que não demonstre o exercício de seu labor na agropecuária, nos termos do enquadramento por categoria profissional vigente até a edição da Lei 9.032/1995, não possui o direito subjetivo à conversão ou contagem como tempo especial para fins de aposentadoria por tempo de serviço/contribuição ou aposentadoria especial, respectivamente. Eis a ementa do referido julgado: PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO. ATIVIDADE ESPECIAL. EMPREGADO RURAL. LAVOURA DA CANA-DE-AÇÚCAR. EQUIPARAÇÃO. CATEGORIA PROFISSIONAL. ATIVIDADE AGROPECUÁRIA. DECRETO 53.831/1964. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES. 1. Trata-se, na origem, de Ação de Concessão de Aposentadoria por Tempo de Contribuição em que a parte requerida pleiteia a conversão de tempo especial em comum de período em que trabalhou na Usina Bom Jesus (18.8.1975 a 27.4.1995) na lavoura da cana-de-açúcar como empregado rural. 2. O ponto controvertido da presente análise é se o trabalhador rural da lavoura da cana-de-açúcar empregado rural poderia ou não ser enquadrado na categoria profissional de trabalhador da agropecuária constante no item 2.2.1 do Decreto 53.831/1964 vigente à época da prestação dos serviços. 3. Está pacificado no STJ o entendimento de que a lei que rege o tempo de serviço é aquela vigente no momento da prestação do labor. Nessa mesma linha: REsp 1.151.363/MG, Rel. Ministro Jorge Mussi, Terceira Seção, DJe 5.4.2011; REsp 1.310.034/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe 19.12.2012, ambos julgados sob o regime do art. 543-C do CPC (Tema 694 - REsp 1398260/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe 5/12/2014). 4. O STJ possui precedentes no sentido de que o trabalhador rural (seja empregado rural ou segurado especial) que não demonstre o exercício de seu labor na agropecuária, nos termos do enquadramento por categoria profissional vigente até a edição da Lei 9.032/1995, não possui o direito subjetivo à conversão ou contagem como tempo especial para fins de aposentadoria por tempo de serviço/contribuição ou aposentadoria especial, respectivamente. A propósito: AgInt no AREsp 928.224/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 8/11/2016; AgInt no AREsp 860.631/SP, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 16/6/2016; REsp 1.309.245/RS, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 22/10/2015; AgRg no REsp 1.084.268/SP, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe 13/3/2013; AgRg no REsp 1.217.756/RS, Rel. Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, DJe 26/9/2012; AgRg nos EDcl no AREsp 8.138/RS, Rel. Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, DJe 9/11/2011; AgRg no REsp 1.208.587/RS, Rel. Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, DJe 13/10/2011; AgRg no REsp 909.036/SP, Rel. Ministro Paulo Gallotti, Sexta Turma, DJ 12/11/2007, p. 329; REsp 291. 404/SP, Rel. Ministro Hamilton Carvalhido, Sexta Turma, DJ 2/8/2004, p. 576. 5. Pedido de Uniformização de Jurisprudência de Lei procedente para não equiparar a categoria profissional de agropecuária à atividade exercida pelo empregado rural na lavoura da cana-de-açúcar.(PUIL 452/PE, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO,DJe 14/06/2019). Portanto, o acórdão recorrido, em desarmonia com o entendimento jurisprudencial acima demonstrado, consignou que "o labor do trabalhador rural na cultura de cana-de-açúcar encontra enquadramento no item 2.2.1 do Decreto n.º 53.831/64 (trabalhadores na agricultura), de modo que deve ser considerada a condição especial da referida atividade profissional" (fl. 214, e-STJ) Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Especial do INSS, para afastar a equiparação da categoria profissional de agropecuária à atividade exercida pelo autor, nos termos da fundamentação supra. Publique-se. Intimem-se.