HC 698999 - DECISAO
O writ não é meio adequado para revisar questões que demandam reexame de provas; contudo, constatada ilegalidade manifesta no cálculo da pena, é possível atuação de ofício para a correção da dosimetria. Assim, procedeu-se à nova individualização da pena (pena-base 1 ano, 4 meses e 15 dias; aumento de 1/6 por...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: VALMIR MUNHOS; Tribunal De Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; Manifestante: Subprocuradoria-Geral da República
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 December 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão De Mérito (decisão Não Conhecer Do Writ E Concessão De Ordem De Ofício Para Redução Da Pena)
- Outcome
- Writ não conhecido; ordem concedida de ofício para reduzir a pena e mantido o regime prisional fechado.
- Legal Topics
- Apropriação Indébita, Dosimetria Da Pena, Regime Prisional, Cabimento Do Habeas Corpus Substitutivo, Revolvimento Do Conjunto Fático Probatório
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
VALMIR MUNHOS
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Tribunal De Origem
Subprocuradoria-Geral da República
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão De Mérito (decisão Não Conhecer Do Writ E Concessão De Ordem De Ofício Para Redução Da Pena)
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus substitutivo de recurso próprio
- 2 possibilidade de revisão da dosimetria apenas em caso de flagrante ilegalidade ou teratologia
- 3 impossibilidade de absolvição via habeas corpus quando demanda reexame de provas
Ratio Decidendi
O writ não é meio adequado para revisar questões que demandam reexame de provas; contudo, constatada ilegalidade manifesta no cálculo da pena, é possível atuação de ofício para a correção da dosimetria. Assim, procedeu-se à nova individualização da pena (pena-base 1 ano, 4 meses e 15 dias; aumento de 1/6 por reincidiva; aumento de 1/3 pelo inciso III do §1º do art. 168), resultando na redução da pena para 2 anos, 1 mês e 19 dias de reclusão, mantendo-se o regime prisional fechado.
Court Disposition
Writ não conhecido; ordem concedida de ofício para reduzir a pena e mantido o regime prisional fechado.
Orders
- Reduzir a pena para 2 anos, 1 mês e 19 dias de reclusão
- Manter o regime prisional fechado para início do cumprimento da pena
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, com pedido de liminar, impetrado em favor de VALMIR MUNHOS contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 3 anos, 2 meses e 20 dias de reclusão, em regime prisional fechado, como incurso nas sanções do art. 168, § 1º, III, do Código Penal. Irresignada, a defesa apelou ao Colegiado de origem, que desproveu o recurso, ficando mantido o inteiro teor do decreto condenatório. Neste mandamus, a defesa sustenta que não houve o animus rem sibi habendi, pois, conforme relato do réu, pois ele deixou o estepe e peito de aço na mecânica para que a vítima fosse lá colocar; só não colocou em outras oportunidades devido ao excesso de serviço, restando clara a atipicidade da conduta. Ainda, alega que não há prova robusta para condenação, havendo que se aplicar a máxima in dubio pro reo, para absolver o réu das imputações. Se mantida a condenação, afirma que deve ser reformada a dosimetria da pena, aplicando-se a pena no mínimo legal, bem como o regime inicial semiaberto. Pugna, assim, pela concessão da ordem a fim de absolver o réu. Subsidiariamente, requer seja revisto o cálculo dosimétrico e estabelecido o regime prisional intermediário para o início do desconto da reprimenda. Indeferido o pedido de liminar (e-STJ, fl. 134), a Subprocuradoria-Geral da República manifestou-se pelo não conhecimento do writ (e-STJ, fls. 139-142). É o relatório. Decido. Esta Corte - HC 535.063/SP, Terceira Seção, Rel. Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/6/2020 - e o Supremo Tribunal Federal - AgRg no HC 180.365, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/3/2020; AgR no HC 147.210, Segunda Turma, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 30/10/2018 -, pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. No caso, está inscrito no acórdão proferido no julgamento do apelo defensivo: "A materialidade e autoria do delito são incontestes, sobretudo diante do auto de exibição e apreensão de fls. 4/5, dos documentos de fls. 21/32, e da prova oral colhida (CD). O recorrente foi condenado porque, aproveitando-se do ofício de mecânico, apropriou-se de um estepe e do peito de aço, pertencentes à Zenaildo Cabral, bens estes de que tinha posse. A despeito da negativa do apelante sempre que interrogado (fls. 9, 34 e CD), argumentando que o local era aberto e que teria restituído os objetos, a vítima descreveu em detalhes os fatos (fls. 6, 20 e CD). Declarou ter deixado seu veículo VW/Gol, de placas CIL-6850 para manutenção na oficina do acusado, adiantando, sempre que exigido, o pagamento de valores relativos aos serviços a serem prestados. No entanto, como o recorrente deixou de efetuar toda a manutenção, retirou o veículo do local e o levou para outra oficina, quando então percebeu a falta do estepe e do peito de aço que equipavam o carro. Assim, esclareceu o prejuízo financeiro sofrido, e que havia solicitado por diversas vezes a devolução dos objetos, sem sucesso, registrando então a ocorrência, tendo a restituição ocorrido em momento posterior. A corroborar a palavra da vítima, tem-se o testemunho de José Nivaldo(CD). Neste contexto, respeitada tese defensiva, a negativa não se sustenta, pois as declarações da vítima e da testemunha foram categóricas e firmes, não deixando dúvidas de que o acusado apropriou-se dos bens que equipavam o veículo de que tinha a posse emrazão do ofício de mecânico. Não é demais assinalar que a presença de dolo é indiscutível, pois após o recorrente se apropriar indevidamente do estepe e do peito de aço do veículo da vítima e, mesmo diante das reclamações desta, não restituiu as peças automotivas. Assim, incidindo o dolo (a intenção, a vontade própria) sobre o núcleo do tipo (apropriar-se), isso é suficiente para configurar o crime de apropriação indébita. Em se tratando de apropriação indébita o momento consumativo é aqueleem que o agente, por ato voluntário, inverte o título da posse exercida sobre a coisa,passando a dispor desta como proprietário. Assim sendo, o recorrente, ao tomar os bens para si incorreu no crime quando deixou de devolvê-las a quem de direito. A defesa, de qualquer modo, e por fim, não produziu prova para infirmar a da acusação, sendo inevitável a condenação. No tocante à dosimetria da pena, não há reparo a ser feito. A pena-base foi acertadamente fixada acima do piso, em razão dos maus antecedentes (fl. 82), além das consequências da conduta do acusado e o prejuízo causado à vítima (em torno de R$ 1.250,00), justificando-se, pois, o aumento em dobro, resultando pena de 2 anos de reclusão. Ressalta-se que as diárias de multa não foram aplicadas na r. Sentença,tendo o decisumse olvidado de arbitrá-la, e, diante da inércia da acusação, ainda que a imposição de multa integre o tipo penal em questão, é inviável, neste momento, a suaaplicação a título de reparo por erro material, pois certamente a retificação agravaria a situação do apelante, razão pela qual deixa-se de realinhar a multa na dosimetria final, emobservância ao princípio consagrado no processo penal denominadonon reformatio in pejus,pois, por este princípio, a parte que recorreu não pode ter sua situação agravada no julgamento da insurgência. Na segunda etapa, presente a agravante da reincidência (fls. 82/83) aumentou-se a pena a 2 anos e 5 meses de reclusão,e tal aumento deve ser mantido por ser específica a reincidência, o que exige maior repreensão de sua conduta. Na última fase, houve elevação de mais 1/3 pela presença da causa de aumento do inciso III do art. 168 do Código Penal, eis que praticada a conduta em razão do ofício de mecânico e valendo-se da confiança nele depositada pela vítima, chegando-se a pena final de 3 anos, 2 meses e 20 dias de reclusão. Por fim, a reincidência específica e a personalidade voltada à prática reiterada de delitos, sendo que praticou o crime durante execução do regime aberto impostoem outra condenação, não há como beneficiar o recorrente com o regime prisional menos restritivo, mantendo-se o fixado no decisum. Pelos mesmos motivos, incogitável a substituição da pena, pois o apelante não preenche os requisitos do art. 44 do Código Penal" (e-STJ, fls. 80-82). O habeas corpus não se presta para a apreciação de alegações que buscam a absolvição do paciente - seja pelo reconhecimento da atipicidade da conduta, seja pela carência de provas para condenação -, em virtude da necessidade de revolvimento do conjunto fático-probatório, o que é inviável na via eleita. A propósito do tema, trago à colação os seguintes julgados desta Quinta Turma: "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. PRETENSÃO DE ABSOLVIÇÃO OU DESCLASSIFICAÇÃO. PLEITOS QUE DEMANDAM REEXAME DE PROVAS. INVIABILIDADE NA VIA ESTREITA. MANUTENÇÃO DA DECISÃO MONOCRÁTICA QUE SE IMPÕE. 1. Deve ser mantida a decisão monocrática na qual se indefere liminarmente a inicial quando evidenciado que o pleito formulado demanda reexame de provas, inviável na via estreita do habeas corpus. 2. Caso em que a impetração pretende a absolvição do paciente do crime de estupro de vulnerável ou a desclassificação para o delito de importunação sexual, ao argumento da fragilidade probatória, uma vez que, à época dos fatos, a vítima contava com apenas oito anos de idade e seu depoimento foi levado em consideração para justificar a condenação. 3. Agravo regimental improvido" (AgRg no HC 658.366/SC, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 18/05/2021, DJe 25/05/2021); "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO EM CONCURSO MATERIAL. PRETENDIDA ABSOLVIÇÃO PELO CRIME DE ASSOCIAÇÃO. INVIABILIDADE. CONTUNDENTE ACERVO PROBATÓRIO PARA LASTREAR A CONDENAÇÃO. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO NÃO CONDIZENTE COM A VIA ESTREITA DO MANDAMUS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O crime de associação para o tráfico exige vínculo associativo duradouro e estável entre seus integrantes, com o objetivo de fomentar especificamente o tráfico de drogas, por meio de uma estrutura organizada e divisão de tarefas para a aquisição e venda de entorpecentes, além da divisão de seus lucros. 2. A conclusão obtida pela Corte estadual sobre a condenação do paciente pelo crime de associação para o tráfico foi lastreada em contundente acervo probatório carreado aos autos. 3. Pela leitura das peças encartadas aos autos, conclui-se que a decisão tomada pelas instâncias antecedentes acerca da condenação do paciente pelo crime de associação para o tráfico foi lastreada em contundente acervo probatório, consubstanciado nas circunstâncias que levaram à sua condenação, não se constatando constrangimento ilegal a ser sanado pela via estreita do habeas corpus. 4. Agravo regimental não provido" (AgRg no HC 663.885/RJ, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 18/05/2021, DJe 24/05/2021). Nesse contexto, se as instâncias ordinárias, mediante valoração do acervo probatório produzido nos autos, entenderam, de forma fundamentada, a tipicidade da conduta, dada a presença do animus rem sibi habendi, bem como ser o réu autor do delito descrito na exordial acusatória, a análise das alegações concernentes ao pleito de absolvição demandaria exame detido de provas, inviável em sede de writ. Quanto à dosimetria, a individualização da pena, como atividade discricionária do julgador, está sujeita à revisão apenas nas hipóteses de flagrante ilegalidade ou teratologia, quando não observados os parâmetros legais estabelecidos ou o princípio da proporcionalidade. No caso, a pena-base foi exasperada a título de maus antecedentes e consequências do crime. A jurisprudência desta Corte admite a utilização de condenações anteriores transitadas em julgado como fundamento para a fixação da pena-base acima do mínimo legal, diante da valoração negativa dos maus antecedentes, ficando apenas vedado o bis in idem. Assim, considerando a existência de uma condenação transitada em julgado, que não restou sopesada na segunda etapa do procedimento dosimétrico, não se vislumbra, no ponto, flagrante ilegalidade. Quanto ao tema, trago à colação os recentes julgados desta Turma: "HABEAS CORPUS. IMPETRAÇÃO EM SUBSTITUIÇÃO AO RECURSO CABÍVEL. UTILIZAÇÃO INDEVIDA DO REMÉDIO CONSTITUCIONAL. NÃO CONHECIMENTO. 1. A via eleita revela-se inadequada para a insurgência contra o ato apontado como coator, pois o ordenamento jurídico prevê recurso específico para tal fim, circunstância que impede o seu formal conhecimento. Precedente. 2. Todavia, o alegado constrangimento ilegal será analisado para a verificação da eventual possibilidade de atuação ex officio, nos termos do artigo 654, § 2º, do Código de Processo Penal. FURTO QUALIFICADO (ARTIGO 155, § 4º, INCISO IV, DO CÓDIGO PENAL). DOSIMETRIA. PENA-BASE. POSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE CONDENAÇÕES ANTERIORES NA PRIMEIRA E NA SEGUNDA ETAPAS DA DOSIMETRIA QUANDO SE TRATAM DE PROCESSOS DISTINTOS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL INEXISTENTE. A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça pacificou-se no sentido de que não há óbice em se considerar, na primeira fase da dosimetria, anotações diversas daquelas sopesadas como reincidência, razão pela qual é descabida a alegação de ocorrência de bis in idem, ou mesmo de ofensa ao enunciado sumular 241 deste Sodalício, uma vez que os fatos utilizados para a exasperação de pena-base não são os mesmos que autorizaram a majoração na etapa seguinte. .. (HC 388.575/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 22/8/2017, DJe 30/8/2017, grifou-se). "PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. COAÇÃO NO CURSO DO PROCESSO. ART. 344 DO CP. DOSIMETRIA. PENA-BASE. EXASPERAÇÃO. MAUS ANTECEDENTES, PRESENÇA DE TRÊS CONDENAÇÕES DEFINITIVAS DISTINTAS. POSSIBILIDADE. QUANTUM DE AUMENTO NA PRIMEIRA FASE. OBSERVÂNCIA AOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. 1. A jurisprudência desta Corte Superior admite a utilização de condenações anteriores transitadas em julgado como fundamento para a fixação da pena-base acima do mínimo legal, diante da valoração negativa dos maus antecedentes, da conduta social e da personalidade do agente, ficando apenas vedado o bis in idem. 2. Considerando a existência de três condenações transitadas em julgado não valoradas na segunda etapa da dosimetria a título de reincidência, não se vislumbra ilegalidade na exasperação da pena-base pelos maus antecedentes da ré. 3. Ocorre que o aumento determinado pela instância ordinária a título de maus antecedentes, ainda que levado em consideração tratar-se de três condenações, mostra-se desproporcional. Note-se que, muito embora a lei não estabeleça o patamar mínimo e o máximo para incidência de cada circunstância judicial, sedimentou-se nesta Corte Superior de Justiça a orientação de que o acréscimo superior a 1/6 (um sexto) para cada circunstância judicial desfavorável deve ser devidamente justificado. 4. Assim, havendo três condenações para caracterização dos maus antecedentes, está autorizada a fixação da pena-base em patamar acima do mínimo, mostrando-se adequado e suficiente para reprovação e prevenção do delito o acréscimo em 1/2 (metade) na pena-base pelo reconhecimento dos maus antecedentes (três condenações transitadas). 5. Agravo regimental não provido" (AgRg no AREsp 1116974/MG, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 22/8/2017, DJe 1º/9/2017, grifou-se). Em relação às consequências do crime, que devem ser entendidas como o resultado da ação do agente, a avaliação negativa de tal circunstância judicial mostra-se escorreita se o dano material ou moral causado ao bem jurídico tutelado se revelar superior ao inerente ao tipo penal. In casu, o prejuízo suportado pela vítimanão se mostra mais expressivo do que o próprio aos crimes contra o patrimônio, já que restou avaliado em torno cerca de de R$ 1.250,00. Nesse sentido: "PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO DO WRIT. CRIME DE RECEPTAÇÃO. DOSIMETRIA DA PENA. PLEITO DE REDUÇÃO DA PENA-BASE. CONSEQUÊNCIAS DO DELITO. RECUPERAÇÃO DO BEM COM AVARIAS. FUNDAMENTO INIDÔNEO. ELEMENTO PRÓPRIO AOS DELITOS PATRIMONIAIS. REDIMENSIONAMENTO DA PENA. PENA INFERIOR A 4 ANOS. FIXAÇÃO DO REGIME SEMIABERTO. RÉU REINCIDENTE EM CRIME DOLOSO. SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS. DESCABIMENTO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. Ressalvada pessoal compreensão diversa, uniformizou o Superior Tribunal de Justiça ser inadequado o writ em substituição a recursos especial e ordinário, ou de revisão criminal, admitindo-se, de ofício, a concessão da ordem ante a constatação de ilegalidade flagrante, abuso de poder ou teratologia. 2. Mostra-se ilegítima a exasperação da pena-base pela valoração negativa das consequências do delito, por ter sido recuperada a coisa com avarias, porquanto a não recuperação ou a recuperação parcial da res furtiva é decorrência comum dos delitos patrimoniais. Precedentes. 3. Não obstante a redução implementada no presente writ, com a pena-base fixada no mínimo legal e a pena final não superar quatro anos, cabível a fixação do regime semiaberto, por se tratar de réu reincidente, razão pela qual também não faz jus ao benefício da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, tendo em vista o não atendimento aos requisitos legais do art. 44 do CP. 4. Habeas Corpus não conhecido, mas concedida a ordem de ofício para reduzir as penas a 1 ano e 2 meses de reclusão e 11 dias-multa, a ser cumprida a pena reclusiva em regime semiaberto." (HC 353.685/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 13/09/2016, DJe 20/09/2016, grifou-se) Ademais, diante do silêncio do legislador, a jurisprudência e a doutrina passaram a reconhecer como critério ideal para individualização da reprimenda-base o aumento na fração de 1/8 por cada circunstância judicial negativamente valorada, a incidir sobre o intervalo de pena abstratamente estabelecido no preceito secundário do tipo penal incriminador. Deveras, tratando-se de patamar meramente norteador, que busca apenas garantir a segurança jurídica e a proporcionalidade do aumento da pena, é facultado ao juiz, no exercício de sua discricionariedade motivada, adotar quantum de incremento diverso diante das peculiaridades do caso concreto e do maior desvalor do agir do réu. In casu, considerando o intervalo de apenamento do crime de apropriação indébita e a presença de uma vetorial desabonadora, deve ser reconhecida a desproporcionalidade do incremento da pena em 1 ano, devendo ser ele limitado a 4 meses e 15 dias de reclusão. Quanto ao tema, o seguinte julgado: "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. TENTATIVA DE HOMICÍDIO. DOSIMETRIA DA PENA. SUPOSTA INIDONEIDADE NA FUNDAMENTAÇÃO LANÇADA NA NEGATIVAÇÃO DA CULPABILIDADE. IMPROCEDÊNCIA. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. PRECEDENTES DESTA CORTE. DESPROPORCIONALIDADE. IMPROCEDÊNCIA. DOSIMETRIA (PENA-BASE) QUE NÃO SEGUE CRITÉRIO MATEMÁTICO. DISCRICIONARIEDADE VINCULADA. PRECEDENTES DESTA CORTE. 1. A extensão das lesões causadas na vítima e a brutalidade do crime, extraída do fato de que as agressões prosseguiram com a vítima já caída, consubstanciam fundamentação idônea para a valoração negativa da culpabilidade no crime de tentativa de homicídio. 2. A legislação penal não estabeleceu nenhum critério matemático (fração) para a fixação da pena na primeira fase da dosimetria. Nessa linha, a jurisprudência desta Corte tem admitido desde a aplicação de frações de aumento para cada vetorial negativa: 1/8, a incidir sobre o intervalo de apenamento previsto no preceito secundário do tipo penal incriminador (HC n. 463.936/SP, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 14/9/2018); ou 1/6 (HC n. 475.360/SP, Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 3/12/2018); como também a fixação da pena-base sem a adoção de nenhum critério matemático. 3. Não há falar em um critério matemático impositivo estabelecido pela jurisprudência desta Corte, mas, sim, em um controle de legalidade do critério eleito pela instância ordinária, de modo a averiguar se a pena-base foi estabelecida mediante o uso de fundamentação idônea e concreta (discricionariedade vinculada). 4. No caso, considerando que a instância ordinária utilizou de fundamentação idônea para aumentar a pena e aplicou um critério, dentro da discricionariedade vinculada que lhe é assegurada pela lei, não há falar em ilegalidade na fixação da pena-base. 5. Agravo regimental improvido.". (AgRg no HC 603.620/MS, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 06/10/2020, DJe 09/10/2020). Nesse contexto, evidenciada manifesta ilegalidade no cálculo dosimétrico, passa-se à nova individualização da pena. Partindo da pena-base de 1 ano, 4 meses e 15 dias de reclusão, deve a reprimenda ser reajustada em 1/6 pela recidiva, na etapa intermediária, totalizando 1 ano, 7 meses e 7 dias de reclusão. Por fim, presente o inciso III do § 1º, a pena merece reajuste de 1/3, restando consolidada em 2 anos, 1 mês e 19 dias de reclusão. Por fim, no que se refere ao regime prisional, não se infere qualquer desproporcionalidade do imposição do meio inicialmente mais gravoso para o desconto da reprimenda, pois, nada obstante ser a pena inferior a 4 anos de reclusão, os maus antecedentes do acusado implicaram majoração da pena-base, tendo, ainda, sido reconhecida a sua reincidência, não havendo se falar em negativa de vigência à Súmula 269/STJ. Nesse sentido: "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. DECISÃO MONOCRÁTICA. FURTO QUALIFICADO TENTADO. ANOTAÇÃO CRIMINAL ALCANÇADA PELO PERÍODO DEPURADOR DE 5 ANOS. MAUS ANTECEDENTES. POSSIBILIDADE. TENTATIVA. RECONHECIMENTO. REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. REGIME FECHADO. ACUSADO REINCIDENTE E COM CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DESFAVORÁVEL. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. INEXISTÊNCIA DE OFENSA À SÚMULA N. 269 DESTA CORTE. AUSÊNCIA DE NOVOS ARGUMENTOS APTOS A DESCONSTITUIR A DECISÃO AGRAVADA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. I - É assente nesta Corte Superior de Justiça que o agravo regimental deve trazer novos argumentos capazes de alterar o entendimento anteriormente firmado, sob pena de ser mantida a r. decisão vergastada pelos próprios fundamentos. II - A jurisprudência desta Corte tem posicionamento firme no sentido de que as condenações alcançadas pelo período depurador de 5 anos, previsto no art. 64, inciso I, do Código Penal, afastam os efeitos da reincidência, mas não impedem a configuração de maus antecedentes, permitindo o aumento da pena- base acima do mínimo legal e a devida individualização das penas. III - Em sede de habeas corpus, não há como aferir se o delito foi consumado ou tentado, sob pena de revolvimento fático-probatório, não cabendo, na estreita via do mandamus, alterar a conclusão devidamente fundamentada das instâncias ordinárias. IV - Em relação ao regime prisional, sendo a paciente reincidente e portadora de circunstâncias judiciais desfavoráveis (maus antecedentes), o regime fechado mostra-se o mais adequado, ainda que a pena tenha sido fixada em patamar inferior a 4 (quatro) anos de reclusão, não sendo aplicável a Súmula n. 269/STJ: "É admissível a adoção do regime prisional semi-aberto aos reincidentes condenados a pena igual ou inferior a quatro anos se favoráveis as circunstâncias judiciais". V - A toda evidência, o decisum agravado, ao confirmar o aresto impugnado, rechaçou as pretensões da defesa por meio de judiciosos argumentos, os quais encontram amparo na jurisprudência deste Sodalício. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC 653.878/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 20/04/2021, DJe 27/04/2021, destacou-se); "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. PORTE IRREGULAR DE ARMA DE FOGO. ABRANDAMENTO DO REGIME PRISIONAL. INVIABILIDADE. EXISTÊNCIA DE CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DESFAVORÁVEL E REINCIDÊNCIA. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. - A dosimetria da pena e o seu regime de cumprimento inserem-se dentro de um juízo de discricionariedade do julgador, atrelado às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas do agente, somente passível de revisão por esta Corte no caso de inobservância dos parâmetros legais ou de flagrante desproporcionalidade. - O entendimento firmado pelas instâncias de origem está em harmonia com a jurisprudência desta Corte Superior, haja vista que a existência de circunstância judicial desfavorável - personalidade -, a qual justificou a exasperação da pena-base em 1/6, associada à reincidência do paciente, determinam a fixação do regime inicial fechado, termos do art. 33, § 2º, "b" e § 3º, do Código Penal e da Súmula n. 269 do STJ. Precedentes. - Agravo regimental não provido. (AgRg no HC 632.401/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 15/12/2020, DJe 17/12/2020, destacou-se). Ante o exposto, não conheço do writ, mas concedo a ordem, de ofício, a fim de reduzir a pena a 2 anos, 1 mês e 19 dias de reclusão, ficando mantido o regime prisional fechado. Publique-se. Intimem-se.