HC 901489 - DECISAO
A ordem de habeas corpus foi denegada porque o Tribunal de origem concluiu, com base nas provas, pela configuração do delito do art. 102 do Estatuto do Idoso (apropriar-se/desviar bens da vítima), e o habeas corpus não é meio adequado para reexaminar matéria fático-probatória; portanto, mantida a decisão...
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- Parties
- Paciente: GILBERTO ALVES TEIXEIRA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS; Vítima: IVANI MUNIZ BARROSO; Terceiro Adquirente: MÁRCIO VEÍCULOS LTDA; Titular Da Conta (irmão Da Vítima): WALTER; Titular Da Conta (cunhada Da Vítima): VERA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 April 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Denegatória (in Limine)
- Outcome
- Denega-se a ordem de habeas corpus (denegada, in limine)
- Legal Topics
- Apropriação Ou Desvio De Bem De Idoso, Art. 102 Da Lei Do Idoso, Atipicidade, Revisão De Matéria Fático Probatória Em Habeas Corpus, Reparação Civil
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Parties
GILBERTO ALVES TEIXEIRA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS
Autoridade Coatora
IVANI MUNIZ BARROSO
Vítima
MÁRCIO VEÍCULOS LTDA
Terceiro Adquirente
WALTER
Titular Da Conta (irmão Da Vítima)
VERA
Titular Da Conta (cunhada Da Vítima)
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Denegatória (in Limine)
Legal Issues
- 1 se a conduta imputada é atípica por o paciente ser suposto proprietário do bem
- 2 se é possível reexaminar matéria fático-probatória em habeas corpus
- 3 aplicação do art. 102 da legislação do idoso ao desvio de bens
Ratio Decidendi
A ordem de habeas corpus foi denegada porque o Tribunal de origem concluiu, com base nas provas, pela configuração do delito do art. 102 do Estatuto do Idoso (apropriar-se/desviar bens da vítima), e o habeas corpus não é meio adequado para reexaminar matéria fático-probatória; portanto, mantida a decisão condenatória e rejeitado o pedido de absolvição por atipicidade.
Court Disposition
Denega-se a ordem de habeas corpus (denegada, in limine)
Orders
- Denegar a ordem de habeas corpus, in limine.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em benefício de GILBERTO ALVES TEIXEIRA no qual se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS (Apelação Criminal n. 0128940-53.2019.8.09.0175). Consta dos autos que o ora paciente foi condenado à pena de 1 ano e 9 meses de reclusão, pela prática do delito previsto no art. 102 da Lei n. 11.340/2006 (Estatuto do Idoso). O Tribunal de origem, por maioria, negou provimento ao recurso de apelação da defesa. Eis a ementa do acórdão (e-STJ fl. 374): APELAÇÃO CRIMINAL. APROPRIAÇÃO OU DESVIO DE BEM DE IDOSO. ABSOLVIÇÃO. ATIPICIDADE. REDUÇÃO DASPENAS E DO VALOR DA REPARAÇÃO CIVIL. 1 - Se o conjunto probatório carreado ao feito demonstra de forma satisfatória a materialidade e a autoria do delito previsto no artigo 102, do Estatuto do Idoso, não há falar em atipicidade da conduta, já que configurado o desvio do patrimônio da vítima, para aplicação de finalidade diversa daquela por ela visada. 2 - Prescinde de reparo a pena base fixada pouco acima do mínimo legal e aquém da semissoma dos extremos, em patamar razoável e necessário à coerção da conduta, diante da análise desfavorável e idônea de três vetores judiciais. 3 - Deve ser preservado o valor mínimo da reparação civil estabelecido na sentença, visto que formulado pelo Ministério Público na denúncia, e devidamente comprovado o prejuízo suportado pela vítima, a luz do que dispõe o artigo 387, inciso IV, do CPP. 4 - Recurso conhecido e desprovido. A defesa interpôs embargos de divergência, os quais foram rejeitados, consoante acórdão assim ementado (e-STJ fls. 440/441): EMENTA. EMBARGOS INFRINGENTES NO RECURSO DE APELAÇÃO. APROPRIAÇÃO DE BENSDO IDOSO. ART. 102 DA LEI 10.741/2003. 1. Nos delitos de violência financeira contra o idoso, constitui crime de apropriação indébita qualquer ato ou mesmo omissão tendente a permitir que o agente se aproprie de algo ou desvie bens ou rendimentos do idoso para lhes dar aplicação diversa da de sua finalidade. EMBARGOS INFRINGENTES CONHECIDOS E DESPROVIDOS. Daí o prese nte writ, no qual a defesa pretende a absolvição pela atipicidade da conduta. Afirma que "independente da forma de aquisição do automóvel, presente ou não, fato é que o paciente era o legítimo proprietário do bem, podendo vender, usufruir, alugar ou o que mais lhe apetecesse, tratando-se, portanto, de fato atípico, tanto mais porque sequer houve inversão da posse, vez que o paciente era o proprietário" (e-STJ fl. 9). É o relatório. Decido. Preliminarmente, cumpre salientar que é competência do relator, em decisão in limine, aplicar jurisprudência pacífica do colegiado, conforme expressamente dispõem os incisos XVIII e XX do art. 34 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, bem como julgados nesse sentido das turmas criminais desta Corte (vide AgRg no HC n. 622.778/RS, relator Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 10/12/2020; AgRg no HC n. 622.822/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 23/11/2020). Ressalto que, no caso, o Tribunal de origem, a quem cabe o exame das questões fático-probatórias dos autos, reconheceu a existência de elementos de provas suficientes para embasar o decreto condenatório pela prática do crime previsto no art. 102 da Lei n. 11.340/2006 (Estatuto do Idoso). Cumpre transcrever os fundamentos do voto condutor no julgamento do recurso de apelação (e-STJ fl. 373): Como se vê, apesar das escusas apresentadas pelo processado ao dizer que o veículo foi repassado a ele por mera liberalidade, não há dúvida de que foi pactuado entre a vítima e o processado, que aquela adquiriria o veículo em nome deste para que ele pudesse auxiliá-la no transporte para tratamento médico, dada a sua dificuldade de locomoção e a confiança nele depositada, sendo justamente esta limitação que deu ensejo a que o veículo fosse titularizado em nome de GILBERTO. Nesta esteira, de acordo com a doutrina mais abalizada, "observa-se com clareza que o legislador do Estatuto do Idoso impôs maior rigor na tipificação prescrita no art. 102, pois abrangeu expressamente a conduta de desviar bens, proventos ou pensões, o que não fez no art.168 do Código Penal (neste, tal modalidade de conduta é considerada atípica). Por fim, resta ainda afirmar que o objeto jurídico presente no art. 168 do Código Penal é a coisa alheia móvel, enquanto no art. 102 do Estatuto, o legislador estabelece bens, proventos, pensão ou ainda qualquer outro rendimento do idoso". Portanto, devidamente configurado o desvio do patrimônio da vítima, para aplicação de finalidade diversa da visada pela ofendida, que seria de ajudá-la no transporte para suprir as suas necessidades médicas, dada a sua dificuldade de locomoção, azo em que o processado, sob a escusa de que teria sofrido um acidente e pela facilidade decorrente de o bem estar sob a sua titularidade, o alienou a terceira pessoa em detrimento da vítima, causando-lhe prejuízo. Ainda, devidamente demonstrado que a aquisição do automóvel ocorreu mediante transferência bancária realizada da conta de titularidade do irmão da vítima e de sua cunhada(WALTER e VERA), desembolsado o valor de R$ 37.000,00 (trinta e sete mil reais) em favor de MÁRCIO VEÍCULOS LTDA (mov. 03, arq. 35). Da mesma forma, o Tribunal de origem rejeitou os embargos de divergência, assinalando que (e-STJ fl. 438): Apesar do debate estabelecido, a acusação logrou êxito em comprovar que a propriedade do veículo era da vítima Ivani Muniz Barroso, possibilitando a subsunção do fato a previsão do artigo 102 da Lei 10.741/2003, especialmente do núcleo "apropriar-se". A juíza sentenciante consignou que "conduta imputada ao réu enquadra-se ao núcleo "apropriar-se", porque ele apossou-se do veículo automotor adquirido pela ofendida para auxiliá-la nas questões da vida cotidiana e o alienou a terceira pessoa, especialmente porque o carro estava em nome dele. O sentenciando, abusando da confiança que lhe fora depositada pela vítima, alienou o veículo dela, adquirido para levá-la às consultas médicas e demais roteiros da vida diária, deixando-a desguarnecida e vulnerável." (mov. 134) Dessa forma, em razão da dinâmica dos fatos comprovados em juízo sobre a aquisição do veículo, o Tribunal de origem entendeu que o bem pertencia à vítima e não ao ora paciente. A alteração da conclusão das instâncias de origem sobre a propriedade do bem questionado (o veículo) demandaria análise de matéria fático-probatória, o que é vedado em âmbito de habeas corpus: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL. PACIENTE CONDENADA COMO PARTÍCIPE NO CRIME DE ESTUPRO DE VULNERÁVEL. PLEITO PELA DESCLASSIFICAÇÃO PARA A CONDUTA DE FAVORECIMENTO À PROSTITUIÇÃO. EXAME DO DOLO. IMPOSSIBILIDADE DE INCURSÃO NO CONTEXTO FÁTICO-PROBATÓRIO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Trata-se de Ré condenada como incursa no art. 217-A, caput, c.c. o art. 226, incisos I e II, c.c. o art. 29, na forma do art. 71, caput, todos do Código Penal, porque, por três vezes, levou sua irmã menor para ser violentada pelo Corréu, contribuindo efetivamente para a consumação do delito, pois inclusive providenciou um lençol para que a vítima se deitasse e ficou de guarda, vendo se alguém se aproximava, enquanto o crime era praticado. 2. Nos termos do art. 29 do Código Penal, quem, anuindo ao dolo do Corréu, contribui efetivamente para a consumação do crime, incide nas penas este cominadas. Desse modo, ainda que não tenha praticado atos libidinosos com a vítima, cabível condenar a Ré pelo crime de estupro de vulnerável. 3. A inversão do julgado para condenar a Agravante no delito de favorecimento à prostituição demandaria, necessariamente o revolvimento dos fatos e provas que instruem o caderno processual, para inferir que a sua conduta se limitou a induzir e atrair sua irmã a ser explorada sexualmente, desiderato esse incabível na via estreita do habeas corpus. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 562.153/MS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de 25/4/2022.) Ante o exposto, denego a ordem de habeas corpus, in limine. Publique-se. Intimem-se. EMENTA